{"id":12960,"date":"2020-03-18T16:18:31","date_gmt":"2020-03-18T19:18:31","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/?p=12960"},"modified":"2020-03-18T16:18:31","modified_gmt":"2020-03-18T19:18:31","slug":"sem-escolha-trabalhadores-mantem-rotina-na-epidemia-de-coronavirus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/2020\/03\/18\/sem-escolha-trabalhadores-mantem-rotina-na-epidemia-de-coronavirus\/","title":{"rendered":"Sem escolha, trabalhadores mant\u00eam rotina na epidemia de coronav\u00edrus"},"content":{"rendered":"<p><strong>Apesar dos apelos de \u00f3rg\u00e3os de sa\u00fade para que as pessoas fiquem em casa, maioria n\u00e3o tem essa op\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>S\u00e3o Paulo \u2013 Teresinha dos Santos tem 67 anos. H\u00e1 30, trabalha com seu marido, Francisco, de 69 anos, em feiras livres da zona norte da capital paulista. Vendem cebola, alho e temperos. A chegada da epidemia de coronav\u00edrus ao Brasil assustou a trabalhadora, mas ela \u00e9 categ\u00f3rica: \u201cEntre o risco de pegar a doen\u00e7a e passar necessidade, voc\u00ea acha que a gente pode escolher?\u201d.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o de milh\u00f5es de brasileiros que n\u00e3o podem deixar sua rotina de trabalho para atender \u00e0 determina\u00e7\u00e3o dos governos de evitar contato social, sejam eles trabalhadores informais ou com carteira assinada.<\/p>\n<p>A base da renda de Teresinha \u00e9 tirada na feira. Como ela n\u00e3o produz os temperos, compra de terceiros para revender. Outra parte vem das aposentadorias de um sal\u00e1rio m\u00ednimo, tanto dela como do marido.<\/p>\n<p>\u201cA gente toma rem\u00e9dio, tem que pagar \u00e1gua, luz, comer, vestir. Pode ser s\u00f3 n\u00f3s dois, tem gente que acha que \u00e9 muito, mas as coisas n\u00e3o est\u00e3o f\u00e1ceis. Se a gente deixar de vir quatro vezes, perdemos nosso ponto. A gente vai cuidando, usa luvas, mas \u00e9 o que podemos fazer\u201d, explicou a feirante, que n\u00e3o tem sequer como lavar as m\u00e3os constantemente no local.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o dos camel\u00f4s n\u00e3o \u00e9 diferente. Adilson Ara\u00fajo mant\u00e9m ponto no Viaduto do Ch\u00e1, na regi\u00e3o central, justamente pelo movimento de pessoas. Mesmo assim, consegue de R$ 40 a R$ 60 por dia, o que exige que ele trabalhe de at\u00e9 10 horas por dia, de segunda a s\u00e1bado, para manter a fam\u00edlia.<\/p>\n<h2>O pequeno com a av\u00f3<\/h2>\n<p>A mulher de Adilson, Andreia, trabalha como costureira e tamb\u00e9m n\u00e3o pode manter quarentena. \u201cEla ganha por produ\u00e7\u00e3o, n\u00e3o pode parar nenhum dia, n\u00e3o. Tem esse v\u00edrus a\u00ed, mas as contas continuam chegando, tem aluguel, tem mercado. Se o governo n\u00e3o apoia a gente, n\u00e3o tem como ficar sem trabalhar\u201d, diz Adilson.<\/p>\n<p>Pais de um garoto de 6 anos, Adilson e Andreia novamente foram obrigados a passar por cima das recomenda\u00e7\u00f5es dos \u00f3rg\u00e3os de sa\u00fade. Com as aulas suspensas, o pequeno est\u00e1 ficando com a av\u00f3. \u201cSe n\u00e3o fosse ela seria outra parente. Como que a gente vai pagar algu\u00e9m? Mas a verdade \u00e9 que antes de pararem as aulas, ele j\u00e1 ficava com a av\u00f3 todos os dias, depois da escola. Porque a gente est\u00e1 trabalhando. A gente torce para n\u00e3o acontecer nada\u201d, afirma o camel\u00f4.<\/p>\n<p>Moradores da Penha, na zona leste, ambos seguem utilizando o transporte coletivo para ir ao trabalho. Ele no centro, ela no Br\u00e1s. O dinheiro curto n\u00e3o permite a compra cont\u00ednua de \u00e1lcool gel. Adilson depende dos com\u00e9rcios da regi\u00e3o central para lavar as m\u00e3os, j\u00e1 que seu trabalho \u00e9 na rua. \u201cMedo a gente tem. Mas se eu n\u00e3o for trabalhar, vou ter outros problemas. O governo n\u00e3o ajuda ningu\u00e9m, s\u00f3 as empresas\u201d, criticou o ambulante.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 semelhante para trabalhadores de aplicativos, como Uber e Ifood, bem como das trabalhadoras dom\u00e9sticas diaristas, que dependem do trabalho di\u00e1rio para ter renda. Trabalhadores da \u00e1rea da cultura tamb\u00e9m est\u00e3o pedindo que sejam mantidos os repasses de recursos de editais e a libera\u00e7\u00e3o de fundos para garantir a sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p>No Rio de Janeiro, um dos pedidos \u00e9 que seja garantida desonera\u00e7\u00e3o dos impostos para os espa\u00e7os culturais por um per\u00edodo determinado, at\u00e9 que as atividades possam ser retomadas.<\/p>\n<h2>Como n\u00e3o sair de casa?<\/h2>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o deles \u00e9 um retrato do pa\u00eds que investiu na destrui\u00e7\u00e3o dos direitos trabalhistas, o que n\u00e3o resolveu o problemas do alto desemprego. Atualmente, quase\u00a0<a href=\"https:\/\/www.redebrasilatual.com.br\/economia\/2020\/02\/informalidade-alta-taxa-desemprego\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"12 milh\u00f5es de pessoas est\u00e3o desempregadas (abre numa nova aba)\">12 milh\u00f5es de pessoas est\u00e3o desempregadas<\/a>, e 41% dos trabalhadores ativos est\u00e3o na informalidade, sem garantia trabalhista para enfrentar a epidemia de coronav\u00edrus. Um trabalhador com carteira assinada que contraia a doen\u00e7a tem direito a afastamento por at\u00e9 14 dias, sem perda na renda. Se precisar de mais tempo, a seguridade social passa a garanti-lo. Os informais est\u00e3o por conta pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>Desde o in\u00edcio da contamina\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria \u2013 quando pessoas que n\u00e3o viajaram a locais de risco se contaminam entre si \u2013 a\u00a0<a href=\"https:\/\/www.redebrasilatual.com.br\/saude-e-ciencia\/2020\/03\/coronavirus-medidas-sbi\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"Sociedade Brasileira de Infectologia (abre numa nova aba)\">Sociedade Brasileira de Infectologia<\/a>\u00a0recomendou \u00e0s pessoas que fiquem em casa e \u00e0s empresas que adotem o trabalho remoto, quando poss\u00edvel, ou estabele\u00e7am turno alternados para reduzir a aglomera\u00e7\u00e3o de pessoas. Mas a medida \u00e9 volunt\u00e1ria e n\u00e3o foi seguida de qualquer pol\u00edtica de apoio aos trabalhadores informais, seja no \u00e2mbito estadual ou no federal. Atualmente, existem 234 casos confirmados no pa\u00eds, a maioria em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>As condi\u00e7\u00f5es dos trabalhadores formais, no entanto, n\u00e3o s\u00e3o muito melhores. Sem obriga\u00e7\u00e3o de as empresas deixarem seus funcion\u00e1rios em trabalho remoto, quando poss\u00edvel, a maior parte das empresas segue funcionando normalmente. A operadora de caixa Viviane Costa e o marido dela, Jefferson Matos, trabalham com carteira assinada, mas n\u00e3o houve qualquer a\u00e7\u00e3o das empresas para reduzir o risco de contamina\u00e7\u00e3o. \u201cA gente est\u00e1 trabalhando normalmente. N\u00e3o mudou nada. S\u00f3 falaram para a gente cuidar da higiene, mas muitas vezes eu fico horas sem poder sair do caixa\u201d, afirmou. Jefferson teve a agenda de visitas mantida.<\/p>\n<h2>Coronav\u00edrus x trabalho<\/h2>\n<p>Para esses trabalhadores, o fantasma do desemprego \u00e9 tamb\u00e9m um fator determinante para que a seguran\u00e7a contra o coronav\u00edrus fique em segundo plano. \u201cNossa filha est\u00e1 sem aula e est\u00e1 com a av\u00f3. Nossa rotina n\u00e3o foi alterada no trabalho e n\u00e3o podemos arriscar perder o emprego. J\u00e1 est\u00e3o falando que se o governo mandar ficar em casa, vai fechar o mercado (onde ela trabalha)\u201d, diz Viviane.<\/p>\n<p>Nesta semana, a rede Cinemark anunciou um programa de demiss\u00f5es volunt\u00e1rias ap\u00f3s os governos do Rio de Janeiro e de S\u00e3o Paulo determinarem o fechamento de cinemas por tempo indeterminado por conta da epidemia de coronav\u00edrus. Outras empresas amea\u00e7am seguir o mesmo caminho e cobram ajuda dos governos.<\/p>\n<p>Para o m\u00e9dico infectologista Marcos Caseiro, os empres\u00e1rios precisam ter consci\u00eancia que \u00e9 preciso parar. \u201cTem que parar tudo, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 escola, universidades. O que precisaria fazer para conter a transmiss\u00e3o \u00e9 parar geral. Isso parece ser uma a\u00e7\u00e3o muito radical, absurda, mas \u00e9 a \u00fanica medida que se mostrou eficaz em outros lugares do mundo.<\/p>\n<p>O momento \u00e9 de tentar uma alternativa para as pessoas fazerem suas atividades em casa, evitando ao m\u00e1ximo as aglomera\u00e7\u00f5es. Na impossibilidade total, se houver trabalhadores que a presen\u00e7a f\u00edsica \u00e9 inevit\u00e1vel, que ele garanta total assepsia, com \u00e1lcool gel para o indiv\u00edduo utilizar o dia inteiro, jamais um indiv\u00edduo sintom\u00e1tico ir trabalhar\u201d, afirmou, em entrevista \u00e0\u00a0<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=OPs8k8Aj4XE\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"R\u00e1dio Brasil Atual (abre numa nova aba)\">R\u00e1dio Brasil Atual<\/a>.<\/p>\n<h2>Apelo ao bom senso<\/h2>\n<p>Com base nessa necessidade contra a epidemia de coronav\u00edrus, as centrais sindicais brasileiras publicaram ontem (16)\u00a0<a href=\"https:\/\/admin.cut.org.br\/system\/uploads\/ck\/Nota%20Centrais%20coronavirusvf.pdf.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"um documento (abre numa nova aba)\">documento<\/a>\u00a0onde apresentam propostas para proteger os trabalhadores do coronav\u00edrus, garantindo emprego e renda, tanto para os formais quanto os informais. A principal \u00e9 garantir que todas as pessoas tenham acesso \u00e0 renda durante o per\u00edodo de crise, providenciando apoio pela seguridade social, o seguro-desemprego, a assist\u00eancia social, o Bolsa Fam\u00edlia, entre outros.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, as centrais defendem que, no per\u00edodo de redu\u00e7\u00e3o da circula\u00e7\u00e3o, devem ser fomentadas jornadas de trabalho com hor\u00e1rios de entrada e sa\u00edda alternativos, que evitem circula\u00e7\u00e3o no transporte p\u00fablico em hor\u00e1rios de pico, e estabelecer medidas tempor\u00e1rias como o home office. Tamb\u00e9m pedem que sejam consideradas faltas justificadas aquelas realizadas pelos trabalhadores que n\u00e3o tiverem com quem deixar os filhos de at\u00e9 12 anos, por conta da suspens\u00e3o das atividades escolares, o pagamento de aux\u00edlio creche no valor de um sal\u00e1rio m\u00ednimo para contrata\u00e7\u00e3o de um cuidador para as crian\u00e7as e extens\u00e3o das licen\u00e7as-maternidade.<\/p>\n<p>\u201cOs trabalhadores informais\/conta pr\u00f3pria que sofrerem quebra de atividade durante a redu\u00e7\u00e3o da circula\u00e7\u00e3o de pessoas ou no caso em que seja definido per\u00edodo de confinamento geral da popula\u00e7\u00e3o; ou, ainda, que necessitem se afastar do trabalho para os cuidados com as crian\u00e7as em recesso escolar ter\u00e3o apoio financeiro atrav\u00e9s da Seguridade Social, com valores definidos conforme as regras do seguro desemprego, atrav\u00e9s dos mecanismos dispon\u00edveis na seguridade social. Para os informais sem contribui\u00e7\u00e3o previdenci\u00e1ria, deve-se implementar programas da seguridade, tais como o Benef\u00edcio de Presta\u00e7\u00e3o Continuada, o Bolsa Fam\u00edlia ou programas similares ao seguro-defeso\u201d, defendem as centrais.<\/p>\n<p>www.redebrasilatual.com.br<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Apesar dos apelos de \u00f3rg\u00e3os de sa\u00fade para que as pessoas fiquem em casa, maioria n\u00e3o tem essa op\u00e7\u00e3o S\u00e3o Paulo \u2013 Teresinha dos Santos tem 67 anos. H\u00e1 30, trabalha com seu marido, Francisco, de 69 anos, em feiras livres da zona norte da capital paulista. Vendem cebola, alho e temperos. 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