{"id":11313,"date":"2020-01-10T14:58:03","date_gmt":"2020-01-10T17:58:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/?p=11313"},"modified":"2020-01-10T14:58:03","modified_gmt":"2020-01-10T17:58:03","slug":"retratos-da-crise-no-rio-as-historias-por-tras-dos-baixos-indicadores-sociais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/2020\/01\/10\/retratos-da-crise-no-rio-as-historias-por-tras-dos-baixos-indicadores-sociais\/","title":{"rendered":"Retratos da crise no Rio: as hist\u00f3rias por tr\u00e1s dos baixos indicadores sociais"},"content":{"rendered":"<p class=\"description\"><strong>Dados da Defensoria P\u00fablica do Estado do Rio apontam que na capital existem cerca de 15 mil pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua<\/strong><\/p>\n<p>\u201cA vida \u00e9 uma caixinha de surpresas\u201d.\u00a0A frase foi usada pelo artes\u00e3o Ant\u00f4nio Lopes, de 70 anos, para responder \u00e0\u00a0pergunta sobre o que o levou para as ruas do munic\u00edpio de Niter\u00f3i, regi\u00e3o metropolitana do Rio de Janeiro. Com barba e cabelos brancos, sentado em um peda\u00e7o de papel\u00e3o, Ant\u00f4nio aguardava o jantar servido\u00a0por grupos religiosos para a popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de rua no centro da cidade.<\/p>\n<p>O artes\u00e3o carioca j\u00e1 viajou o Brasil vendendo suas pe\u00e7as em couro, madeira e arame, mas teve o trabalho interrompido ap\u00f3s ser roubado em 25 de dezembro. \u201cQuando eu estava retornando de S\u00e3o Paulo, cheguei em Barra Mansa [interior do Rio]\u00a0e fui roubado. Levaram meu material, ferramentas, trabalhos, at\u00e9 alguns documentos, coisas pessoais, \u00e1lbum de fotos, celular e eu estou assim\u201d, conta Ant\u00f4nio que n\u00e3o tem fam\u00edlia e est\u00e1 juntando dinheiro para comprar novamente seu material de trabalho.<\/p>\n<p>Nas ruas h\u00e1 pessoas que est\u00e3o de passagem, como Ant\u00f4nio, e outras que estiveram h\u00e1 mais tempo pelas marquises e esquinas da cidade do que sob o teto de uma casa. \u00c9 o caso de Jussara da Silva, de 45 anos. Entre idas e vindas, a pernambucana conta que est\u00e1 desde os oito anos nas ruas, passou por orfanatos, abrigos, trabalhou como ambulante, auxiliar de cozinha e cuidadora, mas afirma que viveu a maior parte da vida pelas cal\u00e7adas das cidades.<\/p>\n<p>\u201cEu vim parar no Rio de Janeiro com oito anos com a minha fam\u00edlia, s\u00f3 que no Rio eu me perdi, minha fam\u00edlia foi parar em Caxias [Baixada Fluminense], com meus nove irm\u00e3os e eu fiquei para tr\u00e1s porque n\u00e3o consegui alcan\u00e7ar. Fui vivendo e at\u00e9 hoje estou vivendo por ai, foi onde eu fiz cinco filhos\u201d, relata Jussara que hoje vive recolhendo mat\u00e9rias recicl\u00e1veis pelas ruas de Niter\u00f3i.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-img-caption\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/farm66.staticflickr.com\/65535\/49354077696_7bfd8bd1b0_o.jpg\" alt=\"\" width=\"601\" height=\"400\" \/><\/p>\n<p class=\"ckeditor-img-caption\">Jussara da Silva, 45 anos, sobrevive cantando materiais recicl\u00e1veis pelas ruas de Niter\u00f3i (Foto: Jaqueline Deister)<\/p>\n<p>Hist\u00f3rias como a de Ant\u00f4nio e Jussara ilustram apenas uma pequena parcela das pessoas invis\u00edveis que lutam pela sobreviv\u00eancia nas ruas do estado do Rio de Janeiro. Dados da Defensoria P\u00fablica do Estado do Rio (DP-RJ)\u00a0apontam que na capital existem cerca de 15 mil pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\">Crise em n\u00fameros<\/p>\n<p>Al\u00e9m da falta de pol\u00edticas p\u00fablicas para a popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade, a crise econ\u00f4mica que atingiu o estado levando \u00e0 demiss\u00f5es e fechamentos de postos de trabalho foi um fator determinante para o aumento das pessoas que vivem em condi\u00e7\u00f5es extremas nas ruas. No primeiro trimestre de 2019, o desemprego no estado do Rio de Janeiro atingiu mais de 1,3 milh\u00e3o de pessoas. O n\u00famero foi um recorde na s\u00e9rie realizada desde 2012 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE).<\/p>\n<p>Os baixos indicadores de emprego e renda dos estados refletem tamb\u00e9m no \u00cdndice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil. Um relat\u00f3rio recente publicado pela Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU), divulgado pela BBC Brasil, mostra que desde 2014 o pa\u00eds atravessa uma grave crise que estagnou o IDH em 2018. O IDH varia de uma pontua\u00e7\u00e3o de zero a um. Segundo o levantamento, o Brasil estagnou na marca de 0,761.<\/p>\n<p>O \u00edndice mede o desempenho do pa\u00eds em quatro \u00e1reas: esperan\u00e7a de vida ao nascer, expectativa de anos de estudos, m\u00e9dia de anos de estudos, renda nacional bruta e per capita. O reflexo da crise econ\u00f4mica e pol\u00edtica nos \u00faltimos cinco anos impediu o crescimento dos indicadores para o Brasil.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\">Rio na corda bamba<\/p>\n<p>Para o professor da Faculdade de Ci\u00eancias Econ\u00f4micas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Bruno Sobral, o quadro socioecon\u00f4mico do Rio de Janeiro chama a aten\u00e7\u00e3o para a necessidade urgente de se discutir sobre o pacto federativo do Brasil. Isso significa um comprometimento e responsabiliza\u00e7\u00e3o maior da esfera federal ante as crises de estados e munic\u00edpios.<\/p>\n<p>\u201cAo discutir o pacto federativo voc\u00ea est\u00e1 discutindo compet\u00eancias e recursos entre as esferas de poder, entre munic\u00edpios, estado e governo federal. O recurso p\u00fablico \u00e9 um s\u00f3, mas ele \u00e9 distribu\u00eddo. Em tese, os impostos est\u00e3o indo para o tesouro p\u00fablico e essa reparti\u00e7\u00e3o \u00e9 o que \u00e9 exatamente uma das discuss\u00f5es do pacto federativo. Temos que tratar a discuss\u00e3o com muita seriedade porque a popula\u00e7\u00e3o, pelo pr\u00f3prio processo democr\u00e1tico, passa a separar pela situa\u00e7\u00e3o eleitoral: elege o prefeito para o problema da cidade, o governador para o problema do estado, e n\u00e3o entende que as vezes o raio de a\u00e7\u00e3o de um prefeito \u00e9 muito limitado\u201d, explica o economista que tamb\u00e9m coordena a Rede Pr\u00f3-Rio.<\/p>\n<p>De acordo com Sobral h\u00e1 indicativos de melhora na economia do estado do Rio para 2020, mas \u00e9 preciso aten\u00e7\u00e3o para duas \u00e1reas que podem impactar a conjuntura: o\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2019\/12\/04\/briga-entre-bolsonaro-e-witzel-ameaca-economia-do-estado-do-rio\/\">regime de recupera\u00e7\u00e3o fiscal<\/a>\u00a0e o julgamento da constitucionalidade da Lei 12.734\/12 (Lei da Partilha), que incide sobre a distribui\u00e7\u00e3o de royalties e participa\u00e7\u00f5es especiais do petr\u00f3leo por munic\u00edpios e estados de todo o pa\u00eds. Caso aprovada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), o Rio pode perder mais de R$56 bilh\u00f5es de reais em arrecada\u00e7\u00e3o entre 2020 e 2023.<\/p>\n<p>\u201cOs fatores que podem reduzir essa calmaria s\u00e3o: como vai se desenrolar o processo de recupera\u00e7\u00e3o fiscal e o segundo fator fundamental \u00e9 a quest\u00e3o dos royalties, que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a evolu\u00e7\u00e3o em si, mas um problema que temos no STF. Muitos analistas, inclusive eu, colocam que a situa\u00e7\u00e3o do Rio pode ficar insustent\u00e1vel. Por isso, que o STF tem que tomar muito cuidado com a responsabilidade sobre esse julgamento, porque seria o Rio, que est\u00e1 passando pela dificuldade e penit\u00eancia do regime de recupera\u00e7\u00e3o, de novo ser jogado numa situa\u00e7\u00e3o de desorienta\u00e7\u00e3o\u201d, detalha.<\/p>\n<p>www.brasildefato.com.br \/ Jaqueline Deister | Rio de Janeiro (RJ)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dados da Defensoria P\u00fablica do Estado do Rio apontam que na capital existem cerca de 15 mil pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua \u201cA vida \u00e9 uma caixinha de surpresas\u201d.\u00a0A frase foi usada pelo artes\u00e3o Ant\u00f4nio Lopes, de 70 anos, para responder \u00e0\u00a0pergunta sobre o que o levou para as ruas do munic\u00edpio de Niter\u00f3i, regi\u00e3o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":11314,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[25],"tags":[61],"class_list":["post-11313","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias","tag-desigualdade-social"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11313","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11313"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11313\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11315,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11313\/revisions\/11315"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11314"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11313"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11313"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11313"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}