{"id":19908,"date":"2021-04-16T11:55:29","date_gmt":"2021-04-16T14:55:29","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/?p=19908"},"modified":"2021-04-16T11:56:24","modified_gmt":"2021-04-16T14:56:24","slug":"pandemia-auxilio-diminui-a-fome-cresce-e-a-inflacao-corroi-o-pouco-que-se-tem-para-viver","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/2021\/04\/16\/pandemia-auxilio-diminui-a-fome-cresce-e-a-inflacao-corroi-o-pouco-que-se-tem-para-viver\/","title":{"rendered":"Pandemia &#8211; Aux\u00edlio diminui, a fome cresce e a infla\u00e7\u00e3o corr\u00f3i o pouco que se tem para viver"},"content":{"rendered":"<p class=\"a_st font_secondary color_gray_dark \"><strong>Repasse do Governo ter\u00e1 impacto menor para a popula\u00e7\u00e3o mais pobre frente ao aumento de pre\u00e7os, desemprego e piora da pandemia. H\u00e1 um ano, 15 reais compravam 5 quilos de arroz; agora, s\u00f3 3 quilos<\/strong><\/p>\n<p class=\"\">Maria das Gra\u00e7as, 41, sustenta seus quatro filhos com o dinheiro que tira de um sal\u00e3o de beleza que aluga como cabeleireira em Parais\u00f3polis, zona sul de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/sao-paulo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">S\u00e3o Paulo<\/a>. Desde o in\u00edcio da\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/coronavirus\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">pandemia de covid-19<\/a>, no entanto, viu\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/economia\/2021-03-31\/em-um-ano-mais-de-8-milhoes-de-brasileiros-perderam-seus-empregos.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">sua \u00fanica fonte de renda desaparecer<\/a>\u00a0\u2014n\u00e3o s\u00f3 pelas\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2021-03-15\/fase-emergencial-em-sao-paulo-esbarra-em-falta-de-auxilio-financeiro-e-importante-para-acabar-com-o-virus-mas-preciso-trabalhar.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">restri\u00e7\u00f5es impostas pela fase emergencial em todo o Estado<\/a>, mas pelo desemprego que impossibilitou seus clientes de continuarem indo ao sal\u00e3o. Ela sobreviveu em 2020 com as parcelas do\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/auxilio-emergencial\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">aux\u00edlio emergencial<\/a>\u00a0repassados pelo Governo federal, mas neste segundo ano a ajuda de custo ser\u00e1 insuficiente. Mesmo recebendo a parcela mais vantajosa do novo aux\u00edlio, Maria n\u00e3o consegue colocar mais do que arroz, feij\u00e3o e ovo no prato das crian\u00e7as de 5, 8, 14 e 17 anos. \u201c\u00c9 do\u00eddo ver o mais novo acordar com fome e n\u00e3o ter nada em casa. Como ele ainda n\u00e3o entende, fica ainda mais dif\u00edcil\u201d, relata ela.<\/p>\n<p class=\"\">Como m\u00e3e solteira, a cabeleireira tem direito a quatro parcelas de 375 reais do aux\u00edlio, a serem depositadas entre 20 de abril e 8 de agosto. Se a ajuda permitiu o abastecimento da casa durante 2020, a infla\u00e7\u00e3o de alimentos b\u00e1sicos dificultou a vida da popula\u00e7\u00e3o mais vulner\u00e1vel em 2021. O pre\u00e7o m\u00e9dio de uma cesta b\u00e1sica para quatro pessoas, em S\u00e3o Paulo, era de 862,87 reais em abril do ano passado \u2014valor que saltou para 1.014,63 reais em 2021, segundo pesquisa da Funda\u00e7\u00e3o Procon-SP em parceria com o Departamento Intersindical de Estat\u00edstica e Estudos Socioecon\u00f4micos (Dieese). \u201cCarne, arroz e \u00f3leo s\u00e3o os que mais assustam\u201d, pontua Maria das Gra\u00e7as. Ela conta que precisou abrir m\u00e3o da carne para conseguir comprar o arroz, substituindo bovinos e frangos pelo ovo, al\u00e9m de trocar o leite de caixinha pelo suco mais barato. \u201cFaz tr\u00eas meses que n\u00e3o compramos carne\u201d, relata ela. \u201c\u00c9 preocupante porque j\u00e1 estou no limite.\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2021-01-23\/o-brasil-que-reduziu-a-pobreza-em-plena-pandemia-ve-a-fome-rondar-quem-deixou-de-receber-o-auxilio.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Se cortar mais, vamos morrer de fome<\/a>. A alimenta\u00e7\u00e3o fica desbalanceada e o aux\u00edlio s\u00f3 vai servir para comprar o b\u00e1sico, que n\u00e3o supre\u201d, completa a cabeleireira.<\/p>\n<p class=\"\">De fato, alimentos de origem animal, cereais (como arroz e feij\u00e3o), a\u00e7\u00facar e \u00f3leo est\u00e3o entre os produtos que tiveram uma infla\u00e7\u00e3o ainda maior que a medida pelo \u00cdndice Nacional de Pre\u00e7os ao Consumidor Amplo (IPCA), que est\u00e1 na casa dos 5,5%. H\u00e1 um ano, 15 reais eram suficientes para comprar cinco quilos de arroz; agora, o mesmo dinheiro s\u00f3 paga tr\u00eas quilos. Com 23 reais, era poss\u00edvel comprar um quilo de carne de primeira em 2019. Agora, o mesmo valor paga pouco mais de 500 gramas de queijo mu\u00e7arela. Com um aumento de 53% em seu pre\u00e7o durante 2020, a carne bovina precisou ser trocada na cesta b\u00e1sica pela de frango, cujo quilo do fil\u00e9 est\u00e1 em torno dos nove reais \u2014em abril passado, era menos do que 7,50 reais. Os dados s\u00e3o do Procon-SP e do Dieese.<\/p>\n<p class=\"\">O professor de economia da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), Heron do Carmo, ressalta que o efeito mais significativo desse aumento \u00e9 o fato dele recair sobre os produtos mais consumidos pela popula\u00e7\u00e3o mais vulner\u00e1vel do pa\u00eds. \u201cO problema \u00e9 que o \u00edndice de pre\u00e7o teve um comportamento variado de acordo com o grupo de produtos, e aumentaram justamente os mais consumidos pelos mais pobres\u201d, diz Carmo. Isso, por sua vez, tem um impacto forte na nova rodada do aux\u00edlio emergencial, uma vez que o dinheiro repassado aos mais pobres, al\u00e9m de ser menor, vale menos do que no ano passado por conta da infla\u00e7\u00e3o. Os 375 reais de Maria das Gra\u00e7as compram menos alimentos do que faziam em 2020. \u201c<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/economia\/2021-01-15\/minha-pressa-nao-e-por-vacina-e-por-comida-a-fila-da-fome-em-sao-paulo-turbinada-por-ato-anti-doria.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Com esse aumento brutal de pre\u00e7os, o aux\u00edlio vai ter um efeito muito menor no padr\u00e3o de vida dessas pessoas<\/a>. Voc\u00ea pode ter problemas de desnutri\u00e7\u00e3o cal\u00f3rica nas fam\u00edlias mais pobres\u201d, constata o economista.<\/p>\n<p class=\"\">\u201cO dinheiro \u00e9 muito bem-vindo nessa situa\u00e7\u00e3o emergencial, e \u00e9 um avan\u00e7o entregar o poder aquisitivo \u00e0 pessoa ao inv\u00e9s da cesta b\u00e1sica\u201d, ressalva Carmo, \u201cmas \u00e9 preciso melhorar o valor sem cortar o n\u00famero de beneficiados\u201d. Segundo levantamento da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Seguran\u00e7a Alimentar e Nutricional (Rede Penssan), 116,8 milh\u00f5es de brasileiros se encontram em situa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a alimentar, n\u00famero que corresponde a mais da metade da popula\u00e7\u00e3o e n\u00e3o era alcan\u00e7ado h\u00e1 17 anos. O aux\u00edlio de 2021 beneficiar\u00e1 apenas 45,6 milh\u00f5es de cidad\u00e3os. \u201c\u00c9 a condi\u00e7\u00e3o de vida afetada pela pandemia, pelo desemprego e pelos pre\u00e7os dos alimentos. Imagina o drama da pessoa passar fome num pa\u00eds que tem plenas condi\u00e7\u00f5es de prover isso\u201d, completa o economista.<\/p>\n<h3 class=\"font_secondary color_gray_ultra_dark\">Por que aumentou o pre\u00e7o?<\/h3>\n<p class=\"\">\u201cDuas coisas explicam:\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/economia\/2021-04-07\/fmi-descarta-disparada-inflacionaria-durante-a-recuperacao.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">o aumento do pre\u00e7o dos alimentos fora do pa\u00eds<\/a>, o que causa uma entrada maior de d\u00f3lares no mercado brasileiro, que \u00e9 um grande exportador; e a desvaloriza\u00e7\u00e3o da moeda nacional, que faz com que o d\u00f3lar fique mais caro\u201d, justifica o economista Heron do Carmo. \u201cNormalmente, o aumento das exporta\u00e7\u00f5es faria o d\u00f3lar ficar mais barato. Por\u00e9m, quest\u00f5es como as incertezas pol\u00edticas do pa\u00eds levaram \u00e0 jun\u00e7\u00e3o desses dois fatores, que aumentam o pre\u00e7o dos produtos no mercado interno\u201d, completa o especialista.<\/p>\n<p class=\"\">E, para ele, sair da crise n\u00e3o dever\u00e1 ser uma miss\u00e3o f\u00e1cil. A estabiliza\u00e7\u00e3o dos pre\u00e7os passa pela valoriza\u00e7\u00e3o cambial e pela melhora generalizada da economia, que por sua vez depende do fim da pandemia. O economista projeta dois cen\u00e1rios, tendo como base o processo eleitoral que culminar\u00e1 no pleito para presidente no segundo semestre de 2022: caso os presidenci\u00e1veis adotem uma postura mais comedida com programas que \u201cacenem para o futuro\u201d, ele prev\u00ea uma melhoria na situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do pa\u00eds; caso o<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2021-04-07\/governo-deixou-de-gastar-807-bilhoes-de-reais-destinados-a-pandemia-em-2020-diz-estudo.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">\u00a0clima de polariza\u00e7\u00e3o dos \u00faltimos anos permane\u00e7a ou cres\u00e7a<\/a>, ele projeta um cont\u00ednuo aumento na infla\u00e7\u00e3o e no d\u00f3lar. \u201cNo meio dessas incertezas, qualquer previs\u00e3o tem prazo de validade. Mas n\u00e3o descarto, com a instabilidade piorando, que a infla\u00e7\u00e3o feche o ano em 8%. Vai depender do bom senso da classe pol\u00edtica e, com o in\u00edcio das pesquisas para presidente, dos eleitores\u201d, conclui o professor da USP.<\/p>\n<h3 class=\"font_secondary color_gray_ultra_dark\">O aux\u00edlio emergencial<\/h3>\n<p class=\"\">Al\u00e9m do caso de Maria das Gra\u00e7as, que receber\u00e1 do novo aux\u00edlio emergencial quatro parcelas de 375 reais como m\u00e3e solteira que mora com os filhos, fam\u00edlias com pai e m\u00e3e receber\u00e3o quatro mensalidades de 250 reais, enquanto\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/opiniao\/2021-03-24\/o-que-fara-uma-familia-com-150-reais-para-sobreviver-por-um-mes.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">pessoas que moram sozinhas ter\u00e3o a disposi\u00e7\u00e3o 150 reais mensais<\/a>\u00a0pelo mesmo per\u00edodo. Os prazos s\u00e3o definidos de acordo com a data de nascimento: para nascidos em janeiro e inscritos no Cadastro \u00danico ou via aplicativo e site do programa, os dep\u00f3sitos come\u00e7aram a ser feitos na ter\u00e7a, dia 6, com saques permitidos a partir de 4 de maio, e terminam no dia 23 de julho. J\u00e1 para nascidos em dezembro, os \u00faltimos da fila, o primeiro dep\u00f3sito cai em 30 de abril, e o \u00faltimo em 22 de agosto \u2014com saque permitido a partir de 10 de setembro. Os dep\u00f3sitos s\u00e3o feitos atrav\u00e9s da conta poupan\u00e7a digital da Caixa. Por fim, benefici\u00e1rios do Bolsa Fam\u00edlia recebem as quatro parcelas de acordo com o calend\u00e1rio do programa, entre 16 de abril e 30 de julho.<\/p>\n<p class=\"\">Os valores s\u00e3o menores do que os repassados ao ano passado e ainda beneficiam uma quantidade menor de pessoas, apesar da pandemia estar no seu auge e\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2021-04-06\/brasil-registra-recorde-de-4195-novas-mortes-por-covid-19-e-prenuncia-abril-tragico.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">acumular seguidos recordes di\u00e1rios de \u00f3bitos no pa\u00eds<\/a>. Se o aux\u00edlio de 2020 ajudou quase 68 milh\u00f5es de pessoas,\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/economia\/2021-03-31\/auxilio-emergencial-de-2021-comeca-em-6-abril-com-valores-menores-e-menos-beneficiados-saiba-as-regras.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">a vers\u00e3o 2021 beneficiar\u00e1 m<\/a><a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/economia\/2021-03-31\/auxilio-emergencial-de-2021-comeca-em-6-abril-com-valores-menores-e-menos-beneficiados-saiba-as-regras.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">ais de 20 milh\u00f5es de pessoas a menos<\/a>\u00a0\u2014todas aquelas com renda familiar de no m\u00e1ximo tr\u00eas sal\u00e1rios m\u00ednimos (desde que a renda por pessoa seja inferior a meio sal\u00e1rio m\u00ednimo) e que tenham sido aprovadas para receber o benef\u00edcio ano passado, j\u00e1 que n\u00e3o haver\u00e1 nova fase de inscri\u00e7\u00f5es. Maria recebeu mensalmente, entre maio e setembro do ano passado, 1.200 reais, o dobro da m\u00e9dia por ser m\u00e3e solteira. Entre outubro e dezembro, foram mais tr\u00eas parcelas de 600 reais.<\/p>\n<p class=\"\">A moradora de Parais\u00f3polis, a segunda maior favela de S\u00e3o Paulo, diz que a comunidade tem conseguido mobilizar doa\u00e7\u00f5es de alimentos para os moradores. \u201cMas nem todos os que necessitam s\u00e3o contemplados. Acho que os pol\u00edticos deveriam cortar do sal\u00e1rio deles para oferecer um valor digno, sem que a gente precisasse ficar se humilhando para ter comida\u201d, sugere Maria. Na \u00faltima semana,\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2021-03-27\/corrida-de-doria-e-bolsonaro-pela-vacina-propria-contra-a-covid-19-tem-acodamento-e-omissoes.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">o governador paulista, Jo\u00e3o Doria<\/a>, iniciou um programa que incentiva as pessoas a doarem um quilo de alimento n\u00e3o perec\u00edvel no ato da vacina\u00e7\u00e3o. O alimento ser\u00e1 direcionado, segundo o Governo, \u00e0 parcela mais vulner\u00e1vel da popula\u00e7\u00e3o no Estado.<\/p>\n<p>www.brasil.elpais.com \/DIOGO MAGRI<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Repasse do Governo ter\u00e1 impacto menor para a popula\u00e7\u00e3o mais pobre frente ao aumento de pre\u00e7os, desemprego e piora da pandemia. 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