{"id":19763,"date":"2021-04-06T17:49:28","date_gmt":"2021-04-06T20:49:28","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/?p=19763"},"modified":"2021-04-06T17:49:28","modified_gmt":"2021-04-06T20:49:28","slug":"artigo-a-ampliacao-das-desigualdades-raciais-com-a-covid-19","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/2021\/04\/06\/artigo-a-ampliacao-das-desigualdades-raciais-com-a-covid-19\/","title":{"rendered":"Artigo | A amplia\u00e7\u00e3o das desigualdades raciais com a covid-19"},"content":{"rendered":"<p class=\"description\"><strong>Economista analisa os impactos da pandemia na popula\u00e7\u00e3o negra; crise aprofundou desigualdades em diversas esferas<\/strong><\/p>\n<p>No in\u00edcio de 2020, quando do princ\u00edpio da pandemia da\u00a0covid-19,\u00a0<b><a style=\"font-style: inherit;\" href=\"https:\/\/www.clacso.org\/pt\/salvar-vidas-e-garantir-direitos-da-populacao-negra\/\">escrevemos um texto\u00a0sobre a cor\/ra\u00e7a das brasileiras e brasileiros que possivelmente seriam os mais afetados pela crise a ser enfrentada<\/a><\/b>, em termos sanit\u00e1rios e socioecon\u00f4micos.<\/p>\n<p>Em torno de um ano depois, percebemos que a forma como o Brasil enfrenta a\u00a0<b><a style=\"font-style: inherit;\" href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/minuto-a-minuto\/coronavirus-no-brasil\">crise da covid-19<\/a><\/b>\u00a0prova, mais uma vez, que o pa\u00eds n\u00e3o \u00e9 uma \u201cdemocracia racial\u201d e que os negros foram e est\u00e3o sendo os mais afetados pela crise.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m do impacto que a crise em si trouxe para a popula\u00e7\u00e3o negra, chama a aten\u00e7\u00e3o a\u00a0<b><a style=\"font-style: inherit;\" href=\"http:\/\/madeusp.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/NPE006_site.pdf\">falta de respostas do poder p\u00fablico<\/a><\/b>\u00a0quanto \u00e0s desigualdades raciais durante a pandemia.<\/p>\n<p>A\u00a0assim como para a quest\u00e3o de g\u00eanero, para a quest\u00e3o racial n\u00e3o houve pol\u00edticas espec\u00edficas capazes de mitigar os impactos da crise. Assim, em um pa\u00eds profundamente marcado pelo patriarcado, em que as inser\u00e7\u00f5es de trabalhadores e trabalhadoras negros e negras tamb\u00e9m s\u00e3o marcadas pelo g\u00eanero, as mulheres negras foram \u201cduplamente\u201d penalizadas.<\/p>\n<p><strong>Indicadores socioecon\u00f4micos b\u00e1sicos<\/strong><\/p>\n<p>Para iniciar, gr\u00e1ficos retirados da\u00a0<b><a style=\"font-style: inherit;\" href=\"http:\/\/www.ibge.gov.br\/estatisticas\/sociais\/protecao-social\/9221-sintese-de-indicadores-sociais.html\">S\u00edntese de Indicadores Sociais do IBGE<\/a><\/b>\u00a0de 2020 ilustram a desigualdade no mercado de trabalho quanto \u00e0 ra\u00e7a ainda antes da pandemia.<\/p>\n<p>Uma divis\u00e3o da sociedade brasileira em d\u00e9cimos de renda, como no gr\u00e1fico 1, mostra que entre os 10% mais pobres, 21,9% s\u00e3o brancos e 77,0% s\u00e3o negros. J\u00e1 no d\u00e9cimo mais rico, a propor\u00e7\u00e3o se inverte: 70,6% s\u00e3o brancos e 27,2% s\u00e3o negros neste grupo. Ou seja, os negros est\u00e3o mais representados na fatia mais pobre da sociedade que na fatia mais rica.<\/p>\n<p>Os dados do IBGE tamb\u00e9m mostram maior presen\u00e7a branca na administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica e informa\u00e7\u00e3o\/financeiras, dois grupos de atividades conhecidos por melhor remunera\u00e7\u00e3o e condi\u00e7\u00f5es de trabalho.<\/p>\n<p>Os negros (pretos e pardos) se fazem muito mais presentes, segundo dados de 2019, na agropecu\u00e1ria, na constru\u00e7\u00e3o, no com\u00e9rcio, no transporte, alojamento\/alimenta\u00e7\u00e3o e nos servi\u00e7os dom\u00e9sticos (onde em torno de 4 milh\u00f5es de pretos e pardos est\u00e3o empregados, contra cerca de 2 milh\u00f5es de brancos).<\/p>\n<p>Os setores onde h\u00e1 maioria negra est\u00e3o entre os mais impactados com a &#8220;coronacrise&#8221; \u2013 com\u00e9rcio e servi\u00e7os, entre eles o trabalho dom\u00e9stico remunerado. E, sem cair na odiosa demoniza\u00e7\u00e3o dos funcion\u00e1rios p\u00fablicos, \u00e9 importante pontuar que os da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica tem sua renda relativamente mais protegida neste momento de crise.<\/p>\n<p>O gr\u00e1fico 2, da mesma publica\u00e7\u00e3o, compara os rendimentos m\u00e9dios reais do trabalho principal de trabalhadores brasileiros por sexo e cor\/ra\u00e7a. Percebe-se, como coment\u00e1vamos, a persist\u00eancia das desigualdades de renda quanto a estes dois quesitos.<\/p>\n<p>O gr\u00e1fico 3 mostra que a desigualdade racial persiste quando aumentamos a escolaridade. Pior: ela se amplia quanto maior a desigualdade.<\/p>\n<p>Em outras palavras, um trabalhador branco sem instru\u00e7\u00e3o\/com ensino fundamental incompleto tem rendimento-hora maior que o de um trabalhador negro com a mesma escolaridade, por\u00e9m esse diferencial de ra\u00e7a \u00e9 ainda maior se comparamos trabalhadores com ensino superior completo.<\/p>\n<p>Se no primeiro caso o trabalhador branco tem rendimento 1,29 vezes maior que o de um negro, no \u00faltimo caso o trabalhador branco tem rendimento 1,44 vezes maior que o de um negro.<\/p>\n<p>Este fen\u00f4meno mostra tamb\u00e9m que, apesar de ser important\u00edssimo ampliar a escolaridade da popula\u00e7\u00e3o negra, somente ampliar a escolaridade n\u00e3o resolve as desigualdades no mercado de trabalho.<\/p>\n<p>O gr\u00e1fico 4 desta publica\u00e7\u00e3o mostra as diferentes taxas de desocupa\u00e7\u00e3o para os anos de 2019, 2016 e 2013 por sexo e cor\/ra\u00e7a. Os desocupados, categoria j\u00e1 em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade, foram duramente atingidos pela coronacrise e, entre eles, h\u00e1 maior participa\u00e7\u00e3o de negros e negras.<\/p>\n<p>J\u00e1 dados quanto \u00e0 informalidade mostram que os negros s\u00e3o tamb\u00e9m maioria, como mostra o gr\u00e1fico 5.<\/p>\n<p>Assim, a partir do momento em que se iniciou o isolamento social no pa\u00eds, esta categoria espec\u00edfica foi uma das mais afetadas em termos de renda e em termos de exposi\u00e7\u00e3o ao v\u00edrus tamb\u00e9m. Enquanto algumas categorias puderam realizar\u00a0<i><em style=\"font-weight: inherit;\">home office<\/em><\/i>, esta possibilidade \u00e9 mais remota para trabalhadores informais.<\/p>\n<p>Ainda sobre vulnerabilidades pr\u00e9vias \u00e0 pandemia, chama a aten\u00e7\u00e3o a grande porcentagem de popula\u00e7\u00e3o preta e parda que reside em domic\u00edlios com inadequa\u00e7\u00f5es domiciliares (Gr\u00e1fico 6).<\/p>\n<p>Sobre este aspecto, vale lembrar que, ao longo de 2020, vilas e favelas foram locais de\u00a0<b><a style=\"font-style: inherit;\" href=\"https:\/\/noticias.uol.com.br\/saude\/ultimas-noticias\/redacao\/2020\/03\/22\/corona-chega-as-favelas-prefeitura-do-rio-confirma-caso-na-cidade-de-deus.htm\">r\u00e1pida dissemina\u00e7\u00e3o do Covid-19 devido \u00e0s prec\u00e1rias condi\u00e7\u00f5es de moradia<\/a><\/b>\u00a0e que\u00a0<b><a style=\"font-style: inherit;\" href=\"https:\/\/www.virgula.com.br\/comportamento\/novo-livro-revela-que-72-dos-que-moram-em-favelas-sao-negros-95-se-dizem-felizes\/\">72% dos moradores de favelas se declara negro<\/a><\/b>.<\/p>\n<p>Somadas ao fato de que muitos dos que ali vivem tem inser\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias no mercado de trabalho e ficam mais vulner\u00e1veis em momentos de crise, muitas destas defici\u00eancias em infraestrutura social, informalidade e baixa renda se conjugam com a maior preval\u00eancia de comorbidades, o que faz da popula\u00e7\u00e3o negra mais vulner\u00e1vel \u00e0 covid-19.<\/p>\n<p>Para finalizar a apresenta\u00e7\u00e3o dos principais dados do SIS IBGE 2020 quanto \u00e0 ra\u00e7a\/cor, o gr\u00e1fico 7 trata da distribui\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o por ra\u00e7a\/cor, g\u00eanero e regi\u00e3o quanto \u00e0 escolaridade. Percebe-se uma diferen\u00e7a entre a escolaridade da popula\u00e7\u00e3o branca e da popula\u00e7\u00e3o preta e parda.<\/p>\n<p>Ao falar do sistema previdenci\u00e1rio, em especial do Regime Geral de Previd\u00eancia Social, \u00e9 importante destacar que negros s\u00e3o maioria nos postos de trabalho sem contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 previd\u00eancia social, o que se reflete no acesso ao sistema quando da velhice ou no caso de algum problema no meio da vida laboral.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 mais uma fragilidade que se expressa no mercado de trabalho e tem impactos nas trajet\u00f3rias dos negros e negras, deixando-os mais vulner\u00e1veis nesse contexto de crise.<\/p>\n<p><b><strong style=\"font-style: inherit;\">Empres\u00e1rios negras e negros e os impactos da &#8220;coronacrise&#8221;<\/strong><\/b><\/p>\n<p>Sobre donos de empresas, na publica\u00e7\u00e3o anterior mostramos que, em 2014, havia mais empresas cujos donos eram negros que brancos.<\/p>\n<p>No entanto, ao segmentar as empresas entre empregadores e conta-pr\u00f3pria, os negros s\u00e3o maioria entre os por conta-pr\u00f3pria e os brancos\u00a0<b><a style=\"font-style: inherit;\" href=\"http:\/\/observatorio.sebraego.com.br\/midias\/downloads\/08032017145129.pdf\">maioria entre os empregadores<\/a><\/b>. J\u00e1 entre os\u00a0<b><a style=\"font-style: inherit;\" href=\"https:\/\/www.sebrae.com.br\/Sebrae\/Portal%20Sebrae\/Anexos\/Perfil%20do%20MEI%202015.pdf\">Microempreendedores Individuais (MEIs), 46% se declarou branca, 42% parda, 9% preta, 2% amarela e 1% ind\u00edgena em 2015<\/a><\/b>.<\/p>\n<p>Sobre os impactos j\u00e1 observados da pandemia nos empres\u00e1rios negros,\u00a0<b><a style=\"font-style: inherit;\" href=\"http:\/\/www.agenciasebrae.com.br\/sites\/asn\/uf\/NA\/pandemia-tem-maior-impacto-em-negocios-liderados-por-negros,0758492aae323710VgnVCM1000004c00210aRCRD\">pesquisa do Sebrae e FGV<\/a><\/b>, realizada de 29 de maio a 2 de junho, mostra que os empreendedores negros foram os mais impactados pela pandemia do coronav\u00edrus, entre os donos de pequenos neg\u00f3cios no pa\u00eds.<\/p>\n<p>De acordo a pesquisa, os empreendimentos mantidos por negros sofreram mais impacto porque n\u00e3o conseguiram funcionar, principalmente por atenderem (45%) somente de forma presencial. Ao contr\u00e1rio dos 40% dos empreendedores brancos que conseguiram continuar com os neg\u00f3cios com o aux\u00edlio de ferramentas digitais, 32% dos negros fizeram uso desse tipo de recurso.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o ao uso de redes sociais, enquanto 48% dos empreendedores brancos j\u00e1 vendiam com aux\u00edlio da Internet antes da pandemia, o percentual era de 45% entre os negros. Dos empreendedores negros que vendem pela Internet, a maior parte utiliza o Whatsapp (88%), enquanto entre os brancos utilizam sites pr\u00f3prios e Facebook.<\/p>\n<p>A pesquisa tamb\u00e9m mostra que era, neste per\u00edodo, maior a propor\u00e7\u00e3o de negros com empr\u00e9stimos (69%). Entre os negros que t\u00eam d\u00edvidas, dois em cada tr\u00eas est\u00e3o em atraso (rela\u00e7\u00e3o maior que a dos brancos).<\/p>\n<p>Negros e brancos pediram empr\u00e9stimo em bancos em propor\u00e7\u00e3o semelhante, mas os negros tiveram maior recusa (61%), enquanto para os brancos foi de 55%. O valor solicitado pelos negros (R$ 28 mil) \u00e9 26% mais baixo do que o solicitado pelos brancos (R$ 37 mil).<\/p>\n<p>J\u00e1 outra\u00a0<b><a style=\"font-style: inherit;\" href=\"http:\/\/www.agenciasebrae.com.br\/sites\/asn\/uf\/NA\/pandemia-tem-maior-impacto-em-negocios-liderados-por-negros,0758492aae323710VgnVCM1000004c00210aRCRD\">pesquisa do Sebrae e FGV<\/a><\/b>, realizada entre os dias 25 e 30 de junho, mostra que o recorte de g\u00eanero e ra\u00e7a\/cor \u00e9 muito importante para entender os impactos da pandemia entre empres\u00e1rios.<\/p>\n<p>A pesquisa mostra que enquanto 36% das empreendedoras negras est\u00e3o com a atividade interrompida temporariamente, essa propor\u00e7\u00e3o cai para 29% entre as empres\u00e1rias brancas e 24% entre os homens brancos (entre os homens negros, essa propor\u00e7\u00e3o \u00e9 de 30%), o que \u00e9 em parte explicado pelo fato de seus neg\u00f3cios operarem somente de forma presencial (27%).\u00a0Entre as brancas essa propor\u00e7\u00e3o cai para 21%, entre brancos 20% e entre negros 25%.<\/p>\n<p>A pesquisa tamb\u00e9m mostra que 58% das empreendedoras negras que pediram empr\u00e9stimo n\u00e3o conseguiram obter cr\u00e9dito. Esse percentual s\u00f3 \u00e9 mais baixo que a propor\u00e7\u00e3o de homens negros (64%), que tiveram o pedido recusado.<\/p>\n<p>J\u00e1 quando analisamos as raz\u00f5es apresentadas pelas institui\u00e7\u00f5es financeiras para a recusa, as mulheres negras apresentaram a maior propor\u00e7\u00e3o de CPF negativados (25%), contra 24% dos negros, 17% de brancas e 15% de brancos.<\/p>\n<p>O estudo tamb\u00e9m mostrou que as mulheres negras \u00e0 frente de uma empresa t\u00eam a maior propor\u00e7\u00e3o de neg\u00f3cios que utilizou redu\u00e7\u00e3o de jornada\/sal\u00e1rios (29%).<\/p>\n<p>Por fim, a pesquisa monstra que a propor\u00e7\u00e3o dos neg\u00f3cios que tomou a decis\u00e3o definitiva de fechar \u00e9 maior entre as empreendedoras negras (5%), contra 4% no caso das mulheres brancas e homens brancos e 3% no caso dos homens negros.<\/p>\n<p><strong>Trabalhadores dom\u00e9sticos e o impacto da &#8220;coronacrise&#8221;<\/strong><\/p>\n<p>A categoria de trabalhadoras dom\u00e9sticas \u00e9 uma das mais vulner\u00e1veis \u00e0 crise, seja pelo elitismo dos que que n\u00e3o conseguem realizar seu trabalho dom\u00e9stico mesmo infectados com o v\u00edrus e as colocam em risco, seja\u00a0porque muitas perderam a renda.\u00a0<b><a style=\"font-style: inherit;\" href=\"http:\/\/g1.globo.com\/rj\/sul-do-rio-costa-verde\/noticia\/2020\/03\/17\/idosa-de-63-anos-morre-por-suspeita-coronavirus-em-miguel-pereira-diz-secretaria-municipal.ghtml\">Uma das\u00a0das primeiras mortes por covid-19 no Brasil foi\u00a0de uma trabalhadora dom\u00e9stica<\/a><\/b>.<\/p>\n<p>Dados de 2018 mostram que as mulheres negras s\u00e3o a maioria dos trabalhadores deste setor (Tabela 1).\u00a0De fato, a categoria foi fortemente afetada pela crise, n\u00e3o s\u00f3 pela doen\u00e7a em si, mas tamb\u00e9m pelos impactos econ\u00f4micos da &#8220;coronacrise&#8221;.<\/p>\n<p><b><strong style=\"font-style: inherit;\">Tabela 1 \u2013 Trabalhadores dom\u00e9sticos de 18 anos ou mais de idade, segundo posse de carteira de trabalho, sexo e ra\u00e7a\/cor \u2013 Brasil (2018)<\/strong><\/b><\/p>\n<table style=\"font-weight: 400;\">\n<tbody>\n<tr>\n<td>&nbsp;<\/td>\n<td>&nbsp;<\/td>\n<td>Com carteira<\/td>\n<td>Sem carteira<\/td>\n<td>Total<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td rowspan=\"3\">Homens<\/td>\n<td>Negros<\/td>\n<td>119.980<\/td>\n<td>180.706<\/td>\n<td>300.686<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Brancos<\/td>\n<td>82.340<\/td>\n<td>95.724<\/td>\n<td>178.064<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Total<\/td>\n<td>202.320<\/td>\n<td>276.430<\/td>\n<td>478.750<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td rowspan=\"3\">Mulheres<\/td>\n<td>Negros<\/td>\n<td>1.071.496<\/td>\n<td>2.787.614<\/td>\n<td>3.859.110<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Brancos<\/td>\n<td>571.970<\/td>\n<td>1.272.360<\/td>\n<td>1.844.330<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Total<\/td>\n<td>1.643.466<\/td>\n<td>4.059.974<\/td>\n<td>5.703.440<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>Fonte: Adaptado de\u00a0<b><a style=\"font-style: inherit;\" href=\"https:\/\/www.ipea.gov.br\/portal\/images\/stories\/PDFs\/nota_tecnica\/200609_nt_disoc_n_75.pdf\">Pinheiro, Tokarski e Vasconcelos (2020)<\/a><\/b><\/p>\n<p><strong>Popula\u00e7\u00f5es extremamente vulner\u00e1veis<\/strong><\/p>\n<p>Quanto a quilombolas, vale apontar que esta popula\u00e7\u00e3o sofre de extrema vulnerabilidade em crit\u00e9rios socioecon\u00f4micos. Os quilombos foram fortemente impactados n\u00e3o s\u00f3 pelo v\u00edrus em si, mas pela crise econ\u00f4mica gerada pela pandemia, com a informalidade, a falta de infraestrutura social e o baixo acesso a informa\u00e7\u00e3o sobre como acessar benef\u00edcios emergenciais.<\/p>\n<p>Segundo o site\u00a0<b><a style=\"font-style: inherit;\" href=\"https:\/\/quilombosemcovid19.org\/\">quilombosemcovid19.org<\/a><\/b>, 4.962 quilombolas foram confirmados com a covid-19 e 210 faleceram devido \u00e0 doen\u00e7a at\u00e9 o dia 2 de mar\u00e7o de 2021,\u00a0com grande concentra\u00e7\u00e3o das mortes tendo ocorrido no Norte do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Felizmente, por press\u00e3o do movimento negro e quilombola, os quilombolas foram inclu\u00eddos como popula\u00e7\u00e3o priorit\u00e1ria na vacina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 popula\u00e7\u00e3o de rua, claramente vulner\u00e1vel por estar exposta e ter fragilidades de sa\u00fade, h\u00e1 poucos dados em escala nacional.\u00a0<b><a style=\"font-style: inherit;\" href=\"https:\/\/www.ipea.gov.br\/portal\/images\/stories\/PDFs\/nota_tecnica\/200612_nt_disoc_n_73.pdf\">Estimativas de mar\u00e7o de 2020<\/a><\/b>\u00a0informam que a popula\u00e7\u00e3o de rua no Brasil excedia os 220 mil.<\/p>\n<p>Uma\u00a0<b><a style=\"font-style: inherit;\" href=\"http:\/\/bvsms.saude.gov.br\/bvs\/publicacoes\/saude_populacao_situacao_rua.pdf\">publica\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade de 2014<\/a><\/b>\u00a0aponta que 72,8% das crian\u00e7as e adolescentes em situa\u00e7\u00e3o de rua s\u00e3o negros. J\u00e1\u00a0<b><a style=\"font-style: inherit;\" href=\"https:\/\/www12.senado.leg.br\/noticias\/especiais\/especial-cidadania\/especial-cidadania-populacao-em-situacao-de-rua\">pesquisa de 2008 do extinto Minist\u00e9rio do Desenvolvimento Social e Combate \u00e0 Fome<\/a><\/b>\u00a0mostra que 67% das pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua s\u00e3o negras.\u00a0Neste documento, alerta-se que apenas 47% da popula\u00e7\u00e3o de rua estava no Cadastro \u00danico de Programas Sociais.<\/p>\n<p>Se faltam estat\u00edsticas confi\u00e1veis sobre a quantidade de pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua no Brasil, faltam tamb\u00e9m dados nacionais sobre infec\u00e7\u00f5es e \u00f3bitos por coronav\u00edrus desta popula\u00e7\u00e3o espec\u00edfica. Felizmente, moradores de rua tamb\u00e9m foram inclu\u00eddos na popula\u00e7\u00e3o priorit\u00e1ria para a vacina\u00e7\u00e3o contra o coronav\u00edrus.<\/p>\n<p>Por fim, no sistema carcer\u00e1rio, duramente atingido pelo v\u00edrus (<b><a style=\"font-style: inherit;\" href=\"http:\/\/www.iddd.org.br\/index.php\/iddd-pede-ao-stf-reducao-da-populacao-carceraria-em-razao-da-pandemia\/\">o que levou o IDDD a pleitear a redu\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria face \u00e0 pandemia<\/a><\/b>), a grande maioria \u00e9 de negros e negras: entre os presos, 61,7% s\u00e3o pretos ou pardos.\u00a0Os brancos s\u00e3o\u00a0<b><a style=\"font-style: inherit;\" href=\"https:\/\/www2.camara.leg.br\/atividade-legislativa\/comissoes\/comissoes-permanentes\/cdhm\/noticias\/sistema-carcerario-brasileiro-negros-e-pobres-na-prisao\">37,22% dos presos<\/a><\/b>.<\/p>\n<p>At\u00e9 2 de fevereiro de 2021, segundo\u00a0<b><a style=\"font-style: inherit;\" href=\"https:\/\/www.cnj.jus.br\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Monitoramento-Casos-e-%C3%93bitos-Covid-19-24.2.21-Info.pdf\">boletim do CNJ<\/a><\/b>, foram registrados 253 \u00f3bitos por covid-19 \u2013 112 entre servidores e 141 entre pessoas presas\u00a0\u2013\u00a0e 62.351 casos confirmados \u2013 15.450 entre servidores e 46.901 entre pessoas presas \u2013 em todo o pa\u00eds.<\/p>\n<p>Foram realizados, at\u00e9 o momento, 62.459 testes em servidores e 245.465 em pessoas presas. Infelizmente, nas \u00faltimas semanas, os n\u00fameros de \u00f3bitos e casos confirmados est\u00e3o aumentando mais aceleradamente.<\/p>\n<p><strong>Perda de renda e o impacto do Aux\u00edlio Emergencial<\/strong><\/p>\n<p><b><a style=\"font-style: inherit;\" href=\"https:\/\/madeusp.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/NPE006_site.pdf\">Fares, Oliveira, Cardoso e Nassif-Pires (2021)<\/a><\/b>\u00a0investigam os impactos do Aux\u00edlio Emergencial (AE) por g\u00eanero e dimens\u00f5es raciais, utilizando dados da Pesquisa Domiciliar Brasileira COVID-19 (PNAD-COVID).<\/p>\n<p>Usam os dados coletados em junho e setembro para comparar a renda do trabalho usual anterior \u00e0 pandemia com a renda do trabalho real do m\u00eas anterior informada em junho e setembro. Os resultados se encontram no quadro 1.<\/p>\n<p>\u00c0 esquerda do Quadro 1, percebe-se a renda familiar per capita absoluta do trabalho anterior \u00e0 pandemia, em maio, em agosto e em agosto com a adi\u00e7\u00e3o de AE por g\u00eanero e ra\u00e7a do chefe da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Todos os grupos sofreram perda de renda do trabalho e puderam recuperar parcialmente essa perda entre maio e agosto. Exceto para fam\u00edlias chefiadas por homens brancos, o AE mais do que compensou a perda de renda do trabalho.<\/p>\n<p>No lado direito da Quadro 1 s\u00e3o representados os mesmos valores, mas em rela\u00e7\u00e3o aos domic\u00edlios chefiados por mulheres negras e pardas. Antes da pandemia, a renda do trabalho per capita de fam\u00edlias chefiadas por homens brancos era quase 2,5 vezes maior do que a de fam\u00edlias chefiadas por mulheres negras.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m pode-se ver que todos os grupos ganharam relativamente \u00e0s fam\u00edlias chefiadas por mulheres negras e pardas em maio e em agosto, indicando que as mulheres pretas e pardas sofreram um impacto maior da perda de renda do trabalho em maio e est\u00e3o experimentando uma recupera\u00e7\u00e3o mais lenta do que qualquer outro grupo.<\/p>\n<p>A renda do trabalho de fam\u00edlias chefiadas por homens brancos, homens negros, e mulheres brancas, respectivamente, chegou a ser 2,55, 1,41 e 1,88 vezes maior que a das fam\u00edlias chefiadas por pretas e pardas em agosto.<\/p>\n<p>O AE, no entanto, \u00e9 respons\u00e1vel por aproximar a renda das fam\u00edlias chefiadas por mulheres negras da de todas as outras.<\/p>\n<p>As d\u00favidas em torno \u00e0 continuidade do AE e as mudan\u00e7as quanto a seus valores e formatos representam uma enorme perda para as fam\u00edlias chefiadas por negros (em especial mulheres negras), tanto em termos absolutos quanto relativos.<\/p>\n<p><strong>Considera\u00e7\u00f5es finais<\/strong><\/p>\n<p>As pol\u00edticas sociais que poderiam dar apoio a esta popula\u00e7\u00e3o est\u00e3o gravemente subfinanciadas, em especial a partir da\u00a0<b><a style=\"font-style: inherit;\" href=\"http:\/\/library.fes.de\/pdf-files\/bueros\/brasilien\/17101.pdf\">aprova\u00e7\u00e3o da Emenda Constitucional 95\/2016<\/a><\/b>.<\/p>\n<p>Assim, o Brasil chega \u00e0 &#8220;coronacrise&#8221; com menos instrumentos para rebater os efeitos da crise, com o SUS subfinanciado (<b><a style=\"font-style: inherit;\" href=\"http:\/\/GUIDOLIN,%20Ana%20Paula.%20Crise,%20austeridade%20e%20o%20financiamento%20da%20sa%C3%BAde%20no%20Brasil.%20Trabalho%20de%20Conclus%C3%A3o%20de%20Curso.%20Instituto%20de%20Economia,%20Unicamp.%20Campinas,%20SP:%202019.\/\">Guidolin, 2019<\/a><\/b>) e com a popula\u00e7\u00e3o mais vulner\u00e1vel.<\/p>\n<p>\u00c9 importante frisar que as reformas econ\u00f4micas adotadas desde 2016 a partir do arcabou\u00e7o da austeridade fizeram o pa\u00eds gastar menos com os mais vulner\u00e1veis \u2013 e aqui no texto fica claro qual \u00e9 a cor\/ra\u00e7a destes.<\/p>\n<p>https:\/\/www.brasildefato.com.br \/ Ana Lu\u00edza Matos de Oliveira\u00a0 &#8211; economista, doutora em Desenvolvimento Econ\u00f4mico (Unicamp) e professora-visitante da FLACSO Brasil<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Economista analisa os impactos da pandemia na popula\u00e7\u00e3o negra; crise aprofundou desigualdades em diversas esferas No in\u00edcio de 2020, quando do princ\u00edpio da pandemia da\u00a0covid-19,\u00a0escrevemos um texto\u00a0sobre a cor\/ra\u00e7a das brasileiras e brasileiros que possivelmente seriam os mais afetados pela crise a ser enfrentada, em termos sanit\u00e1rios e socioecon\u00f4micos. 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