Sindicato dos Trabalhadores em Postos de Combustíveis da Bahia
/ domingo, setembro 15, 2019
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Quando o trabalho pode levar à morte: especialistas fazem alerta

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Excesso de trabalho, e mesmo desemprego podem ser gatilhos para algumas pessoas

No mês dedicado à prevenção do suicídio, muitos são os alertas feitos acerca da saúde mental e emocional dos indivíduos. Isso porque o problema costuma estar ligado à ansiedade, depressão e ao abuso de álcool e outras drogas. No entanto, cada vez mais especialistas têm enfatizado que o cenário socioeconômico também é capaz de interferir no agravamento de transtornos e, por consequência, no número de casos. ”Em conjunturas adversas, de guerras, recessão e crise política, pode haver um aumento no índice de suicídios”, explica o psiquiatra clínicio Victor Pablo da Silveira, da clínica Holiste.

As pressões rotineiras no ambiente profissional, e mesmo o desemprego, podem ser a “gota d’água” para algumas pessoas. “Ninguém vai tentar o suicídio só porque ficou desempregado ou está passando por uma situação muito ruim no trabalho. O processo de contemplar a ideia, planejar e fazer essa tentativa decorre de um adoecimento crônico, de uma dificuldade de enfrentar adversidades ou de um perfil impulsivo”, elenca Silveira.

Tanto assim que, segundo o especialista, muitas tentativas são meio destrambelhadas: a pessoa tenta, mas logo em seguida pede ajuda. “O suicídio não é sobre morte, é sobre alívio. A pessoa não vê saída, não vê sentido se sente impotente”, explica a psiquiatra Ana Paula Torres Guedes, do Núcleo de Estudo e Prevenção do Suicídio (NEPS).

Como a interação entre os fatores de risco é complexa, fica difícil estabelecer uma relação causal e direta, mas a conexão existe. Mesmo porque parte do tempo de vida é dedicado ao trabalho — bem mais do que as oito horas diárias.  ”A lógica da produtividade e da aceleração a que estamos submetidos, além do déficit de experiências de subjetividade no trabalho, produzem um cenário de extremo sofrimento”, alerta a psicóloga líder do Hospital Português, Elisa Silveira Teixeira.

Insalubridade
Professores, policiais, jornalistas, médicos e enfermeiros estão no topo da lista dos profissionais com exposição aos riscos ocupacionais clássicos: alto nível de exaustão emocional, sobrecarga de trabalho e baixa realização pessoal. A soma de tudo isso geralmente resulta em uma mistura explosiva: a Síndrome de Burnout.

O nome não poderia ser mais elucidativo. Em inglês, “burn out” significa “queimar por completo”. É assim – acabados, esgotados – que um número cada vez maior de profissionais (de todas as áreas) se sente.

Segundo dados da Secretaria Especial de Previdência e Trabalho, na comparação entre os anos de 2017 e 2018, o crescimento de benefícios de auxílio-doença com a doença chegou a 114,80%. O número de benefícios pulou de 196 para 421.

Pesquisa divulgada no final de agosto pelo Grupo de Estudo e Pesquisa em Suicídio e Prevenção (Gespesp) aponta que, entre 2017 e 2018, mais que dobrou o número de agentes de segurança pública que se mataram no Brasil. Em 2017, foram registrados 28 casos contra 67 em 2018, uma alta de 140%. O número inclui suicídios e homicídios seguidos de suicídios (quando a pessoa assassinou alguém antes de se matar). Além dos suicídios consumados, também houve aumento na tentativa: 14 em 2018, contra os seis registros de 2017.

Outro complicador é a dificuldade de conter uma pessoa que tem ao alcance ferramentas que facilitam a própria morte, como os fármacos e as armas de fogo. Apesar de não haver números atualizados em relação a todas as categorias profissionais, o quadro tem sido recorrente.

Daí, a importância de campanhas como o Setembro Amarelo, quando ganham destaque iniciativas de valorização da vida. “As campanhas são muito importantes porque mostram que o suicídio e o pensamento suicida é algo humano. E nelas deve haver as mensagens de que, primeiro, sempre há uma saída e, segundo, tudo passa”, diz Guedes.

Desemprego 
O recado vale para quem não vê perspectivas de melhora no ambiente de trabalho, e também para aqueles que estão desempregados e com uma sensação de inutilidade, inferioridade ou exclusão.

O impacto do desemprego é grande justamente porque, além do salário, o indivíduo se sente isolado, impotente e passa a se enxergar como um peso. Esse conjunto de fatores desencadeia tendências autodestrutivas e o abuso de álcool e drogas, agravando transtornos como ansiedade e depressão e agindo ainda como “desinibidores”, ou seja, reduzindo o medo da morte.

Nesse caso, familiares e amigos próximos têm de estar ainda mais atentos para perceberem os sinais, e os diferenciar de uma reclusão decorrente da nova condição de desempregado. “O risco de suicídio é considerado maior no caso de homens na faixa de 45 a 50 anos de idade, mas há uma subnotificação no caso de mulheres, cujas tentativas costumam ser menos letais”, ressalta Silveira.

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