{"id":14972,"date":"2020-06-26T12:45:50","date_gmt":"2020-06-26T15:45:50","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/?p=14972"},"modified":"2020-06-26T12:46:15","modified_gmt":"2020-06-26T15:46:15","slug":"pandemia-escancara-desigualdade-e-revela-que-pretos-e-pobres-sao-os-mais-afetados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/2020\/06\/26\/pandemia-escancara-desigualdade-e-revela-que-pretos-e-pobres-sao-os-mais-afetados\/","title":{"rendered":"Pandemia escancara desigualdade e revela que pretos e pobres s\u00e3o os mais afetados"},"content":{"rendered":"<p><strong>COR E CLASSE &#8211; Pesquisa mostra os efeitos do novo coronav\u00edrus sobre a popula\u00e7\u00e3o, o mercado de trabalho e o acesso \u00e0 sa\u00fade e reafirma desigualdades raciais e socioecon\u00f4micas bem conhecidas entre os pretos e pobres do pa\u00eds<\/strong><\/p>\n<p>A trabalhadora dom\u00e9stica, Cida Aparecida, m\u00e3e de duas meninas, moradora da zona sul de S\u00e3o Paulo, n\u00e3o conseguiu mais servi\u00e7o e est\u00e1 sobrevivendo apenas da renda do Bolsa Fam\u00edlia desde mar\u00e7o, quando foi decretado o isolamento social como principal forma de combate \u00e0 pandemia do novo coronav\u00edrus. Ela nem imagina quando poder\u00e1 voltar a trabalhar, quando ter\u00e1 sua renda de volta, muito menos o que far\u00e1 se for contaminada, porque o acesso \u00e0 sa\u00fade sempre foi um problema para ela e sua fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Negra, pobre e com baixo n\u00edvel de escolaridade, Cida est\u00e1 no grupo de brasileiros e brasileiras mais afetado pela Covid-19, doen\u00e7a provocada pelo novo coronav\u00edrus, como apontou a pesquisa da Pnad Covid-19, edi\u00e7\u00e3o extraordin\u00e1ria da pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE), criada para medir os efeitos do novo coronav\u00edrus sobre a popula\u00e7\u00e3o na sa\u00fade e no mercado de trabalho. O objetivo do estudo \u00e9 de servir de base para a elabora\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas que minimizem os impactos da crise sanit\u00e1ria que agravou a crise econ\u00f4mica do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Para a secret\u00e1ria de Combate ao Racismo, Anatalina Louren\u00e7o, a popula\u00e7\u00e3o negra, em geral, tem menores chances em todos os aspectos da vida e n\u00e3o seria diferente nesse momento da pandemia porque \u00e9 um reflexo do racismo estrutural.<\/p>\n<p>\u201cDesde a inf\u00e2ncia os negros est\u00e3o nos servi\u00e7os menos remunerados, s\u00e3o os primeiros a ficarem desempregados, t\u00eam prote\u00e7\u00e3o menor do sistema de sa\u00fade e capacidade limitada de ascens\u00e3o social. A Covid-19 est\u00e1 jogando luz neste abismo social, o que fez com que o momento do isolamento fosse marcado por protestos, nas ruas e nas redes, contra a viol\u00eancia do Estado e a desigualdade racial hist\u00f3rica que atinge os negros\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>Os pretos e pardos somam 20% dos 19 milh\u00f5es de brasileiros que foram afastados do trabalho em maio e os brancos 16,1%, segundo o IBGE. Entre eles, 9,7 milh\u00f5es ficaram sem remunera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Somente 9% dos pardos e pretos puderam trabalhar em home office, enquanto 17,6% dos brasileiros de cor branca puderam aderir a essa iniciativa. A Covid-19 fez ainda com que 28,9% da popula\u00e7\u00e3o preta ou parda deixassem de procurar trabalho, os brancos somaram 18,7% nesse quesito.<\/p>\n<p>A pesquisa tamb\u00e9m apontou que o afastamento se deu em maior intensidade entre os informais e em setores de servi\u00e7os, incluindo os servi\u00e7os dom\u00e9sticos sem carteira assinada, categoria em que 33,6% das trabalhadoras n\u00e3o puderam ir ao trabalho em maio.<\/p>\n<p>\u201cEu n\u00e3o consegui mais ir ao trabalho porque preciso pegar \u00f4nibus e n\u00e3o tenho com quem deixar minhas meninas. Minha patroa me dispensou e disse que n\u00e3o podia continuar pagando minhas di\u00e1rias. Tenho v\u00e1rias colegas nesta situa\u00e7\u00e3o, parece que n\u00f3s, mulheres negras, somos as mais afetadas com a piora da desigualdade que foi imposta por esta doen\u00e7a\u201d, lamentou Cida.<\/p>\n<p>Anatalina corrobora o que a Cida disse e destaca que os negros e as negras tamb\u00e9m s\u00e3o a maior parte dos brasileiros que trabalham nos com\u00e9rcios de rua, como vendedores ambulantes e no trabalho dom\u00e9stico e que tiveram que ir para as suas casas com as medidas de confinamento ou continuar nas ruas sem nenhuma prote\u00e7\u00e3o. E n\u00e3o \u00e9 de qualquer prote\u00e7\u00e3o que ela se refere.<\/p>\n<p>\u201cProte\u00e7\u00e3o \u00e9 o mesmo que tutelar, n\u00f3s queremos garantia de direitos, ter os nossos direitos reconhecidos e queremos que, finalmente, 56% da popula\u00e7\u00e3o sejam reconhecidos como cidad\u00e3os. Enquanto s\u00f3 algumas pessoas tiverem acesso a direitos m\u00ednimos como a garantia \u00e0 vida, seja ela atrav\u00e9s da sa\u00fade, moradia, educa\u00e7\u00e3o, seguran\u00e7a p\u00fablica e manuten\u00e7\u00e3o da vida, isso tudo ser\u00e1 um privil\u00e9gio e s\u00f3 ser\u00e1 um direito quando todas as pessoas tiverem acesso. E \u00e9 isso o que a popula\u00e7\u00e3o negra quer\u201d.<\/p>\n<p><strong>Desemprego<\/strong><\/p>\n<p>A pesquisa fortalece os dados hist\u00f3ricos e mostra que o n\u00famero de pessoas sem trabalho \u00e9 maior entre pretos e pardos do que entre brancos no pa\u00eds. Em maio, sob o efeito da pandemia, n\u00e3o foi diferente: segundo o IBGE, a taxa de desemprego de pretos e pardos foi de 12%, contra 9% verificados entre os brancos.<\/p>\n<p><strong>Escolaridade e afastamento<\/strong><\/p>\n<p>O estudo tamb\u00e9m mostrou que a taxa de afastamentos por n\u00edvel de instru\u00e7\u00e3o foi maior entre os menos escolarizados. Entre os brasileiros com curso superior completo, 15% disseram ter sido afastados do trabalho em maio. Nos outros n\u00edveis, a taxa se situa entre 19% e 20%.<\/p>\n<p>\u201cApesar do aumento das matr\u00edculas de pretos e pardos no ensino superior somar 50,3%, manter-se estudando ainda \u00e9 um desafio devido \u00e0s dificuldades enfrentadas pelas condi\u00e7\u00f5es socioecon\u00f4micas, o que reflete no mercado de trabalho\u201d, finaliza a dirigente.<\/p>\n<p><strong>Impactos socioecon\u00f4micos na doen\u00e7a em si<\/strong><\/p>\n<p>Al\u00e9m de sentir os efeitos trabalhistas e econ\u00f4micos mais duros na pandemia, os negros e as negras tamb\u00e9m s\u00e3o os que mais sofrem com os sintomas da covid-19.<\/p>\n<p>Segundo o IBGE, entre os 4,2 milh\u00f5es de brasileiros que apresentaram sintomas da doen\u00e7a em maio, 70% eram de cor preta ou parda.<\/p>\n<p>Segundo a secret\u00e1ria-Adjunta de Combate ao Racismo, Rosana Sousa Fernandes, os dados cl\u00ednico-epidemiol\u00f3gicos mostram que negros s\u00e3o quatro vezes mais vulner\u00e1veis e isso n\u00e3o se deve a fatores gen\u00e9ticos e sim a\u00a0 desigualdade socioecon\u00f4mica e de acesso ao sistema de sa\u00fade.<\/p>\n<p>E a pesquisa confirma isso. A doen\u00e7a afetou em maior quantidade os brasileiros com menor grau de instru\u00e7\u00e3o. Apenas 12,5% das pessoas que relataram sentir os sintomas t\u00eam ensino superior completo ou p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. J\u00e1 quase 50% n\u00e3o t\u00eam instru\u00e7\u00e3o, t\u00eam o ensino fundamental incompleto ou o m\u00e9dio incompleto.<\/p>\n<p>\u201cA popula\u00e7\u00e3o sob maior risco \u00e9 pobre, de baixa escolaridade, alta incid\u00eancia de doen\u00e7as cr\u00f4nicas que v\u00e3o levar a sintomas mais graves da Covid-19. Essas pessoas s\u00e3o, na sua maior parte, negros e a pandemia est\u00e1 s\u00f3 reafirmando desigualdades raciais e socioecon\u00f4micas que antes j\u00e1 eram conhecidas\u201d, afirma Rosana.<\/p>\n<p>A dirigente lembra que entidades do movimento negro v\u00eam reivindicando a inclus\u00e3o do quesito cor em formul\u00e1rios de sa\u00fade, ao menos desde os anos 1990, com a inten\u00e7\u00e3o de produzir melhores informa\u00e7\u00f5es sobre comorbidades que acometem essa popula\u00e7\u00e3o e pensar solu\u00e7\u00f5es e propostas de pol\u00edticas p\u00fablicas que venham a melhorar a condi\u00e7\u00e3o de vida geral da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cE agora durante a pandemia houve uma mobiliza\u00e7\u00e3o muito maior, mas n\u00e3o est\u00e1 sendo cumprida\u201d, ressalta.<\/p>\n<p><strong>Pobreza, acesso ao aux\u00edlio emergencial e solidariedade<\/strong><\/p>\n<p>Sete em cada 10 fam\u00edlias da favela pediram o aux\u00edlio emergencial de R$ 600, aprovado pelo Congresso Nacional em mar\u00e7o, mas 41% ainda n\u00e3o conseguiram receber, apontou a pesquisa in\u00e9dita \u201cPandemia na Favela &#8211; A realidade de 14 milh\u00f5es de favelados no combate ao novo Coronav\u00edrus\u201d, realizada pelo Data Favela, uma parceria do Instituto Locomotiva, da Central \u00danica das Favelas (CUFA) e da Favela Holding.<\/p>\n<p>O Estudo tamb\u00e9m mostra que quem conseguiu receber o aux\u00edlio emergencial, utilizou o dinheiro para compra de alimentos (96%), produtos de higiene e limpeza (88%), compra de produtos de limpeza (87%), pagamento de contas b\u00e1sicas (68%), compra de rem\u00e9dios (64%) e ajuda a familiares e amigos (62%).<\/p>\n<p>Mesmo com todas as dificuldades, proporcionalmente, os moradores de favelas realizaram mais doa\u00e7\u00f5es para o combate \u00e0 crise do Covid-19. 63% dos favelados fizeram algum tipo de doa\u00e7\u00e3o, enquanto 49% dos brasileiros tiveram a mesma atitude durante a pandemia.<\/p>\n<p>www.cut.org.br \/\u00c9rica Arag\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>COR E CLASSE &#8211; Pesquisa mostra os efeitos do novo coronav\u00edrus sobre a popula\u00e7\u00e3o, o mercado de trabalho e o acesso \u00e0 sa\u00fade e reafirma desigualdades raciais e socioecon\u00f4micas bem conhecidas entre os pretos e pobres do pa\u00eds A trabalhadora dom\u00e9stica, Cida Aparecida, m\u00e3e de duas meninas, moradora da zona sul de S\u00e3o Paulo, n\u00e3o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":14973,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[25],"tags":[459,413,454],"class_list":["post-14972","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias","tag-cor-e-classe","tag-pandemia-coronavirus-negros","tag-pandemia-desigualdade-social"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14972","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14972"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14972\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14975,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14972\/revisions\/14975"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14973"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14972"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14972"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14972"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}