{"id":17930,"date":"2020-12-14T15:42:16","date_gmt":"2020-12-14T15:42:16","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/?p=17930"},"modified":"2020-12-14T15:42:16","modified_gmt":"2020-12-14T15:42:16","slug":"impactos-da-segunda-onda-e-fim-do-auxilio-recairao-sobre-periferias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/2020\/12\/14\/impactos-da-segunda-onda-e-fim-do-auxilio-recairao-sobre-periferias\/","title":{"rendered":"Impactos da segunda onda e fim do aux\u00edlio recair\u00e3o sobre periferias"},"content":{"rendered":"<p>Desde o in\u00edcio da pandemia do novo coronav\u00edrus, as periferias foram mais cruelmente atingidas pela situa\u00e7\u00e3o. Tanto pela geografia e arquitetura, que dificultam o distanciamento social, quanto pelo fato de os moradores exercerem ocupa\u00e7\u00f5es que de alguma forma os deixaram vulner\u00e1veis na situa\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia. Isso inclui desde pessoas que perderam o ganha-p\u00e3o, como dom\u00e9sticas ou vendedores aut\u00f4nomos, at\u00e9 trabalhadores que atuam em \u00e1reas essenciais que nunca pararam, como supermercados e transporte p\u00fablico. Estes conviveram com o medo de levar a doen\u00e7a para casa.<\/p>\n<p>A chegada da segunda onda de cont\u00e1gio (ou repique da primeira, a depender da an\u00e1lise e do especialista), assim como o fim do aux\u00edlio emergencial a partir de janeiro trazem novos desafios \u00e0 popula\u00e7\u00e3o dessas \u00e1reas, que, diante da inefici\u00eancia do Estado no auge da crise sanit\u00e1ria,\u00a0<a href=\"https:\/\/vermelho.org.br\/2020\/06\/11\/washington-post-destaca-autogestao-em-favelas-e-descaso-de-bolsonaro\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">recorreram de maneira intensa \u00e0 autogest\u00e3o<\/a>. S\u00e3o pessoas como a vendedora Joice Nunes Ferreira, de 29 anos.<\/p>\n<p>M\u00e3e de tr\u00eas filhos e moradora da Cidade Estrutural, uma das mais famosas favelas de Bras\u00edlia, Joice fazia trufas em casa para vender quando a pandemia chegou em mar\u00e7o. Ela havia sido demitida do emprego em uma hamburgueria no final de 2019 e os bombons foram a alternativa que encontrou para continuar sustentando a casa. O marido estava em uma situa\u00e7\u00e3o semelhante.\u00a0<ins><\/ins><\/p>\n<p>Com experi\u00eancia como pasteleiro, h\u00e1 algum tempo n\u00e3o conseguia emprego com carteira assinada. Ent\u00e3o, come\u00e7ou a dar aulas de bateria em casa. Com a emerg\u00eancia sanit\u00e1ria, tanto a produ\u00e7\u00e3o das trufas de Joice quanto as aulas de bateria do marido tiveram de ser suspensas. Segundo ela, o casal passou por enormes dificuldades entre mar\u00e7o e junho, antes de conseguir o aux\u00edlio emergencial.<\/p>\n<p>\u201cS\u00f3 foi aprovado em 21 de junho. A gente passou muito apertado. Sobrevivemos de doa\u00e7\u00f5es, cestas\u201d, conta a vendedora aut\u00f4noma, que, aos poucos, foi retomando a produ\u00e7\u00e3o das trufas com a flexibiliza\u00e7\u00e3o das regras sanit\u00e1rias. \u201cEstou conseguindo vender. Vendo onde d\u00e1, pelo celular, saio na rua com meu filho, aceito encomenda\u201d, relata. A situa\u00e7\u00e3o, no entanto, continua dif\u00edcil.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-578510\" src=\"https:\/\/vermelho.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/154bc0f2-e5be-4d6d-afe5-74c13d20dcee.jpg\" alt=\"\" \/><figcaption>Joice Nunes Ferreira \u00e9 moradora da Cidade Estrutural \u2013 Foto: Arquivo Pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>O marido ainda n\u00e3o pode retomar suas aulas e a redu\u00e7\u00e3o no valor do aux\u00edlio, de R$ 600 para R$ 300, fez muita diferen\u00e7a, principalmente diante da acelera\u00e7\u00e3o da infla\u00e7\u00e3o.\u00a0<ins><\/ins><\/p>\n<p>\u201c[O valor] n\u00e3o \u00e9 suficiente, os pre\u00e7os das coisas est\u00e3o subindo muito. O governo n\u00e3o anunciou nada [sobre prorroga\u00e7\u00e3o do aux\u00edlio], a gente est\u00e1 na expectativa\u201d, comenta Joice, que, apesar de reconhecer a necessidade no momento, n\u00e3o defende um aux\u00edlio permanente.<\/p>\n<p>Na opini\u00e3o dela, seria prefer\u00edvel o governo federal investir em pol\u00edticas p\u00fablicas para gerar empregos. No entanto, ela acha que a transfer\u00eancia de renda deveria continuar pelo menos at\u00e9 a economia se reestruturar. \u201cTem que prorrogar [o aux\u00edlio] at\u00e9 as fam\u00edlias brasileiras poderem se organizar direitinho. Tem muita gente precisando, assim como eu\u201d, comenta.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-578509\" src=\"https:\/\/vermelho.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/trufas.jpg\" alt=\"\" \/><figcaption>Ap\u00f3s perder emprego, Joice passou a fazer trufas: \u201cVendo onde d\u00e1\u201d \u2013 Foto: Arquivo Pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Pol\u00edticas perenes para autonomia<\/strong><ins><\/ins><\/p>\n<p>Joice exprime o desejo de ter autonomia, uma palavra que cada vez mais se torna central no movimento comunit\u00e1rio brasileiro. A ideia tamb\u00e9m \u00e9 defendida por Bruno Kesseler, presidente da Central \u00danica das Favelas (Cufa) no Distrito Federal.<\/p>\n<p>\u201cAs favelas no Brasil, como um todo, necessitam de diversos ciclos de incentivos e pol\u00edticas p\u00fablicas que n\u00e3o resolvem de imediato mas trar\u00e3o benef\u00edcios a longo prazo. O governo tem sempre que apagar inc\u00eandio porque n\u00e3o olha para esses territ\u00f3rios com o carinho e aten\u00e7\u00e3o que eles precisam e merecem\u201d, afirma. Segundo ele, a nova onda de cont\u00e1gios cria uma situa\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica.<\/p>\n<p>\u201cAs pessoas ainda est\u00e3o sofrendo de forma muito cruel as consequ\u00eancias da primeira pandemia. \u00c9 como se uma coisa estivesse emendada na outra, infelizmente. Est\u00e3o sofrendo com desemprego, dificuldade de retomada e um governo totalmente omisso. Al\u00e9m da dificuldade muito grande de ter acesso a recursos, tratamento, casos todos os dias de pessoas morrendo nas filas dos hospitais\u201d, diz.\u00a0<ins><\/ins><\/p>\n<p>Ele recorda tamb\u00e9m uma verdade implac\u00e1vel sobre a pandemia. \u201cA favela nunca parou. N\u00e3o tem como. Foi uma quest\u00e3o que a gente conversou muito. As pessoas falam: \u2018Fica em casa, fica em casa\u2019. Qual \u00e9 a vis\u00e3o de casa, de lar que essas pessoas t\u00eam? Quem mora em uma favela como a Estrutural a casa \u00e9 de madeirite, com dois c\u00f4modos onde vivem cinco, seis pessoas. As pessoas \u00e0s vezes se sentem muito mais confort\u00e1veis no trabalho do que em casa\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Com rela\u00e7\u00e3o ao aux\u00edlio emergencial, Kesseler considera que o benef\u00edcio termina em um momento ainda de extrema dificuldade para as fam\u00edlias. De acordo com ele, a Cufa deve continuar com a\u00e7\u00f5es como distribui\u00e7\u00e3o de cestas b\u00e1sicas e seu pr\u00f3prio programa de transfer\u00eancia de renda. Mas mesmo as doa\u00e7\u00f5es devem ser mais dif\u00edceis, pois as pessoas est\u00e3o empobrecidas e o custo de vida aumentou.<\/p>\n<p>\u201cPara algumas pessoas [o aux\u00edlio emergencial] foi muito importante, ajudou, s\u00f3 que acabou agora e as pessoas v\u00e3o voltar para a mesma situa\u00e7\u00e3o ou at\u00e9 pior. Para quem n\u00e3o recebia nem um sal\u00e1rio m\u00ednimo, fam\u00edlias com tr\u00eas, quatro pessoas, fez uma diferen\u00e7a muito grande. Mas g\u00e1s de cozinha, carne, medicamentos, tudo aumentou agora\u201d, comenta.<\/p>\n<p><strong>Press\u00e3o sobre o Congresso<\/strong><ins><\/ins><\/p>\n<p>Presidente da Confedera\u00e7\u00e3o Nacional das Associa\u00e7\u00f5es de Moradores (Conam) e membro do Conselho Nacional de Sa\u00fade (CNS), Get\u00falio Vargas J\u00fanior tamb\u00e9m antev\u00ea uma situa\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica em 2021, principalmente porque o financiamento das medidas necess\u00e1rias est\u00e1 indefinido.<\/p>\n<p>\u201cA gente tem feito uma press\u00e3o forte pelo debate tanto da LDO [Lei de Diretrizes Or\u00e7ament\u00e1rias] quanto da LOA [Lei Or\u00e7ament\u00e1ria Anual]. O projeto de lei or\u00e7ament\u00e1ria anual n\u00e3o prev\u00ea manuten\u00e7\u00e3o dos cr\u00e9ditos or\u00e7ament\u00e1rios para a sa\u00fade, nem para o aux\u00edlio emergencial, nem para nada\u201d, afirma. Segundo ele, uma das maiores preocupa\u00e7\u00f5es s\u00e3o os gastos com sa\u00fade.<\/p>\n<p>\u201cA maioria das grandes cidades, o \u00edndice de ocupa\u00e7\u00e3o das UTIs hoje \u00e9 muito parecido com o que era 90 dias atr\u00e1s. O que nos preocupa mais \u00e9 que, sem essa previs\u00e3o or\u00e7ament\u00e1ria, quantos leitos v\u00e3o ser fechados? Os equipamentos de prote\u00e7\u00e3o, a pr\u00f3pria quest\u00e3o da vacina, se n\u00e3o tiver os cr\u00e9ditos extraordin\u00e1rios v\u00e3o comprar com que recursos? H\u00e1 muita demanda reprimida do SUS durante a pandemia. Ser\u00e1 preciso recuperar todas essas cirurgias, todas as consultas adiadas.\u201d<ins><\/ins><\/p>\n<p>Segundo ele, como a maior parte da popula\u00e7\u00e3o das periferias depende do SUS, sem o aux\u00edlio emergencial e sem a previs\u00e3o de recursos para a sa\u00fade, elas novamente ser\u00e3o as mais afetadas.<\/p>\n<p>\u201cA solidariedade \u00e9 uma marca do movimento comunit\u00e1rio. A pandemia demonstrou essa caracter\u00edstica das comunidades, cotizar cesta b\u00e1sica, fazer mutir\u00e3o de obras. O problema \u00e9 que essa rede teve muita for\u00e7a antes do aux\u00edlio emergencial. O fato de n\u00e3o ter no in\u00edcio de 2021 nos preocupa muito\u201d, afirma ele, que, como Bruno Kesseler, prev\u00ea maior dificuldade para mobilizar ajuda agora. \u201c\u00c9 claro que as redes v\u00e3o existir, mas n\u00e3o podem substituir a a\u00e7\u00e3o do poder p\u00fablico do Estado. Tamb\u00e9m ter\u00e3o menos f\u00f4lego porque est\u00e1 todo mundo empobrecido\u201d, diz.\u00a0<ins><\/ins><\/p>\n<p>O projeto da LDO, que define as prioridades or\u00e7ament\u00e1rias do governo para um determinado ano, pode ser votado na pr\u00f3xima quinta-feira (16), em um esfor\u00e7o concentrado de an\u00e1lise anunciado por Davi Alcolumbre (DEM-AP), presidente do Senado e do Congresso Nacional. Ainda n\u00e3o h\u00e1 acordo para votar projeto da LOA, que \u00e9 o or\u00e7amento propriamente dito, e pode ficar para o ano que vem.<\/p>\n<p>www.ctb.org.br \/ Mariana Branco \/ Portal Vermelho<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde o in\u00edcio da pandemia do novo coronav\u00edrus, as periferias foram mais cruelmente atingidas pela situa\u00e7\u00e3o. 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