{"id":12278,"date":"2020-02-19T15:31:28","date_gmt":"2020-02-19T18:31:28","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/?p=12278"},"modified":"2020-02-19T15:31:28","modified_gmt":"2020-02-19T18:31:28","slug":"lucros-altos-investimentos-baixos-como-o-desmonte-da-petrobras-impacta-na-sua-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/2020\/02\/19\/lucros-altos-investimentos-baixos-como-o-desmonte-da-petrobras-impacta-na-sua-vida\/","title":{"rendered":"Lucros altos, investimentos baixos: como o desmonte da Petrobras impacta na sua vida"},"content":{"rendered":"<p class=\"description\"><strong>Segundo especialista, &#8220;l\u00f3gica privada&#8221; e \u201cfatiamento\u201d da empresa trar\u00e3o repercuss\u00f5es negativas a toda a cadeia produtiva<\/strong><\/p>\n<p>A Petrobras est\u00e1 encolhendo, mas o\u00a0lucro\u00a0dos acionistas segue em sentido contr\u00e1rio.\u00a0Para o consumidor final, os pre\u00e7os do combust\u00edvel e do g\u00e1s de cozinha est\u00e3o cada vez mais altos. A equa\u00e7\u00e3o vem sendo apontada pelos petroleiros, em greve h\u00e1 quase vinte dias, como sintoma de um processo de desmonte da estatal.<\/p>\n<p>N\u00fameros do Departamento Intersindical de Estat\u00edstica e Estudos Socioecon\u00f4micos (Dieese) indicam que entre, 2013 e 2018, a Petrobras foi a empresa do setor que mais demitiu funcion\u00e1rios em todo o mundo. Foram mais de 270 mil trabalhadores dispensados de suas fun\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Os investimentos tamb\u00e9m v\u00eam demonstrando queda. Um levantamento do Instituto de Estudos Estrat\u00e9gicos de Petr\u00f3leo, G\u00e1s Natural e Biocombust\u00edveis (Ineep) compila os dados mais recentes dispon\u00edveis e mostra que, entre abril e setembro do ano passado, foram investidos pouco mais de R$ 20 bilh\u00f5es. O resultado de seis meses \u00e9 menor que o registrado somente nos \u00faltimos tr\u00eas meses de 2015, por exemplo, quando foram investidos quase R$ 21 bilh\u00f5es.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\">Privatiza\u00e7\u00e3o lucrativa<\/p>\n<p>Mesmo com investimentos mais baixos e menos trabalhadores produzindo, os lucros dos acionistas da empresa sobem. No segundo trimestre do ano passado, a venda de uma rede de gasodutos que interliga as regi\u00f5es Sudeste e Nordeste, somada \u00e0\u00a0alta do d\u00f3lar e do pre\u00e7o do petr\u00f3leo no mercado internacional, gerou aumento de 89% nos lucros da empresa em compara\u00e7\u00e3o ao mesmo per\u00edodo do ano anterior. Um resultado recorde e que representa R$ 18,9 bilh\u00f5es.<\/p>\n<p>O economista e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Eduardo Costa Pinto, afirma que houve um aprofundamento no desmonte da Petrobr\u00e1s a partir de 2016.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 importante que a gente entenda o que \u00e9 esse desmonte, o que \u00e9 essa transforma\u00e7\u00e3o profunda da estrat\u00e9gia da Petrobras e da regula\u00e7\u00e3o do setor de Petr\u00f3leo e G\u00e1s. A ideia \u00e9 que a Petrobras tem que trabalhar com uma l\u00f3gica de empresa privada. Isso significa maximizar os lucros para os acionistas. A preocupa\u00e7\u00e3o social n\u00e3o passaria pela Petrobras, nem a quest\u00e3o do crescimento econ\u00f4mico, nem a quest\u00e3o de controle de pre\u00e7os, nem a quest\u00e3o inflacion\u00e1ria.\u201d<\/p>\n<blockquote><p><em><strong>A partir de 2016, vem uma mudan\u00e7a profunda, com o argumento de que o pr\u00e9-sal \u00e9 invi\u00e1vel e que temos que diminuir custos.<\/strong><\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Eduardo Costa ressalta que o movimento veio acompanhado de uma diminui\u00e7\u00e3o no refino e de aumento na exporta\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo cru. Ou seja, o Brasil est\u00e1 vendendo mais a mat\u00e9ria-prima e produzindo menos o produto final.<\/p>\n<p>\u201cCom a descoberta do pr\u00e9-sal e com a mudan\u00e7a da pol\u00edtica de conte\u00fado nacional \u2013 que obrigava a Petrobras a comprar equipamento de empresas nacionais \u2013 criou-se um instrumento de incentivo \u00e0 ind\u00fastria brasileira. O pa\u00eds tinha uma estrat\u00e9gia de estimular investimento, expandir a Petrobras para diversas \u00e1reas e integrar ainda mais a Petrobras. S\u00e3o caracter\u00edsticas das grandes empresas do setor. A partir de 2016, vem uma mudan\u00e7a profunda, com o argumento de que o pr\u00e9-sal \u00e9 invi\u00e1vel e que temos que diminuir custos. Foram reduzidos os impostos sobre os bens de capital importados, foi reduzido o conte\u00fado local e a Petrobras deixou de ser operadora \u00fanica. Com isso, a Petrobras se configura e se articula em um cen\u00e1rio em que ela precisa maximizar lucros. \u00c9 uma estrat\u00e9gia de encolher a empresa, gerar caixa no curto prazo e dar mais receita para os acionistas.\u201d<\/p>\n<p>O economista explica como essa mudan\u00e7a de direcionamento acaba no bolso do consumidor.<\/p>\n<p>\u201cNesse momento a empresa deixou de ter a face social e estatal, para ter apenas uma face privada. E \u00a0o que ela faz? Ela exerce seu poder de mercado de forma plena. Uma empresa que det\u00e9m mais de 90% do mercado de derivados! Ela cobra o maior pre\u00e7o poss\u00edvel e tem o maior lucro poss\u00edvel em detrimento dos consumidores. Uma estrat\u00e9gia que beneficia os acionistas. Usa-se o argumento de que a empresa est\u00e1 quebrada, mas \u00e9 uma mentira. Temos estudos no Ineep que indicam que \u00e9 poss\u00edvel reduzir os pre\u00e7os e aumentar o investimento, basta manter o n\u00edvel atual de endividamento que n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o grande assim. A greve dos Petroleiros passa por uma discuss\u00e3o sobre o papel da Petrobras no desenvolvimento nacional e no projeto de autonomia do Brasil. A greve \u00e9 tamb\u00e9m sobre o bolso dos Brasileiros!\u201d<\/p>\n<figure style=\"width: 550px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/img.brasildefato.com.br\/media\/a5137b3676386d6932b4749fbfbb0764.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"748\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Defesa hist\u00f3rica: Panfleto do de 1950 em favor da campanha O Petr\u00f3leo \u00e9 Nosso.\u00a0\u00a0\/ CPDOC\/ FGV<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Fatiamento<\/strong><\/p>\n<p>Em mais de uma ocasi\u00e3o, o secret\u00e1rio especial de Desestatiza\u00e7\u00e3o, Desinvestimentos e Mercados do governo Bolsonaro, Salim Mattar, afirmou que a Petrobr\u00e1s n\u00e3o est\u00e1 nos planos imediatos de privatiza\u00e7\u00e3o da gest\u00e3o atual. \u00a0Nesta semana, durante um evento de um banco de investimentos privado, ele declarou, referindo-se tamb\u00e9m ao Banco do Brasil e \u00e0 Caixa Econ\u00f4mica Federal: \u201cVamos vender tudo o que \u00e9 poss\u00edvel, e deixar essas empresas para o final\u201d.<\/p>\n<p>Mesmo sem a inten\u00e7\u00e3o declarada\u00a0de desestatizar a empresa, o governo j\u00e1 deixou de ser o maior acionista da\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2019\/07\/24\/privatizacao-da-br-distribuidora-consolida-desmonte-da-petrobras\">BR Distribuidora<\/a>, que tem 30% do mercado nacional e mais de oito mil postos espalhados por todo o pa\u00eds. Em janeiro o BNDES anunciou oferta p\u00fablica global de a\u00e7\u00f5es da Petrobras, para interessados brasileiros e estrangeiros.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a Estatal encerrou suas atividades no continente africano e est\u00e1 em pleno processo de venda de diversas refinarias. Um dos argumentos \u00e9 que a participa\u00e7\u00e3o da iniciativa privada vai gerar redu\u00e7\u00e3o de pre\u00e7os. Eduardo Costa Pinto diz rebate a explica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cAs refinarias que est\u00e3o a venda, por exemplo, s\u00e3o distantes umas das outras e n\u00e3o concorrem entre si. Voc\u00ea est\u00e1 transformando um monop\u00f3lio estatal em um monop\u00f3lio privado e sem regula\u00e7\u00e3o. Os pre\u00e7os tendem a ficar iguais ou aumentar. Claro que n\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel controlar esses pre\u00e7os no setor privado. \u00c9 um completo desmonte do setor, que vai beneficiar os acionistas e vai prejudicar a popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 no bolso, mas tamb\u00e9m na gera\u00e7\u00e3o de emprego e renda. Porque hoje\u00a0a Petrobr\u00e1s j\u00e1 est\u00e1 cada vez mais importando plataformas da China e da Mal\u00e1sia e gerando empregos no exterior&#8221;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\"><strong>Debate hist\u00f3rico<\/strong><\/p>\n<figure style=\"width: 640px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/img.brasildefato.com.br\/media\/87c7f2a35d648281055530750b2141c7.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"480\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Solenidade de assinatura do decreto que criou a Petrobras \/ CPDOC\/ FGV<\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"ckeditor-img-caption\">A pol\u00eamica de ideologias em torno da explora\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo no Brasil \u00e9 antiga e come\u00e7ou antes mesmo da funda\u00e7\u00e3o da Petrobras. Material vasto do Centro de Pesquisa e Documenta\u00e7\u00e3o da Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas mostra quem, em\u00a01927, o Congresso j\u00e1 discutia um projeto de lei que tinha como ponto chave a garantia de que \u201cas jazidas de petr\u00f3leo n\u00e3o podem pertencer a estrangeiros, nem ser por eles exploradas.\u201d.<\/p>\n<p>A partir da d\u00e9cada de 1930, o governo brasileiro ampliou a tend\u00eancia de legislar sobre a explora\u00e7\u00e3o das riquezas minerais em nome dos interesses da Uni\u00e3o. O Departamento Nacional da Produ\u00e7\u00e3o Mineral passou a ser respons\u00e1vel por comandar as iniciativas de pesquisas sobre petr\u00f3leo.<\/p>\n<p>Por alguns anos, o poder p\u00fablico foi acusado por personalidades pol\u00edticas e pela m\u00eddia de tentar fazer reserva de mercado e n\u00e3o ter a real inten\u00e7\u00e3o de desenvolvimento tecnol\u00f3gico. Em 1937, ficou definido constitucionalmente que a concess\u00e3o de jazidas s\u00f3 poderia ser feita a empresas constitu\u00eddas por acionistas brasileiros.\u00a0Com a cria\u00e7\u00e3o do Conselho Nacional do Petr\u00f3leo, em 1938, o abastecimento nacional foi declarado utilidade p\u00fablica, inclusive com foco espec\u00edfico para o refino.<\/p>\n<p>O debate sobre estatizar ou n\u00e3o o setor permeou a cria\u00e7\u00e3o do Estatuto do Petr\u00f3leo, na d\u00e9cada de 1940, impulsionou a campanha \u201cO petr\u00f3leo \u00e9 nosso\u201d e a cria\u00e7\u00e3o da Petrobr\u00e1s.\u00a0Guardadas as propor\u00e7\u00f5es de cada \u00e9poca, as discuss\u00f5es sempre estiveram divididas entre os que defendiam a autonomia do pa\u00eds nos setores de combust\u00edveis e energia e os que diziam que o Brasil n\u00e3o tinha capacidade de investir em tecnologia e deveria atrair empresas estrangeiras para o setor.<\/p>\n<p>De sua cria\u00e7\u00e3o at\u00e9 hoje, a Petrobras se tornou a maior empresa do pa\u00eds e uma das maiores do mundo. Agora enfrenta um novo momento cr\u00edtico, mas ainda em meio \u00e0 mesma matriz da\u00a0discuss\u00e3o que se arrasta h\u00e1 quase um s\u00e9culo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Segundo especialista, &#8220;l\u00f3gica privada&#8221; e \u201cfatiamento\u201d da empresa trar\u00e3o repercuss\u00f5es negativas a toda a cadeia produtiva A Petrobras est\u00e1 encolhendo, mas o\u00a0lucro\u00a0dos acionistas segue em sentido contr\u00e1rio.\u00a0Para o consumidor final, os pre\u00e7os do combust\u00edvel e do g\u00e1s de cozinha est\u00e3o cada vez mais altos. 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