{"id":15805,"date":"2020-08-12T12:26:55","date_gmt":"2020-08-12T15:26:55","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/?p=15805"},"modified":"2020-08-12T12:28:18","modified_gmt":"2020-08-12T15:28:18","slug":"teresa-caldeira-a-desigualdade-nao-aumentou-mas-com-a-pandemia-se-tornou-mais-evidente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/2020\/08\/12\/teresa-caldeira-a-desigualdade-nao-aumentou-mas-com-a-pandemia-se-tornou-mais-evidente\/","title":{"rendered":"Teresa Caldeira: \u201cA desigualdade n\u00e3o aumentou, mas com a pandemia se tornou mais evidente\u201d"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_15806\" aria-describedby=\"caption-attachment-15806\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-15806 size-medium\" src=\"https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Capturar-300x290.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"290\" srcset=\"https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Capturar-300x290.jpg 300w, https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Capturar.jpg 434w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-15806\" class=\"wp-caption-text\">Teresa Caldeira em uma imagem de arquivo de 2015. MIQUEL TAVERNA<\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"a_st font_secondary color_gray_dark \" style=\"text-align: right;\"><strong>Antrop\u00f3loga e pensadora urbana, esta especialista na cidade de S\u00e3o Paulo reflete sobre a capacidade de adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 pandemia demonstrada pelos moradores de muitas periferias<\/strong><\/p>\n<div class=\"a_b article_body | color_gray_dark\">\n<p class=\"\">O\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/mamas_papas\/2020-06-06\/os-efeitos-do-confinamento-na-saude-mental-de-criancas-e-adolescentes.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">confinamento diante do coronav\u00edrus<\/a>\u00a0n\u00e3o \u00e9 vivenciado da mesma forma em um amplo apartamento de San Francisco e em uma\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/sociedade\/2020-04-05\/coronavirus-chega-as-favelas-brasileiras-com-impacto-mais-incerto-que-nas-grandes-cidades.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">min\u00fascula moradia de favela brasileira<\/a>. Quem sabe muito bem disso \u00e9 Teresa Caldeira (S\u00e3o Paulo, 1954), pensadora urbana que passou seus 30 primeiros anos em S\u00e3o Paulo e agora continua pesquisando a transforma\u00e7\u00e3o social da cidade a partir da Universidade da Calif\u00f3rnia em Berkeley, que a premiou em 2012 com o Faculty Mentor Award, um reconhecimento aos professores mais valorizados. \u201cNa periferia, as emerg\u00eancias s\u00e3o constantes, e o v\u00edrus \u00e9 mais uma\u201d, explica a antrop\u00f3loga, autora de v\u00e1rios livros, entre eles\u00a0<i>Cidade de Muros: Crime, Segrega\u00e7\u00e3o e Cidadania em S\u00e3o Paulo<\/i>\u00a0(Editora 34\/Edusp, 2000), que ganhou o Senior Book Prize. Depois de dar uma palestra no Centro de Cultura Contempor\u00e2nea de Barcelona, a professora reflete por telefone, de Berkeley, sobre a capacidade dos habitantes das periferias de se adaptar \u00e0s mudan\u00e7as.<\/p>\n<p class=\"\"><strong>PERGUNTA.\u00a0Por que o confinamento \u00e9 diferente em duas cidades como San Francisco e S\u00e3o Paulo?<\/strong><\/p>\n<p class=\"\"><b>RESPOSTA.<\/b>\u00a0Em San Francisco, quase todos t\u00eam respeitado o confinamento. Nas cidades do sul global, como S\u00e3o Paulo, tem sido muito diferente. A maioria vive em espa\u00e7os densamente povoados, em casas pequenas, e n\u00e3o tem possibilidade de se isolar. Sobrevivem da economia informal, n\u00e3o podem ficar em casa.<\/p>\n<p class=\"\"><strong>P.\u00a0As medidas contra o coronav\u00edrus s\u00e3o iguais para todos?<\/strong><\/p>\n<p class=\"\"><b>R.<\/b>\u00a0Foram pensadas para quem tem uma casa e pode se isolar, lavar as m\u00e3os toda hora, trabalhar pela Internet&#8230; Essa pol\u00edtica n\u00e3o pode ser aplicada nas cidades do sul global. Os migrantes da \u00cdndia caminharam durante dias para ir para outro lugar porque sabiam que no confinamento n\u00e3o poderiam sobreviver. Muitas comunidades dessas \u00e1reas procuraram, por conta pr\u00f3pria, modelos alternativos frente ao coronav\u00edrus.<\/p>\n<p class=\"\"><strong> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-15808 alignright\" src=\"https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/PARA-300x169.jpg\" alt=\"\" width=\"435\" height=\"245\" srcset=\"https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/PARA-300x169.jpg 300w, https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/PARA.jpg 700w\" sizes=\"auto, (max-width: 435px) 100vw, 435px\" \/>P.\u00a0Por exemplo?<\/strong><\/p>\n<p class=\"\"><b>R.<\/b>\u00a0Na favela de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2015\/06\/01\/politica\/1433185554_574794.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Parais\u00f3polis<\/a>, em S\u00e3o Paulo, pensaram na preven\u00e7\u00e3o de uma forma distinta. L\u00e1 voc\u00ea n\u00e3o pode dizer para uma fam\u00edlia que vive em um espa\u00e7o pequeno que ela precisa se isolar. O que os moradores fizeram foi pensar como uma unidade: ningu\u00e9m estava confinado, as pessoas continuaram se movendo, mas criaram um sistema para saber onde estavam os casos. Havia um representante para cada rua que perguntava a todos os moradores. Quando identificavam um caso, encaminhavam-no para o sistema de sa\u00fade. Tamb\u00e9m isolaram infectados e idosos em escolas, que estavam vazias, e tanto o atendimento como a comida foram feitos pelas pessoas do bairro. Geraram emprego local, isolaram as pessoas e monitoraram o bairro. Pensaram em solu\u00e7\u00f5es al\u00e9m das oficiais. A taxa de cont\u00e1gio l\u00e1, onde h\u00e1 70.000 habitantes, s\u00e3o muito mais baixas do que em outras \u00e1reas da cidade.<\/p>\n<p class=\"\"><strong>P.\u00a0O v\u00edrus mostrou a desigualdade das cidades?<\/strong><\/p>\n<p class=\"\"><b>R.<\/b>\u00a0S\u00e3o Paulo \u00e9 uma das cidades mais desiguais do mundo, mas agora isso \u00e9 evidente at\u00e9 para quem n\u00e3o queria pensar nisso. A desigualdade n\u00e3o aumentou, mas foi vista de forma mais evidente.<\/p>\n<p class=\"\"><strong>P.\u00a0Isso ocorre apenas nas cidades do sul?<\/strong><\/p>\n<p class=\"\"><b>R.<\/b>\u00a0N\u00e3o. As cidades do norte s\u00e3o desiguais, mas de outra forma. Nos EUA, a pandemia coincidiu com a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/internacional\/2020-06-02\/estados-unidos-enfrentam-a-maior-onda-de-protestos-raciais-desde-o-assassinato-de-martin-luther-king.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">onda de protestos contra o racismo<\/a>\u00a0que levou \u00e0 consci\u00eancia p\u00fablica a imensa desigualdade racial do pa\u00eds. A\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/internacional\/2020-05-29\/minneapolis-declara-estado-de-emergencia-por-protestos-contra-o-racismo-policial.html?rel=mas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">morte de George Floyd por asfixia<\/a>\u00a0\u00e9 como uma met\u00e1fora da pandemia: ele repetiu dez vezes \u201cn\u00e3o consigo respirar\u201d em um momento em que milhares de pessoas morriam por n\u00e3o conseguir respirar. Foi uma situa\u00e7\u00e3o forte que gerou uma mudan\u00e7a. E tamb\u00e9m houve uma mudan\u00e7a no Brasil com a evid\u00eancia da desigualdade, embora Bolsonaro a ignore.<\/p>\n<p class=\"\"><strong>P.\u00a0Uma cidade \u00e9 democr\u00e1tica se tem grandes diferen\u00e7as entre os bairros ricos e pobres?<\/strong><\/p>\n<p class=\"\"><b>R.<\/b>\u00a0A democracia convive com a desigualdade. N\u00e3o acho que se possa dizer que a democracia produz igualdade, mas acredito que oferece mais condi\u00e7\u00f5es para que os movimentos sociais tentem reduzir a desigualdade. \u00c9 mais f\u00e1cil tentar lutar contra a desigualdade em uma democracia do que em um regime autorit\u00e1rio.<\/p>\n<p class=\"\"><strong>P.\u00a0As cidades s\u00e3o projetadas para as mulheres?<\/strong><\/p>\n<p class=\"\"><b>R.<\/b>\u00a0Nunca foram. [As mulheres] sempre mantiveram uma situa\u00e7\u00e3o amb\u00edgua com o espa\u00e7o p\u00fablico da cidade moderna. S\u00e3o assediadas e n\u00e3o t\u00eam as mesmas possibilidades para se mover. No metr\u00f4 do Rio de Janeiro h\u00e1 vag\u00f5es s\u00f3 para elas.<\/p>\n<p class=\"\"><strong>P.\u00a0Que mudan\u00e7as urban\u00edsticas as mulheres promovem?<\/strong><\/p>\n<p class=\"\"><b>R.\u00a0<\/b>Nas periferias, h\u00e1 uma gera\u00e7\u00e3o jovem de mulheres que descobriu o feminismo e est\u00e1 muito envolvida em movimentos como o\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/movimiento-metoo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">MeToo<\/a>. Est\u00e3o dispostas a criar outro tipo de vida. No Brasil, as mulheres mudaram imensamente suas vidas em poucas d\u00e9cadas. Se voc\u00ea observa as moradias, v\u00ea que as fam\u00edlias nucleares \u2015pai e m\u00e3e com filhos\u2015 representam menos de 50%. H\u00e1 muitas mulheres que preferem ter filhos sozinhas antes de formar um casal. Um dos motivos \u00e9 que h\u00e1 muita viol\u00eancia machista no lar. Em algumas \u00e1reas da periferia de S\u00e3o Paulo, 60% das mulheres que t\u00eam filhos n\u00e3o vivem com o pai de seu filho. \u00c9 uma quest\u00e3o da cultura popular urbana. E a rea\u00e7\u00e3o foi vista em quem apoia Bolsonaro: uma masculinidade que se sente atacada e reage de forma violenta.<\/p>\n<p class=\"\"><strong>P.\u00a0Como a falta de uma rede de transporte p\u00fablico afeta uma cidade?<\/strong><\/p>\n<p class=\"\"><b>R.<\/b>\u00a0Ela \u00e9 fundamental para um espa\u00e7o p\u00fablico democr\u00e1tico. Os EUA t\u00eam muitas cidades sem transporte p\u00fablico, os sub\u00farbios n\u00e3o t\u00eam&#8230; Embora exista um movimento para construir alternativas: San Francisco, por exemplo, fechou parte da Market Street, uma das principais avenidas, para os carros, ela s\u00f3 pode ser usada por bicicletas e \u00f4nibus.<\/p>\n<p class=\"\"><strong>P.\u00a0O coronav\u00edrus mudar\u00e1 as cidades para melhor?<\/strong><\/p>\n<p class=\"\">R. N\u00e3o sei como as cidades v\u00e3o mudar. Haver\u00e1 mudan\u00e7as importantes, mas n\u00e3o me atrevo a dizer como v\u00e3o ocorrer. \u00c9 importante que as pessoas comecem a pensar em alternativas. N\u00e3o \u00e9 porque a cidade \u00e9 assim que ela tem de continuar sendo assim. Como tornar S\u00e3o Paulo menos desigual? O que podemos fazer para que a periferia da cidade se transforme em um espa\u00e7o de vida alternativa? Se a periferia se organizar, pode ser ainda mais interessante do que os bairros do centro. \u00c9 preciso estar aberto a propostas.<\/p>\n<p>www.brasil.elpais.com<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Antrop\u00f3loga e pensadora urbana, esta especialista na cidade de S\u00e3o Paulo reflete sobre a capacidade de adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 pandemia demonstrada pelos moradores de muitas periferias O\u00a0confinamento diante do coronav\u00edrus\u00a0n\u00e3o \u00e9 vivenciado da mesma forma em um amplo apartamento de San Francisco e em uma\u00a0min\u00fascula moradia de favela brasileira. 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