{"id":19904,"date":"2021-04-16T11:46:35","date_gmt":"2021-04-16T14:46:35","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/?p=19904"},"modified":"2021-04-16T11:46:35","modified_gmt":"2021-04-16T14:46:35","slug":"greve-dos-entregadores-de-apps-nesta-6a-e-reflexo-da-exploracao-e-crise-economica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/2021\/04\/16\/greve-dos-entregadores-de-apps-nesta-6a-e-reflexo-da-exploracao-e-crise-economica\/","title":{"rendered":"Greve dos entregadores de APPs nesta 6\u00aa \u00e9 reflexo da explora\u00e7\u00e3o e crise econ\u00f4mica"},"content":{"rendered":"<p><strong>Entregadores lutam por reajustes e melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho. Para pesquisadora da Unicamp, reforma Trabalhista, crise econ\u00f4mica e pandemia s\u00e3o as respons\u00e1veis pela explora\u00e7\u00e3o das empresas<\/strong><\/p>\n<p>Os entregadores que trabalham para aplicativos da capital paulista, como iFood, Loggi e Rappi,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.cut.org.br\/noticias\/motoboys-farao-protesto-em-sp-nesta-sexta-por-melhores-condicoes-de-trabalho-e-r-3271\">realizam manifesta\u00e7\u00e3o nesta sexta-feira (16) para protestar contra as condi\u00e7\u00f5es de trabalho e renda<\/a>. \u00c9 a quarta paralisa\u00e7\u00e3o desses trabalhadores em menos de um ano em busca de melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho, reajustes na taxa m\u00ednima de corrida e o pagamento padronizado por quilometragem, para fazer frente ao aumento dos combust\u00edveis e da infla\u00e7\u00e3o. Desde o\u00a0<a href=\"https:\/\/www.cut.org.br\/noticias\/mais-de-5-mil-entregadores-de-empresas-de-aplicativo-devem-parar-no-dia-1-de-jul-c39f\">primeiro breque dos APPs<\/a><strong>,\u00a0<\/strong>como ficou conhecida a greve da categoria em julho do ano passado, nada mudou.<\/p>\n<p>A grande maioria continua trabalhando sete dias da semana e boa parte mais do que 11 horas di\u00e1rias e tirando muito pouco no final do m\u00eas. A pesquisa\u00a0<a href=\"http:\/\/revistatdh.org\/index.php\/Revista-TDH\/article\/view\/74\/37\"><strong>\u201c<\/strong>Condi\u00e7\u00f5es de trabalho de entregadores via plataforma digital durante a COVID-19<strong>\u201d,<\/strong><\/a>\u00a0da Universidade de Campinas (Unicamp), trouxe dados alarmantes sobre a explora\u00e7\u00e3o a que esses trabalhadores s\u00e3o submetidos, avalia a professora Paula Freitas, que atou como pesquisadora do Grupo de Trabalho Digital da Rede de Estudos e Monitoramento Interdisciplinar da Reforma Trabalhista (GTTD\/REMIR).<\/p>\n<p>Antes da pandemia do novo coronav\u00edrus (Covid-19), 38,2% trabalhavam at\u00e9 oito horas por dia; 54,1% trabalhavam entre nove e 14 horas ; e 7,8% trabalhavam mais que 15 horas di\u00e1rias.<\/p>\n<p>Durante a pandemia, o n\u00famero de entregadores trabalhando mais horas aumentou. 43,3% relataram trabalhar at\u00e9 oito horas por dia; e 56,7% mais de nove horas di\u00e1rias. A distribui\u00e7\u00e3o foi de 18,5% nas faixas entre nove e 10 horas di\u00e1rias; 19,3% nas faixas entre 11 e 12 horas; 11,48% entre 13 e 14 horas\u00a0 e 7,4% em 15 horas ou mais.<\/p>\n<p>Comparando-se a distribui\u00e7\u00e3o por faixa de tempo de trabalho, constatou-se que antes da covid-19 mais de 57% trabalhavam acima das nove horas di\u00e1rias, ampliando-se esse percentual para 62% durante a pandemia.<\/p>\n<p>Embora esses trabalhadores passassem a ser mais requisitados por quem est\u00e1 em isolamento social e em home office, seus rendimentos ca\u00edram. 47% dos entregadores ganhavam at\u00e9 R$ 520 por semana, com a pandemia subiu para 72%. Ou seja, 25% desses trabalhadores passaram tamb\u00e9m a receber a m\u00e9dia rebaixada.<\/p>\n<p>Para 49% dos pesquisados, o b\u00f4nus que recebiam diminuiu. Os que mantiveram seus rendimentos foram 45% e apenas 5% disseram que tiveram aumentos de renda neste per\u00edodo.<\/p>\n<blockquote class=\"dd-blockquote\"><p>As empresas de aplicativos usam a for\u00e7a de trabalho dessas pessoas e n\u00e3o as veem como seres humanos, que merecem ser remunerados dignamente, mas os veem como oferta de demanda<\/p>\n<footer>&#8211; Paula Freitas<\/footer>\n<\/blockquote>\n<p>A pesquisadora da Unicamp diz que, com certeza, a pandemia precipitou o uso de aplicativos n\u00e3o s\u00f3 no Brasil como em todo o mundo, mas que, naturalmente em pa\u00edses com a economia mais estruturada do que a brasileira, cujo governo de Jair Bolsonaro (ex-PSL) n\u00e3o se mostrou \u00e0 altura para tratar da crise, o impacto negativo sobre esses trabalhadores foi menor.<\/p>\n<p>\u201cA pandemia contribuiu para mostrar rapidamente que este governo n\u00e3o deu certo. Aprofundamos os efeitos t\u00e3o fortemente que de fato as pessoas ficaram sem alternativas de renda, mas elas precisam pagar as contas e acabam utilizado aquilo que est\u00e1 ao alcance da m\u00e3o: o celular vinculado a uma internet m\u00f3vel, a um algoritmo que manda na vida delas\u201d, critica a pesquisadora e doutoranda em Desenvolvimento Econ\u00f4mico no CESIT\/IE\/Unicamp.<\/p>\n<p>A pesquisa ressalta que o trabalho subordinado com ordem direta, n\u00e3o pela boca, mas por algoritmos ditando o ritmo do trabalho \u00e9 uma ferramenta do mesmo jeito que qualquer m\u00e1quina que produz uma camisa nova.<\/p>\n<p>\u201cEssas plataformas s\u00e3o oniscientes. Est\u00e3o o tempo inteiro ligadas em todo lugar. N\u00e3o tem nada de demanda, ao contr\u00e1rio, \u00e9 o tempo inteiro funcionando 24 horas por dia, sete dias por semana. O\u00a0 fato do trabalhador n\u00e3o trabalhar 24 horas por dia, sete dias por semana, \u00e9 s\u00f3 porque ele \u00e9 um ser humano e como tal tem que ter limite m\u00e1ximo de hor\u00e1rio de trabalho, da sua capacidade de doar sinergia pessoal para o trabalho\u201d, afirma Paula.<\/p>\n<p><strong>Faixa et\u00e1ria excludente<\/strong><\/p>\n<p>A pesquisa tamb\u00e9m mapeou a faixa et\u00e1ria e etnia desses trabalhadores. Entre os trabalhadores que responderam o question\u00e1rio, a quase totalidade (94,6%) se apresentou como sendo do sexo masculino.\u00a0 Quanto \u00e0 cor ou ra\u00e7a, 39,9% se identificaram como branco; 44% como pardo; 14,8% como negro;\u00a0 e\u00a0 1%\u00a0 como\u00a0 ind\u00edgena.<\/p>\n<p>No que\u00a0 se\u00a0 refere\u00a0 \u00e0\u00a0 distribui\u00e7\u00e3o\u00a0 por\u00a0 idade, 18,1% dos entrevistados tinham at\u00e9 24 anos; 47% encontravam -se na faixa entre 25 e 34; 31,2%\u00a0 entre\u00a0 35\u00a0 e\u00a0 44\u00a0 anos;\u00a0 e\u00a0 3,7%\u00a0 possu\u00eda\u00a0 mais\u00a0 de\u00a0 44\u00a0 anos.\u00a0\u00a0\u00a0 Portanto,\u00a0 o\u00a0 perfil\u00a0 preponderante dos entregadores entrevistados \u00e9 de homens que se reconhecem como brancos ou pardos (83,9%),\u00a0 com idade entre 25 e 44 anos (78,2%).<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 uma profiss\u00e3o que tem um ritmo que n\u00e3o comporta pessoas com mais idade, porque as entregas t\u00eam de ser feitas rapidamente. \u00c9 um ritmo muito forte, de sujei\u00e7\u00e3o a riscos muito grandes para minimamente se levantar um \u00a0rendimento para pagar as coisas, e as pessoas mais idade muitas vezes n\u00e3o conseguem responder com a ligeireza necess\u00e1ria, fazendo a \u00a0perspectiva de vida \u00fatil dessa profiss\u00e3o ser muito baixa\u201d, afirma.<\/p>\n<p>A pesquisadora refor\u00e7a que as condi\u00e7\u00f5es de trabalho sub-humanas servem apenas para um processo de gera\u00e7\u00e3o de riqueza para terceiros, uma riqueza concentrada e centralizada que explora os trabalhadores, que transfere o risco do neg\u00f3cio para o trabalhador, num eventual acidente, num cont\u00e1gio pela Covid.<\/p>\n<p>\u201cTudo isso \u00e9 transferido para o trabalhador quando e o neg\u00f3cio seria da empresa, por que ela afere lucro, a partir do trabalho de outra pessoa\u201d, diz Paula Freitas.<\/p>\n<p><strong>Reforma Trabalhista aprofundou explora\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Para a pesquisadora, a explora\u00e7\u00e3o das empresas de aplicativos foi aprofundada com a reforma Trabalhista do governo golpista de Michel Temer (MDB-SP), que legalizou o bico com o trabalho intermitente, al\u00e9m de perdas de diversos direitos, e o governo Bolsonaro s\u00f3 piorou com tentativas de retiradas de mais direitos. Segundo ela, com certeza, a reforma Trabalhista foi uma das maiores respons\u00e1veis pela precariza\u00e7\u00e3o do trabalho, de maneira geral.<\/p>\n<p>\u201cO Brasil est\u00e1 assistindo a uma economia desestruturada, com desmantelamento da legisla\u00e7\u00e3o trabalhista, diminuindo a prote\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, justificando as retiradas de direitos como forma de impulsionar o quadro de empregos no pa\u00eds, mas isto se demonstrou falacioso\u201d, diz.<\/p>\n<blockquote class=\"dd-blockquote\"><p>Qualquer pessoa com um m\u00ednimo de conhecimento da rela\u00e7\u00e3o causa-efeito entre medidas econ\u00f4micas regula\u00e7\u00e3o e mercado de trabalho, sabia que a reforma Trabalhista n\u00e3o daria certo<\/p>\n<footer>&#8211; Paula Freitas<\/footer>\n<\/blockquote>\n<p>Para a pesquisadora o problema n\u00e3o est\u00e1 no fato das plataformas digitais incorporarem pessoas para trabalhar, mas sim na aus\u00eancia de legisla\u00e7\u00e3o protetiva que existe e se chama Consolida\u00e7\u00e3o das Leis do Trabalho (CLT)<\/p>\n<p>\u201cJ\u00e1 existe uma norma, \u00e9 a antiga CLT, antes da reforma Trabalhista, que precisa ser aplicada, n\u00e3o se precisa de uma nova norma de amparo ao trabalhador \u201c, conclui.<\/p>\n<p>www.cut.org.br\/ Rosely Rocha<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entregadores lutam por reajustes e melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho. 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