{"id":11090,"date":"2019-12-26T11:57:12","date_gmt":"2019-12-26T14:57:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/?p=11090"},"modified":"2019-12-26T11:57:12","modified_gmt":"2019-12-26T14:57:12","slug":"odio-ao-bolsa-familia-e-doacoes-natalinas-revelam-a-cara-da-gente-de-bem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/2019\/12\/26\/odio-ao-bolsa-familia-e-doacoes-natalinas-revelam-a-cara-da-gente-de-bem\/","title":{"rendered":"\u00d3dio ao Bolsa Fam\u00edlia e \u201cdoa\u00e7\u00f5es\u201d natalinas revelam a cara da \u201cgente de bem\u201d"},"content":{"rendered":"<p><strong>por \u00c2ngela Carrato*, especial para o Viomundo<\/strong><\/p>\n<div class=\"code-block code-block-1\">\n<div id=\"publy-phb-11070\"><strong>EPIS\u00d3DIO 1<\/strong>\u00a0\u2013 A Roda Gigante do Rio de Janeiro, \u201ca maior da Am\u00e9rica Latina\u201d, foi inaugurada no in\u00edcio de dezembro. Uma volta de 18 minutos custa R$ 59. Caso a pessoa queira desfrutar a paisagem da cidade vista do alto com sua fam\u00edlia e\/ou amigos, o giro em cabine exclusiva sobe para R$ 259.<\/div>\n<\/div>\n<p>As filas para curtirem as emo\u00e7\u00f5es da \u201cnova maravilha\u201d s\u00e3o longas e n\u00e3o se tem not\u00edcia de reclama\u00e7\u00f5es contra os pre\u00e7os, que equivalem 60% do benef\u00edcio mensal b\u00e1sico pago pelo Programa Bolsa Fam\u00edlia (R$ 85,01).<\/p>\n<p><strong>EPIS\u00d3DIO 2<\/strong>\u00a0\u2013 Desde o in\u00edcio de dezembro, a maioria dos shoppings centers j\u00e1 estava enfeitada para o Natal.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do tradicional Papai Noel e dos s\u00edmbolos natalinos \u2013 entre eles as anacr\u00f4nicas neves e tren\u00f3s puxados por renas em um pa\u00eds tropical \u2013 n\u00e3o faltaram tamb\u00e9m os espa\u00e7os para doa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Em Belo Horizonte, um dos mais sofisticados shoppings criou uma esp\u00e9cie de cercadinho para tal finalidade.<\/p>\n<p>A coisa funciona mais ou menos assim: a pessoa entra no supermercado, compra do bom e do melhor para a ceia de Natal com a fam\u00edlia e, na sa\u00edda, antes de pagar, avista o cercadinho.<\/p>\n<p>A pessoa ent\u00e3o d\u00e1 meia volta, coloca no j\u00e1 abarrotado carrinho de compras um pacote de biscoitos ou uma caixa de chocolate e vai toda feliz fazer a sua doa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o falta nem mesmo quem aproveite a oportunidade para elogiar a \u201c\u00f3tima ideia\u201d do shopping.<\/p>\n<p><strong>EPIS\u00d3DIO 3 \u2013<\/strong>\u00a0Em meados de novembro, muitos dos atuais frequentadores da Roda Gigante e outro tanto dos que agora fazem doa\u00e7\u00f5es em shoppings n\u00e3o acharam nada demais em uma not\u00edcia publicada pela\u00a0<em>Folha de S. Paulo<\/em>.<\/p>\n<p>A not\u00edcia, veiculada na coluna Painel, dava conta de que o governo Bolsonaro pretende, a partir de 2020, come\u00e7ar a \u201cdesmamar\u201d os benefici\u00e1rios do Programa Bolsa Fam\u00edlia (PBF).<\/p>\n<p><strong>TRATAMENTO INJUSTO E DESRESPEITOSO<\/strong><\/p>\n<p>Sem citar quem foi ouvido e sem precisar o que \u00e9 e como funciona o PBF, criado pelo ent\u00e3o presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, em 2004, o jornal da elite paulista que se pretende \u201cilustrada\u201d, afirma que a ideia \u00e9 ir reduzindo o valor pago para os benefici\u00e1rios assim que arranjarem emprego.<\/p>\n<p>N\u00e3o ocorreu a nenhum jornalista da\u00a0<em>Folha de S. Paulo<\/em>\u00a0ou de qualquer ve\u00edculo questionar o uso altamente pejorativo do termo \u201cdesmamar\u201d em rela\u00e7\u00e3o aos mais pobres e, menos ainda, perguntar \u00e0s autoridades econ\u00f4micas do governo federal quando a tal gera\u00e7\u00e3o de empregos ter\u00e1 in\u00edcio.<\/p>\n<p>Isso porque a agenda ultraliberal colocada em pr\u00e1tica pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, aponta para dire\u00e7\u00e3o oposta: um em cada tr\u00eas brasileiros em condi\u00e7\u00f5es de trabalhar est\u00e1 desempregado e a precariza\u00e7\u00e3o do trabalho avan\u00e7a de forma acelerada.<\/p>\n<p>Igualmente n\u00e3o se viu nenhum leitor da\u00a0<em>Folha<\/em>\u00a0indignado com o tratamento injusto e desrespeitoso adotado pelo jornal e pelo governo contra os mais pobres.<\/p>\n<p>O substantivo desmamar significa, nesse contexto, tirar o h\u00e1bito, suspender a depend\u00eancia, como se os pobres fossem os respons\u00e1veis pelas grandes mamatas que sempre existiram e voltaram a acontecer com for\u00e7a no Brasil ap\u00f3s a vit\u00f3ria do golpe, travestido de impeachment contra Dilma Rousseff, em 2016.<\/p>\n<p>Mamatas que Bolsonaro e sua turma n\u00e3o param de ampliar, ao mesmo tempo em que congelam o sal\u00e1rio-m\u00ednimo e est\u00e3o fazendo de tudo para acabar com o Programa Bolsa Fam\u00edlia.<\/p>\n<p><strong>MAMATA DAS MAMATAS<\/strong><\/p>\n<p>Como explicar os gordos reajustes salariais que setores do judici\u00e1rio tiveram nos \u00faltimos tr\u00eas anos, apesar do pa\u00eds estar em crise?<\/p>\n<p>Como explicar que parlamentares, ju\u00edzes e militares tenham ficado fora da Reforma da Previd\u00eancia?<\/p>\n<p>Como explicar, ainda, que a Reforma da Previd\u00eancia dos militares tenha sido, na pr\u00e1tica, um novo plano de carreira para o setor, com oficiais tendo reajustes de at\u00e9 40%?<\/p>\n<p>Como explicar, igualmente, o perd\u00e3o de d\u00edvidas que Bolsonaro concedeu ao agroneg\u00f3cio e aos bancos, sem que nenhum integrante do atual governo e a m\u00eddia corporativa brasileira considerassem isso \u201cmamata\u201d?<\/p>\n<p>\u00c9 importante lembrar ainda a mamata das mamatas, como devem ser chamados os leil\u00f5es do pr\u00e9-sal, que t\u00eam vendido o futuro do Brasil a pre\u00e7o de banana para empresas multinacionais.<\/p>\n<p>Em dezembro de 2010, no apagar das luzes de seu segundo mandato, Lula conseguiu aprovar o regime de partilha para a explora\u00e7\u00e3o do pr\u00e9-sal, garantindo a atua\u00e7\u00e3o da Petrobras como operadora \u00fanica e part\u00edcipe priorit\u00e1ria dos leil\u00f5es.<\/p>\n<p>Quadro que Dilma tentou manter, apesar da press\u00e3o dos tucanos, encabe\u00e7ada por Jos\u00e9 Serra.<\/p>\n<p>Foi exatamente nesse momento, em 2013, que as manifesta\u00e7\u00f5es contra ela tomaram corpo e n\u00e3o pararam mais.<\/p>\n<p>Para Lula e Dilma, o pr\u00e9-sal era o passaporte para os brasileiros conseguirem uma educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade de qualidade, mas os golpistas jogaram tudo isso por terra.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, uma das raz\u00f5es para o golpe de 2016 foi exatamente tomar o pr\u00e9-sal dos brasileiros.<\/p>\n<p>E isso caro leitor, isso n\u00e3o \u00e9 mera especula\u00e7\u00e3o ou opini\u00e3o. Est\u00e1 documentado. Basta ler o livro de Eduard Snowden,\u00a0<em>Eterna Vigil\u00e2nci<\/em>a (Editora Paneta, 2019) ou assistir ao filme-document\u00e1rio de Oliver Stone, Snowden (2016). Para os interessados, o filme est\u00e1 dispon\u00edvel na Netflix.<\/p>\n<p>Em se tratando do governo Temer, \u00e9 importante n\u00e3o perder de vista que ele, dando continuidade a esse processo, isentou as multinacionais do petr\u00f3leo, atrav\u00e9s da lei 13.586, de 2017, do pagamento de uma cifra superior a R$ 1 trilh\u00e3o.<\/p>\n<p>A lei em quest\u00e3o concede isen\u00e7\u00f5es fiscais para empresas de petr\u00f3leo estrangeiras, provocando perda de arrecada\u00e7\u00e3o do Imposto de Renda (IR) e da Contribui\u00e7\u00e3o Social sobre o Lucro L\u00edquido (CSLL), isso num momento em que os golpistas creditavam ao PT ter \u201cquebrado o Brasil\u201d.<\/p>\n<p>Mas nada disso foi considerado \u201cmamata\u201d pela\u00a0<em>Folha de S. Paulo<\/em>\u00a0ou por qualquer outro ve\u00edculo da m\u00eddia corporativa brasileira.<\/p>\n<p>Todos, ali\u00e1s, aplaudiram e pediram mais: a privatiza\u00e7\u00e3o da Petrobras, da Eletrobras e do Banco do Brasil.<\/p>\n<p>Recuando-se ainda mais no tempo, \u00e9 poss\u00edvel lembrar outras mamatas que caracterizaram o governo do tucano Fernando Henrique Cardoso, quando mais de 100 empresas estatais foram privatizadas.<\/p>\n<p>O caso mais grave foi o da Companhia Vale do Rio Doce, vendida por R$ 3,3 bilh\u00f5es, quando somente as suas reservas minerais eram calculadas em mais de R$ 100 bilh\u00f5es \u00e0 \u00e9poca.<\/p>\n<p>Uma vez privatizada, a Vale \u00e9 a mesma mineradora que j\u00e1 provocou dois crimes ambientais e humanos em Minas Gerais \u2013 em Bento Rodrigues e em Brumadinho \u2013 e se recusa a pagar as devidas indeniza\u00e7\u00f5es \u00e0s v\u00edtimas, aos munic\u00edpios e ao meio ambiente por ela destru\u00eddo.<\/p>\n<p><strong>A \u201cCASA GRANDE\u201d CONTRA OS MAIS POBRES<\/strong><\/p>\n<p>Como diria o jornalista Mino Carta, a classe dominante brasileira, que ele prefere chamar de \u201cCasa Grande\u201d, continua tratando os mais pobres como se eles fossem parte da \u201cSenzala\u201d.<\/p>\n<p>Vale dizer: a \u201cCasa Grande\u201d continua achando que pode tudo contra os mais pobres, em sua grande maioria descendente de pretos e de \u00edndios, escravizados e dizimados no passado e ainda hoje.<\/p>\n<p>Basta verificar as estat\u00edsticas envolvendo a cor e a classe social da maioria dos mortos pela pol\u00edcia em batidas nos morros e aglomerados das metr\u00f3poles brasileiras.<\/p>\n<p>Basta verificar, igualmente, a cor e a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica dos que s\u00e3o alvos de chacinas, no campo, por pistoleiros a mando dos \u201csenhores de gado e de gente\u201d para se perceber o tamanho da discrimina\u00e7\u00e3o e da desigualdade no Brasil.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que a \u201cCasa Grande\u201d acredita e divulga, o pobre n\u00e3o \u00e9 pobre porque \u00e9 pregui\u00e7oso ou incapaz.<\/p>\n<p>O que tem faltado aos pobres brasileiros, na maior parte dos 519 anos de exist\u00eancia do Brasil \u00e9 condi\u00e7\u00e3o para se desenvolver. Condi\u00e7\u00e3o que n\u00e3o faltou aos colonos nos Estados Unidos que, cedo, receberam terras e incentivos para cultivarem sua fazenda ou s\u00edtio.<\/p>\n<p>A reforma agr\u00e1ria naquele pa\u00eds t\u00e3o decantada pelos ditos liberais brasileiros data de mais de 200 anos. A daqui, nunca saiu do papel.<\/p>\n<p>Os Estados Unidos e tamb\u00e9m os principais pa\u00edses da Europa que, juntamente com o Jap\u00e3o fazem parte do chamado Primeiro Mundo, por mais de tr\u00eas d\u00e9cadas, entre os anos de 1946 e 1980, apoiaram atrav\u00e9s de uma s\u00e9rie de programas sociais, os setores mais pobres de suas popula\u00e7\u00f5es, no que ficou conhecido como welfare state, o Estado do Bem-Estar Social.<\/p>\n<p>Foram essas pol\u00edticas de cunho keynesiano (em refer\u00eancia ao economista ingl\u00eas John Maynard Keynes que as criou) as respons\u00e1veis por pa\u00edses como Inglaterra, Fran\u00e7a, Alemanha e It\u00e1lia terem conseguido se recuperar bem e r\u00e1pido da destrui\u00e7\u00e3o provocada pela Segunda Guerra Mundial.<\/p>\n<p>Keynes (1883-1946) rompeu com a vis\u00e3o de livre-mercado em favor da interven\u00e7\u00e3o estatal na economia, com a principal caracter\u00edstica do Estado do Bem-Estar Social sendo a defesa dos direitos do cidad\u00e3o.<\/p>\n<p>A t\u00edtulo de exemplo, entre as pol\u00edticas colocadas em pr\u00e1tica nesses pa\u00edses estavam muitas voltadas \u00e0 habita\u00e7\u00e3o, educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, assist\u00eancia social e seguran\u00e7a alimentar.<\/p>\n<p>O \u00f3dio que a elite brasileira nutre contra Lula, portanto, est\u00e1 equivocado.<\/p>\n<p>Nem ele e muito menos a esquerda brasileira inventaram o principal programa de renda de cidadania, conhecido como Bolsa Fam\u00edlia.<\/p>\n<p>O programa j\u00e1 havia sido criado h\u00e1 d\u00e9cadas pelos principais pa\u00edses capitalistas e se tornado uma das recomenda\u00e7\u00f5es do insuspeito de qualquer flerte com socialistas e comunistas, Banco Mundial.<\/p>\n<p>Renda de cidadania \u00e9 parte do receitu\u00e1rio do Banco Mundial para se superar a fome, a mis\u00e9ria e o subdesenvolvimento, mas a \u201cCasa Grande\u201d sempre preferiu desconhecer o assunto.<\/p>\n<p>O grande m\u00e9rito de Lula \u2013 e \u00e9 m\u00e9rito mesmo \u2013 foi o de ter dado forma, cara e a abrang\u00eancia necess\u00e1ria ao programa de combate \u00e0 fome no Brasil, que antes n\u00e3o passava de conversa para boi dormir.<\/p>\n<p><strong>GEOGRAFIA DA FOME<\/strong><\/p>\n<p>Desde o in\u00edcio do s\u00e9culo XX que se falava em combate \u00e0 fome no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Fome que foi das grandes respons\u00e1veis pelas levas de migrantes que deixavam o Nordeste em dire\u00e7\u00e3o ao Sudeste e ao Sul por d\u00e9cadas a fio. \u00a0Essas levas eram antecedidas por secas e sucedidas por farta libera\u00e7\u00e3o de verbas por parte do governo federal.<\/p>\n<p>Os donos da \u201cCasa Grande\u201d pegavam essas verbas e o problema continuava, com esses senhores culpando o clima e os pr\u00f3prios atingidos.<\/p>\n<p>Essa situa\u00e7\u00e3o foi diagnosticada e denunciada pelo m\u00e9dico, cientista pol\u00edtico, escritor e ativista, Josu\u00e9 de Castro (1908-1973) ao lan\u00e7ar em 1946 o livro\u00a0<em>Geografia da fome<\/em>.<\/p>\n<p>Obra cl\u00e1ssica, o livro buscou tirar da obscuridade o quadro \u00a0da fome no pa\u00eds, ao enfatizar as origens socioecon\u00f4micas da trag\u00e9dia e denunciar as explica\u00e7\u00f5es deterministas que o naturalizavam.<\/p>\n<p>Apesar de reconhecido por seu trabalho em todo o mundo, Josu\u00e9 de Castro, um dos primeiros dirigentes da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para Agricultura e Alimenta\u00e7\u00e3o\u00a0(FAO) e tamb\u00e9m\u00a0embaixador brasileiro junto \u00e0\u00a0ONU, estava na primeira lista de cassados pelo AI-5, quando os militares deram o golpe dentro do golpe, em 1968.<\/p>\n<p>Como Josu\u00e9 de Castro, Lula \u00e9 pernambucano e se n\u00e3o estudou na universidade os problemas apontados por seu conterr\u00e2neo, os sentiu na pele como crian\u00e7a e atrav\u00e9s de sua fam\u00edlia, obrigada a vir para o Sul na carroceria de um pau de arara.<\/p>\n<p>Raz\u00f5es de sobra, portanto, tinha Lula para lan\u00e7ar um programa que n\u00e3o s\u00f3 combatesse a fome como garantisse dignidade e desenvolvimento aos mais pobres.<\/p>\n<p>Mesmo com o reconhecimento mundial que o Programa Bolsa Fam\u00edlia (PBF) rapidamente obteve, a \u201cCasa Grande\u201d nunca aceitou a sua exist\u00eancia e, mais do que isso, jamais deixou de combat\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Desde os primeiros tempos, o PBF foi rebatizado como \u201cBolsa Esmola\u201d e seus benefici\u00e1rios tidos como \u201cpregui\u00e7osos\u201d e \u201cavessos ao trabalho\u201d.<\/p>\n<p>As mesmas acusa\u00e7\u00f5es que a \u201cCasa Grande\u201d, no passado, imputou aos \u00edndios e depois aos negros por ela escravizados.<\/p>\n<p><strong>CR\u00cdTICAS E PRECONCEITOS<\/strong><\/p>\n<p>Sou testemunha ocular do jogo sujo que a m\u00eddia corporativa brasileira sempre fez com o PBF e com todos que recebem esse benef\u00edcio.<\/p>\n<p>Durante cinco anos (2006-2010) coordenei a Assessoria de Comunica\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio do Desenvolvimento Social e Combate \u00e0 Fome (MDS), na gest\u00e3o de Patrus Ananias.<\/p>\n<p>Quando cheguei l\u00e1, a m\u00eddia n\u00e3o escondia sua vontade de acabar o MDS, sob o argumento de que as pol\u00edticas sociais \u201cgastavam muito\u201d.<\/p>\n<p>A t\u00edtulo de compara\u00e7\u00e3o, a \u00a0atual folha anual de pagamentos do PBF \u00e9 de R$ 29,5 bilh\u00f5es, atendendo a um total de 13,2 milh\u00f5es de pessoas.<\/p>\n<p>Enquanto isso, a folha salarial \u00a0anual do Poder Judici\u00e1rio \u00e9 de R$ 82,2 bilh\u00f5es, contemplando um universo de apenas 448,9 mil pessoas.<\/p>\n<p>Curiosamente essa m\u00eddia sempre considerou as pol\u00edticas sociais como gasto e nunca como investimento na melhoria da vida da popula\u00e7\u00e3o brasileira, como s\u00e3o tidas em todos os pa\u00edses minimamente civilizados.<\/p>\n<p>J\u00e1 o dinheiro que a elite sempre obteve de programas governamentais voltados para a agricultura, pecu\u00e1ria, ind\u00fastria e com\u00e9rcio, mesmo quando empregados em a\u00e7\u00f5es que n\u00e3o tinham nada a ver com a finalidade ao qual se destinavam, jamais foram alvo de cr\u00edticas.<\/p>\n<p>Basta lembrar os milh\u00f5es que deveriam ter sido aplicados na agropecu\u00e1ria e na ind\u00fastria brasileira e viraram apartamentos de luxo em Paris, Nova Iorque ou mesmo sofisticadas coberturas em Ipanema.<\/p>\n<p>Apesar das estat\u00edsticas nacionais e internacionais apontarem, ano a ano, para o sucesso do PBF no que ele pretendia \u2013 quebrar o ciclo de pobreza inter-geracional, garantir escola e sa\u00fade para as crian\u00e7as das fam\u00edlias de baixa renda \u2013 a m\u00eddia brasileira nunca deu tr\u00e9gua em suas cr\u00edticas.<\/p>\n<p>Ao inv\u00e9s de noticiar e informar sobre um programa que garantia comida na mesa dos mais pobres o ano inteiro, a m\u00eddia insistia em tentar encontrar exemplos de corrup\u00e7\u00e3o entre os seus benefici\u00e1rios, a fim de justificar o seu fim.<\/p>\n<p>Como em qualquer atividade, tamb\u00e9m existia corrup\u00e7\u00e3o no PBF, mas ela nunca superou 0,0035 do total dos benefici\u00e1rios, que chegou a alcan\u00e7ar 13,5 milh\u00f5es de brasileiros.<\/p>\n<p>A corrup\u00e7\u00e3o no PBF \u00e9 das mais baixas de que se tem not\u00edcia no pa\u00eds e no mundo.<\/p>\n<p>Mesmo assim, ela deve ser debitada \u00e0 atua\u00e7\u00e3o de agentes das prefeituras encarregados de realizar o cadastro dos candidatos a benefici\u00e1rios.<\/p>\n<p>Se o processo come\u00e7ava truncado, n\u00e3o havia como, no MDS, em Bras\u00edlia, isso ser detectado antes da primeira visita da equipe de sa\u00fade \u00e0 fam\u00edlia benefici\u00e1ria.<\/p>\n<p>A maioria esmagadora da popula\u00e7\u00e3o nunca soube e continua n\u00e3o sabendo disso.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca em que o PT estava no governo, o que a m\u00eddia mais fazia era insinuar que Lula controlava quem entrava no programa, quando eram as prefeituras de todos os munic\u00edpios brasileiros, independente de qual partido estivesse no poder, as respons\u00e1veis pelo ingresso do interessado no Cadastro \u00danico e, de l\u00e1, passar a ter acesso \u00e0s pol\u00edticas sociais do governo federal.<\/p>\n<p>A m\u00eddia brasileira, ali\u00e1s, nunca explicou nada sobre o que \u00e9 e como funcionamento o PBF, limitando-se a critic\u00e1-lo sem qualquer argumento a n\u00e3o ser o preconceito alimentado pelas elites contra os mais pobres e\u00a0<strong>contra qualquer governo que tente mudar esse quadro.<\/strong><\/p>\n<p><strong>O ESC\u00c2NDALO DO FOG\u00c3O E DA GELADEIRA<\/strong><\/p>\n<p>Em meados de 2008 a campanha contra o BF ficou t\u00e3o agressiva, com mentiras sendo\u00a0 ditas e repetidas\u00a0 quase diariamente pelos jornais\u00a0<em>O Globo, Folha de S. Paulo\u00a0<\/em>e<em>\u00a0Estado de S. Paulo<\/em>, al\u00e9m das revistas semanais (exce\u00e7\u00e3o para\u00a0<em>Carta Capital<\/em>), que decidi recorrer ao site Observat\u00f3rio da Imprensa, na \u00e9poca, dirigido pelo jornalista Alberto Dines, para que pelo menos uma parcela do p\u00fablico tomasse conhecimento do que estava acontecendo.<\/p>\n<p>E o que estava acontecendo era o seguinte: a m\u00eddia inventava casos de corrup\u00e7\u00e3o e n\u00e3o publicava os desmentidos que o MDS enviava.<\/p>\n<p>Se n\u00e3o me engano, foi exatamente nessa \u00e9poca que o colunista de Pol\u00edtica de\u00a0<em>O Globo<\/em>, Merval Pereira, escreveu um texto acusando os benefici\u00e1rios do PBF de estarem fazendo uma esp\u00e9cie de corrup\u00e7\u00e3o com o dinheiro que recebiam ao comprar fog\u00e3o, geladeira e m\u00e1quina de lavar ao inv\u00e9s de comida.<\/p>\n<p>O referido colunista, que chegou a falar em esc\u00e2ndalo, n\u00e3o tinha sequer se dado ao trabalho de ler o que determinava a lei que criou o PBF. Em momento algum estava disposto o que o benefici\u00e1rio deveria fazer com o recurso.<\/p>\n<p>Pelas pesquisas de que disp\u00fanhamos, 90% utilizavam o benef\u00edcio para alimenta\u00e7\u00e3o, mas alguns casos tamb\u00e9m se valiam dele para comprar, em muitas presta\u00e7\u00f5es, fog\u00f5es e geladeiras essenciais para o preparo e conserva\u00e7\u00e3o dos alimentos.<\/p>\n<p>Uma parcela \u00ednfima o utilizava para gerar alguma renda, como no caso dos que compraram m\u00e1quina de lavar e passavam a prestar servi\u00e7os em sua comunidade.<\/p>\n<p>Por essas e outras, Lula e o ministro Patrus sempre pensaram em transformar o PBF em uma pol\u00edtica de Estado, para que n\u00e3o ficasse ao sabor dos interesses de cada governo.<\/p>\n<p>S\u00f3 que a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as no Congresso Nacional nunca ajudou. Naquela \u00e9poca, toda vez que o assunto era ventilado, uma esp\u00e9cie de campanha mais refor\u00e7ada ainda contra o programa tomava conta da m\u00eddia e a ideia acabava adiada.<\/p>\n<p>A presidente Dilma Rousseff deu continuidade ao PBF, enfatizando, atrav\u00e9s da Busca Ativa, chegar at\u00e9 os pobres mais dif\u00edceis de serem localizados e aos que menos conhecem \u2013 quando conhecem \u2013 os seus direitos: os moradores de rua nos grandes centros urbanos, os habitantes das fronteiras e dos locais quase inacess\u00edveis, al\u00e9m de tribos ind\u00edgenas e de quilombolas.<\/p>\n<p>Para quem n\u00e3o sabe, os ind\u00edgenas brasileiros e os descendentes de escravos tamb\u00e9m t\u00eam direito ao PBF.<\/p>\n<p>A m\u00eddia, como sempre, nunca mostrou isso ao seu p\u00fablico e manteve o mesmo padr\u00e3o de criticar e estigmatizar um direito de cidadania.<\/p>\n<p><strong>CARIDADE E \u00d3DIO<\/strong><\/p>\n<p>No governo Bolsonaro, que n\u00e3o esconde sua avers\u00e3o aos pobres, a m\u00eddia corporativa brasileira se sente \u00e0 vontade para propor o que sempre quis: acabar com o que ela considera \u201cmamata\u201d: alimenta\u00e7\u00e3o e dignidade para quem precisa e interromper o ciclo de pobreza no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Isso sob o sil\u00eancio c\u00famplice daqueles para os quais torrar em 18 minutos dois ter\u00e7os do valor mensal do PBF n\u00e3o vale nada. Como n\u00e3o valem nada as doa\u00e7\u00f5es que fazem a felicidade dos \u201ccidad\u00e3os e cidad\u00e3 de bem\u201d nessa \u00e9poca natalina.<\/p>\n<p>O que esses cidad\u00e3os de bem se esquecem \u00e9 que as pessoas comem todos os dias e o que elas querem n\u00e3o \u00e9 caridade, mas condi\u00e7\u00f5es para terem acesso a uma vida melhor.<\/p>\n<p>Para quem n\u00e3o sabe, uma crian\u00e7a que n\u00e3o ingerir a quantidade necess\u00e1ria de calorias por dia at\u00e9 os 7 anos de idade, est\u00e1 prejudicada para o resto da vida.<\/p>\n<p>Depois, essa \u201cCasa Grande\u201d ou essa \u201celite do atraso\u201d, como prefere denomin\u00e1-la o soci\u00f3logo Jesse de Souza ainda vem falar em meritocracia ou das maravilhas da livre concorr\u00eancia no mercado de trabalho.<\/p>\n<p>Se depender de Bolsonaro, o PBF em 2020 ser\u00e1 t\u00e3o desfigurado que tende a acabar.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, ele j\u00e1 est\u00e1 destruindo o programa por dentro, ao reduzir ao m\u00e1ximo o n\u00famero de pessoas que nele ingressam e ao reduzir e acabar com v\u00e1rios dos demais 19 programas que atuam junto com o PBF, envolvendo o contra-turno na escola para crian\u00e7as e jovens, qualifica\u00e7\u00e3o para mulheres e jovens, creches e os Centros de Assist\u00eancia Social (CRAS).<\/p>\n<p>Para quem rebate dizendo que Bolsonaro agora \u00e9 a favor do PBF que tanto combateu, a ponto de ter institu\u00eddo o 13\u00ba sal\u00e1rio para o programa, isso prova exatamente o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>Prova que ele n\u00e3o entendeu nada. O beneficio do PBF n\u00e3o \u00e9 um sal\u00e1rio que o governo paga a quem \u00e9 pobre. \u00c9 um direito que todo brasileiro pobre tem, \u00e9 um direito de cidadania.<\/p>\n<p>Ao instituir o 13\u00ba, o que Bolsonaro quer \u2013 e est\u00e1 conseguindo \u2013 \u00e9 jogar os pobres contra os muito pobres, especialmente num pa\u00eds onde a precariza\u00e7\u00e3o do trabalho cresce de forma exponencial. Mas esse \u00e9 um assunto complexo, que fica para outro artigo.<\/p>\n<p>Por agora basta pensar apenas, nesse dia de Natal, que a atual pol\u00edtica econ\u00f4mica j\u00e1 devolveu o Brasil ao Mapa da Fome da ONU e que os mais de 20 milh\u00f5es de brasileiros\u00a0 das classes D e E que tinham ascendido \u00e0 classe C, est\u00e3o de volta \u00e0 mis\u00e9ria.<\/p>\n<p>Mas nada disso preocupa as \u201cpessoas de bem\u201d. Elas dormir\u00e3o tranquilas depois do passeio na Roda Gigante, de fazerem alguma caridade ou de ceiarem com a fam\u00edlia e os amigos.<\/p>\n<p>O \u00f3dio aos pobres ficar\u00e1 reservado para os outros dias do ano.<\/p>\n<p><em><strong>*\u00c2ngela Carrato \u00e9 jornalista e professora do Departamento de Comunica\u00e7\u00e3o Social da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).<\/strong><\/em><\/p>\n<p>www.viomundo.com.br<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por \u00c2ngela Carrato*, especial para o Viomundo EPIS\u00d3DIO 1\u00a0\u2013 A Roda Gigante do Rio de Janeiro, \u201ca maior da Am\u00e9rica Latina\u201d, foi inaugurada no in\u00edcio de dezembro. Uma volta de 18 minutos custa R$ 59. 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