{"id":14715,"date":"2020-06-15T19:40:14","date_gmt":"2020-06-15T22:40:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/?p=14715"},"modified":"2020-06-15T19:44:17","modified_gmt":"2020-06-15T22:44:17","slug":"a-covid-19-tem-classe-genero-e-cor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/2020\/06\/15\/a-covid-19-tem-classe-genero-e-cor\/","title":{"rendered":"A Covid-19 tem classe, g\u00eanero e cor"},"content":{"rendered":"<p><strong>Inicio est\u00e1 breve reflex\u00e3o reconhecendo o meu lugar de fala e meus privil\u00e9gios enquanto uma mulher cis, l\u00e9sbica, que tem a cor da pele branca e portanto nunca sofreu racismo.<\/strong><\/p>\n<p>Quero destacar as palavras de uma grande feminista negra, que nos aponta a urg\u00eancia de nestes dias t\u00e3o tristes, buscarmos formas de potencializarmos as nossas companheiras negras para \u00a0nos representarem na pol\u00edtica, nos movimentos sociais, na dire\u00e7\u00e3o de sindicatos, empresas, nas associa\u00e7\u00f5es de bairros, enfim, de erguermos a nossa voz enquanto uma sociedade que luta em defesa da democracia, \u00a0pela igualdade racial e busca corrigir o crime de leso-humanidade, que foi a escravatura.<\/p>\n<p><em>Bell Hooks, afirma que: \u201cEsse ato de fala, de \u201cerguer a voz\u201d, n\u00e3o \u00e9 um mero gesto de palavras vazias: \u00e9 uma express\u00e3o de nossa transi\u00e7\u00e3o de objeto para sujeito \u2013 a voz liberta.\u201d<\/em><\/p>\n<p>N\u00f3s mulheres e homens n\u00e3o negras(os), temos um compromisso hist\u00f3rico de neste contexto de agudiza\u00e7\u00e3o das desigualdades sociais, e grande express\u00e3o do quanto o racismo \u00e9 cruel, de nos colocarmos como escudo, e fazermos todas e todos a luta antirracista.<\/p>\n<p>Os assassinatos racistas das \u00faltimas semanas de Maio\/Junho de 2020, que visibilizaram\u00a0 a perda das vidas de Miguel Ot\u00e1vio, aos 5 anos, Jo\u00e3o Pedro, aos 13, e George Floyd um trabalhador negro que morreu sob o joelho de um policial branco,\u00a0 escancaram que o Brasil tanto quanto os EUA,\u00a0 s\u00e3o pa\u00edses em que a cor da pele determina quem tem mais oportunidades e direitos e quem \u00e9 mais vulner\u00e1vel e tem menos chances.<\/p>\n<p>Pe\u00e7o licen\u00e7a para citar a Fl\u00e1via Oliveira, colunista de Opini\u00e3o do jornal o Globo quando \u00a0afirma que: \u201cFoi o racismo estrutural, no qual o Brasil est\u00e1 assentado, que tomou pelas m\u00e3os Miguel Ot\u00e1vio Santana da Silva, levou-o at\u00e9 o elevador, apertou o bot\u00e3o de um andar alto, liberou a porta\u00a0 e, indiferente, retornou ao lar. Selou assim o destino ao qual crian\u00e7as negras est\u00e3o vinculadas por um projeto desumano e macabro, travestido de fatalidade. Era filho \u00fanico da empregada dom\u00e9stica Mirtes Renata. Morreu porque era filho da empregada. Se herdeiro da patroa, estaria vivo.\u201d<\/p>\n<p>A popula\u00e7\u00e3o negra \u00e9 alvo da morte violenta e sistem\u00e1tica. Todo ano, cerca de 45 mil pessoas negras s\u00e3o assassinadas no Brasil. Infelizmente a maioria das mortes s\u00e3o \u201cinvis\u00edveis\u201d e banalizadas para o Estado que principalmente desde 2016 e agora neste per\u00edodo de pandemia atrav\u00e9s do presidente da rep\u00fablica, naturaliza as mortes de mais de 40 mil brasileiros e brasileiras. Portanto\u00a0 a covid -19 mata e o racismo tamb\u00e9m mata milh\u00f5es de pessoas negras.<\/p>\n<p><strong>As mulheres negras sempre s\u00e3o o principal alvo<\/strong><\/p>\n<p>No pa\u00eds em que as mulheres negras comp\u00f5em a maior parte da popula\u00e7\u00e3o, somando quase 60 milh\u00f5es de pessoas, o percentual acende uma luz vermelha para a urg\u00eancia de encararmos e combatermos o racismo estrutural que se manifesta em forma de segrega\u00e7\u00e3o, silenciamento e viol\u00eancia institucional.<\/p>\n<p>Estamos imersos(as) na necropol\u00edtica do matar e deixar morrer. Os servi\u00e7os p\u00fablicos de sa\u00fade em colapso, uma crise econ\u00f4mica, pol\u00edtica, institucional e civilizat\u00f3ria profunda. O Brasil est\u00e1 nas m\u00e3os de um presidente genocida, racista, perverso e miliciano.<\/p>\n<p>Embora os homens representem entre 60% e 80% dos mortos pela Covid-19,\u00a0as mulheres s\u00e3o afetadas de maneira mais severa\u00a0pelo novo coronav\u00edrus. Elas est\u00e3o\u00a0mais expostas ao risco de contamina\u00e7\u00e3o\u00a0e \u00e0s vulnerabilidades sociais decorrentes da pandemia, como\u00a0desemprego,\u00a0viol\u00eancia,\u00a0falta de acesso\u00a0aos servi\u00e7os de sa\u00fade\u00a0e\u00a0aumento da pobreza.<\/p>\n<p>Os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE) aponta que em 2018, mais de 6,24 milh\u00f5es de mulheres negras est\u00e3o no servi\u00e7o dom\u00e9stico. Os dados revelam que, mesmo com a implementa\u00e7\u00e3o da PEC, as dom\u00e9sticas t\u00eam uma das piores escalas salariais e a maioria ainda est\u00e3o na informalidade, sem carteira assinada.<\/p>\n<p>A crise causada pelo coronav\u00edrus aprofunda as desigualdades e viol\u00eancia contra as mulheres em todos os pa\u00edses. Al\u00e9m disso, 70% de todos os profissionais da sa\u00fade no mundo s\u00e3o mulheres, o que as exp\u00f5e de maneira direta \u00e0 Covid-19.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 a conclus\u00e3o do\u00a0relat\u00f3rio \u201cMulheres no centro da luta contra a crise Covid-19\u201d, divulgado no final de mar\u00e7o pela\u00a0ONU Mulheres, entidade da\u00a0<a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/tudo-sobre\/onu\/\">Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas<\/a>\u00a0para igualdade de g\u00eanero e empoderamento.<\/p>\n<p>Em resumo, segundo o estudo,\u00a0a pandemia afeta mais as mulheres porque:<\/p>\n<ul>\n<li>\u00a070% dos(as) trabalhadores(as) de sa\u00fade em todo o mundo s\u00e3o mulheres, fato que as exp\u00f5e a um maior risco de infec\u00e7\u00e3o pelo novo coronav\u00edrus;<\/li>\n<li>\u00a0com o isolamento,\u00a0os \u00edndices de viol\u00eancia dom\u00e9stica e feminic\u00eddio t\u00eam aumentado no mundo\u00a0\u2013 como as mulheres est\u00e3o confinadas com seus agressores e distantes do ciclo social, riscos para elas s\u00e3o cada vez mais elevados;<\/li>\n<li>\u00a0entre os idosos(as), h\u00e1 mais mulheres vivendo sozinhas\u00a0e com baixos rendimentos;<\/li>\n<li>A ONU Mulheres estima que, dentre a popula\u00e7\u00e3o feminina mundial, as trabalhadoras do setor de sa\u00fade, as dom\u00e9sticas e as trabalhadoras do setor informal ser\u00e3o as mais afetadas pelos efeitos da pandemia de coronav\u00edrus.<\/li>\n<li>\u00a0\u00a0Mulheres tamb\u00e9m s\u00e3o maioria\u00a0em v\u00e1rios setores de empregos informais,\u00a0 como\u00a0trabalhadores(as) dom\u00e9sticos(as)\u00a0e\u00a0cuidadores(as) de idosos(as);<\/li>\n<li>Com a pandemia,\u00a0mulheres t\u00eam de se dividir entre diversas atividades,\u00a0como as seguintes:\u00a0emprego fora de casa,\u00a0trabalhos dom\u00e9sticos, assist\u00eancia \u00e0 inf\u00e2ncia (cuidado com filhos),\u00a0educa\u00e7\u00e3o escolar em casa\u00a0(j\u00e1 que as escolas est\u00e3o fechadas) e\u00a0assist\u00eancia a idosos da fam\u00edlia<\/li>\n<li>Antes da Covid-19,\u00a0mulheres desempenhavam tr\u00eas vezes mais trabalhos n\u00e3o remunerados\u00a0do que os homens; com o isolamento,\u00a0a estimativa \u00e9 que este n\u00famero triplique;<\/li>\n<li>Mulheres n\u00e3o est\u00e3o na esfera de poder de decis\u00e3o na pandemia:\u00a0elas s\u00e3o apenas 25% dos parlamentares\u00a0em todo o mundo e\u00a0menos de 10% dos chefes de Estado ou de Governo;<\/li>\n<li>E,\u00a0no setor t\u00eaxtil, um dos mais afetados da ind\u00fastria em todo mundo\u00a0e paralisado por causa do trabalho tempor\u00e1rio de lojas,\u00a0as mulheres s\u00e3o tr\u00eas quartos dos trabalhadores\u00a0no mundo.<\/li>\n<li>De acordo com o documento da ONU, \u201ca pandemia teve e continuar\u00e1 a ter um grande impacto na sa\u00fade e no bem-estar de muitos grupos vulner\u00e1veis\u201d. O texto prossegue: \u201cAs mulheres est\u00e3o entre as mais afetadas.\u201d<\/li>\n<\/ul>\n<p>Al\u00e9m do aumento da desigualdades e da viol\u00eancia de g\u00eanero j\u00e1 existentes, o relat\u00f3rio alerta para o fato de que\u00a0as mulheres s\u00e3o maioria na linha de frente contra o coronav\u00edrus.<\/p>\n<p>Estes dados demonstram a dura realidade que vivemos e que as pessoas mais afetadas pela covid -19 tem classe, g\u00eanero e cor. Nenhuma novidade para a estrutra social do Brasil.<\/p>\n<p>Finalizo est\u00e1 breve reflex\u00e3o com a palavras do querido professor Silvio Almeida: \u201cNuma sociedade racista, n\u00e3o basta n\u00e3o ser racista, \u00e9 preciso ser antirracista.\u201d Na medida que a popula\u00e7\u00e3o afrodescendente \u00e9 hoje majorit\u00e1ria no Brasil, a luta contra as discrimina\u00e7\u00f5es se transforma em fator de consolida\u00e7\u00e3o da democracia\u201d.<\/p>\n<p>www.ctb.org.br\/ Silvana Conti. Foto: Luiza Castro\/Sul21.<\/p>\n<p>Silvana Conti \u00e9 mestranda em Pol\u00edticas P\u00fablicas da UFRGS. Membro do N\u00facleo de Estudos em Pesquisa em Sa\u00fade e Trabalho. Vice-presidenta da CTB-RS.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Inicio est\u00e1 breve reflex\u00e3o reconhecendo o meu lugar de fala e meus privil\u00e9gios enquanto uma mulher cis, l\u00e9sbica, que tem a cor da pele branca e portanto nunca sofreu racismo. 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