{"id":16239,"date":"2020-09-08T13:10:47","date_gmt":"2020-09-08T16:10:47","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/?p=16239"},"modified":"2020-09-08T13:10:47","modified_gmt":"2020-09-08T16:10:47","slug":"como-morrem-os-pobres-coronavirus-afeta-populacoes-de-forma-desigual-e-perversa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/2020\/09\/08\/como-morrem-os-pobres-coronavirus-afeta-populacoes-de-forma-desigual-e-perversa\/","title":{"rendered":"Como morrem os pobres: coronav\u00edrus afeta popula\u00e7\u00f5es de forma desigual e perversa"},"content":{"rendered":"<p><strong>Aprofundamento da vulnerabilidade atinge principalmente as mulheres no Brasil durante a pandemia<\/strong><\/p>\n<p>Diversos estudos t\u00eam apontado a disparidade do impacto da pandemia, que tem afetado algumas popula\u00e7\u00f5es de forma desigual e perversa. Ainda que homens e mulheres sejam infectados na mesma propor\u00e7\u00e3o e que a taxa de sobreviv\u00eancia delas seja expressivamente mais alta, a sobreposi\u00e7\u00e3o g\u00eanero, ra\u00e7a e classe, somada \u00e0 distribui\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica e \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de habitabilidade, revela o aprofundamento, na crise do coronav\u00edrus, de camadas de vulnerabilidade a que uma grande parcela das mulheres j\u00e1 est\u00e1 submetida.<\/p>\n<p>As mulheres est\u00e3o na linha de frente dos cuidados prestados aos infectados pela Covid-19. Segundo a Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho (OIT), as mulheres representam 70% da for\u00e7a de trabalho na \u00e1rea da sa\u00fade e do terceiro setor. No Brasil, 85% das enfermeiras s\u00e3o mulheres, de acordo com o mais amplo levantamento sobre a profiss\u00e3o j\u00e1 realizado na Am\u00e9rica Latina \u2013 a pesquisa \u201cPesquisa Perfil da Enfermagem\u201d, produzida em 2013 pelo Conselho Federal de Enfermagem (COFEN) em parceria com a Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz (Fiocruz). Al\u00e9m do risco de contamina\u00e7\u00e3o, essas profissionais est\u00e3o enfrentando um elevado grau de estresse, assumindo custos f\u00edsicos e emocionais.<\/p>\n<p>As mulheres tamb\u00e9m s\u00e3o as mais afetadas pelo trabalho n\u00e3o-remunerado, principalmente em tempos de crise. Segundo os dados do IBGE na PNAD Cont\u00ednua de 2019, a propor\u00e7\u00e3o de mulheres que realizam atividades de cuidados \u00e9 superior \u00e0 dos homens: 36,8% das mulheres destinam seu tempo aos cuidados, contra 25,9% dos homens. Para afazeres dom\u00e9sticos, esse percentual chega a 92,1% para elas e 78,6% para eles. No contexto da pandemia, com escolas fechadas, a necessidade de cuidados dos idosos e servi\u00e7os de sa\u00fade sobrecarregados, o trabalho n\u00e3o-remunerado aumentou.<\/p>\n<p>A OIT alerta que a desigual responsabilidade pelo trabalho de cuidado prejudica a sa\u00fade das mulheres e limita sua ascens\u00e3o econ\u00f4mica ao ampliar diferen\u00e7as de g\u00eanero no emprego e nos sal\u00e1rios (OIT, 2018). Dessa forma, as mulheres representam os maiores n\u00fameros em categorias economicamente vulner\u00e1veis, como diaristas e empregadas dom\u00e9sticas. Para essas profissionais restam apenas duas alternativas: estarem expostas \u00e0 contamina\u00e7\u00e3o para manter sua renda ou seguir as medidas de isolamento social e arcar com as consequ\u00eancias do desemprego.<\/p>\n<p>A realidade das mulheres que s\u00e3o m\u00e3es solo \u00e9 ainda mais cr\u00edtica. Para essas mulheres n\u00e3o existe o compartilhamento social do cuidado com os filhos. Em um contexto de pandemia, devido \u00e0 limita\u00e7\u00e3o das fontes de compartilhamento desse cuidado, como escolas e creches, a situa\u00e7\u00e3o torna-se ainda mais dif\u00edcil. Assim, as fam\u00edlias monoparentais est\u00e3o sujeitas \u00e0 maiores condi\u00e7\u00f5es de vulnerabilidade econ\u00f4mica, uma vez que a mulher \u00e9 integralmente respons\u00e1vel pelos cuidados dos filhos e do sustento familiar.<\/p>\n<p>Dados da S\u00edntese de Indicadores Sociais do IBGE de 2018 demonstram que 56,9% das m\u00e3es solo vivem abaixo da linha da pobreza. Para as m\u00e3es solo negras esse n\u00famero \u00e9 ainda mais alarmante: 64,4% das casas comandadas por mulheres negras com filhos at\u00e9 14 anos sobrevivem com at\u00e9 420 reais mensais.<\/p>\n<p>Outro fator que implica na maior exposi\u00e7\u00e3o dessas mulheres \u00e0 contamina\u00e7\u00e3o pelo coronav\u00edrus est\u00e1 relacionado \u00e0 renda e ao lugar que habitam, em geral, \u00e1reas perif\u00e9ricas. Na maioria dos casos, m\u00e3es solo em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade se deslocam de forma poligonal pela cidade e prioritariamente por transporte p\u00fablico coletivo para conseguir acionar suas redes de apoio, enquanto homens na mesma condi\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e racial se deslocam de forma linear, de casa para o trabalho, diminuindo sua exposi\u00e7\u00e3o ao v\u00edrus.<\/p>\n<p>Os dados para a popula\u00e7\u00e3o negra refletem o racismo estrutural presente na sociedade brasileira: 46,9% da popula\u00e7\u00e3o preta e parda est\u00e3o inseridas em trabalhos informais, segundo a S\u00edntese de Indicadores Sociais do IBGE (2018). Essa popula\u00e7\u00e3o representa os trabalhadores com poucas prote\u00e7\u00f5es contra demiss\u00e3o ou licen\u00e7a por doen\u00e7a remunerada. Para manter a sua renda, na maioria dos casos, dependem do espa\u00e7o p\u00fablico e das intera\u00e7\u00f5es sociais que neste momento est\u00e3o restritas para conter o avan\u00e7o da pandemia.<\/p>\n<p>Dessa forma, fica evidente que o racismo \u00e9 um determinante social da sa\u00fade, pois exp\u00f5e mulheres negras a situa\u00e7\u00f5es mais vulner\u00e1veis de adoecimento e morte. A pesquisa realizada pelo N\u00facleo de Opera\u00e7\u00f5es e Intelig\u00eancia em Sa\u00fade (NOIS), destaca o impacto das desigualdades raciais na letalidade por Covid-19 no Pa\u00eds. Os dados demonstram que dos pacientes internados da cor branca, 62,07% conseguiram se recuperar da doen\u00e7a e 37,93% vieram \u00e0 \u00f3bito. Para a popula\u00e7\u00e3o preta e parda, os n\u00fameros se invertem: 54,78% de mortes, para 45,22% de recuperados.<\/p>\n<p>A an\u00e1lise realizada pelos pesquisadores cruzando as vari\u00e1veis de ra\u00e7a e escolaridade segue confirmando as consequ\u00eancias das desigualdades raciais e do racismo estrutural: a popula\u00e7\u00e3o negra apresentou maior porcentagem de \u00f3bitos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 branca em todos os n\u00edveis de escolaridade. No estudo, constatou-se que pretos e pardos sem escolaridade tiveram n\u00famero de mortes quatro vezes superiores do que brancos com n\u00edvel superior (80,35% e 19,65%, respectivamente). Al\u00e9m disso, considerando todos os n\u00edveis educacionais, pretos e pardos apresentaram propor\u00e7\u00e3o de \u00f3bitos em m\u00e9dia 37% maior do que brancos. Fica evidente que o acesso a alguns direitos, como a educa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o exclui as demais desigualdades.<\/p>\n<p>Em Curitiba, \u201ccidade modelo\u201d, os n\u00fameros n\u00e3o s\u00e3o diferentes: dados disponibilizados pelo Portal da Transpar\u00eancia da Central de Informa\u00e7\u00e3o do Registro Civil (CRC) revelam que no per\u00edodo de 21 de mar\u00e7o a 21 de agosto morreram 5.460 pessoas, n\u00famero 11,3% superior ao mesmo per\u00edodo em 2019. Entre as pessoas brancas, que s\u00e3o maioria na cidade, os registros apontam um aumento de 6%. Entretanto, o crescimento para pessoas pardas e pretas foi de 31% e 35%, respectivamente.<\/p>\n<p>As popula\u00e7\u00f5es que historicamente est\u00e3o em maior vulnerabilidade social tamb\u00e9m s\u00e3o aquelas em risco iminente nos momentos de cat\u00e1strofes e crise. A dissemina\u00e7\u00e3o e os efeitos sociais da pandemia est\u00e3o fundamentalmente articulados ao modelo excludente de ocupa\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio, que amplia a condi\u00e7\u00e3o de marginalidade daqueles que j\u00e1 sobrevivem sob formas variadas de viol\u00eancia. \u00c9 fundamental, no entanto, segmentar os dados e reconhecer quem s\u00e3o os sujeitos impactados por situa\u00e7\u00f5es calamitosas, de emerg\u00eancia e risco, para a formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas adequadas. Nesse sentido, reposicionar a complexidade da desigualdade territorial a partir da perspectiva interseccional garante maior amplitude para compreender a vulnerabilidade social e subs\u00eddios para lutar por cidades mais justas e inclusivas.<\/p>\n<p>www.cut.org.br<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aprofundamento da vulnerabilidade atinge principalmente as mulheres no Brasil durante a pandemia Diversos estudos t\u00eam apontado a disparidade do impacto da pandemia, que tem afetado algumas popula\u00e7\u00f5es de forma desigual e perversa. 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