{"id":13110,"date":"2020-03-25T17:04:38","date_gmt":"2020-03-25T20:04:38","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/?p=13110"},"modified":"2020-03-25T17:05:54","modified_gmt":"2020-03-25T20:05:54","slug":"a-carteira-de-trabalho-como-alvo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/2020\/03\/25\/a-carteira-de-trabalho-como-alvo\/","title":{"rendered":"A Carteira de Trabalho como alvo"},"content":{"rendered":"<p class=\"bloco-chamada\"><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-12451 alignright\" src=\"https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/systemuploadsnews2e6056e3e51b298869e-700x460xfit-39c11-300x197.jpg\" alt=\"\" width=\"365\" height=\"240\" srcset=\"https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/systemuploadsnews2e6056e3e51b298869e-700x460xfit-39c11-300x197.jpg 300w, https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/systemuploadsnews2e6056e3e51b298869e-700x460xfit-39c11.jpg 700w\" sizes=\"auto, (max-width: 365px) 100vw, 365px\" \/>As idas e vindas de uma jovem rep\u00f3rter para conseguir o documento, enquanto direitos trabalhistas s\u00e3o cada vez mais amea\u00e7ados pelas medidas de Bolsonaro e pela crise, em meio \u00e0 epidemia de coronav\u00edrus<\/strong><\/p>\n<div class=\"post-inner\">\n<p>Em plena pandemia de coronav\u00edrus, um emprego com carteira de trabalho assinada \u00e9 a seguran\u00e7a que resta aos cerca de 33,7 milh\u00f5es de trabalhadores formais do setor privado no Brasil. Mas nem isso parece suficiente, j\u00e1 que o governo vai e vem com planos para cortar direitos garantidos por leis trabalhistas. Na noite do \u00faltimo domingo (22), o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) publicou a Medida Provis\u00f3ria 927, autorizando a suspens\u00e3o de contratos de trabalho por at\u00e9 quatro meses \u2013 sem pagamento de sal\u00e1rio. O texto tamb\u00e9m mencionava uma ajuda compensat\u00f3ria, com valor definido livremente entre empregado e empregador. Duramente criticado, Bolsonaro se viu for\u00e7ado a recuar e revogou o pol\u00eamico artigo. Mas a sensa\u00e7\u00e3o de instabilidade permanece. Em janeiro deste ano, a emiss\u00e3o de carteiras de trabalho f\u00edsicas caiu 44% em rela\u00e7\u00e3o ao mesmo m\u00eas de 2019 e 47% em rela\u00e7\u00e3o a janeiro de 2018. Assim como muitos brasileiros, passei os meses de fevereiro e mar\u00e7o tentando tirar uma carteira para o primeiro emprego.<\/p>\n<p><b>Ter\u00e7a-feira, 11 de fevereiro<\/b><\/p>\n<p>Era um dia chuvoso e fiz chocolate quente para acompanhar a transmiss\u00e3o da CPMI das Fake News. Eu assistia ao depoente Hans River mentir na TV C\u00e2mara quando meu celular tocou. Era a editora do site da revista\u00a0<b>piau\u00ed<\/b>\u00a0me dando boas not\u00edcias \u2013 eu tinha conseguido a vaga de est\u00e1gio. Respirei fundo e alcancei o peda\u00e7o de papel mais pr\u00f3ximo para anotar os documentos que precisaria levar \u00e0 reda\u00e7\u00e3o no dia seguinte. Entre eles, minha carteira de trabalho. Mas eu n\u00e3o tinha carteira de trabalho.<\/p>\n<p>Na procura por poss\u00edveis est\u00e1gios, durante todo o m\u00eas de janeiro eu tinha tentado agendar pelo site do Minist\u00e9rio do Trabalho um hor\u00e1rio para emiss\u00e3o da carteira de trabalho f\u00edsica. O Minist\u00e9rio do Trabalho foi extinto em 2019 por Bolsonaro e incorporado ao Minist\u00e9rio da Economia com o nome de Secretaria de Trabalho, mas, no site de agendamento, o velho nome se mant\u00e9m. Nos postos pr\u00f3ximos \u00e0 minha casa, em S\u00e3o Jo\u00e3o de Meriti, na Baixada Fluminense, n\u00e3o havia hor\u00e1rio dispon\u00edvel. Baixei o aplicativo do governo federal e tirei uma carteira de trabalho digital, sem entender direito como ela funcionaria. Com o resultado positivo da sele\u00e7\u00e3o de est\u00e1gio, decidi tirar tamb\u00e9m a carteira de trabalho f\u00edsica. N\u00e3o demorou muito at\u00e9 eu perceber que isso n\u00e3o seria nada simples.<\/p>\n<p><b>Quarta-feira, 12 de fevereiro<\/b><\/p>\n<p>Eu deveria estar na reda\u00e7\u00e3o da revista \u00e0s 15 horas com todos os documentos, incluindo a carteira de trabalho que eu n\u00e3o tinha. Sem hor\u00e1rio agendado, acordei cedo para ir \u00e0 ag\u00eancia regional do Minist\u00e9rio do Trabalho em S\u00e3o Jo\u00e3o de Meriti \u2013 que mant\u00e9m a placa com o antigo nome e assim \u00e9 chamado por funcion\u00e1rios e cidad\u00e3os.\u00a0 Imaginei que, se eu explicasse a urg\u00eancia, algu\u00e9m pudesse me ajudar. A ag\u00eancia tem tr\u00eas guich\u00eas e uma pequena sala improvisada com divis\u00f3rias de pl\u00e1stico. Divide com outros \u00f3rg\u00e3os federais e estaduais o espa\u00e7o do Rio Poupa Tempo da Baixada, em S\u00e3o Jo\u00e3o.<\/p>\n<p>O vaiv\u00e9m constante de pessoas e documentos, as longas filas de retirada de senhas para diversos servi\u00e7os, mais filas para a chamada das senhas\u00a0\u2013\u00a0tudo no Poupa Tempo me dava a sensa\u00e7\u00e3o de que eu passaria horas naquele lugar. Mas, apesar das filas por todo lado, as cadeiras em frente ao balc\u00e3o destinado \u00e0 emiss\u00e3o de carteiras de trabalho estavam vazias. O monitor para chamar as senhas mal era utilizado. Primeiro achei estranho. Depois, que talvez fosse meu dia de sorte. Logo descobri que os guich\u00eas n\u00e3o estavam vazios porque o servi\u00e7o se tornara eficiente, e sim porque a emiss\u00e3o de carteiras de trabalho estava parada. \u201cEstamos sem papel\u201d, disse o atendente.<\/p>\n<p>O papel em quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um papel qualquer, mas a folha em que s\u00e3o impressos os dados do trabalhador. Ele chega at\u00e9 os postos em lotes espec\u00edficos e tem de ser anexado \u00e0 carteira, tornando-se a primeira p\u00e1gina do documento. \u00c9 um procedimento de seguran\u00e7a usado para evitar fraudes na documenta\u00e7\u00e3o. O problema \u00e9 que, se esse papel estiver em falta, as carteiras n\u00e3o podem ser emitidas. \u201cPara finalizar a emiss\u00e3o, a gente depende desse papel, que vem da Casa da Moeda\u201d, disse Sebasti\u00e3o Sim\u00f5es, servidor do Minist\u00e9rio das Cidades emprestado h\u00e1 dez anos ao antigo Minist\u00e9rio do Trabalho. \u201cComo eles est\u00e3o em greve na Casa da Moeda, n\u00e3o temos nem previs\u00e3o de quando o servi\u00e7o vai voltar.\u201d<\/p>\n<p>Primeiro me desesperei com a minha situa\u00e7\u00e3o. Depois, com a situa\u00e7\u00e3o de todas as outras pessoas que precisavam da carteira de trabalho f\u00edsica. Perguntei desde quando o tal papel estava em falta e quantas pessoas seriam afetadas. Sim\u00f5es disse que n\u00e3o podia me dar informa\u00e7\u00f5es \u201cconfidenciais\u201d sem a autoriza\u00e7\u00e3o do chefe da ag\u00eancia federal, Rodrigo Souza, que tinha faltado naquele dia. O m\u00e1ximo que eu poderia fazer era cadastrar meus dados e esperar. No protocolo, a data prevista para a entrega era dia 17 de fevereiro, cinco dias depois. Sim\u00f5es j\u00e1 foi logo dizendo que o prazo n\u00e3o era certo. \u201cVai ligando para saber se a carteira est\u00e1 pronta\u201d, recomendou.<\/p>\n<p>Cheguei \u00e0 reda\u00e7\u00e3o da\u00a0<b>piau\u00ed\u00a0<\/b>para o est\u00e1gio. Soube que a carteira digital poderia ser usada para a contrata\u00e7\u00e3o e tive a primeira reuni\u00e3o com os editores. Mencionei a falta de papel para as carteiras f\u00edsicas e descobri que o que parecia um problema pessoal era uma pauta. Minha primeira tarefa foi ir atr\u00e1s de respostas para o sumi\u00e7o do papel. Meus dias viraram uma saga tentando juntar pontas soltas e informa\u00e7\u00f5es contradit\u00f3rias.<\/p>\n<p><b>Segunda-feira, 17 de fevereiro\u00a0<\/b><\/p>\n<p>Cheguei \u00e0 ag\u00eancia para retirar a carteira no dia marcado. Sim\u00f5es, que havia me atendido da \u00faltima vez, conversava com duas mulheres em frente ao balc\u00e3o. Veio falar comigo e seu rosto de repente ficou s\u00e9rio. N\u00e3o havia sinal do papel. Nem do chefe da ag\u00eancia, que dessa vez tinha ido ao m\u00e9dico. Expliquei que eu era jornalista e pretendia escrever uma mat\u00e9ria sobre a falta de papel. Sim\u00f5es me levou \u00e0 sala improvisada, onde estava outra servidora, para tentar me explicar melhor que diabos estava acontecendo. Eles abriram um grande arm\u00e1rio e dali retiraram uma carteira de trabalho. Mostraram como, antes da primeira p\u00e1gina, h\u00e1 um espa\u00e7o pr\u00f3prio para receber o tal papel que estava em falta. Sim\u00f5es me disse que havia trezentas pessoas na fila. \u201cS\u00f3 trezentas?\u201d, perguntou, retoricamente, a outra servidora. \u201cCom certeza tem muito mais.\u201d Mas ningu\u00e9m queria falar de n\u00fameros exatos sem a presen\u00e7a do chefe.<\/p>\n<p>Segundo eles, o papel vinha da Secretaria de Estado de Trabalho e Renda (Setrab), uma secretaria do governo do Rio de Janeiro, que por sua vez o recebia de Bras\u00edlia, da Casa da Moeda. Novamente a Casa da Moeda parecia ser o foco do problema. Eu ainda aguardava uma resposta da assessoria de imprensa do \u00f3rg\u00e3o federal, procurada no dia 14. Por e-mail, procurei tamb\u00e9m a Setrab, que\u00a0n\u00e3o tinha informa\u00e7\u00e3o ou reclama\u00e7\u00e3o de fila nas emiss\u00f5es de carteira em nenhum dos postos. Tamb\u00e9m disse que n\u00e3o era respons\u00e1vel por distribuir esse papel para as ag\u00eancias. Na verdade, quem entregava esse material era a Superintend\u00eancia Regional do Trabalho e Emprego, vinculada \u00e0 Secretaria de Trabalho e, em resumo, ao Minist\u00e9rio da Economia.<\/p>\n<p>A Secretaria de Trabalho \u2013 vinculada ao Minist\u00e9rio da Economia \u2013 tamb\u00e9m disse n\u00e3o ter conhecimento sobre a falta de papel. Por telefone, a assessoria informou que o plano do governo federal seria acabar gradualmente com as carteiras de trabalho f\u00edsicas. Mais informa\u00e7\u00f5es s\u00f3 poderiam ser passadas atrav\u00e9s de uma solicita\u00e7\u00e3o por e-mail, enviada e nunca respondida.<\/p>\n<p><b>Ter\u00e7a-feira, 18 de fevereiro<\/b><\/p>\n<p>Finalmente recebi uma posi\u00e7\u00e3o da Casa da Moeda, a institui\u00e7\u00e3o que, at\u00e9 agora, era a chave para entender a confus\u00e3o dos pap\u00e9is. E qual n\u00e3o foi minha surpresa quando, ao ler o e-mail, descobri que eles n\u00e3o t\u00eam nada a ver com a confec\u00e7\u00e3o das carteiras de trabalho. \u201cA informa\u00e7\u00e3o de que a libera\u00e7\u00e3o de carteiras est\u00e1 atrelada a qualquer quest\u00e3o envolvendo esta empresa p\u00fablica est\u00e1 equivocada\u201d, dizia o e-mail. Fiquei imaginando de onde havia sa\u00eddo toda aquela hist\u00f3ria que culpava a Casa da Moeda pelo atraso. Talvez uma Casa da Moeda imagin\u00e1ria em S\u00e3o Jo\u00e3o de Meriti? Eu tinha voltado \u00e0 estaca zero.<\/p>\n<p><b>Quarta-feira, 19 de fevereiro<\/b><\/p>\n<p>Liguei para a ag\u00eancia de S\u00e3o Jo\u00e3o. Nada do papel nem da minha carteira de trabalho. O n\u00famero de pessoas esperando suas carteiras agora tinha subido para quinhentos, de acordo com o servidor que me atendeu. Mais uma vez, insistiram em me dizer que a greve da Casa da Moeda tinha atrasado o servi\u00e7o. \u201cMas a assessoria falou que esse papel n\u00e3o \u00e9 emitido por eles\u201d, disse eu. A voz do outro lado da linha, que n\u00e3o quis se identificar, gaguejou e se apressou em desligar o telefone. A \u00faltima recomenda\u00e7\u00e3o foi que eu deveria continuar ligando.<\/p>\n<p><b>Quinta-feira, 20 de fevereiro<\/b><\/p>\n<p>Falei com o chefe da Se\u00e7\u00e3o de Pol\u00edticas de Emprego da Superintend\u00eancia Regional do Trabalho e Emprego no Rio de Janeiro, Ricardo Leite, e finalmente descobri pistas sobre o real caminho das carteiras at\u00e9 os postos. Por telefone, Leite informou que o Minist\u00e9rio da Economia fornece os materiais \u2013 incluindo o papel \u2013 para a Superintend\u00eancia Regional, que faz a distribui\u00e7\u00e3o nos postos locais do Minist\u00e9rio. L\u00e1, as carteiras s\u00e3o confeccionadas com os dados de cada cidad\u00e3o. Leite disse que, segundo informa\u00e7\u00f5es repassadas a ele, a falta do papel no Poupa Tempo da Baixada s\u00f3 tinha durado um dia. Mas eu j\u00e1 estava havia mais de uma semana esperando minha carteira. Segundo ele, se tratava de um problema pontual e era muito simples de ser resolvido,\u00a0bastava enviar mais papel. N\u00e3o foi dif\u00edcil concordar com ele.\u00a0Leite contou que s\u00f3 fora avisado dessa situa\u00e7\u00e3o na ter\u00e7a (18) e imediatamente mandou a reposi\u00e7\u00e3o. \u201cInclusive j\u00e1 deveria ter chegado\u201d, acrescentou. \u201cTalvez depois do Carnaval.\u201d<\/p>\n<p>A carteira profissional foi criada em 1932. Em 1969, passou a se chamar carteira de trabalho e previd\u00eancia social. Tornou-se um dos documentos de refer\u00eancia do brasileiro, garantindo acesso a servi\u00e7os\u00a0como seguro-desemprego, previd\u00eancia social e FGTS.\u00a0Em 2019, foi criada a carteira de trabalho digital, que deveria substituir aos poucos o documento f\u00edsico. De acordo com a Lei da Liberdade Econ\u00f4mica, sancionada em setembro por Bolsonaro, as carteiras deveriam ser emitidas preferencialmente no meio eletr\u00f4nico. Segundo Leite, as empresas j\u00e1 podem contratar sem a carteira f\u00edsica, usando apenas o documento digital, dispon\u00edvel em aplicativo do governo federal. \u201cEstamos na fase de enterrar as carteiras f\u00edsicas\u201d, disse. Mas explicou que, no momento, n\u00e3o h\u00e1 planos de extinguir de vez a emiss\u00e3o do documento, j\u00e1 que as pessoas ainda solicitam o servi\u00e7o. Leite afirmou que, enquanto houver demanda, haver\u00e1 carteira f\u00edsica. Para ele, a transi\u00e7\u00e3o do meio f\u00edsico para o digital vir\u00e1 com o tempo. \u201cAssim que empregados e empregadores perceberem que n\u00e3o precisam mais do documento f\u00edsico, v\u00e3o naturalmente parar de solicitar novas carteiras\u201d, completou. No Rio de Janeiro, o enterro da carteira de trabalho f\u00edsica ainda n\u00e3o tem data marcada.<\/p>\n<p><b>Sexta-feira, 21 de fevereiro<\/b><\/p>\n<p>Era sexta-feira de Carnaval quando liguei para a ag\u00eancia regional de S\u00e3o Jo\u00e3o. Minha carteira estava pronta, e Sim\u00f5es me avisou que eu j\u00e1 poderia busc\u00e1-la. Mas o papel ainda n\u00e3o havia chegado. \u201cNada\u201d, disse ele, \u201cdeve ter ainda umas quinhentas carteiras na fila.\u201d Como a minha carteira de trabalho ficou pronta sem papel \u00e9 um mist\u00e9rio que n\u00e3o conseguiram explicar. O chefe dessa vez estava de f\u00e9rias, e Sebasti\u00e3o desligou o telefone sem que eu pudesse fazer mais perguntas.<\/p>\n<p><b>Ter\u00e7a-feira, 3 de mar\u00e7o<\/b><\/p>\n<p>Cheguei ao Poupa Tempo de S\u00e3o Jo\u00e3o de Meriti para buscar a carteira. Mas dois seguran\u00e7as bloqueavam a entrada, e um aviso colado na porta de vidro informava que a unidade estava fechada por causa de problemas administrativos com o governo do Rio. Outras unidades do Rio Poupa Tempo \u2013 Caxias e Bangu \u2013 estavam na mesma situa\u00e7\u00e3o. Quem tinha hor\u00e1rio agendado para qualquer servi\u00e7o deveria tentar reagendamento em outro posto. Quem iria buscar o documento pronto n\u00e3o tinha o que fazer. Era o meu caso. Mas tamb\u00e9m o de Diva Maria Gomes, que fora buscar a carteira de identidade do seu filho, Andr\u00e9 Luiz, de 42 anos. Ele perdera todos os documentos em um assalto e conseguira retirar a segunda via da maioria, menos da identidade. Conseguira um emprego e precisava do\u00a0 documento. \u201cQuem vai empregar algu\u00e9m sem identidade?\u201d, desabafou a m\u00e3e.<\/p>\n<p>As unidades do Rio Poupa Tempo paralisadas por problemas administrativos \u2013 Baixada, Bangu e Duque de Caxias \u2013 realizam cerca de 15 mil atendimentos por dia, segundo o cons\u00f3rcio respons\u00e1vel pela administra\u00e7\u00e3o. Absorvem principalmente a demanda da popula\u00e7\u00e3o da Baixada Fluminense e da Zona Oeste, como Francisco Souza, de 22 anos, morador de Nova Igua\u00e7u. Ele estava no Poupa Tempo de S\u00e3o Jo\u00e3o de Meriti para dar entrada no aux\u00edlio-desemprego. S\u00f3 tinha conseguido vaga l\u00e1. As portas fechadas foram um banho de \u00e1gua fria em quem j\u00e1 estava desempregado havia dois meses. \u201cVou tentar agendar de novo em outro lugar, mas n\u00e3o sei se vou conseguir\u201d, disse. A Setrab, \u00f3rg\u00e3o do governo do Rio respons\u00e1vel pela gest\u00e3o do Poupa Tempo, disse em nota que as unidades foram fechadas porque o governo atrasou o pagamento do cons\u00f3rcio que administra o servi\u00e7o. As faturas de dezembro de 2019 e janeiro de 2020 foram pagas, segundo a Setrab, no mesmo dia de minha visita, 03 de mar\u00e7o. \u201cA reabertura agora \u00e9 de inteira responsabilidade dos administradores do cons\u00f3rcio\u201d, escreveu a assessoria. Eu que esperasse.<\/p>\n<p><b>Quinta-feira, 5 de mar\u00e7o<\/b><\/p>\n<p>Entrei em contato com o Cons\u00f3rcio Central da Cidadania, que administra h\u00e1 onze anos, em regime de concess\u00e3o, os postos do Rio Poupa Tempo fechados por falta de pagamento. O cons\u00f3rcio \u00e9 respons\u00e1vel pela estrutura das unidades e pelos funcion\u00e1rios terceirizados encarregados do atendimento junto com os servidores p\u00fablicos. De acordo com a administra\u00e7\u00e3o do cons\u00f3rcio, a Setrab havia quitado no dia anterior a parcela referente ao m\u00eas de janeiro. O governo precisava pagar as d\u00edvidas anteriores, que somam mais de R$ 20 milh\u00f5es, segundo Sergio Rodrigues, presidente da empresa respons\u00e1vel pelo cons\u00f3rcio.\u00a0 Mesmo assim, afirmou que as unidades seriam reabertas no dia seguinte, para evitar que a popula\u00e7\u00e3o fosse prejudicada.<\/p>\n<p><b>Segunda-feira, 9 de mar\u00e7o\u00a0<\/b><\/p>\n<p>Cheguei ao Rio Poupa Tempo de manh\u00e3 para o derradeiro epis\u00f3dio da saga da carteira. Nos guich\u00eas, os servidores mexiam em uma pequena pilha de carteiras de trabalho espalhadas. Eles abriam e fechavam v\u00e1rios exemplares, conferindo n\u00fameros e dados. Entreguei o protocolo e disse meu nome. Depois de quase um m\u00eas, procuraram minha carteira de trabalho no arm\u00e1rio. \u201cPronto, carteira em m\u00e3os\u201d, disse o servidor. Eu mal conseguia acreditar. Por telefone, Ricardo Leite, chefe da Se\u00e7\u00e3o de Pol\u00edticas de Emprego da Superintend\u00eancia Regional do Trabalho e Emprego, disse que o problema dos pap\u00e9is j\u00e1 estava resolvido e\u00a0 o material necess\u00e1rio havia sido enviado antes do Carnaval. Mas no Poupa Tempo os servidores contaram que o papel s\u00f3 havia chegado na sexta-feira (6). De qualquer forma, a confec\u00e7\u00e3o das carteiras de trabalho havia sido retomada. Perguntei quantos exemplares haviam sido acumulados em filas de espera durante as \u00faltimas semanas. S\u00f3 quem poderia me dizer isso era o chefe da ag\u00eancia regional. Mas, de novo, ele n\u00e3o estava.<\/p>\n<p><b>Ter\u00e7a-feira, 24 de mar\u00e7o\u00a0<\/b><\/p>\n<p>O coronav\u00edrus se espalhou pelo mundo. Cidades inteiras est\u00e3o em quarentena. Pela primeira vez na hist\u00f3ria, os Jogos Ol\u00edmpicos foram adiados. No Rio, as praias est\u00e3o vazias, e eu n\u00e3o saio de casa desde o dia 16. Minha fam\u00edlia est\u00e1 com medo da doen\u00e7a chegar a S\u00e3o Jo\u00e3o de Meriti, pois sabemos que o sistema de sa\u00fade do munic\u00edpio n\u00e3o vai aguentar. A orienta\u00e7\u00e3o \u00e9 para ficar em casa. As contas continuam chegando. Uma amiga que mora em um bairro pr\u00f3ximo me avisa que a Secretaria Municipal de Ordem P\u00fablica enviou fiscais para fecharem o com\u00e9rcio em sua rua. Barbearias, armarinhos, lojas de material de constru\u00e7\u00e3o \u2013 tudo est\u00e1 sendo fechado, at\u00e9 o trailer que vende salgados. Os aut\u00f4nomos n\u00e3o sabem o que vai ser dos pr\u00f3ximos meses. Mais que nunca sentimos a import\u00e2ncia de leis trabalhistas que asseguram direitos. Mas nem isso parece ser suficiente. Na contram\u00e3o do resto do mundo, o governo brasileiro ainda n\u00e3o apresentou um plano que proteja os trabalhadores. Minha carteira de trabalho, que custou tanto para ser emitida, fica no arm\u00e1rio ao lado do meu computador. No 3\u00d74 da fotografia, vejo uma Camille preocupada, sem sorrir e com a testa levemente franzida. A pressa para tirar logo a carteira me deixou assim. Parecia um pren\u00fancio do que estava por vir.<\/p>\n<p>www.piaui.folha.uol.com.br \/\u00a0CAMILLE LICHOTTI<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As idas e vindas de uma jovem rep\u00f3rter para conseguir o documento, enquanto direitos trabalhistas s\u00e3o cada vez mais amea\u00e7ados pelas medidas de Bolsonaro e pela crise, em meio \u00e0 epidemia de coronav\u00edrus Em plena pandemia de coronav\u00edrus, um emprego com carteira de trabalho assinada \u00e9 a seguran\u00e7a que resta aos cerca de 33,7 milh\u00f5es [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":13111,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[25],"tags":[259],"class_list":["post-13110","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias","tag-desgoverno-bolsonaro"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13110","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13110"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13110\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13113,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13110\/revisions\/13113"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/13111"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13110"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13110"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13110"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}