{"id":17430,"date":"2020-11-20T10:12:30","date_gmt":"2020-11-20T13:12:30","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/?p=17430"},"modified":"2020-11-20T10:12:30","modified_gmt":"2020-11-20T13:12:30","slug":"zumbi-em-tempos-de-consciencia-negra-e-luta-antirracista-historia-e-movimento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/2020\/11\/20\/zumbi-em-tempos-de-consciencia-negra-e-luta-antirracista-historia-e-movimento\/","title":{"rendered":"Zumbi em Tempos de Consci\u00eancia Negra e Luta Antirracista: Hist\u00f3ria e Movimento"},"content":{"rendered":"<p><strong>Vinte de novembro, data da morte de Zumbi dos Palmares, foi celebrado como Dia da Consci\u00eancia Negra. A ideia era usar a data para relembrar a luta dos negros escravizados que se rebelaram contra o sistema escravista. A data re\u00fane tamb\u00e9m diferentes a\u00e7\u00f5es de combate ao racismo e reascende o debate sobre a chegada dos negros ao pa\u00eds, a escravid\u00e3o no Brasil e o racismo estrutural da sociedade brasileira.<\/strong><\/p>\n<p>Foi em 2011, no governo da presidenta Dilma Rousseff, por meio da Lei n\u00ba12. 519, que foi oficializado o \u201cDia da Consci\u00eancia Negra\u201d, mas se hoje temos espa\u00e7o na agenda p\u00fablica civil para lembrar, debater e defender a mem\u00f3ria e a luta do povo preto no nosso pa\u00eds, \u00e9 porque existiu todo um movimento cultural e pol\u00edtico dos negros e negras ao longo da nossa hist\u00f3ria para que possamos hoje estar aqui, refletindo sobre a mem\u00f3ria de Zumbi e os seus.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso destacar que a ideia de eleger 20 de novembro, morte de Zumbi, como o Dia da Consci\u00eancia Negra veio dos ativistas do Movimento Negro Unificado (MNU) que, em 1978, reuniram-se em Salvador e decidiram que esse era o dia para relembrar e manter acesa a chama da luta contra o racismo dentro do movimento negro. A lei de Dilma, portanto, s\u00f3 referendou uma proposta que j\u00e1 era reivindicada pelo movimento negro.<\/p>\n<p>Do ponto de vista cultural, a escola de samba, express\u00e3o art\u00edstica que nasceu da luta dos negros marginalizados pela pol\u00edtica elitista da Primeira Rep\u00fablica, tamb\u00e9m fez um movimento ao longo de sua hist\u00f3ria, no sentido de preservar e lutar pela mem\u00f3ria de Zumbi dos Palmares e de seu povo preto.<\/p>\n<blockquote><p>Hist\u00f3ria essa tamb\u00e9m retratada em \u00e9pocas diferentes e com narrativas tamb\u00e9m distintas, nos carnavais que, de forma emblem\u00e1tica, ajudaram a construir a consci\u00eancia negra de hoje.<\/p><\/blockquote>\n<p>Em 1960, o gr\u00eamio recreativo escola de samba Acad\u00eamicos do Salgueiro, sob a batuta do intelectual branco, comprometido com a causa negra, Fernando Pamplona, levou para a avenida o enredo \u201cQuilombo dos Palmares\u201d. Em 1988, foi a vez da Unidos de Vila Isabel, no centen\u00e1rio da aboli\u00e7\u00e3o da escravatura, levar para a avenida \u201cKizomba, a Festa da Ra\u00e7a\u201d, enredo imortal de autoria de Martinho da Vila \u2013 intelectual, sambista negro e maior compositor da escola.<\/p>\n<p>Esses dois desfiles marcaram a hist\u00f3ria do carnaval no pa\u00eds. O primeiro, como o precursor em trazer para avenida um personagem negro como sujeito da nossa hist\u00f3ria. J\u00e1 o segundo foi um manifesto negro, que fez do desfile da Vila uma esp\u00e9cie de vit\u00f3ria e afirma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da ra\u00e7a negra, utilizando o maior espet\u00e1culo da terra, o desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro.<br \/>\nMas, diferentemente de outros carnavais, esses fizeram e fazem hist\u00f3ria por serem narrativas que servem de ensinamentos e reflex\u00e3o para o combate ao racismo estrutural, que infelizmente ganhou for\u00e7a no Brasil de 2018 para c\u00e1.<\/p>\n<p>Zumbi dos Palmares, de Fernando Pamplona, conceituado artista pl\u00e1stico oriundo da Escola Nacional de Belas Artes, vai ajudar a construir a chamada revolu\u00e7\u00e3o salgueirense. Uma s\u00e9rie de mudan\u00e7as que v\u00e3o impactar os desfiles das escolas de samba a partir da d\u00e9cada de 1960, transformando-os em grandes espet\u00e1culos, em que a est\u00e9tica do luxo e do visual v\u00e3o se sobrepor sobre o samba no p\u00e9. Apesar disso, Pamplona tamb\u00e9m ser\u00e1 o respons\u00e1vel pela insist\u00eancia de al\u00e7ar o negro como protagonista dos enredos das escolas de samba \u2013 tend\u00eancia que come\u00e7ou j\u00e1 nos fins dos anos de 1950.<\/p>\n<p>Quilombo dos Palmares, enredo do Acad\u00eamicos do Salgueiro para o carnaval de 1960, mostrou uma \u201cciviliza\u00e7\u00e3o quilombola\u201d que estava escondida nos livros de hist\u00f3ria do Brasil. \u00c9 um enredo \u00e9pico, no qual Pamplona transforma Zumbi em uma figura m\u00edtica, heroica, l\u00edder de uma di\u00e1spora negra dentro do Brasil colonial.<\/p>\n<p>A narrativa salgueirense tem como grande objetivo eternizar Zumbi como her\u00f3i negro que deu a vida pelo seu povo. O enredo faz uma met\u00e1fora genial com a Tr\u00f3ia antiga destru\u00edda pelos gregos.<\/p>\n<p>Portanto, Pamplona, com seu \u201cQuilombo dos Palmares\u201d, transforma Zumbi num grande personagem de uma hist\u00f3ria do Brasil \u00e9pica e consagra a escola de samba como l\u00f3cus da mem\u00f3ria do povo preto e seus her\u00f3is.<\/p>\n<blockquote><p>Vinte oito anos depois, em 1988, a minha querida Unidos de Vila Isabel apresenta um enredo escrito e elaborado por Martinho da Vila. Compositor, intelectual e ativista negro, Martinho apresenta \u201cKizomba, a Festa da Ra\u00e7a\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>Naquele ano, ficou decidido que quase todas as escolas de samba do grupo principal do carnaval carioca falariam do centen\u00e1rio da aboli\u00e7\u00e3o da escravatura. Martinho, que j\u00e1 era um militante da causa dos direitos do povo preto no Brasil e na \u00c1frica desde a d\u00e9cada de 1970, resolve escrever um enredo genial, que acaba se tornando um manifesto pol\u00edtico negro in\u00e9dito na hist\u00f3ria da cultura nacional e n\u00e3o impacta apenas o Rio de Janeiro, mas todo o pa\u00eds, de Norte a Sul.<\/p>\n<p>A Kizomba de Martinho nasceu na \u00c1frica em um bate-papo do compositor com o romancista angolano Manuel Rui Monteiro. Kizomba \u00e9 uma palavra do quimbundo, uma das l\u00ednguas da Rep\u00fablica Popular de Angola, que significa encontro de pessoas que se identificam numa festa de confraterniza\u00e7\u00e3o. Mas, o revolucion\u00e1rio desfile da Vila Isabel, no dia 15 de fevereiro de 1988, foi muito mais que uma festa: foi um grito de reafirma\u00e7\u00e3o de Zumbi dos Palmares como s\u00edmbolo da liberdade do Brasil. Martinho, de forma genial, reconduz o fio condutor da hist\u00f3ria do desfile do Salgueiro de 1960 e traz para a passarela do samba uma leitura e narrativa nova e ousada de Zumbi. Leitura essa muito influenciada pela luta do movimento negro.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio de Pamplona, Martinho n\u00e3o quer contar a hist\u00f3ria de Zumbi e deix\u00e1-lo l\u00e1 eternizado como her\u00f3i. Mas, quer traz\u00ea-lo para a avenida, junto ao seu povo, para viver, protestar contra a marginaliza\u00e7\u00e3o dos nossos irm\u00e3os pretos aqui no Brasil e na \u00c1frica. Quer reivindicar direitos para os negros e pobres na Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, promulgada naquele ano. A Kizomba de Martinho \u00e9 um manifesto negro feito pela escola de samba, agremia\u00e7\u00e3o carnavalesca inventada pela criatividade do povo afro-brasileiro.<\/p>\n<p>Outro detalhe desse desfile antol\u00f3gico da Vila \u00e9 que a escola vivia uma grave crise financeira, n\u00e3o tinha nem quadra, al\u00e9m de muitas d\u00edvidas. Quem assumiu a dire\u00e7\u00e3o da agremia\u00e7\u00e3o foi L\u00edcia Maria Maciel Canin\u00e9, conhecida popularmente como Ru\u00e7a \u2013 na \u00e9poca, esposa de Martinho. Mesmo dentro desse quadro ca\u00f3tico, Ru\u00e7a conduziu a escola e, com o genial enredo, foi a primeira presidente mulher a ganhar o t\u00edtulo de campe\u00e3 do carnaval carioca.<\/p>\n<p>Assim, a Kizomba, da Vila de Martinho e de Ru\u00e7a, extrapolou os limites do carnaval se transformando num marco pol\u00edtico da consci\u00eancia negra e se imp\u00f4s como proposta pol\u00edtica reivindicat\u00f3ria acerca das quest\u00f5es raciais brasileiras. Pela primeira vez o sambista negro se posicionava, de forma objetiva, e dizia que o desfile de escola de samba n\u00e3o era o \u00f3pio do povo, como parte da esquerda marxista apregoava e, sim, um espa\u00e7o revelador do pensamento pol\u00edtico das comunidades pobres do Rio de Janeiro.<\/p>\n<blockquote><p>A Vila, com seu desfile afro-brasileiro de Kizomba, conquista o t\u00edtulo de campe\u00e3 do carnaval daquele ano, como tamb\u00e9m, revolucionava o carnaval carioca de ent\u00e3o.<\/p><\/blockquote>\n<p>A concep\u00e7\u00e3o vitoriosa e triunfante do luxo e riqueza trazida pela Beija Flor de Nil\u00f3polis nos fins dos anos de 1970, personificada nos carnavais do genial carnavalesco Jo\u00e3ozinho Trinta, foi, em 1988, derrotada por um desfile pobre financeiramente, mas criativo esteticamente, pois a Vila veio r\u00fastica e aguerrida como pedia o enredo. E no plano ideol\u00f3gico, a Kizomba de Martinho escrevia uma nova p\u00e1gina na hist\u00f3ria dos desfiles das escolas de samba: o negro tinha autoridade e compet\u00eancia para falar dele e de sua hist\u00f3ria, tamb\u00e9m tinha autoridade para ser ator pol\u00edtico da sociedade e da democracia brasileira.<\/p>\n<p>As escolas de samba, muito antes de termos um dia da consci\u00eancia negra, j\u00e1 debatiam com muita clareza o assunto. Depois dos desfiles antol\u00f3gicos de Salgueiro e Vila Isabel, nossa sociedade evoluiu para o desenvolvimento de pautas que inclu\u00edssem a discuss\u00e3o da luta contra o racismo. Em 1988, ano em que a Vila Isabel ganhava de forma contundente, pela primeira vez, seu t\u00edtulo de campe\u00e3 do carnaval do Rio de janeiro, foi criada, em 22 de agosto de 1988, a Funda\u00e7\u00e3o Cultural Palmares, cujo o objetivo era a preserva\u00e7\u00e3o da arte e da cultura afro-brasileira.<\/p>\n<p>Hoje, a Funda\u00e7\u00e3o Cultural Palmares se encontra nas m\u00e3os de um presidente, S\u00e9rgio Camargo, nomeado pelo governo ultradireitista de Jair Bolsonaro, que promove uma desconstru\u00e7\u00e3o tosca da imagem da institui\u00e7\u00e3o. A come\u00e7ar pela desconsidera\u00e7\u00e3o que faz da figura de Zumbi e dos negros que lutaram pela liberdade da ra\u00e7a negra. Algo inadmiss\u00edvel, pois joga no lixo toda a luta de n\u00f3s, negros e negras, por liberdade e democracia social neste pa\u00eds. O movimento negro precisa urgentemente se posicionar perante a falta de respeito que a atual administra\u00e7\u00e3o da Funda\u00e7\u00e3o Palmares tem em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 mem\u00f3ria do povo afrodescendente do Brasil.<\/p>\n<p>Reviver as experi\u00eancias hist\u00f3ricas da nossa luta, como procurei relatar neste artigo, \u00e9 t\u00e3o importante do ponto de vista intelectual, pois mostramos a dimens\u00e3o plural do que \u00e9 ser brasileiro, quanto do ponto de vista pr\u00e1tico, porque deixamos acesa a chama da resist\u00eancia e luta por liberdade ensinada por Zumbi.<\/p>\n<p>Zumbi Vive!<\/p>\n<p><em>CARLOS MARIANO \u2013 Professor de Hist\u00f3ria da Rede P\u00fablica Estadual, formado pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), pesquisador de Carnaval, comentarista do Blog Na Cad\u00eancia da Bateria e colunista do jornal Tribuna da Imprensa Livre.<\/em><\/p>\n<p>www.tribunadaimprensalivre.com \/Carlos Mariano<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vinte de novembro, data da morte de Zumbi dos Palmares, foi celebrado como Dia da Consci\u00eancia Negra. 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