{"id":16829,"date":"2020-10-15T22:51:30","date_gmt":"2020-10-16T01:51:30","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/?p=16829"},"modified":"2020-10-15T22:51:30","modified_gmt":"2020-10-16T01:51:30","slug":"64-dos-professores-se-sentem-ansiosos-e-maioria-nao-esta-confortavel-com-volta-as-aulas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/2020\/10\/15\/64-dos-professores-se-sentem-ansiosos-e-maioria-nao-esta-confortavel-com-volta-as-aulas\/","title":{"rendered":"64% dos professores se sentem ansiosos e maioria n\u00e3o est\u00e1 confort\u00e1vel com volta \u00e0s aulas"},"content":{"rendered":"<div class=\"vc_row wpb_row vc_row-fluid eltdf-section eltdf-content-aligment-left\">\n<div class=\"clearfix eltdf-full-section-inner\">\n<div class=\"wpb_text_column wpb_content_element \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<p><strong>Pesquisa revela frustra\u00e7\u00e3o e cansa\u00e7o dos professores, que precisaram se adaptar \u00e0s pressas e enfrentam falta de estrutura no ensino remoto<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"vc_empty_space\">A rotina da professora de Hist\u00f3ria Keilla Vila Flor, de Bras\u00edlia, mudou completamente durante a pandemia. Ela teve redu\u00e7\u00e3o do n\u00famero de aulas, mas passou a trabalhar mais tempo para se adaptar ao ensino remoto. \u201cTamb\u00e9m perdemos a diferencia\u00e7\u00e3o do que \u00e9 p\u00fablico e do que \u00e9 privado no nosso emprego. Eu dou aula de dentro do meu quarto, que era o espa\u00e7o mais privado que eu tinha. Agora deixou de ser isso. Eu acordo \u00e0s seis da manh\u00e3 e j\u00e1 vou trabalhar, e s\u00f3 encerro \u00e0s 22 horas\u201d, conta.<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Desde que foi adotado o distanciamento social, h\u00e1 sete meses, por conta da pandemia do novo coronav\u00edrus, a realidade e a rotina dos professores mudaram. As salas de aula deram lugar \u00e0s resid\u00eancias, o quadro-negro virou computador, tablet ou celular. Neste Dia dos Professores, marcado pelo ensino remoto e a volta gradual, e confusa, das\u00a0<a href=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/tag\/volta-as-aulas\/\">atividades presenciais<\/a>, a terceira fase da pesquisa \u201cSentimento e percep\u00e7\u00e3o dos professores brasileiros nos diferentes est\u00e1gios do coronav\u00edrus do Brasil\u201d, realizada pelo Instituto Pen\u00ednsula (IP), mostra que a maior parte dos docentes questionados se sente ansioso (64%) e sobrecarregado (53%).<\/p>\n<p>O Instituto Pen\u00ednsula \u00e9 uma organiza\u00e7\u00e3o social fundada pela fam\u00edlia do empres\u00e1rio Abilio Diniz em 2010 e tem como foco a melhoria da qualidade da educa\u00e7\u00e3o brasileira. Esta \u00e9 a terceira fase da pesquisa, com mais de 3.800 professores em todo o pa\u00eds, realizada entre 20 de julho e 14 de agosto de 2020. As fases anteriores mostraram que 7 em cada 10 professores j\u00e1 haviam mudado muito ou totalmente suas rotinas em mar\u00e7o, e 83% dos professores se sentiam despreparados para o ensino remoto em junho.<\/p>\n<p>\u201cA crise que vivemos \u00e9 sanit\u00e1ria e econ\u00f4mica, mas tamb\u00e9m educacional. Ficar sete meses em casa, longe da escola, em um pa\u00eds que tem tanta desigualdade social, significa que as desigualdades educacionais s\u00f3 aumentaram. N\u00e3o \u00e9 que o professor n\u00e3o se sinta preparado, ele n\u00e3o estava preparado para esse momento. Houve um esfor\u00e7o para garantir alguma forma de aprendizagem em casa, mas n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa que estar na escola\u201d, destaca Cl\u00e1udia Costin, diretora do centro de pol\u00edticas educacionais da Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas (FGV).<\/p>\n<p>O perfil dos respondentes da pesquisa \u00e9 majoritariamente feminino (80%). Este tamb\u00e9m corresponde ao percentual de mulheres no ensino b\u00e1sico (que compreende desde a educa\u00e7\u00e3o infantil ao ensino m\u00e9dio), segundo o mais recente Censo da Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica, de 2017. Segundo Flor, existe uma marca\u00e7\u00e3o bem forte e percept\u00edvel com rela\u00e7\u00e3o aos n\u00edveis de ensino. Quanto mais novos os alunos, mais mulheres h\u00e1 na profiss\u00e3o. E quanto mais velhos, mais homens. \u201cNesta pandemia, tivemos uma s\u00e9rie de demiss\u00f5es de professoras que trabalhavam com ensino infantil, j\u00e1 que n\u00e3o existe ensino infantil \u00e0 dist\u00e2ncia, porque requer socializa\u00e7\u00e3o com a crian\u00e7a\u201d, diz a professora, apontando mais um obst\u00e1culo para as mulheres trabalhadoras nesta pandemia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p><strong>Educa\u00e7\u00e3o \u00e9 um processo profundamente humano. O v\u00ednculo e a quest\u00e3o relacional s\u00e3o muito importantes. O grande temor daqui para frente n\u00e3o \u00e9 apenas que o v\u00ednculo tenha se perdido com o professor, mas com a escola. Isso \u00e9 muito triste n\u00e3o s\u00f3 para os alunos, mas para o pa\u00eds<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Professora de duas escolas privadas de Bras\u00edlia, de ensinos Fundamental e M\u00e9dio, Flor est\u00e1 entre a maioria dos professores que se sentem ansiosos, sobrecarregados e cansados nesta pandemia. O sentimento, diz, \u00e9 de frustra\u00e7\u00e3o: \u201cNenhum de n\u00f3s se formou para fazer o que estamos fazendo. A sala de aula n\u00e3o \u00e9 isso, estamos improvisando. Estamos frustrados em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pr\u00e1tica docente porque n\u00e3o conseguimos executar o que fomos instru\u00eddos a executar, que \u00e9 trabalhar com educa\u00e7\u00e3o, com a forma\u00e7\u00e3o e contato com seres humanos. \u00c0 dist\u00e2ncia n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa\u201d.<\/p>\n<p>Os efeitos dessa adapta\u00e7\u00e3o na educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o sentidos apenas pelos professores. Segundo a pesquisa \u201cJuventudes e a Pandemia do Coronav\u00edrus\u201d, promovida pela Conjuve, Unesco e outras entidades, que ouviu mais de 33 mil jovens em todas as regi\u00f5es do pa\u00eds, as barreiras para a continuidade dos estudos s\u00e3o tamanhas que, questionados sobre a volta \u00e0s aulas ap\u00f3s o fim do isolamento social, 3 a cada 10 jovens confessam que j\u00e1 pensaram em n\u00e3o retornar.<\/p>\n<p>\u201cEduca\u00e7\u00e3o \u00e9 um processo profundamente humano. O v\u00ednculo e a quest\u00e3o relacional s\u00e3o muito importantes. O grande temor daqui para frente n\u00e3o \u00e9 apenas que o v\u00ednculo tenha se perdido com o professor, mas com a escola. Isso \u00e9 muito triste n\u00e3o s\u00f3 para os alunos, mas para o pa\u00eds. \u00c9 retroceder em um per\u00edodo em que menos gente se forma nos ensinos fundamental e m\u00e9dio\u201d, alerta Costin.<\/p>\n<h2><strong>Desafios do ensino remoto e volta \u00e0s aulas<\/strong><\/h2>\n<p>Os principais desafios do ensino remoto, segundo a pesquisa, s\u00e3o a falta de infraestrutura e conectividade dos estudantes (79%), dificuldade para manter o engajamento dos alunos (64%) e o distanciamento e a perda de v\u00ednculo entre estudantes e professores (54%). No Ensino Fundamental e no Ensino M\u00e9dio, a falta de estrutura tem um impacto ainda maior: 84% dos professores citaram esta como a principal dificuldade no momento.<br \/>\n\u201cEssa falta de estrutura gera frustra\u00e7\u00e3o. Eu tive que trocar meu notebook durante a pandemia e tive que arcar com o valor completo. Assim como outros professores tiveram que comprar equipamentos para trabalhar. Esse tipo de compra sai inteiramente s\u00f3 do sal\u00e1rio do professor, porque agora \u00e9 uma exig\u00eancia de trabalho\u201d, conta a professora de Bras\u00edlia.<\/p>\n<p>A pandemia e a mudan\u00e7a para o ensino remoto tamb\u00e9m impactaram na\u00a0<a href=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/educacao\/muitas-vezes-nao-me-sinto-aprendendo-nada-diz-estudante-sobre-ensino-remoto\">percep\u00e7\u00e3o de aprendizagem<\/a>. Segundo o estudo, 41% dos professores responderam que poucos alunos aprenderam o esperado, e 32% que cerca da metade aprenderam. Costin tenta ter uma vis\u00e3o positiva: \u201cN\u00e3o \u00e9 a mesma coisa que aprender na escola, mas tentando ver o copo meio cheio, essa metade que foi atendida \u00e9 importante. Imagina se n\u00e3o tivesse havido um processo de aprendizagem em casa\u201d.<\/p>\n<p>Para a professora de Hist\u00f3ria, o\u00a0<a href=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/educacao\/professores-relatam-experiencias-e-desafios-de-aulas-online-durante-pandemia\/\">ensino remoto<\/a>\u00a0pode aumentar ainda mais as desigualdades e dificuldades de aprendizado: \u201cSe os alunos que estavam perfeitamente adequados ao sistema de ensino sentiram dificuldade, aqueles que j\u00e1 n\u00e3o estavam adequados est\u00e3o com mais dificuldades ainda. Nessa l\u00f3gica de produtividade, quem n\u00e3o est\u00e1 adequado acaba sendo deixado para tr\u00e1s. O n\u00edvel de aprendizagem est\u00e1 baixo para todo mundo, mas ainda mais dif\u00edcil para alguns alunos\u201d.<\/p>\n<p>A pesquisa ainda revela que 69% das escolas n\u00e3o t\u00eam previs\u00e3o de retorno presencial, enquanto em 21% est\u00e1 prevista a volta parcial e, em 9%, a volta total das aulas. Se forem consideradas s\u00f3 as escolas municipais, a volta \u00e0s aulas em 2020 \u00e9 considerada invi\u00e1vel por 82% dos munic\u00edpios, segundo estudo da Confedera\u00e7\u00e3o Nacional de Munic\u00edpios (CNM). De qualquer forma, o n\u00edvel de conforto dos professores com a possibilidade de retorno \u00e9 baixo, de acordo com o levantamento do Instituto Pen\u00ednsula: em uma escala de 0 a 5, sendo 5 muito confort\u00e1vel, a m\u00e9dia \u00e9 de 1,07. A professora Keilla Villa Flor j\u00e1 teve Covid-19, mas n\u00e3o se sente confort\u00e1vel com o retorno \u00e0s aulas presenciais. \u201cSe eu pudesse, s\u00f3 voltaria quando tivesse vacina, mas, como n\u00e3o depende s\u00f3 de mim, semana que vem j\u00e1 estarei em sala de aula\u201d.<\/p>\n<p>Ex-ministra da Administra\u00e7\u00e3o e Reforma do Estado no governo Fernando Henrique Cardoso (1995 -2000), ex-secret\u00e1ria de Cultura do Estado de S\u00e3o Paulo (2003 -2005) e mentora de 50 secret\u00e1rios municipais e tr\u00eas estaduais de educa\u00e7\u00e3o na resposta a covid-19, Cl\u00e1udia Costin n\u00e3o se surpreende com esse dado:<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 natural que n\u00e3o estejam confort\u00e1veis com a volta \u00e0s aulas. A perda do v\u00ednculo com a escola n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 do aluno, mas dos profissionais de educa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m. O comportamento das autoridades brasileiras de n\u00e3o levar a s\u00e9rio a pandemia inicialmente trouxe uma grande inseguran\u00e7a para professores que levam a s\u00e9rio a ci\u00eancia. Todos n\u00f3s estamos inseguros, e a resposta educacional do governo deixou uma sensa\u00e7\u00e3o de mal-estar. A seguran\u00e7a vai ser constru\u00edda aos poucos nesse processo de volta. Em cinco estados j\u00e1 come\u00e7ou o processo de volta escalonada e, ao longo de outubro, outros estados ir\u00e3o retornar\u201d.<\/p>\n<p>Para Costin, o retorno pode ajudar nessas dificuldades de infraestrutura do ensino remoto, mas ela refor\u00e7a que isso tem que ser feito com seguran\u00e7a, e seguindo as recomenda\u00e7\u00f5es dos profissionais de sa\u00fade. \u201cVamos voltar \u00e0s aulas antes de ter uma vacina com 100% de efic\u00e1cia. Vamos voltar com o v\u00edrus no ar. Ao fazer isso, teremos um rod\u00edzio de alunos para diminuir o tamanho das turmas. Nesse contexto, estaremos mais organizados para o ensino h\u00edbrido. Com a escola aberta, ser\u00e1 mais f\u00e1cil mandar equipamento para os alunos e pensar nesse aspecto da conectividade\u201d, finaliza.<\/p>\n<p>www.cartacapital.com.br \/Por Vit\u00f3ria R\u00e9gia da Silva<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pesquisa revela frustra\u00e7\u00e3o e cansa\u00e7o dos professores, que precisaram se adaptar \u00e0s pressas e enfrentam falta de estrutura no ensino remoto A rotina da professora de Hist\u00f3ria Keilla Vila Flor, de Bras\u00edlia, mudou completamente durante a pandemia. 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