{"id":11188,"date":"2020-01-02T17:39:07","date_gmt":"2020-01-02T20:39:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/?p=11188"},"modified":"2020-01-02T17:41:20","modified_gmt":"2020-01-02T20:41:20","slug":"decada-ve-explosao-de-milionarios-e-desigualdade-que-ameaca-democracias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/2020\/01\/02\/decada-ve-explosao-de-milionarios-e-desigualdade-que-ameaca-democracias\/","title":{"rendered":"D\u00e9cada v\u00ea explos\u00e3o de milion\u00e1rios e desigualdade que amea\u00e7a democracias"},"content":{"rendered":"<p><strong>A d\u00e9cada termina com um aumento da concentra\u00e7\u00e3o de riqueza no mundo e uma classe m\u00e9dia cada vez mais espremida, principalmente nos pa\u00edses ricos.<\/strong><\/p>\n<p>Dados publicados pelas principais entidades internacionais, bancos e por ONGs confirmam: entre 2010 e 2019, os ricos ficaram mais ricos. Em dez anos, foram somados ao PIB mundial US$ 25 trilh\u00f5es, de acordo com o Banco Mundial.<\/p>\n<p>Mas, apesar dos esfor\u00e7os, nem todos foram beneficiados. O n\u00famero de milion\u00e1rios dobrou e\u00a0a dist\u00e2ncia entre a elite e o resto da humanidade se aprofundou, com um impacto para a democracia e a estabilidade das sociedades.<\/p>\n<p>Dez anos depois do colapso do sistema financeiro internacional, parte da humanidade ainda vive o legado da crise. Para socorrer os bancos, US$ 10 trilh\u00f5es foram injetados pelos governos no mercado. Paralelamente, sociedades foram avisadas de que teriam de trabalhar mais por sal\u00e1rios mais baixos. E que suas conquistas sociais das \u00faltimas d\u00e9cadas seriam desmontadas.<\/p>\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o da ONU, n\u00e3o restam d\u00favidas que o combate \u00e0 pobreza avan\u00e7ou desde os anos 90. Desde ent\u00e3o, 1 bilh\u00e3o de pessoas deixaram a extrema pobreza. Mas, segundo ela, &#8220;o crescimento econ\u00f4mico extraordin\u00e1rio e a melhoria generalizada do bem-estar fracassaram em fechar o fosso que divide pa\u00edses e dentro de sociedades&#8221;. Hoje, 70% da popula\u00e7\u00e3o mundial vive em pa\u00edses onde a\u00a0desigualdade social\u00a0aumenta.<\/p>\n<p>Relatores das Na\u00e7\u00f5es Unidas ainda conclu\u00edram que &#8220;a desigualdade de renda est\u00e1 em alta, j\u00e1 que os 10% mais ricos da popula\u00e7\u00e3o mundial ganham quase 40% da renda total&#8221;. Segundo eles, 82% de toda a riqueza criada em 2017 foi para a parcela de 1% mais privilegiada.<\/p>\n<p>Em seu recado de fim de ano, o secret\u00e1rio-geral da ONU, Ant\u00f4nio Guterrez, foi claro: &#8220;as desigualdades persistem&#8221;. Entrando numa nova d\u00e9cada, a realidade \u00e9 que 262 milh\u00f5es de crian\u00e7as n\u00e3o v\u00e3o ainda para a escola e 10 mil pessoas morrem por dia por falta de acesso \u00e0 sa\u00fade.<\/p>\n<p>Apesar da revolu\u00e7\u00e3o da era digital, 3,6 bilh\u00f5es de pessoas continuam desconectadas. Nos pa\u00edses ricos, 87% da popula\u00e7\u00e3o tem acesso \u00e0 internet. Mas nos pa\u00edses mais pobres, a taxa \u00e9 de apenas 19%, o equivalente \u00e0s taxas que existiam no s\u00e9culo passado na Europa.<\/p>\n<p>A preocupa\u00e7\u00e3o sobre o impacto da concentra\u00e7\u00e3o de renda \u00e9\u00a0compartilhada pela Oxfam, entidade que vem publicando a cada ano um retrato sombrio sobre a desigualdade no planeta. Em 2018, por exemplo, 26 pessoas controlavam o mesmo volume de riqueza que 3,8 bilh\u00f5es de pessoas que formam a parcela mais pobre do mundo. Em apenas um ano,\u00a0esses ultra-ricos aumentaram suas fortunas\u00a0em US$ 2,5 bilh\u00f5es ao dia. No outro extremo, metade da popula\u00e7\u00e3o mundial vive com menos de US$ 5,5 ao dia.<\/p>\n<p>Avesso a dialogar com o F\u00f3rum Social de Porto Alegre por anos, at\u00e9 mesmo Davos passou a admitir nesta d\u00e9cada que a desigualdade \u00e9 uma amea\u00e7a. Nos \u00faltimos anos, o assunto foi abra\u00e7ado pela elite mundial que se re\u00fane anualmente na Su\u00ed\u00e7a. No final de janeiro, o F\u00f3rum Econ\u00f4mico Mundial voltar\u00e1 a colocar o assunto sobre a mesa. N\u00e3o por ter assumido uma roupagem socialista, mas por estar ciente, diante dos protestos pelo mundo, que essa concentra\u00e7\u00e3o de renda coloca uma press\u00e3o insustent\u00e1vel sobre o sistema que querem preservar.<\/p>\n<p>J\u00e1 em 2017, um informe de Davos colocou a desigualdade como os maiores riscos para a economia global e alertava que tal concentra\u00e7\u00e3o explicaria a vit\u00f3ria de\u00a0Donald Trump\u00a0e a vota\u00e7\u00e3o do\u00a0Brexit. Aqueles ignorados pelo grupo no poder se rebelaram. E foram seduzidos pela demagogia de l\u00edderes populistas.<\/p>\n<figure data-format=\"horizontal\">\n<p><figure id=\"attachment_11190\" aria-describedby=\"caption-attachment-11190\" style=\"width: 588px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-11190\" src=\"https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/30mai2019-favela-do-jardim-colombo-no-bairro-do-morumbi-em-sao-paulo-1577744971217_v2_750x421-300x168.jpg\" alt=\"\" width=\"588\" height=\"329\" srcset=\"https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/30mai2019-favela-do-jardim-colombo-no-bairro-do-morumbi-em-sao-paulo-1577744971217_v2_750x421-300x168.jpg 300w, https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/30mai2019-favela-do-jardim-colombo-no-bairro-do-morumbi-em-sao-paulo-1577744971217_v2_750x421.jpg 750w\" sizes=\"auto, (max-width: 588px) 100vw, 588px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-11190\" class=\"wp-caption-text\">Favela do Jardim Colombo, no bairro do Morumbi, em S\u00e3o Paulo &#8211; Lalo de Almeida &#8211; 30.mai.2019\/Folhapress<\/figcaption><\/figure><figcaption><\/figcaption><\/figure>\n<h3>Milion\u00e1rios e bilion\u00e1rios<\/h3>\n<p>At\u00e9 mesmo entre os sofisticados bancos su\u00ed\u00e7os, a percep\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 a de que h\u00e1 um salto no n\u00famero de ultra-ricos no mundo. Para esses banqueiros, isso apresenta um novo mercado a ser explorado. Mas eles n\u00e3o deixam de destacar que isso tamb\u00e9m significou uma concentra\u00e7\u00e3o do poder aquisitivo.<\/p>\n<p>&#8220;A metade inferior dos detentores de riqueza representava coletivamente menos de 1% da riqueza global total em meados de 2019, enquanto os 10% mais ricos detinham 82% da riqueza global e os 1% superiores detinham 45%&#8221;, apontou o Credit Suisse, em um informe.<\/p>\n<p>Ainda que o banco estime que h\u00e1 motivos para acreditar que o auge da disparidade social tenha sido superado em meados da d\u00e9cada, o que seus n\u00fameros revelam \u00e9 um acumulo cada vez maior de milion\u00e1rios.<\/p>\n<p>Em 2010, existiam 24 milh\u00f5es de milion\u00e1rios no mundo. Em 2016, eles j\u00e1 eram 36 milh\u00f5es de pessoas com um patrim\u00f4nio acima de um milh\u00e3o de d\u00f3lares. Em 2019, o total era de 46,8 milh\u00f5es.<\/p>\n<p>Em compara\u00e7\u00e3o com os dados de 2000, o aumento \u00e9 de mais de 180%. Em dez anos, o n\u00famero quase dobrou.<\/p>\n<p>Outro banco su\u00ed\u00e7o, o UBS, tamb\u00e9m constata que a fortuna dos bilion\u00e1rios no mundo cresceu em 19% em 2017, para um total de US$ 8,9 trilh\u00f5es. Em todo o planeta, 2.100 pessoas contam com uma fortuna acima de US$ 1 bilh\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas uma hist\u00f3ria reveladora vem do maior pa\u00eds comunista do mundo. Na China, dois novos bilion\u00e1rios eram criados por semana em 2017. Em 2006, existiam apenas 16 pessoas na China com uma fortuna de mais de US$ 1 bilh\u00e3o. Dez anos depois, eles somavam 373. Para o banco, essas pessoas est\u00e3o &#8220;mudando o ritmo da sociedade como nunca antes&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;A China superou os EUA como o lugar onde uma fortuna excepcional \u00e9 criada em uma taxa mais acelerada&#8221;, apontou.<\/p>\n<p>Para o FMI, tudo indica que a China promoveu a maior redu\u00e7\u00e3o da pobreza da hist\u00f3ria recente do mundo nos \u00faltimos 30 anos. Mas os estudos tamb\u00e9m revelam que a concentra\u00e7\u00e3o da renda passou a se assemelhar ao dos pa\u00edses capitalistas. De acordo com a London School of Economics, nos EUA, a metade mais pobre da popula\u00e7\u00e3o concentrava 12% da riqueza do pa\u00eds em 2015. Na China, essa taxa era de 15%.<\/p>\n<p>A explos\u00e3o da riqueza na China e nos pa\u00edses emergentes tamb\u00e9m faz parte da an\u00e1lise da McKinsey Global Institute. De fato, essa evolu\u00e7\u00e3o permitiu que a parcela dos pa\u00edses de alta renda na riqueza global ca\u00edsse de 80% em 2000 para 71% em 2014. Enquanto isso, a parcela dos pa\u00edses de renda m\u00e9dia, como a China e a \u00cdndia, aumentou de 14% para 22%.<\/p>\n<p>Nesta perspectiva, a d\u00e9cada foi de uma aproxima\u00e7\u00e3o no fosse entre pa\u00edses ricos e emergentes.<\/p>\n<p>Mas, internamente, o que se viu em cada uma das economias foi o salto da desigualdade. &#8220;Nas economias avan\u00e7adas, os resultados econ\u00f4micos t\u00eam-se tornado mais desiguais, especialmente as desigualdades de riqueza e rendimento&#8221;, disse a empresa de consultoria. Entre os pa\u00edses com maior aumento na desigualdade de riqueza est\u00e3o aqueles que foram significativamente afetados pela recess\u00e3o de 2008, tais como a Irlanda e a Gr\u00e9cia.<\/p>\n<p>Na Europa, entre 2000 e 2017, apenas quatro pa\u00edses viram uma queda da desigualdade social: B\u00e9lgica, Noruega, Pol\u00f4nia e Su\u00e9cia.<\/p>\n<p>Nos EUA, um informe do Congresso indica que, entre 2016 e 2021, a parcela mais rica do pa\u00eds ter\u00e1 um aumento de patrim\u00f4nio de 16%. Entre os 20% mais pobres, a expans\u00e3o ser\u00e1 de apenas 4%.<\/p>\n<p>No Reino Unido, sal\u00e1rios m\u00e9dios de executivos das empresas cotadas na bolsa s\u00e3o 145 vezes maiores que a m\u00e9dia dos trabalhadores do pa\u00eds. Em 1998, essa diferen\u00e7a era de &#8220;apenas&#8221; 47 vezes.<\/p>\n<figure data-format=\"horizontal\"><figcaption>\n<figure id=\"attachment_11191\" aria-describedby=\"caption-attachment-11191\" style=\"width: 546px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-11191\" src=\"https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/7jul2019-vista-aerea-de-um-condominio-particular-no-lago-michelle-e-da-favela-de-masiphumelele-na-cidade-do-cabo-africa-do-sul-1577746068357_v2_750x421-300x168.jpg\" alt=\"\" width=\"546\" height=\"306\" srcset=\"https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/7jul2019-vista-aerea-de-um-condominio-particular-no-lago-michelle-e-da-favela-de-masiphumelele-na-cidade-do-cabo-africa-do-sul-1577746068357_v2_750x421-300x168.jpg 300w, https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/7jul2019-vista-aerea-de-um-condominio-particular-no-lago-michelle-e-da-favela-de-masiphumelele-na-cidade-do-cabo-africa-do-sul-1577746068357_v2_750x421.jpg 750w\" sizes=\"auto, (max-width: 546px) 100vw, 546px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-11191\" class=\"wp-caption-text\">Vista a\u00e9rea de um condom\u00ednio particular no Lago Michelle e da favela de Masiphumelele, na Cidade do Cabo (\u00c1frica do Sul) &#8211; Lalo de Almeida &#8211; 7.jul.2019\/Folhapress<\/figcaption><\/figure>\n<\/figcaption><\/figure>\n<h3>Classe m\u00e9dia<\/h3>\n<p>Para observadores e entidades, a quest\u00e3o que se coloca \u00e9 como tal mudan\u00e7a no perfil e na distribui\u00e7\u00e3o da riqueza afetar\u00e1 a coes\u00e3o das sociedades e seus comportamentos nas urnas e nas ruas.<\/p>\n<p>Num recente informe publicado neste ano, a OCDE apelou a governos para que elaborem novas pol\u00edticas para sair ao resgate da classe m\u00e9dia, inclusive se desejam preservar a estabilidade pol\u00edtica e social.<\/p>\n<p>Nos anos 60 e 70, 70% da popula\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses ricos eram considerados como sendo de classe m\u00e9dia. Hoje, essa taxa caiu para 60%.<\/p>\n<p>O levantamento tamb\u00e9m mostra que, nos \u00faltimos doze anos, a renda dessa classe m\u00e9dia praticamente se estagnou, com uma expans\u00e3o de meros 0,3% ao ano. Entre a camada mais rica dos pa\u00edses desenvolvidos, a expans\u00e3o na renda foi de mais de 1% ao ano, no mesmo per\u00edodo.<\/p>\n<p>O que a OCDE tamb\u00e9m descobriu \u00e9 que, para manter seu estilo de vida, a classe m\u00e9dia dos pa\u00edses ricos teve de pagar mais pelos mesmos servi\u00e7os. Hoje, um ter\u00e7o da renda dessa popula\u00e7\u00e3o \u00e9 destinado \u00e0 moradia. Nos anos 90, a propor\u00e7\u00e3o era de 25%. Nesses pa\u00edses, os pre\u00e7os de im\u00f3veis aumentaram numa velocidade tr\u00eas vezes maior que a renda das fam\u00edlias nos \u00faltimos 20 anos.<\/p>\n<p>Em m\u00e9dia, uma fam\u00edlia num pa\u00eds desenvolvido precisa acumular uma renda de dez anos para conseguir comprar um apartamento de 60 metros quadrados na capital de seu pa\u00eds. Nos anos 80, eles precisam de apenas seis anos para atingir esse objetivo.<\/p>\n<p>A nova classe m\u00e9dia que entra na d\u00e9cada de 20 tamb\u00e9m est\u00e1 altamente endividada. Segundo a OCDE, uma em cada cinco fam\u00edlias gasta acima de sua renda.<\/p>\n<p>Uma das mais educadas da hist\u00f3ria, a atual gera\u00e7\u00e3o dificilmente vai conseguir repetir o padr\u00e3o de vida que lhes foi oferecido por seus pais e pelo estado de bem-estar social. E isso, segundo os economistas e institui\u00e7\u00f5es, n\u00e3o amea\u00e7a apenas os sonhos individuais. Mas a pr\u00f3pria exist\u00eancia de um sistema democr\u00e1tico cuja promessa \u00e9, acima de tudo, a de dar aos cidad\u00e3os o controle sobre seus destinos.<\/p>\n<p>www.noticias.uol.com.br \/Jamil Chade<\/p>\n<div class=\"tooltip-container \">\n<div class=\"w-tooltip single\"><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A d\u00e9cada termina com um aumento da concentra\u00e7\u00e3o de riqueza no mundo e uma classe m\u00e9dia cada vez mais espremida, principalmente nos pa\u00edses ricos. Dados publicados pelas principais entidades internacionais, bancos e por ONGs confirmam: entre 2010 e 2019, os ricos ficaram mais ricos. 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