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/ domingo, setembro 15, 2019
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Ser mulher no Brasil significa perigo constante, adverte o Ministério da Saúde

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Por que ser mulher no Brasil se torna cada vez mais perigoso? Dados levantados pelo jornal Folha de S.Paulo denunciam a cara misógina e violenta da sociedade brasileira. O levantamento foi publicado nesta segunda-feira (9) com base em dados do Ministério da Saúde, de arrepiar os cabelos.

Pelas informações obtidas através da Lei de Acesso à Informação, no ano passado, aconteceram 145 mil registros de mulheres agredidas no país, a maioria absoluta dentro de casa (70%). O número obtido significa uma agressão física ou psicológica a cada quatro minutos. O jornal paulista informa que analisou 1,4 milhão de notificações ao Sistema de Vigilância de Violências e Acidentes, vinculado ao ministério, entre 2014 e 2018.

“A situação pode ser ainda muito pior, porque sabe-se que a subnotificação desse tipo de crime é muito grande no Brasil”, afirma Celina Arêas, secretária da Mulher Trabalhadora da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB).

“Para acabar com essa violência hedionda, é fundamental que as mulheres tenham independência econômica e, para isso, necessitamos de salários iguais por trabalho igual, de creches para podermos trabalhar com mais tranquilidade”, além de “intensificar o combate aos assédios moral e sexual para vivermos sem medo”, completa

Francisca Pereira da Rocha Seixas, secretária de Assuntos Educacionais e Culturais da Apeoesp – Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo e secretária de Saúde da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), “a escola deve desempenhar um papel importante sobre o urgente debate acerca da igualdade de gênero no país”.

Para ela, “os números levantados pela Folha são estarrecedores. A sociedade não pode mais conviver com tamanho descalabro. As questões de gênero devem fazer parte dos currículos escolares desde a educação básica, ensinando que o respeito às pessoas é fundamental para uma vida civilizada”.

Estado Islâmico

E para piorar o que se julga impossível piorar, sobre violência sexual foi aferido que houve um aumento de 53% no período. Grande parte dos crimes são cometidos por pessoas conhecidas das vítimas (pai, irmão, marido, namorado, filho, ex-cônjuge). Sete em cada dez vítimas são crianças e adolescentes até 19 anos. É de fazer o Estado Islâmico corar de vergonha.

O próprio Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, embora esteja escondendo os dados sobre a violência de gênero sistematicamente, admite que o Ligue 180, 17.836 denúncias de violência contra as mulheres somente nos dois primeiros meses deste ano, como mostra a Agência Brasil. Isso significa 36,85% denúncias a mais que o mesmo período de 2018. E pode ser pior, pois o ministério comandado pela fundamentalista Damares Alves sonega informação.

“Ser mulher não pode mais ser sinônimo de perigo constante”, diz Celina. Ela concorda que a educação é essencial para o combate à violência doméstica e de gênero. “O abandono das políticas públicas pelos direitos das mulheres e pela igualdade de gênero por parte do governo golpista de Michel Temer acirraram os ânimos, fortalecendo o sentimento de impunidade”.

Enquanto Ivânia Pereira, vice-presidenta da CTB, defende a criação de um amplo trabalho de educação e conscientização envolvendo toda a sociedade. “Temos que nos mobilizar, nos unir e enfrentar o problema da violência de frente”, afirma. Começando pela “desestruturação da cultura do estupro, com um forte trabalho de educação, inclusive das mulheres para ensinarem seus filhos a respeitarem as meninas já na tenra idade”.

Acabar com a cultura do estupro

Somente em 2018 foram notificados 3.837 estupros coletivos. Se incluir o sexo masculino esse número passa para 4.716, dando uma média assustadora de 13 casos por dia. E ainda de acordo com o Atlas da Violência, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública em parceria com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, foram assassinadas 4.396 mulheres, em 2017.

“Necessitamos de melhorar a estrutura de combate à violência com mais delegacias das mulheres e que funcionem 24 horas e em todas os municípios”, acentua Celina. Para Berenice Darc, secretária de Questões de Gênero da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação, a justiça e a polícia precisam ter um outro olhar sobre as questões de gênero.

“Não basta termos leis, é necessário aplicá-las e punir os criminosos. Mas insisto também na necessidade de um amplo trabalho de educação porque a vida está sendo muito pior do que a mídia mostra”, denuncia.

Somente nos primeiros sete meses de 2019 foram notificados 1.711 casos de estupros consumados, um aumento de 423% em relação ao ano passado. Em se tratando de vulneráveis o crescimento dessa modalidade de crime hediondo foi de 1.477%, com 4.716 casos de janeiro a julho deste ano, em relação ao ano passado.

Berenice defende a formação de uma frente ampla de mulheres para combater o sentimento de posse que os homens têm em relação às mulheres. “As falas do presidente Jair Bolsonaro incentivam ainda mais a violência porque colocam a mulher como subalterna”, diz. “Esse governo fortalece a ideologia do patriarcado e o machismo. Discurso facilitado pela naturalização da violência feita pela mídia tradicional”.

www.ctb.org.br /Marcos Aurélio Ruy 

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