{"id":17610,"date":"2020-11-30T15:58:14","date_gmt":"2020-11-30T15:58:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/?p=17610"},"modified":"2020-11-30T16:53:28","modified_gmt":"2020-11-30T16:53:28","slug":"artigo-sobre-o-racismo-e-o-caso-do-carrefour-por-dennis-de-oliveira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/2020\/11\/30\/artigo-sobre-o-racismo-e-o-caso-do-carrefour-por-dennis-de-oliveira\/","title":{"rendered":"Artigo &#8211; Sobre o racismo e o caso do Carrefour, por Dennis de Oliveira"},"content":{"rendered":"<p><strong><em><span style=\"vertical-align: inherit;\"><span style=\"vertical-align: inherit;\">O Brasil, condi\u00e7\u00f5es s\u00f3cio-hist\u00f3ricas singulares levaram \u00e0 racializa\u00e7\u00e3o das classes sociais desde o princ\u00edpio (branco como senhor, negro como escravizado e depois, branco como propriet\u00e1rio e negro como subalterno), transformando o racismo numa estrutura de estratifica\u00e7\u00e3o social.<\/span><\/span><\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"vertical-align: inherit;\"><span style=\"vertical-align: inherit;\">Por Dennis de Oliveira, jornalista e professor de comunica\u00e7\u00e3o<\/span><\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"vertical-align: inherit;\"><span style=\"vertical-align: inherit;\">A parte interna da sociedade brasileira resiste em admitir o racismo, ainda que colocada ante evid\u00eancias. <\/span><span style=\"vertical-align: inherit;\">N\u00e3o foram levantados como pessoas que admitiram o assassino de Jo\u00e3o Alberto Freitas no dia 19 por seguran\u00e7as em uma loja do Carrefour em Porto Alegre foi hediondo, mas n\u00e3o se configurou como racismo. <\/span><span style=\"vertical-align: inherit;\">A l\u00f3gica dos fundamentos das pessoas foi de que a v\u00edtima tinha \u201cprovocado\u201d antes dos funcion\u00e1rios da loja e que os vigilantes agiram de forma impudente, independentemente da ra\u00e7a da v\u00edtima. <\/span><span style=\"vertical-align: inherit;\">Seria mais um caso de \u201ctreinamento espec\u00edfico\u201d dos seguran\u00e7as do que uma pr\u00e1tica racista. <\/span><span style=\"vertical-align: inherit;\">Alguns v\u00e3o mais al\u00e9m e afirmam que \u00e9 necess\u00e1rio treinar melhor os seguran\u00e7as de modo geral. <\/span><span style=\"vertical-align: inherit;\">Deslocamento do problema do racismo para uma quest\u00e3o de postura inadequada nos funcion\u00e1rios.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"vertical-align: inherit;\"><span style=\"vertical-align: inherit;\">Coincidentemente, no dia 20 de novembro um epis\u00f3dio de intoler\u00e2ncia tamb\u00e9m ocorreu na cidade de S\u00e3o Paulo, na padaria Dona Deola, na zona oeste da cidade. <\/span><span style=\"vertical-align: inherit;\">Neste dia, Lidiane Biezok estava no balc\u00e3o do estabelecimento, jogou guardanapos no ch\u00e3o e para falou uma das atendentes: \u201cSabe para o que voc\u00ea presta? <\/span><span style=\"vertical-align: inherit;\">Para pegar os meus restos. \u201d <\/span><span style=\"vertical-align: inherit;\">Al\u00e9m disso, desferiu uma onda de cunho racista e homof\u00f3bico direcionada principalmente a um casal homossexual que consumia na padaria. <\/span><span style=\"vertical-align: inherit;\">O estabelecimento acionou a Pol\u00edcia Militar, que deteve um cliente, mas que foi liberada em seguida a pedido da sua m\u00e3e, que afirmou ser ela acometida por transtornos psiqui\u00e1tricos.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"vertical-align: inherit;\"><span style=\"vertical-align: inherit;\">Trago estes dois fatos para demonstrar a diferen\u00e7a de tratamento. <\/span><span style=\"vertical-align: inherit;\">No segundo, uma mulher branca agride verbalmente clientes e funcion\u00e1rios da loja e \u00e9 tratada com todos os cuidados. <\/span><span style=\"vertical-align: inherit;\">No primeiro, como supostas ofensas que o cliente negro desferiu contra os funcion\u00e1rios foi punida com a morte. <\/span><span style=\"vertical-align: inherit;\">Se fosse uma pr\u00e1tica comum tratar com exce\u00e7\u00e3o de agress\u00e3o em r\u00edgidos, um cliente da Dona Deola tamb\u00e9m poderia estar morta. <\/span><span style=\"vertical-align: inherit;\">E n\u00e3o s\u00f3 est\u00e1 viva como est\u00e1 solta, ainda se colocando como v\u00edtima.<\/span><\/span><\/p>\n<p>Antes que algum desavisado fale, n\u00e3o estou em hip\u00f3tese alguma defendendo que Lidiane Biezok seja agredida fisicamente por seguran\u00e7as ou policiais. Mas penso que todos os cuidados que ela recebeu neste incidente devam ser para todos (inclusive deveria ser tamb\u00e9m para Jo\u00e3o Alberto Freitas que, se assim acontecesse, estaria vivo como Lidiane). A diferen\u00e7a de tratamento nos dois casos \u00e9 a prova cabal do racismo que existe no Brasil. S\u00f3 n\u00e3o enxerga quem quer, ou quem \u00e9 privilegiado pelo pr\u00f3prio racismo.<\/p>\n<p><strong>Racismo gera privil\u00e9gios<\/strong><\/p>\n<p>Na sexta feira (20), ap\u00f3s o tr\u00e1gico acontecimento em Porto Alegre, as a\u00e7\u00f5es do Carrefour tiveram alta de 0,49%. A repercuss\u00e3o negativa do caso fez as a\u00e7\u00f5es da empresa sofrerem uma queda de mais de 6% no dia 23, segunda-feira.<\/p>\n<p>O mercado de a\u00e7\u00f5es pouco est\u00e1 preocupado com racismo, toler\u00e2ncia e valores \u00e9ticos. O que importa neste cassino \u00e9 a aposta no crescimento da empresa. A queda de 6% se deveu a percep\u00e7\u00e3o de que estes fatos ir\u00e3o gerar um impacto negativo na imagem e, por tabela, no faturamento da empresa, pelo menos no curto m\u00e9dio prazo. Chamo a aten\u00e7\u00e3o para isto, a repercuss\u00e3o, inclusive internacional, pedidos de cassa\u00e7\u00e3o de alvar\u00e1s, protestos em todo o Brasil, campanhas de boicote, entre outros, que colocaram a empresa na defensiva. H\u00e1 uma crise da marca que ter\u00e1 impactos imediatos na sua rentabilidade. E \u00e9 isto que teve como consequ\u00eancia imediata a queda no pre\u00e7o das a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A grande quest\u00e3o que se coloca \u00e9 se esta situa\u00e7\u00e3o se manter\u00e1 por muito tempo. Passado o calor dos acontecimentos, esta imagem negativa da marca Carrefour ir\u00e1 se manter?<\/p>\n<p>A an\u00e1lise deste processo \u00e9 que indica a consolida\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o da estrutura racista no Brasil, ou se ela se movimenta para dar conta deste universo de press\u00f5es. A cultura corporativa no Brasil \u00e9 extremamente atrasada e resistente a pensar a diversidade como ferramenta de gest\u00e3o, como ocorre, por exemplo, nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>No artigo Making diferences matter, os autores David Thomas e Robin Ely, da Universidade Harvard, apontam a import\u00e2ncia de se constituir ambientes de diversidade como forma de aumentar a efici\u00eancia e a produtividade. Para eles, um ambiente corporativo n\u00e3o diverso causa estranhamentos aos trabalhadores e isto gera impactos na produtividade. J\u00e1 um ambiente em que a diversidade est\u00e1 presente, inclusive com mecanismos de gest\u00e3o dos conflitos internos, n\u00e3o s\u00f3 retira este estranhamento como tamb\u00e9m gera um conforto e acolhimento que potencializam a produ\u00e7\u00e3o. Isto tem se revelado uma tend\u00eancia na gest\u00e3o empresarial norte-americana.<\/p>\n<p>No Brasil, condi\u00e7\u00f5es s\u00f3cio-hist\u00f3ricas singulares que levaram \u00e0 racializa\u00e7\u00e3o das classes sociais desde o princ\u00edpio (branco como senhor, negro como escravizado e depois, branco como propriet\u00e1rio e negro como subalterno) transformam o racismo numa estrutura de estratifica\u00e7\u00e3o social que, muitas vezes, \u00e9 aproveitada pelo capital como forma de potencializar seu faturamento. O racismo permite, por exemplo, dispor de m\u00e3o de obra negra em que se pode pagar sal\u00e1rios aviltantes e ainda se posar de benem\u00e9rito porque \u201cest\u00e1 dando uma chance\u201d. Por isto, normalizam-se posi\u00e7\u00f5es em que se tenta justificar um homic\u00eddio como o que ocorreu em Porto Alegre. E, no mesmo diapas\u00e3o, se justifica a agress\u00e3o de uma cliente em uma padaria porque ela sofre transtornos mentais. Ao branco se permite at\u00e9 mesmo transgress\u00f5es justificadas por problemas de sa\u00fade mental. Ao negro, o suposto desrespeito \u00e9 punido com agress\u00e3o e morte.<\/p>\n<p><span style=\"vertical-align: inherit;\"><span style=\"vertical-align: inherit;\">Por estar solidificada esta cultura racista na sociedade \u00e9 que as empresas ainda tratam a quest\u00e3o da diversidade como t\u00f3pica, superficial, como mera carta de inten\u00e7\u00f5es. <\/span><span style=\"vertical-align: inherit;\">N\u00e3o se sentem ainda pressionadas. <\/span><span style=\"vertical-align: inherit;\">O Carrefour tem sete epis\u00f3dios graves de intoler\u00e2ncia e viol\u00eancia. <\/span><span style=\"vertical-align: inherit;\">Este \u00faltimo foi b\u00e1rbaro e gerou protestos em todo o mundo. <\/span><span style=\"vertical-align: inherit;\">Somente ap\u00f3s tudo isso \u00e9 que como suas a\u00e7\u00f5es tiveram uma queda, mas n\u00e3o se sabe at\u00e9 quando.<\/span><\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"vertical-align: inherit;\"><span style=\"vertical-align: inherit;\">O racismo estrutural brasileiro \u00e9 isto.<\/span><\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"vertical-align: inherit;\"><span style=\"vertical-align: inherit;\">www.ctb.org.br<\/span><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Brasil, condi\u00e7\u00f5es s\u00f3cio-hist\u00f3ricas singulares levaram \u00e0 racializa\u00e7\u00e3o das classes sociais desde o princ\u00edpio (branco como senhor, negro como escravizado e depois, branco como propriet\u00e1rio e negro como subalterno), transformando o racismo numa estrutura de estratifica\u00e7\u00e3o social. 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