{"id":14316,"date":"2020-05-18T16:45:44","date_gmt":"2020-05-18T19:45:44","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/?p=14316"},"modified":"2020-05-18T16:45:44","modified_gmt":"2020-05-18T19:45:44","slug":"expostos-ao-coronavirus-garis-trabalham-com-medo-tem-muito-lixo-contaminado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/2020\/05\/18\/expostos-ao-coronavirus-garis-trabalham-com-medo-tem-muito-lixo-contaminado\/","title":{"rendered":"Expostos ao coronav\u00edrus, garis trabalham com medo: &#8220;Tem muito lixo contaminado&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><strong>Servi\u00e7o prestado pelos trabalhadores da coleta de lixo se torna ainda mais essencial em meio ao combate \u00e0 covid 19<\/strong><\/p>\n<p>Ao longo dos 15 anos trabalhando como gari na cidade de S\u00e3o Paulo, Carlos N\u00e9rio Barbosa nunca imaginou que um dia sentiria tanto receio de ir para as ruas fazer a coleta de res\u00edduos. Enquanto parcela do pa\u00eds est\u00e1 em quarentena, ele faz parte dos trabalhadores de atividades essenciais que n\u00e3o puderam paralisar seus servi\u00e7os em meio \u00e0 pandemia da covid-19.<\/p>\n<p>Homenageados neste s\u00e1bado (16), Dia Gari, os trabalhadores da categoria enfrentam uma situa\u00e7\u00e3o delicada, j\u00e1 que acabam sendo mais expostos ao v\u00edrus neste momento. Seja por estarem nas ruas ou por trabalharem diretamente com a coleta de lixo nos munic\u00edpios.<\/p>\n<p>N\u00e9rio conta, em tom preocupado, que a solu\u00e7\u00e3o que encontrou foi redobrar os cuidados com a higiene e com a prote\u00e7\u00e3o: Agora, as m\u00e1scaras e o\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2020\/03\/27\/mst-produz-alcool-70-para-abastecer-centros-de-saude-em-municipio-de-sc\">\u00e1lcool gel\u00a0<\/a>acompanham as luvas, botas e uniformes usados todos os dias.<\/p>\n<p>\u201cEstamos trabalhando sim mas com medo. A popula\u00e7\u00e3o na rua ajuda a gente, d\u00e1 m\u00e1scara e tudo, d\u00e1 apoio moral. Mas t\u00e1 dif\u00edcil. Muito. Vamos pra rua, deixamos nossa fam\u00edlia em casa e voltamos daquele jeito&#8230; com medo\u201d, desabafa.<\/p>\n<p>Trabalhador contratado por uma empresa terceirizada que presta servi\u00e7os para a Prefeitura de S\u00e3o Paulo, o gari afirma que os Equipamentos de Prote\u00e7\u00e3o Individual (EPIs) est\u00e3o sendo disponibilizados da forma correta, o que alivia mas n\u00e3o some com a amea\u00e7a de ser contaminado pelo v\u00edrus.<\/p>\n<p>\u201cSa\u00edmos de casa, oramos e pedimos pra Deus pra nunca acontecer o que t\u00e1 acontecendo por a\u00ed. Mas se a gente n\u00e3o tiver na rua, \u00e9 pior. Se n\u00e3o sairmos pra coletar, como \u00e9 que vai ser? Como o pessoal vai ficar?\u201d, questiona.<\/p>\n<p>A preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 compartilhada por Valdenise Brand\u00e3o Ferreira, que trabalha h\u00e1 11 anos na \u00e1rea de limpeza urbana do Rio de Janeiro. Hoje ela atua com a revitaliza\u00e7\u00e3o de ruas e parques no bairro do Recreio, mas j\u00e1 deixou sua marca na favela da Mar\u00e9 por meio de um projeto de reforma e recupera\u00e7\u00e3o de \u00e1reas coletivas e cria\u00e7\u00e3o de jardins a partir da reciclagem, do qual muito se orgulha.<\/p>\n<p>Para combater a pandemia, o \u00e1lcool gel, a \u00e1gua e o sab\u00e3o, assim como as m\u00e1scaras individuais lav\u00e1veis, equipamentos disponibilizados pela Companhia Municipal de Limpeza Urbana (Comlurb), s\u00e3o indispens\u00e1veis em seu cotidiano. O uso, inclusive, foi determinado como obrigat\u00f3rio pela empresa durante a jornada de trabalho, que foram reduzidas para 6h.<\/p>\n<p>\u201cEu tenho medo de pegar corona em qualquer instante que eu vou na rua. Sair na rua se tornou um risco, mas temos que sair, tem que trabalhar, Quando eu saio, vou toda equipada. J\u00e1 saio com a m\u00e1scara\u201d, relata. Ela acrescenta que os garis t\u00eam higienizado escolas, ruas e \u00e1reas coletivas, visando proteger a popula\u00e7\u00e3o o m\u00e1ximo poss\u00edvel.<\/p>\n<p>A preocupa\u00e7\u00e3o de Valdenise com uma poss\u00edvel infec\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa. De acordo com dados enviados pela companhia \u00e0 reportagem do Brasil de Fato, at\u00e9 o momento, 59 trabalhadores da limpeza urbana do Rio testaram positivos para covid-19.<\/p>\n<p>A Comlurb informa ainda que h\u00e1 349 casos suspeitos de contamina\u00e7\u00e3o, 2 casos de \u00f3bito de empregados ativos e 5 casos de \u00f3bito de empregados que j\u00e1 estavam afastados do trabalho quando apresentaram sintomas. Atualmente o Rio de Janeiro \u00e9 o terceiro estado com maior n\u00famero de casos no pa\u00eds, com 19.467 pessoas infectadas.<\/p>\n<p><strong>&#8220;Ficamos ref\u00e9ns&#8221;<\/strong><\/p>\n<p>Morando no bairro do Campo Grande, zona oeste da cidade, Douglas Almeida deixa sua casa \u00e0s 3h15 da manh\u00e3 para iniciar a coleta na comunidade da Mar\u00e9 \u00e0s 6h. Ouvindo o relato do n\u00famero de mortes na favela aumentar todos os dias, ele lamenta ainda encontrar muitas pessoas desrespeitando o isolamento social.<\/p>\n<p>\u201cEstamos trabalhando com todo cuidado. M\u00e1scara, luva, lavamos a m\u00e3o, passamos \u00e1gua. E com medo tamb\u00e9m. Estamos em contato direto com o lixo e tem muito lixo contaminado. Mas as pessoas, nas comunidades, n\u00e3o respeitam a quarentena. Ficamos ref\u00e9ns. Temos que fazer o trabalho e nos proteger o m\u00e1ximo poss\u00edvel\u201d, conta ele, que trabalha h\u00e1 seis anos na coleta de lixo.<\/p>\n<p>Ainda segundo Douglas, o perigo da contamina\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda maior porque a popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem feito o descarte correto dos itens utilizados pra se proteger contra a pandemia. Ao inv\u00e9s de usar somente a luva, como normalmente \u00e9 feito, ele e seus colegas usam madeiras e outros objetos para recolher os res\u00edduos.<\/p>\n<p>\u201cEncontramos, muitas vezes, seringas e m\u00e1scaras descart\u00e1veis pelo ch\u00e3o. O lixo revirado. Ent\u00e3o temos que trabalhar com o m\u00e1ximo poss\u00edvel de aten\u00e7\u00e3o. Desde quando come\u00e7ou a pandemia, temos encontrado m\u00e1scaras, frascos de \u00e1lcool. Esse tipo de lixo aumentou muito. Descartam em qualquer lugar\u201d, critica.<\/p>\n<p>Assim como para N\u00e9rio e Valdenisa, o jovem tamb\u00e9m se adapta \u00e0 rotina de chegar em casa e se livrar da roupa antes mesmo de entrar pela porta. Sua principal preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 em evitar a infec\u00e7\u00e3o dos seus dois filhos pequenos.<\/p>\n<p>\u201cPara mim, \u00e9 um dos piores fatores do momento. Al\u00e9m de me infectar, levar pra dentro de casa. N\u00e3o d\u00e1 pra saber, os sintomas demoram pra aparecer, ainda mais pegando condu\u00e7\u00e3o e tudo mais\u201d, diz. \u201c\u00c0s vezes quando chego, meus filhos v\u00eam querer dar um beijo e n\u00e3o d\u00e1. D\u00f3i no cora\u00e7\u00e3o, mas tudo por causa dessa prote\u00e7\u00e3o. Tem que se proteger pra n\u00e3o levar pra dentro de casa e n\u00e3o se infectar. \u00c9 complicado\u201d.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images02.brasildefato.com.br\/ae2aeedeadb9dc698e6e65f77d0223f1.jpeg\" \/><\/p>\n<p><strong>Her\u00f3is an\u00f4nimos<\/strong><\/p>\n<p>Moacyr Pereira, presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Empresas de Presta\u00e7\u00e3o de Servi\u00e7os de Asseio, Conserva\u00e7\u00e3o e Limpeza Urbana de S\u00e3o Paulo (Siemaco), ressalta que os trabalhadores da categoria merecem um reconhecimento ainda maior neste momento.<\/p>\n<p>\u201cEles fazem coleta de lixo da sa\u00fade, v\u00e3o nos hospitais. Se o armazenamento de lixo n\u00e3o for bem feito, \u00e9 risco iminente de contamina\u00e7\u00e3o. E eles v\u00e3o em casas de sa\u00fade, cl\u00ednicas veterin\u00e1rias, que est\u00e3o abertas e funcionando. O material, as agulhas, t\u00eam que ser bem armazenados. Os trabalhadores de coleta de risco tem um um risco iminente de infec\u00e7\u00e3o\u201d, explica.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 o momento da popula\u00e7\u00e3o valorizar cada vez mais o trabalho desse pessoal. Eles est\u00e3o ajudando a salvar vidas. Todos os trabalhadores essenciais\u201d, defende o sindicalista.<\/p>\n<p>Pereira comemora que, em meio ao cen\u00e1rio preocupante, via de regra, as empresas est\u00e3o fornecendo os EPIs aos trabalhadores. \u201cNo come\u00e7o foi dif\u00edcil pela dificuldade de demanda do mercado, mas hoje, pelo que chegou ao meu conhecimento, n\u00e3o tive informa\u00e7\u00f5es que as empresas n\u00e3o est\u00e3o respeitando o direito dos trabalhadores e n\u00e3o fornecendo EPI\u201d.<\/p>\n<p>O Siemaco solicitou dados sobre trabalhadores da limpeza urbana infectados pela covid-19 ao Sindicato das Empresas de Limpeza Urbana no Estado de SP (Selur) mas ainda n\u00e3o recebeu retorno.<\/p>\n<p>A reportagem do Brasil de Fato, por sua vez, questionou a Autoridade Municipal de Limpeza Urbana (Amlurb) e aguarda resposta.<\/p>\n<p>Ana Ang\u00e9lica Rabello, coordenadora do Sindicato dos Trabalhadores em Limpeza do Estado da Bahia (Sindlimp-BA), tamb\u00e9m exalta os profissionais que est\u00e3o arriscando suas vidas neste momento, em nome do bem coletivo.<\/p>\n<p>\u201cA pandemia veio pra chamar a aten\u00e7\u00e3o de todo mundo, mas tamb\u00e9m \u00e9 uma oportunidade de aproveitar, nesse Dia do Gari, e dizer a eles que tenham for\u00e7a. Dizer obrigado por estarem cuidando da gente, n\u00e3o s\u00f3 nos dias comuns mas mais ainda nesse momento de covid-19. Obrigada por estarem na linha de frente. Estamos torcendo pra que passe logo e que eles saiam ilesos\u201d, declara.<\/p>\n<p>O gari Douglas Almeida se orgulha do trabalho da categoria e compartilha da opini\u00e3o de que, sem a atua\u00e7\u00e3o de seus colegas em todo Brasil, a situa\u00e7\u00e3o seria ainda mais grave.<\/p>\n<p>&#8220;Estaria mil vezes pior. Acho que at\u00e9 o risco de contamina\u00e7\u00e3o estaria mil vezes pior. \u00c9 a limpeza urbana, a coleta domiciliar, a varredura. A higieniza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o s\u00f3 do lado de fora das comunidades mas tamb\u00e9m dentro, nos bairros, nos becos. Tirando o pessoal da sa\u00fade, estamos em segundo lugar&#8221;, diz, seguido por um riso.<\/p>\n<p><strong>Prote\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Para ajudar os trabalhadores, os sindicalistas refor\u00e7am que a popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o deve fazer o descarte das m\u00e1scaras nas vias p\u00fablicas e tomar o m\u00e1ximo de cuidado com a dispensa no lixo comum. O ideal \u00e9 sempre colocar os objetos descart\u00e1veis em um saco, para que os garis fiquem menos expostos ao v\u00edrus, caso haja contamina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Medidas de prote\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m tem sido tomadas pelo pr\u00f3prio poder p\u00fablico em alguns estados. Assim como a Comlurb, no Rio, a Autarquia de Melhoramentos da Capital (Comcap), que atende os servi\u00e7os de coleta de res\u00edduos e limpeza p\u00fablica em Florian\u00f3polis, afastou trabalhadores acima de 60 anos, seguindo determina\u00e7\u00e3o do governo estadual.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dos 175 empregados afastados inicialmente, sob decis\u00e3o judicial de 20 de abril, os afastamentos passaram a incluir todos diab\u00e9ticos e hipertensos, chegando a 387 pessoas. Seguindo protocolos municipais, as rotinas tamb\u00e9m foram alteradas pela Comcap para combater o cont\u00e1gio. Apenas a coleta convencional de rejeitos se manteve normalmente. A coleta seletiva (recicl\u00e1veis) foi suspensa e voltou a ser retomada gradativamente no final de abril.<\/p>\n<p>www.cut.org.br \/ Lu Sudr\u00e9, Brasil de Fato | S\u00e3o Paulo (SP)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Servi\u00e7o prestado pelos trabalhadores da coleta de lixo se torna ainda mais essencial em meio ao combate \u00e0 covid 19 Ao longo dos 15 anos trabalhando como gari na cidade de S\u00e3o Paulo, Carlos N\u00e9rio Barbosa nunca imaginou que um dia sentiria tanto receio de ir para as ruas fazer a coleta de res\u00edduos. 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