{"id":10925,"date":"2019-12-18T10:48:40","date_gmt":"2019-12-18T13:48:40","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/?p=10925"},"modified":"2019-12-18T10:48:40","modified_gmt":"2019-12-18T13:48:40","slug":"a-crise-no-brasil-semiestagnacao-desigualdade-e-trabalho-precario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/2019\/12\/18\/a-crise-no-brasil-semiestagnacao-desigualdade-e-trabalho-precario\/","title":{"rendered":"A crise no Brasil: semiestagna\u00e7\u00e3o, desigualdade e trabalho prec\u00e1rio"},"content":{"rendered":"<p>Se o governo brasileiro continuar a implementar a agenda neoliberal de desmonte do Estado, precariza\u00e7\u00e3o do trabalho e viola\u00e7\u00e3o dos direitos humanos, a maioria dos brasileiros ser\u00e1 exclu\u00edda de qualquer avan\u00e7o econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>Desde 2014, in\u00edcio da crise econ\u00f4mica, todo final de ano, a grande m\u00eddia e o mercado financeiro procuram difundir a ideia de que a recupera\u00e7\u00e3o est\u00e1 a caminho. Este ano, n\u00e3o \u00e9 diferente, com previs\u00f5es otimistas sobre as perspectivas da economia para 2020, repercutindo os dados do Produto Interno Bruto (PIB) no terceiro trimestre de 2019.<\/p>\n<p>No entanto, nos \u00faltimos seis anos, as proje\u00e7\u00f5es sobre o bom desempenho do PIB ficaram sempre muito distantes da realidade. Em 2018, por exemplo, a previs\u00e3o era de que a economia brasileira cresceria 2,5% em 2019, mas, mesmo com a libera\u00e7\u00e3o de quase R$ 45 bilh\u00f5es do Fundo de Garantia do Tempo de Servi\u00e7o (FGTS) dos trabalhadores, o PIB mal atingir\u00e1 aumento de 1%, completando o terceiro ano de baixo crescimento.<\/p>\n<p><strong>Semiestagna\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>No terceiro trimestre de 2019, o PIB aumentou 0,6% em rela\u00e7\u00e3o ao segundo trimestre do ano. No valor acumulado em quatro trimestres, ou seja, anualizado, o PIB registra alta de 1%. Na compara\u00e7\u00e3o entre 2018 e 2019, o cen\u00e1rio \u00e9 de semi-estagna\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>A agropecu\u00e1ria, no acumulado de quatro trimestres (um ano), avan\u00e7ou 2%, depois de algum arrefecimento no final de 2017 e 2018. Houve expans\u00e3o do total da \u00e1rea plantada e da produ\u00e7\u00e3o das principais culturas. Cereais, algod\u00e3o, milho, laranja, banana e batata t\u00eam apresentado crescimento, conforme dados observados at\u00e9 outubro de 2019 (Levantamento Sistem\u00e1tico da Produ\u00e7\u00e3o Agr\u00edcola do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica, IBGE).<\/p>\n<p>Os indicadores de pre\u00e7os das commodities agr\u00edcolas tamb\u00e9m t\u00eam tido comportamento favor\u00e1vel, especialmente ap\u00f3s 2017, o que contribui para a eleva\u00e7\u00e3o do valor da produ\u00e7\u00e3o. Apesar de incrementos pontuais, como \u00e9 o caso do aumento das exporta\u00e7\u00f5es de carne para a China e outros pa\u00edses, em raz\u00e3o da gripe su\u00edna, o cen\u00e1rio externo \u00e9 inst\u00e1vel, diante da expans\u00e3o das disputas no com\u00e9rcio internacional.<\/p>\n<p>A ind\u00fastria, por sua vez, no terceiro trimestre de 2019, considerando o acumulado nos 12 \u00faltimos meses, apresentou queda de 0,5% na ind\u00fastria de transforma\u00e7\u00e3o e de 0,9% na extrativa, ainda que esta \u00faltima tenha reagido entre julho e setembro. Observando os principais indicadores, o setor apresenta recupera\u00e7\u00e3o de faturamento real, com a estrat\u00e9gia de redu\u00e7\u00e3o de custos, j\u00e1 que a massa real de sal\u00e1rios, horas trabalhadas e n\u00edvel de emprego continuam a cair.<\/p>\n<p>A utiliza\u00e7\u00e3o da capacidade instalada encontra-se estagnada, reagindo somente no \u00faltimo per\u00edodo, mas como resposta a uma redu\u00e7\u00e3o do n\u00edvel de estoques e n\u00e3o devido \u00e0 eleva\u00e7\u00e3o mais sustent\u00e1vel da produ\u00e7\u00e3o industrial. Com a redu\u00e7\u00e3o das taxas de juros, alguns segmentos de produ\u00e7\u00e3o de bens de consumo dur\u00e1veis tiveram melhora na produ\u00e7\u00e3o no \u00faltimo trimestre, especialmente autom\u00f3veis e atividades ligadas ao complexo metalmec\u00e2nico.<\/p>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o apresenta avan\u00e7os no segmento habitacional para o mercado de classe m\u00e9dia\/alta e no Programa Minha Casa Minha Vida, nas faixas acima de R$ 2.660,00. O baix\u00edssimo n\u00edvel de investimento p\u00fablico, por sua vez, prejudica o segmento de infra-estrutura, o que limita a expans\u00e3o mais robusta do setor. Os dados do PIB no terceiro trimestre parecem indicar que o setor melhorou, mas o crescimento tem como base os segmentos de m\u00e9dia\/alta renda.<\/p>\n<p>No setor de extra\u00e7\u00e3o mineral, o indicador subiu no terceiro trimestre, principalmente em fun\u00e7\u00e3o da retomada da produ\u00e7\u00e3o da Vale, ap\u00f3s o crime ambiental de Brumadinho. Tamb\u00e9m contribui para o resultado o aumento da produ\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo e g\u00e1s da Petrobras, com a opera\u00e7\u00e3o de novas plataformas e a redu\u00e7\u00e3o de paradas programadas. Entretanto, no acumulado de 12 meses, a taxa segue negativa.<\/p>\n<p>O com\u00e9rcio teve melhora no terceiro trimestre de 2019, em rela\u00e7\u00e3o ao segundo (1,1%) e no acumulado de 12 meses (1,4%). Por segmento, os avan\u00e7os foram observados em vendas de ve\u00edculos e motocicletas e de materiais de constru\u00e7\u00e3o, ambos com resultados acima dos verificados em 2018. A queda dos juros e os saques do FGTS parecem ter tido efeito ben\u00e9fico, entretanto, sem melhora consistente do mercado de trabalho e da renda, os indicadores n\u00e3o ter\u00e3o sustenta\u00e7\u00e3o de longo prazo.<\/p>\n<p>No setor de servi\u00e7os, os destaques positivos foram: atividades imobili\u00e1rias (2,7% no acumulado em 12 meses) e informa\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o (3,4% no acumulado de 12 meses). Por\u00e9m, h\u00e1 volatilidade no setor, se observado o trimestre \u00e0 luz da Pesquisa Mensal de Servi\u00e7os (PMS-IBGE). As atividades de Transportes e Servi\u00e7os profissionais, administrativos e complementares, mais vinculados \u00e0s empresas, acumulam, no ano, resultados abaixo da m\u00e9dia do setor. J\u00e1 os Servi\u00e7os prestados \u00e0s fam\u00edlias (mais dependente de renda), embora ainda estejam acima da m\u00e9dia do setor, est\u00e3o em trajet\u00f3ria de desacelera\u00e7\u00e3o. Atividades financeiras e de seguros e a Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica permanecem com resultados ruins no PIB do terceiro trimestre de 2019, com 0,0% e -0,1% no acumulado de 12 meses, respectivamente.<\/p>\n<p>Os Servi\u00e7os Industriais de Utilidade P\u00fablica, por sua vez, apresentaram maior crescimento, de expressivos 3,4% no acumulado em 12 meses at\u00e9 o terceiro trimestre de 2019. S\u00e3o atividades econ\u00f4micas com menor volatilidade em rela\u00e7\u00e3o aos ciclos econ\u00f4micos e tamb\u00e9m bens essenciais (energia el\u00e9trica, \u00e1gua e saneamento) e est\u00e3o no foco das privatiza\u00e7\u00f5es anunciadas pelo governo federal (Eletrobras e, especialmente, empresas e atividades de saneamento b\u00e1sico). Pelo lado da demanda, o setor p\u00fablico poderia atenuar esse fraco desempenho com medidas antic\u00edclicas, mas os gastos p\u00fablicos registram taxas negativas. A varia\u00e7\u00e3o acumulada em 12 meses at\u00e9 o terceiro trimestre de 2019 foi de -0,8%.<\/p>\n<p>Os investimentos tiveram varia\u00e7\u00e3o positiva de 3%, no acumulado de 12 meses, refletindo a melhora da constru\u00e7\u00e3o civil no segmento habitacional. Al\u00e9m disso, o destaque desse resultado \u00e9 o efeito cont\u00e1bil da internaliza\u00e7\u00e3o de plataformas da Petrobras, o que eleva a taxa de investimento. Os investimentos foram ampliados em 2019, ap\u00f3s resultados muito ruins de 2016 a 2018, mas com o tamanho da queda nos anos anteriores, a velocidade da melhora tem sido aqu\u00e9m da necess\u00e1ria para a recupera\u00e7\u00e3o das perdas, refletindo a incerteza sobre a perenidade e os resultados efetivos dessa rea\u00e7\u00e3o sobre a economia. Da mesma forma que os outros segmentos da demanda, os investimentos ainda se encontram abaixo dos n\u00edveis de 2014.<\/p>\n<p>O consumo das fam\u00edlias permanece com varia\u00e7\u00e3o positiva, mas este componente tem se movido muito mais por fatores pontuais, como a libera\u00e7\u00e3o do FGTS, uma vez que os insuficientes postos de trabalho gerados s\u00e3o informais e de baixa renda.<\/p>\n<p><strong>Infla\u00e7\u00e3o baixa, mas custo de vida alto<\/strong><\/p>\n<p>A fraqueza da economia contribui para a perman\u00eancia da infla\u00e7\u00e3o abaixo da meta, mas h\u00e1 press\u00f5es inflacion\u00e1rias pontuais que afetam negativamente as condi\u00e7\u00f5es de vida das fam\u00edlias, como a alta nos alimentos, especialmente nas carnes; as resultantes da pol\u00edtica de pre\u00e7os da Petrobras; e de reajustes de planos de sa\u00fade e energia el\u00e9trica.<\/p>\n<p>Impulsionada pela eleva\u00e7\u00e3o do pre\u00e7o da carne em todo o Brasil, a infla\u00e7\u00e3o voltou a subir em novembro: o IPCA (\u00cdndice Nacional de Pre\u00e7os ao Consumidor Amplo) atingiu 0,51%, maior taxa para o m\u00eas em quatro anos. Em outubro, o IPCA havia ficado em 0,1%. Em novembro de 2018, o \u00cdndice tinha registrado queda de -0,2%. No acumulado de 12 meses, encerrados em novembro, a infla\u00e7\u00e3o ficou em 3,2%.<\/p>\n<p>A Pesquisa da Cesta B\u00e1sica de Alimentos do Dieese apontou que a carne bovina de primeira teve aumento de pre\u00e7o nas 17 capitais onde o levantamento \u00e9 feito, com varia\u00e7\u00f5es entre 1,1%, em Recife, e 19,3%, em Vit\u00f3ria, entre outubro e novembro. No acumulado de 12 meses, atingiu 30,8% de alta em Florian\u00f3polis. O fen\u00f4meno est\u00e1 ligado em parte \u00e0 amplia\u00e7\u00e3o das exporta\u00e7\u00f5es de carne para a China, cujo rebanho su\u00edno foi atacado pela peste su\u00edna africana, que matou 7,5 milh\u00f5es de animais em toda a \u00c1sia.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de as exporta\u00e7\u00f5es de carne terem sido significativamente aumentado para a China, elas tamb\u00e9m cresceram muito para a R\u00fassia e Emirados \u00c1rabes, quando se compara com as realizadas no mesmo per\u00edodo no ano passado. Ademais, o per\u00edodo tamb\u00e9m \u00e9 de entressafra bovina e o custo de reposi\u00e7\u00e3o do bezerro est\u00e1 muito alto. Por fim, o d\u00f3lar desvalorizado estimulou as exporta\u00e7\u00f5es. Todos esses fatores encareceram o valor da carne no varejo.<\/p>\n<p>A capital com a cesta b\u00e1sica mais cara foi Florian\u00f3polis (R$ 478,68), seguida de S\u00e3o Paulo (R$ 465,81), Vit\u00f3ria (R$ 462,06) e Rio de Janeiro (R$ 455,37). Os menores valores m\u00e9dios foram observados em Aracaju (R$ 325,40) e Salvador (R$ 341,45). Com base na cesta mais cara que, em novembro, foi a de Florian\u00f3polis, e levando em considera\u00e7\u00e3o a determina\u00e7\u00e3o constitucional que estabelece que o sal\u00e1rio m\u00ednimo deve ser suficiente para suprir as despesas de um trabalhador e da fam\u00edlia dele com alimenta\u00e7\u00e3o, moradia, sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, vestu\u00e1rio, higiene, transporte, lazer e previd\u00eancia, o Dieese estima mensalmente o valor do sal\u00e1rio m\u00ednimo necess\u00e1rio. Em novembro de 2019, o sal\u00e1rio m\u00ednimo necess\u00e1rio para a manuten\u00e7\u00e3o de uma fam\u00edlia de quatro pessoas deveria equivaler a R$ 4.021,39, ou 4,03 vezes o m\u00ednimo de R$ 998,00.<\/p>\n<p><strong>Informalidade e precariedade crescentes<\/strong><\/p>\n<p>O mercado de trabalho segue vol\u00e1til e se expande por meio do emprego informal e outras formas prec\u00e1rias, como trabalho em tempo parcial, tempor\u00e1rio, intermitente, terceirizado, entre outros, possibilitados pela reforma trabalhista. Com isso, a recupera\u00e7\u00e3o do consumo interno a partir da renda segue lenta.<\/p>\n<p>A taxa de desocupa\u00e7\u00e3o est\u00e1 em 11,6%. S\u00e3o 12,4 milh\u00f5es de desempregados, segundo a Pnad Cont\u00ednua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlios Cont\u00ednua), do IBGE. A taxa de subutiliza\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho, que considera tamb\u00e9m os ocupados que trabalham menos horas do que gostariam, est\u00e1 em 23,8% e chega a 27,1 milh\u00f5es de pessoas. O n\u00famero de empregados sem carteira de trabalho assinada no setor privado chegou a 11,9 milh\u00f5es, novo recorde na s\u00e9rie hist\u00f3rica, iniciada em 2012.<\/p>\n<p>Outro recorde foi a quantidade de trabalhadores por conta pr\u00f3pria, que atingiu 24,4 milh\u00f5es de pessoas. O rendimento m\u00e9dio real habitualmente recebido em todos os trabalhos pelas pessoas ocupadas ficou em R$ 2.317,00 no trimestre de agosto a outubro de 2019, est\u00e1vel desde o in\u00edcio do ano. Estes dados s\u00e3o sintetizados pelo Dieese no \u00cdndice da Condi\u00e7\u00e3o do Trabalho (ICT-Dieese), que varia entre 0 e 1. Quanto mais pr\u00f3ximo o valor do \u00edndice estiver de 1, melhor a situa\u00e7\u00e3o geral do mercado de trabalho e, quanto mais perto de zero, pior.<\/p>\n<p>Os resultados do ICT-DIEESE do terceiro trimestre de 2019 mostram piora na condi\u00e7\u00e3o do trabalho no Brasil, em rela\u00e7\u00e3o ao segundo trimestre do mesmo ano, consequ\u00eancia principalmente do aumento da ocupa\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria. O ICT-DIEESE diminuiu de 0,36 para 0,34 na passagem do 2\u00ba para o 3\u00ba trimestre de 2019, o que significou piora do mercado de trabalho no per\u00edodo.<\/p>\n<p>O resultado decorre principalmente da piora na Inser\u00e7\u00e3o Ocupacional (de 0,33 para 0,26) e, em menor intensidade, no Rendimento (de 0,44 para 0,42). Na dimens\u00e3o Desocupa\u00e7\u00e3o, houve pequena melhora (de 0,31 para 0,33). Destaca-se que a Inser\u00e7\u00e3o Ocupacional apresentou, nesse trimestre, o menor valor de toda a s\u00e9rie hist\u00f3rica, resultado que reflete o incremento da ocupa\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria, sobretudo do assalariamento sem carteira e do trabalho por conta pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, continuou caindo o percentual de outros trabalhadores \u2013 n\u00e3o os estatut\u00e1rios e assalariados com carteira \u2013 que contribuem para a previd\u00eancia social. Diante da semiestagna\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, do lento ritmo de abertura de postos de trabalho que, ainda por cima, s\u00e3o essencialmente mais prec\u00e1rios, o ICT-Dieese mant\u00e9m-se em patamar baixo e sem perspectivas de melhora estrutural, diante do rebaixamento de direitos e da piora da situa\u00e7\u00e3o e das condi\u00e7\u00f5es do trabalho.<\/p>\n<p>Consequentemente, os resultados das negocia\u00e7\u00f5es coletivas salariais em 2019 seguem fracos. No acumulado de janeiro a outubro, 25% dos acordos n\u00e3o repuseram as perdas inflacion\u00e1rias, enquanto 26% apenas igualaram a infla\u00e7\u00e3o acumulada na data-base. As negocia\u00e7\u00f5es que avan\u00e7aram para al\u00e9m da infla\u00e7\u00e3o registraram, em m\u00e9dia, ganho real de apenas 0,17%.<\/p>\n<p><strong>D\u00edvida p\u00fablica \u00e9 o motor da valoriza\u00e7\u00e3o do capital<\/strong><\/p>\n<p>O estoque da d\u00edvida p\u00fablica federal atingiu R$ 4,1 trilh\u00f5es em outubro. Desse total, R$ 3,9 trilh\u00f5es referem-se \u00e0 d\u00edvida interna. Quem ganha dinheiro com isso? Metade dos detentores de t\u00edtulos da d\u00edvida s\u00e3o bancos, fundos de investimento e seguradoras. As institui\u00e7\u00f5es financeiras det\u00eam R$ 913 bilh\u00f5es desse montante, enquanto os fundos de investimento mant\u00eam R$ 1 trilh\u00e3o. As seguradoras respondem por R$ 160 bilh\u00f5es desse estoque. Os dados s\u00e3o do Tesouro Nacional, do Minist\u00e9rio da Economia.<\/p>\n<p>O custo m\u00e9dio da d\u00edvida p\u00fablica interna para o Tesouro Nacional, acumulado nos \u00faltimos 12 meses at\u00e9 outubro, foi de 8,43% ao ano. Isso significa um montante de pagamento de juros de R$ 360 bilh\u00f5es no acumulado de 12 meses, o que equivale a 5,1% do PIB. Para quem? Bancos, fundos de investimento, seguradoras etc. E essas institui\u00e7\u00f5es negociam, em m\u00e9dia, um volume financeiro de t\u00edtulos da d\u00edvida p\u00fablica da ordem de R$ 45,5 bilh\u00f5es, ao dia.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o fiscal do Estado brasileiro, especialmente a Uni\u00e3o, reflete tanto a baixa intensidade da atividade econ\u00f4mica (que afeta negativamente a arrecada\u00e7\u00e3o) como a depend\u00eancia das receitas extraordin\u00e1rias, como as de concess\u00f5es e privatiza\u00e7\u00f5es. Esse n\u00e3o \u00e9 um cen\u00e1rio que aponte para a sustentabilidade fiscal. Como a base de arrecada\u00e7\u00e3o \u00e9 dependente da atividade econ\u00f4mica, se esta permanecer fraca, a op\u00e7\u00e3o por uma nova rodada de ajuste fiscal, como j\u00e1 se tornou pr\u00e1tica, pode ter efeito contr\u00e1rio \u2013 deprimir a economia, derrubando ainda mais a arrecada\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Futuro de baixo crescimento e aumento da desigualdade?<\/strong><\/p>\n<p>Para 2020, a Secretaria de Pol\u00edtica Econ\u00f4mica do Minist\u00e9rio da Economia prev\u00ea crescimento de 2,32%. E, para os dois anos seguintes, expans\u00e3o de 2,5% ao ano, n\u00fameros pr\u00f3ximos do previsto pelo mercado financeiro, mas que poder\u00e1 se mostrar distante da realidade mais uma vez.<\/p>\n<p>Ainda que a libera\u00e7\u00e3o de recursos do FGTS, a redu\u00e7\u00e3o das taxas de juros e os efeitos expansionistas dos gastos associados \u00e0 elei\u00e7\u00e3o municipal possam dar um f\u00f4lego tempor\u00e1rio ao consumo das fam\u00edlias e a investimentos marginais, n\u00e3o h\u00e1 nenhum elemento objetivo que permita afirmar que o baixo crescimento tenha sido superado. Ao contr\u00e1rio, a pol\u00edtica econ\u00f4mica, baseada no arrocho salarial, na austeridade fiscal, na liberaliza\u00e7\u00e3o da economia e no crescente endividamento das fam\u00edlias, asfixia o mercado interno. E as incertezas provocadas pelo agravamento da crise capitalista e pela instabilidade pol\u00edtica continuam deprimindo as expectativas de investimentos das grandes corpora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Na aus\u00eancia de mecanismos end\u00f3genos de expans\u00e3o da demanda agregada, a recupera\u00e7\u00e3o da economia brasileira depender\u00e1 das exporta\u00e7\u00f5es. Entretanto, a perspectiva de\u00a0 evolu\u00e7\u00e3o do com\u00e9rcio internacional n\u00e3o \u00e9 favor\u00e1vel, uma vez que est\u00e3o projetadas desacelera\u00e7\u00f5es econ\u00f4mica entre alguns dos principais parceiros comerciais do Brasil \u2013 China e Estados Unidos, em especial.<\/p>\n<p>Desse modo, mais realista seria supor que, em 2020, como nos tr\u00eas anos anteriores, o PIB oscilar\u00e1 entre 0,5 a 1,5% ao ano. A modesta amplia\u00e7\u00e3o do consumo das fam\u00edlias e dos investimentos da constru\u00e7\u00e3o civil deve ser compensada pela contra\u00e7\u00e3o da demanda externa.<\/p>\n<p>Mais grave \u00e9 que mesmo a pequena melhora, observada a partir de 2017, tem sido apropriado pela parcela mais rica da popula\u00e7\u00e3o, como mostra o Relat\u00f3rio de Desenvolvimento Humano da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas 2019. Parcela dos 1% mais ricos fica com 28,3% da renda. A concentra\u00e7\u00e3o de renda no Brasil \u00e9 a segunda maior do mundo.<\/p>\n<p>Se a agenda neoliberal de desmonte do Estado, precariza\u00e7\u00e3o do trabalho e viola\u00e7\u00e3o dos direitos humanos continuar a ser implementada, o governo de Jair Bolsonaro seguir\u00e1 excluindo a maioria dos brasileiros de qualquer avan\u00e7o econ\u00f4mico. A hip\u00f3tese de crescimento do PIB em 2020 tem como base aumento da concentra\u00e7\u00e3o da renda, manuten\u00e7\u00e3o de altas taxas de desocupa\u00e7\u00e3o e de emprego prec\u00e1rio e empobrecimento da classe trabalhadora.<\/p>\n<p>www.ctb.org.br<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se o governo brasileiro continuar a implementar a agenda neoliberal de desmonte do Estado, precariza\u00e7\u00e3o do trabalho e viola\u00e7\u00e3o dos direitos humanos, a maioria dos brasileiros ser\u00e1 exclu\u00edda de qualquer avan\u00e7o econ\u00f4mico. Desde 2014, in\u00edcio da crise econ\u00f4mica, todo final de ano, a grande m\u00eddia e o mercado financeiro procuram difundir a ideia de que [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":10926,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[25],"tags":[61,245,198],"class_list":["post-10925","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias","tag-desigualdade-social","tag-desmonte-do-governo-bolsonaro","tag-retirada-de-direitos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10925","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10925"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10925\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10927,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10925\/revisions\/10927"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10926"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10925"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10925"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10925"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}