{"id":14559,"date":"2020-06-03T12:19:34","date_gmt":"2020-06-03T15:19:34","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/?p=14559"},"modified":"2020-06-03T12:23:56","modified_gmt":"2020-06-03T15:23:56","slug":"licoes-das-crises-economicas-a-escalada-da-desigualdade-em-meio-a-coronacrise","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/2020\/06\/03\/licoes-das-crises-economicas-a-escalada-da-desigualdade-em-meio-a-coronacrise\/","title":{"rendered":"Li\u00e7\u00f5es das crises econ\u00f4micas &#8211; A escalada da desigualdade em meio \u00e0 \u201ccoronacrise\u201d"},"content":{"rendered":"<div class=\"introduction\">\n<div class=\"container\">\n<div class=\"row justify-content-center\">\n<div class=\"col-sm-8\">\n<div class=\"introduction-content\">\n<p><strong>As crises t\u00eam nos ensinado muitas coisas. Uma delas \u00e9 o aumento exponencial da vulnerabilidade social, que acaba criando condi\u00e7\u00f5es para um processo acentuado de centraliza\u00e7\u00e3o e concentra\u00e7\u00e3o de renda e patrim\u00f4nio<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"container\">\n<article class=\"article\">\n<div class=\"entry-content\">\n<p>Quando a epidemia de coronav\u00edrus foi descoberta pelos chineses, em dezembro de 2019, a economia-mundo j\u00e1 dava sinais de desacelera\u00e7\u00e3o. No meio da guerra comercial com os Estados Unidos, o crescimento econ\u00f4mico da China registrou, em 2019, seu pior resultado em trinta anos (6,1%). De todo modo, o crescimento do PIB norte-americano (2,3%), da zona do euro (1,2%) e brasileiro (1,1%) tamb\u00e9m ficou abaixo das expectativas. Com a coronacrise, em 2020, a previs\u00e3o para o crescimento, \u201cvaca sagrada dos economistas\u201d (Celso Furtado), foi para o brejo.<\/p>\n<p>Desde a crise financeira internacional, em 2007-2008, e a crise da zona do euro, em 2010, a economia-mundo apresenta sintomas de morbidade e, de maneira cada vez mais recorrente, est\u00e1 prop\u00edcia a crises. Sem mesmo que houvesse uma plena recupera\u00e7\u00e3o do sistema econ\u00f4mico mundial, em 2020 a Covid-19 acelerou a crise econ\u00f4mica que j\u00e1 estava em processo. Como pano de fundo, juntamente com a crise do petr\u00f3leo, a coronacrise tem provocado uma s\u00e9rie de contradi\u00e7\u00f5es imediatas nas economias nacionais, como desemprego, perda da renda monet\u00e1ria e empobrecimento das fam\u00edlias, com forte tend\u00eancia a se prolongar nos pr\u00f3ximos anos.<\/p>\n<p>Destarte, as crises t\u00eam nos ensinado muitas coisas. Uma delas \u00e9 o aumento exponencial da vulnerabilidade social, que acaba criando condi\u00e7\u00f5es para um processo acentuado de centraliza\u00e7\u00e3o e concentra\u00e7\u00e3o de renda e patrim\u00f4nio. Segundo relat\u00f3rio da ONG Oxfam, de toda a riqueza gerada no mundo em 2017, cerca de 82% foram parar nas m\u00e3os do 1% mais rico do planeta. O relat\u00f3rio ainda mostra que a riqueza dos bilion\u00e1rios aumentou, em m\u00e9dia, 13% ao ano, desde 2010 \u2013 seis vezes mais do que os sal\u00e1rios dos trabalhadores (2%) \u2013 e que oito homens t\u00eam a mesma riqueza que os 3,6 bilh\u00f5es mais pobres do mundo. Esse indicador mostra que a escalada entre riqueza e pobreza n\u00e3o \u00e9 convergente. Em todo caso, a crise faz o trabalho de limpar o mercado, jogando capital (pequeno, m\u00e9dio ou grande) e trabalho (qualificado ou n\u00e3o) para a franja do sistema.<\/p>\n<p>Para tanto, com a coronacrise, os governos foram obrigados a adotar pol\u00edticas de distanciamento social e quarentena para impedir o avan\u00e7o da Covid-19. Seguindo orienta\u00e7\u00f5es de infectologistas, o\u00a0<a href=\"https:\/\/noticias.uol.com.br\/faq\/lockdown-como-funciona-o-que-e-significado-e-regras-em-sp-e-mais-cidades.htm\"><em>lockdown<\/em>\u00a0<\/a>provocou a interrup\u00e7\u00e3o das atividades normais de circula\u00e7\u00e3o de pessoas, produ\u00e7\u00e3o de mercadorias, consumo corrente, trocas comerciais, investimentos programados e linhas de cr\u00e9dito. Assim, a ruptura de todos os circuitos econ\u00f4micos e fluxos de pessoas \u00e9 acompanhada por uma escalada acentuada das desigualdades, que se tornou mais veloz com a coronacrise. O choque na oferta e na demanda desintegrou o equil\u00edbrio geral walrasiano, que acontece quando em todos os mercados h\u00e1 perfeita compatibilidade entre a quantidade demandada e ofertada aos pre\u00e7os vigentes.<\/p>\n<p>Pela evid\u00eancia hist\u00f3rica, n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil dizer que a consequ\u00eancia dessa crise, acentuada pela Covid-19, n\u00e3o ser\u00e1 o fim do neoliberalismo e das pol\u00edticas liberais. Num sistema econ\u00f4mico como este, em que a acumula\u00e7\u00e3o e a valoriza\u00e7\u00e3o do valor s\u00e3o a ess\u00eancia, e n\u00e3o apar\u00eancia, a anarquia da produ\u00e7\u00e3o e o aumento da desordem econ\u00f4mica s\u00e3o combatidos com pol\u00edticas de Estado, diga-se, de grandes propor\u00e7\u00f5es. Quando a riqueza capitalista, em seu movimento expansivo, encontra seu limite, esbarrando em sua pr\u00f3pria valoriza\u00e7\u00e3o, como a crise atual, h\u00e1 um processo de socializa\u00e7\u00e3o do preju\u00edzo pelo Estado. Quanto maior a crise, maior o disp\u00eandio de recursos p\u00fablicos pelo Estado para garantir a acumula\u00e7\u00e3o capitalista.<\/p>\n<p>Munidos de poder econ\u00f4mico e lobby pol\u00edtico, os propriet\u00e1rios dos meios de produ\u00e7\u00e3o recorrem \u00e0 pol\u00edtica estatal para salvar seu capital. Sabem os capitalistas que o Estado exerce uma influ\u00eancia consider\u00e1vel na economia de mercado por meio da demanda efetiva, seja adquirindo bens, comprando equipamentos, contratando servi\u00e7os ou reciclando t\u00edtulos podres. Sabem tamb\u00e9m que, no decurso de uma transa\u00e7\u00e3o de salvamento, bilh\u00f5es e mais bilh\u00f5es de d\u00f3lares s\u00e3o injetados para sustentar a n\u00e3o desvaloriza\u00e7\u00e3o do valor. Ao garantir a realiza\u00e7\u00e3o do valor, n\u00e3o necessariamente o Estado est\u00e1 assegurando condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para uma pol\u00edtica de redistribui\u00e7\u00e3o de renda monet\u00e1ria. O socorro estatal, na valoriza\u00e7\u00e3o do capital, tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 sin\u00f4nimo de ascens\u00e3o social daqueles que est\u00e3o marginalizados na franja do sistema.<\/p>\n<p>Na coronacrise, como nas crises de 2007-2008 e 2010, aquele Estado de bem-estar que nasceu como resposta ao conflito armado de 1939-1945 tem sido novamente requisitado. Com esse pedido, fica evidente o car\u00e1ter positivo da pol\u00edtica de desenvolvimento social. Por\u00e9m, a escalada do regime de acumula\u00e7\u00e3o financeira, sob a influ\u00eancia de pol\u00edticas liberais de desregulamenta\u00e7\u00e3o, tensionou o Estado de bem-estar, fazendo os direitos sociais e a cidadania come\u00e7arem a desmoronar como um castelo de cartas. No \u00e2mago da \u201cera de ouro\u201d do capitalismo, a pol\u00edtica estatal de prote\u00e7\u00e3o social e cidadania produziu mudan\u00e7as qualitativas na sociedade europeia. Contudo, a periferia do sistema capitalista n\u00e3o sabe o que \u00e9 um Estado de bem-estar, at\u00e9 porque a prote\u00e7\u00e3o social do centro din\u00e2mico foi constru\u00edda com base na superexplora\u00e7\u00e3o da periferia.<\/p>\n<figure id=\"attachment_154974\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-154974\" src=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/IMG_8922-1080x720.jpg\" sizes=\"auto, (max-width: 700px) 100vw, 700px\" srcset=\"\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/IMG_8922-1080x720.jpg 1080w, \/wp-content\/uploads\/2020\/06\/IMG_8922-300x200.jpg 300w, \/wp-content\/uploads\/2020\/06\/IMG_8922-768x512.jpg 768w, \/wp-content\/uploads\/2020\/06\/IMG_8922-1024x683.jpg 1024w, \/wp-content\/uploads\/2020\/06\/IMG_8922-160x107.jpg 160w, \/wp-content\/uploads\/2020\/06\/IMG_8922-360x240.jpg 360w, \/wp-content\/uploads\/2020\/06\/IMG_8922-600x400.jpg 600w\" alt=\"\" width=\"700\" height=\"467\" \/>Partindo do princ\u00edpio dos \u201cpacotes de est\u00edmulos\u201d dos governos nacionais no combate \u00e0 coronacrise, nenhum deles sinaliza a constru\u00e7\u00e3o de um Estado de bem-estar. Isso \u00e9 fato! S\u00e3o medidas paliativas, expressamente conjunturais, como impress\u00e3o de moeda, renda m\u00ednima emergencial, compra de ativos financeiros e gastos no sistema de sa\u00fade. Medidas estruturais, como tributa\u00e7\u00e3o progressiva, imposto sobre grandes fortunas e garantias constitucionais de direitos sociais, n\u00e3o est\u00e3o na pauta da coronacrise. Em s\u00edntese, os Estados nacionais est\u00e3o recorrendo a pol\u00edticas keynesianas para depois neg\u00e1-las.<\/figure>\n<p>No Brasil, por exemplo, o sistema tribut\u00e1rio regressivo, que pune os mais pobres, acaba sustentando o exorbitante gasto estatal com o sistema financeiro e com os programas de subs\u00eddios credit\u00edcios e incentivos fiscais para o capital \u2013 sem considerar a\u00a0<a href=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/direitos-trabalhistas-ou-barbarie\/\">reforma trabalhista<\/a>, que precarizou as rela\u00e7\u00f5es de trabalho, a reforma da Previd\u00eancia, que praticamente nega o direito \u00e0 aposentadoria, e o teto dos gastos, que congelou os gastos em sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o. Logo, a capacidade do governo brasileiro de estabelecer respostas proativas para enfrentar a crise da Covid-19 e minimamente proteger os trabalhadores est\u00e1 comprometida.<\/p>\n<p>Para tanto, dentro da estrutura do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, o que o coronav\u00edrus far\u00e1 no Brasil, e no mundo, ser\u00e1 multiplicar o corti\u00e7o Tom-All-Alone, de Charles Dickens (<em>A casa noturna<\/em>), e o n\u00famero de Gente Pobre, de Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski. \u00c9 certo que a popula\u00e7\u00e3o urbana de S\u00e3o Paulo, Quito, Lima, Caracas, Cidade do M\u00e9xico e Washington estar\u00e1 mais desnutrida e miser\u00e1vel nos pr\u00f3ximos anos. Se hoje existem mais de 200 mil favelas espalhadas pelo mundo, cuja popula\u00e7\u00e3o varia de algumas centenas a mais de 1 milh\u00e3o de pessoas, esse n\u00famero ser\u00e1 bem maior p\u00f3s-coronacrise. Em breve, nos pr\u00f3ximos vinte anos, cerca de quinhentos indiv\u00edduos deixar\u00e3o mais de U$S 2,1 trilh\u00f5es em heran\u00e7a para seus herdeiros, uma soma maior que o PIB dos pa\u00edses do Mercosul.<\/p>\n<p>A Fantine de Victor Hugo (<em>Os miser\u00e1veis<\/em>), a Maheude de \u00c9mile Zola (<em>Germinal<\/em>), o Fabiano de Graciliano Ramos (<em>Vidas secas<\/em>) ou mesmo o Chico Bento de Rachel de Queiroz (<em>O quinze<\/em>) se reproduzir\u00e3o aos milhares na\u00a0<strong>\u00c1sia oriental e no Pac\u00edfico, na Europa e na \u00c1sia central, na Am\u00e9rica Latina e no Caribe, no Oriente M\u00e9dio e no norte da \u00c1frica, no sul asi\u00e1tico e na \u00c1frica subsaariana. Todavia, m<\/strong>esmo diante da mis\u00e9ria, parafraseando Franz Kafka, h\u00e1 esperan\u00e7a suficiente e infinita para a constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade baseada nos princ\u00edpios da justi\u00e7a, mas n\u00e3o para n\u00f3s.<\/p>\n<p>www.diplomatique.org.br \/Juliano Giassi Goularti, doutor pelo Instituto de Economia da Unicamp<\/p>\n<\/div>\n<\/article>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As crises t\u00eam nos ensinado muitas coisas. Uma delas \u00e9 o aumento exponencial da vulnerabilidade social, que acaba criando condi\u00e7\u00f5es para um processo acentuado de centraliza\u00e7\u00e3o e concentra\u00e7\u00e3o de renda e patrim\u00f4nio Quando a epidemia de coronav\u00edrus foi descoberta pelos chineses, em dezembro de 2019, a economia-mundo j\u00e1 dava sinais de desacelera\u00e7\u00e3o. No meio da [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":14560,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[25],"tags":[415],"class_list":["post-14559","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias","tag-pandemia-desigualdade-social-sus"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14559","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14559"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14559\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14573,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14559\/revisions\/14573"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14560"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14559"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14559"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14559"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}