{"id":15582,"date":"2020-07-31T12:50:20","date_gmt":"2020-07-31T15:50:20","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/?p=15582"},"modified":"2020-07-31T12:54:25","modified_gmt":"2020-07-31T15:54:25","slug":"a-pandemia-do-coronavirus-e-os-seus-efeitos-sobre-as-mulheres-trabalhadoras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/2020\/07\/31\/a-pandemia-do-coronavirus-e-os-seus-efeitos-sobre-as-mulheres-trabalhadoras\/","title":{"rendered":"A pandemia do coronav\u00edrus e os seus efeitos sobre as mulheres trabalhadoras"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_15583\" aria-describedby=\"caption-attachment-15583\" style=\"width: 321px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-15583\" src=\"https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Marilane1-300x238-1.jpg\" alt=\"\" width=\"321\" height=\"255\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-15583\" class=\"wp-caption-text\">Marilane Oliveira Teixeira<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>50% das mulheres brasileiras passaram a cuidar de algu\u00e9m na pandemia.\u00a0 <\/strong><strong>40% das mulheres afirmaram que a pandemia e a situa\u00e7\u00e3o de isolamento social colocaram a sustenta\u00e7\u00e3o da casa em risco. <\/strong><strong>41% das mulheres que seguiram trabalhando durante a pandemia com manuten\u00e7\u00e3o de sal\u00e1rios afirmaram trabalhar mais na quarentena.<\/strong><\/p>\n<p>Ao analisar os resultados da enquete intitulada\u00a0<strong>Sem parar: a vida das mulheres na pandemia<\/strong>\u00b2<em>\u00a0<\/em>sob a perspectiva do trabalho, o que nos chama a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 a relev\u00e2ncia da condi\u00e7\u00e3o de inser\u00e7\u00e3o das mulheres, sobretudo das mulheres negras\u00b3, no enfrentamento \u00e0 crise da covid-19.\u00a0 Parte-se da constata\u00e7\u00e3o de que as condi\u00e7\u00f5es de inser\u00e7\u00e3o e perman\u00eancia das mulheres no mundo do trabalho nestes \u00faltimos cinco anos foram bastante fragilizadas com a crise econ\u00f4mica, e esta fragiliza\u00e7\u00e3o se amplificou com as pol\u00edticas de austeridade fiscal. Desde 2015, a crise alterou de maneira significativa a condi\u00e7\u00e3o de vida da maioria da popula\u00e7\u00e3o, promovendo um grande retrocesso econ\u00f4mico e social, particularmente sobre a vida e a autonomia econ\u00f4mica das mulheres. A redu\u00e7\u00e3o do teto dos gastos p\u00fablicos imposta pela Emenda Constitucional 95 e a crise econ\u00f4mica sem precedentes resultaram na amplia\u00e7\u00e3o do desemprego e da desigualdade.<\/p>\n<p>Esse quadro se agravou diante da crise atual, uma vez que milh\u00f5es de mulheres tiveram suas atividades interrompidas pelas recomenda\u00e7\u00f5es de isolamento social. Aquelas que se encontravam em condi\u00e7\u00f5es mais vulner\u00e1veis se viram subitamente sem trabalho e sem renda. Trata-se de mulheres majoritariamente inseridas no trabalho informal e por conta pr\u00f3pria, trabalhos tradicionalmente mais prec\u00e1rios e desprotegidos.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-15587 alignright\" src=\"https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/cebds.org-covid-19-e-mulheres-pos-pandemia-deve-olhar-a-desigualdade-de-genero-corona-schlachthauser-schliessen-statt-ausgangssperren-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"357\" height=\"238\" srcset=\"https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/cebds.org-covid-19-e-mulheres-pos-pandemia-deve-olhar-a-desigualdade-de-genero-corona-schlachthauser-schliessen-statt-ausgangssperren-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/cebds.org-covid-19-e-mulheres-pos-pandemia-deve-olhar-a-desigualdade-de-genero-corona-schlachthauser-schliessen-statt-ausgangssperren-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/cebds.org-covid-19-e-mulheres-pos-pandemia-deve-olhar-a-desigualdade-de-genero-corona-schlachthauser-schliessen-statt-ausgangssperren-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/cebds.org-covid-19-e-mulheres-pos-pandemia-deve-olhar-a-desigualdade-de-genero-corona-schlachthauser-schliessen-statt-ausgangssperren-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/cebds.org-covid-19-e-mulheres-pos-pandemia-deve-olhar-a-desigualdade-de-genero-corona-schlachthauser-schliessen-statt-ausgangssperren-2048x1365.jpg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 357px) 100vw, 357px\" \/>A crise tamb\u00e9m acentuou uma realidade invisibilizada pelo capitalismo, a das pessoas que est\u00e3o fora da for\u00e7a de trabalho. A divulga\u00e7\u00e3o das primeiras estat\u00edsticas oficiais pelo\u00a0<a href=\"https:\/\/agenciadenoticias.ibge.gov.br\/agencia-sala-de-imprensa\/2013-agencia-de-noticias\/releases\/28261-pnad-covid19-13-3-da-populacao-ocupada-estava-afastada-do-trabalho-devido-ao-distanciamento-social-entre-14-e-20-de-junho\"><strong>IBGE \u2013 PNAD covid-19<\/strong><\/a>\u00a0deu realce a essa realidade ao destacar a presen\u00e7a de 74,5 milh\u00f5es de pessoas nesta condi\u00e7\u00e3o, sendo que 26,4 milh\u00f5es declararam que gostariam de trabalhar. O dado chamou a aten\u00e7\u00e3o pela sua magnitude. Contudo, antes da pandemia, os dados da PNADC anual, de 2019, j\u00e1 registrava a presen\u00e7a de 67,3 milh\u00f5es de pessoas fora da for\u00e7a de trabalho, sendo 64,5% de mulheres, considerando que as mulheres negras s\u00e3o maioria deste grupo. 42,5% residiam em domic\u00edlios cuja renda per capta alcan\u00e7ava at\u00e9 \u00bd sal\u00e1rio m\u00ednimo. Os dados s\u00e3o compat\u00edveis com os resultados da pesquisa\u00a0<strong>Sem parar\u2026<\/strong>, realizada pela SOF e G\u00eanero e N\u00famero, na qual, do total das mulheres nestas condi\u00e7\u00f5es, 58% s\u00e3o negras. Pela defini\u00e7\u00e3o das estat\u00edsticas oficiais para se referir \u00e0s pessoas n\u00e3o est\u00e3o ocupadas em trabalho remunerado e n\u00e3o est\u00e3o procurando trabalho, diz-se que est\u00e3o inativas.<\/p>\n<p>A pesquisa tamb\u00e9m identificou um n\u00famero expressivo de mulheres que se declararam inseridas no autoconsumo \u2013 isso se refere \u00e0 produ\u00e7\u00e3o para consumo pr\u00f3prio, realidade mais frequente entre as trabalhadoras rurais, mas tamb\u00e9m com presen\u00e7a nos espa\u00e7os urbanos. O dado sobre o autoconsumo \u00e9 revelador da participa\u00e7\u00e3o das mulheres em esferas n\u00e3o mercantis, ou seja, em que se garante o sustento da vida por meio de outras fontes que n\u00e3o passam pelos circuitos mercantis de produ\u00e7\u00e3o capitalista. Do total de mulheres que afirmaram estar inseridas no autoconsumo, \u2154 (63,5%) s\u00e3o negras. A pesquisa tamb\u00e9m identificou a presen\u00e7a na economia solid\u00e1ria em propor\u00e7\u00e3o muito semelhante \u00e0 daquelas que se declararam no autoconsumo. Dentre elas, praticamente \u2154 eram mulheres negras (60,7%).<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-15584 alignleft\" src=\"https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/200430-trabalho-feminino-1024x559-1-300x164.jpg\" alt=\"\" width=\"399\" height=\"218\" srcset=\"https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/200430-trabalho-feminino-1024x559-1-300x164.jpg 300w, https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/200430-trabalho-feminino-1024x559-1-768x419.jpg 768w, https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/200430-trabalho-feminino-1024x559-1-1000x550.jpg 1000w, https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/200430-trabalho-feminino-1024x559-1.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 399px) 100vw, 399px\" \/>As tarefas de cuidados s\u00e3o um grande limitador para as mulheres mais pobres. Em parte, o afastamento das mulheres do mercado de trabalho est\u00e1 associado \u00e0 maternidade e \u00e0 aus\u00eancia de equipamentos p\u00fablicos, o que imp\u00f5e \u00e0s mais pobres que se afastem temporariamente de alguma atividade remunerada para se dedicarem \u00e0s atividades de cuidados \u2013 que demandam grande quantidade trabalho e n\u00e3o est\u00e3o restritas ao cuidado das crian\u00e7as, envolvendo tamb\u00e9m idosos, enfermos e adultos.<\/p>\n<p>A outra express\u00e3o dos limites e contradi\u00e7\u00f5es na inser\u00e7\u00e3o das mulheres tem rela\u00e7\u00e3o com a taxa de desocupa\u00e7\u00e3o. As mulheres j\u00e1 vinham ostentando taxas de desemprego mais elevadas, e isso tende a se acentuar de forma incontrol\u00e1vel com a crise. No 1\u00ba trimestre de 2020, o desemprego j\u00e1 registrava n\u00edveis elevados: 17,3% entre as mulheres negras e 11,3% entre as mulheres brancas. A taxa de desemprego das mulheres negras representava mais do que o dobro da dos homens brancos (8,4%). Por outro lado, entre aquelas que se inserem no mundo do trabalho, as condi\u00e7\u00f5es s\u00e3o bastante desfavor\u00e1veis. No 1\u00ba trimestre de 2020, 52,1% das mulheres negras e 43,8% das mulheres brancas entraram no mercado de trabalho por meio da informalidade, condi\u00e7\u00e3o que se refere \u00e0s pessoas que est\u00e3o no emprego sem carteira, no emprego dom\u00e9stico sem carteira e no trabalho por conta pr\u00f3pria. Esta condi\u00e7\u00e3o, na maior parte das vezes, se perpetua durante toda a trajet\u00f3ria laboral.<\/p>\n<p>Os resultados apresentados pela pesquisa \u00a0<strong>Sem parar\u2026<\/strong>\u00a0seguem a mesma dire\u00e7\u00e3o: entre as que declararam estar desempregadas, 39% eram brancas e 58,5% negras; por outro lado, as brancas ostentavam percentuais superiores entre as empregadas (52,6%) em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres negras (45,7%). Os resultados evidenciam que os efeitos da crise afetam, sobremaneira, as pessoas mais pobres, as mulheres, as pessoas negras e, por conseguinte, a intersec\u00e7\u00e3o destas tr\u00eas dimens\u00f5es: mulheres pobres e negras.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo em que se amplia o n\u00famero de pessoas sem ocupa\u00e7\u00e3o, a casa se converte no centro das rotinas di\u00e1rias, e \u00e9 nela que ir\u00e3o se intensificar as exig\u00eancias sobre as mulheres com os cuidados e as tarefas dom\u00e9sticas, al\u00e9m do acirramento da viol\u00eancia dom\u00e9stica.<\/p>\n<p>A pandemia afetou de forma distinta as atividades econ\u00f4micas e as ocupa\u00e7\u00f5es com forte recorte de classe, g\u00eanero e ra\u00e7a. As ocupa\u00e7\u00f5es mais qualificadas tiveram suas atividades suspensas ou direcionadas para o trabalho remoto. Enquanto isso, uma parcela seguiu trabalhando \u2013 seja pelas caracter\u00edsticas do trabalho como pertencente aos segmentos considerados essenciais ou por exig\u00eancia dos empregadores. E, para uma outra parcela, a demiss\u00e3o foi imediata, principalmente em ocupa\u00e7\u00f5es que n\u00e3o podem ser realizadas remotamente ou tiveram suas atividades completamente paralisadas. Estabeleceu-se uma clivagem entre os que tiveram assegurados os seus rendimentos e a prote\u00e7\u00e3o \u00e0 vida, e os precisaram recorrer ao auxilio emergencial ou seguir trabalhando e colocando em risco a sua exist\u00eancia.<\/p>\n<p>As mulheres est\u00e3o inseridas predominantemente nos servi\u00e7os pessoais e domiciliares: primeiramente no emprego dom\u00e9stico, seguida pelas vendedoras a domicilio, balconistas e vendedoras, especialistas em tratamento de beleza e cabeleireiras, escritur\u00e1rias, cozinheiras, professoras do ensino fundamental, comerciantes de lojas\u2026 S\u00e3o mais de 16 milh\u00f5es de mulheres nestas ocupa\u00e7\u00f5es. Trata-se de atividades que foram fortemente afetadas pelas orienta\u00e7\u00f5es de isolamento social. Seu retorno se dar\u00e1 de forma progressiva e lenta, o que traz implica\u00e7\u00f5es s\u00e9rias sobre o trabalho das mulheres no pr\u00f3ximo per\u00edodo. Depois do emprego com carteira (33,6%), a segunda forma mais frequente de inser\u00e7\u00e3o na ocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 o trabalho por conta pr\u00f3pria (21,1%), seguido pelo emprego dom\u00e9stico (13,5%).<\/p>\n<p>A magnitude e a natureza das mudan\u00e7as para o per\u00edodo p\u00f3s-pandemia ainda s\u00e3o elementos de reflex\u00e3o. Entretanto, os efeitos sobre a pobreza, o aumento do desemprego, da informalidade e das desigualdades sociais s\u00e3o incontest\u00e1veis, e trazem consigo reflexos na perda de maior autonomia econ\u00f4mica para as mulheres e impactos perversos para as comunidades e as economias em geral.<\/p>\n<p><em>\u00b9\u00a0<strong>Marilane Teixeira \u00e9 economista, pesquisadora do CESIT\/IE-Unicamp e presidenta da SOF Sempreviva Organiza\u00e7\u00e3o Feminista.<\/strong><\/em><\/p>\n<p><em>\u00b2 A pesquisa foi realizada por meio da plataforma Survey Monkey e coletou 2.642 respostas em todo o Brasil. Trata-se de uma amostra n\u00e3o probabil\u00edstica com vi\u00e9s de conveni\u00eancia em que as respostas foram poss\u00edveis para as pessoas que t\u00eam acesso a equipamento digital. Acesso a pesquisa completa.\u00a0<\/em><a href=\"http:\/\/mulheresnapandemia.sof.org.br\/efeitos-pandemia-mulheres-trabalhadoras\/\">http:\/\/mulheresnapandemia.sof.org.br\/efeitos-pandemia-mulheres-trabalhadoras\/<\/a><\/p>\n<p><em>\u00b3 Embora a pesquisa separe pessoas pardas e pretas, para efeito de an\u00e1lise e seguindo as recomenda\u00e7\u00f5es dos movimentos raciais analisaremos conjuntamente.<\/em><\/p>\n<p>www.radiopeaobrasil.com.br<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>50% das mulheres brasileiras passaram a cuidar de algu\u00e9m na pandemia.\u00a0 40% das mulheres afirmaram que a pandemia e a situa\u00e7\u00e3o de isolamento social colocaram a sustenta\u00e7\u00e3o da casa em risco. 41% das mulheres que seguiram trabalhando durante a pandemia com manuten\u00e7\u00e3o de sal\u00e1rios afirmaram trabalhar mais na quarentena. 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