{"id":19796,"date":"2021-04-08T12:09:34","date_gmt":"2021-04-08T15:09:34","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/?p=19796"},"modified":"2021-04-08T12:18:14","modified_gmt":"2021-04-08T15:18:14","slug":"saude-do-trabalhador-pressao-medo-do-desemprego-perda-de-direitos-o-outro-lado-do-adoecimento-na-pandemia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/2021\/04\/08\/saude-do-trabalhador-pressao-medo-do-desemprego-perda-de-direitos-o-outro-lado-do-adoecimento-na-pandemia\/","title":{"rendered":"Sa\u00fade do Trabalhador &#8211; Press\u00e3o, medo do desemprego, perda de direitos: o outro lado do adoecimento na pandemia"},"content":{"rendered":"<p><strong>O que j\u00e1 era ruim piorou muito diante da covid-19 e das mudan\u00e7as no mundo do trabalho; o resultado \u00e9 um pa\u00eds com uma legi\u00e3o de adoecidos que s\u00f3 cresce<\/strong><\/p>\n<div class=\"the-content\">\n<p>S\u00e3o Paulo \u2013 Press\u00e3o por metas, medo constante do\u00a0<a href=\"https:\/\/www.redebrasilatual.com.br\/economia\/2021\/04\/recorde-de-desemprego-brasil-situacao-piorar\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"desemprego (abre numa nova aba)\">desemprego<\/a>,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.redebrasilatual.com.br\/trabalho\/2020\/07\/nova-reforma-trabalhista-bolsonaro\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"direitos cada vez mais escassos (abre numa nova aba)\">direitos cada vez mais escassos<\/a>. Tudo isso que j\u00e1 assolava os trabalhadores h\u00e1 anos foi agravado pela pandemia do novo coronav\u00edrus. O resultado \u00e9 que o Brasil ter\u00e1 de administrar cada vez mais uma legi\u00e3o de adoecidos tanto pela forma de gest\u00e3o das empresas como pela precariza\u00e7\u00e3o do trabalho. O trabalhador adoece cada vez mais na pandemia.<\/p>\n<p>Doutora em Sociologia pela Unicamp, Luci Praun afirma que a press\u00e3o por metas \u00e9 parte do cotidiano de parcela significativa da classe trabalhadora. \u201cA ado\u00e7\u00e3o desse dispositivo resulta dos processos de reorganiza\u00e7\u00e3o do trabalho realizados a partir dos anos 1980-90, baseados em modelos de gest\u00e3o flex\u00edvel\u201d, diz. \u201cEssa gest\u00e3o flex\u00edvel introduziu n\u00e3o somente a gest\u00e3o por metas, mas, al\u00e9m de outros, um dispositivo que opera de forma diretamente articulada \u00e0s metas, potencializando a press\u00e3o sobre os trabalhadores e trabalhadoras: as avalia\u00e7\u00f5es de desempenho individuais e coletivas.\u201d<\/p>\n<p>Autora do livro\u00a0<em>Reestrutura\u00e7\u00e3o Produtiva, Sa\u00fade e Degrada\u00e7\u00e3o do Trabalho<\/em>, Praun explica que essas formas de press\u00e3o t\u00eam efetividade como parte de um contexto em que h\u00e1 profunda precariza\u00e7\u00e3o do trabalho. \u201c\u00c0 press\u00e3o por metas soma-se a press\u00e3o exercida pelo desemprego crescente, pela perda constante de direitos, baixos sal\u00e1rios, enfim, ao ambiente de incerteza e<\/p>\n<\/div>\n<h2>Trabalho em casa<\/h2>\n<p>Toda essa press\u00e3o somou-se, h\u00e1 mais de um ano, \u00e0 pandemia do novo coronav\u00edrus e \u00e0 necessidade de ficar em casa para evitar o cont\u00e1gio pela covid-19. Isso, al\u00e9m de aprofundar press\u00f5es j\u00e1 existentes, instituiu outras . E o trabalhador adoece mais na pandemia. \u201cUm exemplo pode ser localizado na amplia\u00e7\u00e3o do uso do teletrabalho e do home office. Essas formas de organiza\u00e7\u00e3o do trabalho t\u00eam incorporado, em muitas situa\u00e7\u00f5es, os chamados planos de trabalho\u201d, ensina a soci\u00f3loga. \u201cSob o pretexto de que o trabalho est\u00e1 sendo realizado \u00e0 dist\u00e2ncia, sem o controle direto da chefia imediata, foi constru\u00eddo o falso argumento da necessidade de estabelecimento de metas a serem atingidas.\u201d<\/p>\n<div class=\"the-content\">\n<p>Praun cita o aumento dos trabalhos por aplicativos, o chamado trabalho uberizado. \u201cEle articula n\u00e3o somente a avalia\u00e7\u00e3o de desempenho ao cumprimento de metas, mas diretamente a remunera\u00e7\u00e3o. Ganha-se na medida em que entrega-se o servi\u00e7o, e a perman\u00eancia neste tipo de trabalho tamb\u00e9m depende da avalia\u00e7\u00e3o realizada diretamente pelo consumidor.\u201d<\/p>\n<h3>Sa\u00fade comprometida<\/h3>\n<p>Luci Praun integra o Grupo de Pesquisa Mundo do Trabalho e suas Metamorfoses, da Unicamp, e deixa claro: essas formas assumidas pelo trabalho t\u00eam repercutido negativamente na sa\u00fade dos trabalhadores. \u201c\u00c9 preciso salientar que as metas est\u00e3o a servi\u00e7o de ampliar a produtividade e a intensidade do trabalho. Menos trabalhadores fazendo muito mais atividades e tarefas que antes\u201d, ensina. \u201cSendo assim, elas operam no sentido de retirar do trabalhador o m\u00e1ximo poss\u00edvel no menor espa\u00e7o de tempo. Os resultados t\u00eam sido a forma\u00e7\u00e3o de um contingente crescente de adoecidos, homens e mulheres esgotados e inseguros quanto ao futuro.\u201d<\/p>\n<p>A m\u00e9dica Maria Maeno, mestre e doutora em Sa\u00fade P\u00fablica, ressalta que o trabalho remoto representa um passo a mais a aprofundar a impossibilidade de desconex\u00e3o. E isso pode piorar a situa\u00e7\u00e3o em que o trabalhador adoece na pandemia. \u201cO habitual contexto de inseguran\u00e7a e de medo de demiss\u00e3o se combinam ao do trabalho remoto e potencializam a invas\u00e3o dos \u2018tempos livres\u2019 pelo trabalho. S\u00e3o ingredientes favor\u00e1veis para maiores possibilidades de press\u00e3o e adoecimento, com acometimento f\u00edsico e ps\u00edquico\u201d, avalia a m\u00e9dica. \u201cE n\u00e3o se trata de um problema individual, mas de sa\u00fade p\u00fablica que atinge os trabalhadores em escala crescente.\u201d<\/p>\n<h3>Quadros agravados<\/h3>\n<p>Especialista em Sa\u00fade do Trabalhador, Maria Maeno ressalta um outro aspecto importante a ser considerado nesse contexto em que reinam medo da demiss\u00e3o, sobrecarga de trabalho e impossibilidade de desconex\u00e3o. \u201cAs pessoas com doen\u00e7as cr\u00f4nicas tendem a diminuir ou abandonar o acompanhamento cl\u00ednico, o que contribui para o agravamento dos seus quadros\u201d, afirma. \u201cRelevante lembrar que segundo a Pesquisa Nacional de Sa\u00fade (PNS 2014), 57,4 milh\u00f5es, que perfazem 40% da popula\u00e7\u00e3o adulta brasileira, tem pelo menos uma doen\u00e7a cr\u00f4nica n\u00e3o transmiss\u00edvel, como diabetes, hipertens\u00e3o arterial, afec\u00e7\u00e3o da coluna e depress\u00e3o. Essas doen\u00e7as s\u00e3o respons\u00e1veis por 72% das causas de \u00f3bitos no Brasil.\u201d<\/p>\n<p>A m\u00e9dica explica que esse tipo de doen\u00e7as t\u00eam origem multicausal. \u201cAssim, o reconhecimento do peso da atividade laboral em seu desencadeamento ou agravamento, ser\u00e1 ainda mais dificultado no trabalho remoto combinado eventualmente com regime de trabalho intermitente.\u201d<\/p>\n<h3>Governo que atrapalha<\/h3>\n<p>As dificuldades decorrentes da pandemia do novo coronav\u00edrus em todo o mundo, no Brasil s\u00e3o agravadas pela postura negacionista do governo federal. Enquanto diversos pa\u00edses lan\u00e7am pacotes bilion\u00e1rios de incentivo e apoio \u00e0s pessoas e ao setor privado, o governo de Jair Bolsonaro reduziu a presen\u00e7a do Estado na economia e como provedor das pol\u00edticas sociais. Assim, observa o\u00a0<a href=\"https:\/\/www.dieese.org.br\/boletimdeconjuntura\/2021\/boletimconjuntura27.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"Dieese (abre numa nova aba)\">Dieese<\/a>\u00a0em seu boletim de conjuntura de mar\u00e7o passado, enquanto o trabalhador adoece na pandemia, a atua\u00e7\u00e3o do governo afasta qualquer perspectiva futura de recupera\u00e7\u00e3o do mercado de trabalho e de desenvolvimento nacional.<\/p>\n<p>\u201cA taxa de desocupa\u00e7\u00e3o ficou em 13,9% no quarto trimestre de 2020 e, na m\u00e9dia do ano, alcan\u00e7ou 13,5%, a maior desde 2012. Eram 13,4 milh\u00f5es de pessoas procurando trabalho no pa\u00eds\u201d, detalha o instituto. \u201cO n\u00famero de desalentados no quarto trimestre de 2020, pessoas que desistiram de procurar emprego por n\u00e3o acreditarem que v\u00e3o encontrar uma vaga, alcan\u00e7ou 5,8 milh\u00f5es de pessoas, alta de 16,1% em rela\u00e7\u00e3o a 2019 e tamb\u00e9m o maior contingente da s\u00e9rie anual da Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlios (Pnad Cont\u00ednua), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE).\u201d<\/p>\n<p>De acordo com o Dieese, esses dados revelam piora em rela\u00e7\u00e3o aos dois anos anteriores, em decorr\u00eancia da paralisa\u00e7\u00e3o de alguns setores, devido \u00e0 pandemia de covid-19. \u201cNo ano passado, a popula\u00e7\u00e3o ocupada foi reduzida em 7,3 milh\u00f5es de pessoas, chegando ao menor n\u00famero da s\u00e9rie anual desde 2012. O Brasil saiu, em 2019, de 93,4 milh\u00f5es de ocupados \u2013 o maior contingente da s\u00e9rie hist\u00f3rica \u00ad para 86,1 milh\u00f5es, em 2020. Segundo os t\u00e9cnicos do IBGE, pela primeira vez na s\u00e9rie hist\u00f3rica anual, menos de 50% da popula\u00e7\u00e3o em idade para trabalhar estava ocupada no pa\u00eds. Esse fato revela a gravidade do momento que o Brasil atravessa.\u201d<\/p>\n<h3>E pode piorar<\/h3>\n<p>O instituto alerta: diante da retomada do aux\u00edlio emergencial em valores inferiores, a evolu\u00e7\u00e3o do desemprego e as \u201ctrapalhadas\u201d no processo de vacina\u00e7\u00e3o contra a covid-19, a situa\u00e7\u00e3o da economia pode se agravar ainda mais. \u201cUm dos fatores essenciais para o processo industrial \u00e9 a solidez do mercado de massas, ou seja, a capacidade da popula\u00e7\u00e3o para consumir, articulada com pol\u00edticas tecnol\u00f3gicas e de inova\u00e7\u00e3o. Nos \u00faltimos anos, o mercado interno tem sido sistematicamente afetado pelo desemprego, empobrecimento da popula\u00e7\u00e3o, precariza\u00e7\u00e3o do trabalho, aprofundamento da desindustrializa\u00e7\u00e3o etc. Todo esse processo, amplamente aprofundado com o governo de Jair Bolsonaro, afeta diretamente a produ\u00e7\u00e3o industrial interna.\u201d<\/p>\n<p>Cresceu tamb\u00e9m o tr\u00e1gico n\u00famero de fam\u00edlias em situa\u00e7\u00e3o de extrema pobreza, o maior desde 2014. S\u00e3o mais de 14 milh\u00f5es ou cerca de 39,9 milh\u00f5es de pessoas na mis\u00e9ria no Brasil. S\u00e3o fam\u00edlias que sobrevivem com renda mensal de at\u00e9 R$ 89 por pessoa. \u201cO pa\u00eds tem uma \u201cbomba-rel\u00f3gio\u201d social. Da parte do governo, n\u00e3o h\u00e1 plano ou estrat\u00e9gia para enfrentar uma crise dessa magnitude\u201d, define o Dieese.<\/p>\n<p>www.redebrasilatual.com.br \/ Cl\u00e1udia Motta<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que j\u00e1 era ruim piorou muito diante da covid-19 e das mudan\u00e7as no mundo do trabalho; o resultado \u00e9 um pa\u00eds com uma legi\u00e3o de adoecidos que s\u00f3 cresce S\u00e3o Paulo \u2013 Press\u00e3o por metas, medo constante do\u00a0desemprego,\u00a0direitos cada vez mais escassos. 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