{"id":20534,"date":"2021-05-14T11:59:07","date_gmt":"2021-05-14T14:59:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/?p=20534"},"modified":"2021-05-14T11:59:32","modified_gmt":"2021-05-14T14:59:32","slug":"abolicao-nao-foi-um-presente-dado-por-brancos-diz-historiadora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/2021\/05\/14\/abolicao-nao-foi-um-presente-dado-por-brancos-diz-historiadora\/","title":{"rendered":"&#8220;Aboli\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi um presente dado por brancos&#8221;, diz historiadora"},"content":{"rendered":"<p><strong>Fazia quase um ano que a escravid\u00e3o tinha acabado oficialmente, quando sete homens negros enviaram uma carta ao pol\u00edtico Ruy Barbosa, em abril de 1889. Deles, pouco se sabe al\u00e9m do nomes e que juntos faziam parte da Comiss\u00e3o de Libertos de Paty de Alferes, de Vassouras (RJ).\u00a0J\u00e1 o que escrever d\u00e1 grandes pistas da situa\u00e7\u00e3o em que uma popula\u00e7\u00e3o negra vivia no p\u00f3s-aboli\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p>&#8220;S\u00e3o pessoas que foram escravizadas em uma das regi\u00f5es mais ricas e onde a escravid\u00e3o se fez mais dura que eram as planta\u00e7\u00f5es de caf\u00e9 em Vassouras. Mesmo assim, na carta, elas aparecem se posicionando, dizendo e aconselhando outros negros a n\u00e3o lutarem pela monarquia. , j\u00e1 que esse regime inteiro foi sustentado pela escravid\u00e3o, falam em apoio \u00e0 Rep\u00fablica e cobram principalmente a instru\u00e7\u00e3o, a educa\u00e7\u00e3o para os seus filhos &#8220;, conta Wlamyra Albuquerque, autora do livro&#8221; Jogo da Dissimula\u00e7\u00e3o: aboli\u00e7\u00e3o e cidadania negra no Brasil &#8220;, historiadora e professora pela UFBA (Universidade Federal da Bahia) e Unicamp (Universidade Estadual de Campinas)<\/p>\n<p>Os homens ainda faziam uma proposta: os 5% cobrados como impostos para o Fundo de Emancipa\u00e7\u00e3o dos escravos, criado com a Lei do Ventre Livre, em 1871, oferece servi\u00e7os de manuten\u00e7\u00e3o a pagar a educa\u00e7\u00e3o de negros e negras antes escravizados.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o seria mais preciso comprar a liberdade, motivo pelo qual o fundo existia, para aqueles homens, o mais justo seria reverter o dinheiro que ainda era disponibilizado para ajudar a construir condi\u00e7\u00f5es melhores para ex-escravizados e seus descendentes.<\/p>\n<p>Para a professora Wlamyra, esse documento &#8211; considerado por ela um dos mais importantes j\u00e1 encontrados em sua pesquisa &#8211; mostra principalmente a consci\u00eancia que os negros tinham de que o fim da escravid\u00e3o n\u00e3o foi um presente dado pelas m\u00e3os brancas da Princesa Isabel, mas conquistado por m\u00e3os pretas.<\/p>\n<p>&#8220;Compreendemos perfeitamente que a liberdade partiu do povo que for\u00e7ou a Coroa e o Parlamento a decret\u00e1-la&#8221;, escrevem.\u00a0Al\u00e9m de mostrar uma nova vers\u00e3o da hist\u00f3ria que apresenta negros e negras como pessoas que tinham, de fato, planos para o futuro deles e do pa\u00eds no p\u00f3s-aboli\u00e7\u00e3o.\u00a0Hoje, quando se completam 133 anos da aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o oficial no Brasil,\u00a0<strong>Ecoa<\/strong>\u00a0conversa com Wlamyra Albuquerque sobre o papel da popula\u00e7\u00e3o negra naquele momento hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>Sempre foi uma popula\u00e7\u00e3o que organizou e deu sentidos \u00e0 vida nas cidades brasileiras.\u00a0N\u00e3o tem como pensar aboli\u00e7\u00e3o sem pensar na contribui\u00e7\u00e3o do povo.<\/p>\n<figure>\n<p><figure id=\"attachment_20536\" aria-describedby=\"caption-attachment-20536\" style=\"width: 253px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-20536\" src=\"https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/2-1-168x300.jpg\" alt=\"\" width=\"253\" height=\"452\" srcset=\"https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/2-1-168x300.jpg 168w, https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/2-1.jpg 260w\" sizes=\"auto, (max-width: 253px) 100vw, 253px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-20536\" class=\"wp-caption-text\">Wlamyra Albuquerque Imagem: Adilton Venegeroles<\/figcaption><\/figure><figcaption><\/figcaption><\/figure>\n<h2>Ecoa &#8211; Por que hoje, 133 anos ap\u00f3s o fim oficial da escravid\u00e3o, ainda \u00e9 importante falar sobre aquele momento?<\/h2>\n<p><strong>Wlamyra Albuquerque &#8211;<\/strong>\u00a0Porque ainda temos um certo esquecimento ou cria\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias muitas vezes fantasiosas sobre a escravid\u00e3o, como a ideia dela ter sido um &#8220;mal necess\u00e1rio&#8221;, por exemplo.\u00a0Porque no Brasil ainda existe um trauma coletivo que toda sociedade escravista tem.\u00a0O pa\u00eds nunca parou para discutir seriamente esse passado, tentam deixar para tr\u00e1s e esquecer a escravid\u00e3o, quando, na verdade, precisamos \u00e9 revisitar e rediscutir essa hist\u00f3ria.\u00a0Ent\u00e3o, existe uma import\u00e2ncia da gente voltar para o passado para entender como esse pa\u00eds se estruturou, o que tem l\u00e1 embaixo na raiz dele, sabe?\u00a0A escravid\u00e3o e o fim dela s\u00e3o partes muito importantes para entender essa estrutura social aqui de hoje, e para conseguir caminhar para outros caminhos no futuro.<\/p>\n<h2>Mas do que a nossa aboli\u00e7\u00e3o foi feita?\u00a0O que causou o fim da escravid\u00e3o?<\/h2>\n<p>Foram muitos fatores, mas a aboli\u00e7\u00e3o foi feita principalmente pela insubordina\u00e7\u00e3o negra.\u00a0Toda a movimenta\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o escravizada desde a chegada dos primeiros navios negreiros, depois de todas as metas para conseguir comprar cartas de alforria, a rebeldia de quem criou quilombos, de quem protagonizou rebeli\u00f5es pela liberdade, a rebeldia de quem soube negociar com seus senhores. .<\/p>\n<p>Mas o empenho que houve na constru\u00e7\u00e3o de uma mem\u00f3ria nacional que lesse aboli\u00e7\u00e3o como resultado da a\u00e7\u00e3o de alguns jovens homens brancos acad\u00eamicos pesa muito sobre a sociedade brasileira e justifica muito do racismo que existe hoje.\u00a0A ideia de que uma popula\u00e7\u00e3o negra \u00e9 incapaz de decidir por si mesma, que ela precisa estar sempre sendo tutelada pela escola, pela pol\u00edcia ou pelo Estado, a ideia de que essa popula\u00e7\u00e3o seria naturalmente dada ao fracasso se n\u00e3o houver algum tipo de controle sobre ela, todas essas ideias n\u00e3o aprender de um governo ou momento espec\u00edfico, elas foram constru\u00eddas e mantidas ao longo dos s\u00e9culos.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, existe essa ideia de que a liberdade negra n\u00e3o foi conquistada, ela foi dada por brancos e, por isso, at\u00e9 hoje somos uma sociedade que carrega essa ideia de que o negro parece estar sempre devendo alguma coisa, que o negro precisa sempre ter uma rea\u00e7\u00e3o de gratid\u00e3o.\u00a0Aboli\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi um presente dado por brancos.\u00a0Ela foi conquistada.<\/p>\n<figure id=\"attachment_20537\" aria-describedby=\"caption-attachment-20537\" style=\"width: 256px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-20537 size-full\" src=\"https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/3.jpg\" alt=\"\" width=\"256\" height=\"263\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-20537\" class=\"wp-caption-text\">Jos\u00e9 do Patroc\u00ednio tinha interlocu\u00e7\u00e3o direta com os abolicionistas cearenses Imagem: Biblioteca Nacional \/ BBC<\/figcaption><\/figure>\n<h3><strong>E mesmo dentro do movimento abolicionista, as pessoas negras marcaram um papel fundamental, correto?<\/strong><\/h3>\n<p>Sim!\u00a0Mas s\u00e3o pessoas que pouco foram lembradas no decorrer dos anos e quando aparecer a sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 de que s\u00e3o casos excepcionais, n\u00e9?\u00a0Como se s\u00f3 os g\u00eanios como Luiz Gama ou Jos\u00e9 do Patroc\u00ednio tivessem se esportes na luta pela aboli\u00e7\u00e3o.\u00a0O que n\u00e3o \u00e9 verdade!\u00a0Quando a gente vai pesquisando, a gente encontra not\u00edcias de diversos negros e negras at\u00e9 desconhecidos pelo grande p\u00fablico.\u00a0Voc\u00ea encontra um homem que tinha uma tenda de sapateiro, que aprendeu a ler e escrever sozinho e que se arriscava para fazer campanha pelo fim da aboli\u00e7\u00e3o com todo mundo que passava por ele ali.\u00a0(&#8230;) a gente tem v\u00e1rias not\u00edcias hoje de mulheres que se engajaram na luta abolicionista, como Maria Firmina, por exemplo.\u00a0E quando a gente vai para a Justi\u00e7a Judici\u00e1ria,<\/p>\n<h2>A senhora tem falado aqui de algumas t\u00e1ticas que pessoas negras usaram para lutar contra uma escravid\u00e3o.\u00a0Pode citar mais algumas?<\/h2>\n<p>Poxa, existem v\u00e1rias!\u00a0Tem o cl\u00e1ssico de juntar dinheiro para comprar as pr\u00f3prias alforrias ou a de familiares.\u00a0Elas formavam irmandades religiosas, no Rio Grande do Sul, S\u00e3o Paulo, Rio de Janeiro e Pernambuco tem muitos registros de associa\u00e7\u00f5es de pessoas negras, em que se criava uma esp\u00e9cie de fundo para poder socorrer principalmente como vi\u00favas e os filhos de escravizados, para ajudar nos tratamentos de pessoas que denuncia algum acidente de trabalho?\u00a0Voc\u00ea v\u00ea que h\u00e1 uma intelig\u00eancia coletiva.\u00a0H\u00e1 uma forma de se organizar coletivamente, que vai ser passado de gera\u00e7\u00e3o a gera\u00e7\u00e3o porque s\u00e3o formas encontradas para sobreviver e atravessar a escravid\u00e3o at\u00e9 construir uma sociedade de liberdade.<\/p>\n<h2>Professora, o Estado brasileiro n\u00e3o deu nenhum apoio \u00e0 popula\u00e7\u00e3o negra no p\u00f3s-aboli\u00e7\u00e3o, mas existiram algumas ideias da popula\u00e7\u00e3o sobre o que deveria acontecer depois do dia 13 de maio?<\/h2>\n<p>O Estado, de fato, n\u00e3o deu nenhum apoio, digamos assim.\u00a0Entre uma popula\u00e7\u00e3o, cada um tinha uma vis\u00e3o do rumo que o pa\u00eds necessita tomar no p\u00f3s-aboli\u00e7\u00e3o.\u00a0Os negros n\u00e3o s\u00f3 ajudaram a abolir a escravid\u00e3o, como tinham os planos de futuro para eles e para o pa\u00eds.\u00a0Infelizmente, criou-se na mem\u00f3ria nacional a ideia de que os africanos chegavam aqui despreparados, analfabetos, sem educa\u00e7\u00e3o ou escolaridade?\u00a0O que n\u00e3o \u00e9 verdade, n\u00e9?\u00a0A hist\u00f3ria do negro n\u00e3o come\u00e7a na escravid\u00e3o.\u00a0Existe um passado.<\/p>\n<p>S\u00f3 que o Estado, ao criar hip\u00f3teses favor\u00e1veis, s\u00f3 sofisticou as formas de exclus\u00e3o, especialmente reestruturando todo o aparato policial para promover cada vez mais persegui\u00e7\u00f5es a toda a forma de atividade relacionada \u00e0 comunidade negra no Brasil.<\/p>\n<figure>\n<p><figure id=\"attachment_20538\" aria-describedby=\"caption-attachment-20538\" style=\"width: 454px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-20538\" src=\"https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/4-300x168.jpg\" alt=\"\" width=\"454\" height=\"254\" srcset=\"https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/4-300x168.jpg 300w, https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/4.jpg 590w\" sizes=\"auto, (max-width: 454px) 100vw, 454px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-20538\" class=\"wp-caption-text\">Andr\u00e9 Rebou\u00e7as, engenheiro e abolicionista, pintura de Rodolfo Bernardelli Imagem: Divulga\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<h2>E, para finalizar, quais os planos da popula\u00e7\u00e3o que n\u00e3o foram abra\u00e7ados no p\u00f3s-aboli\u00e7\u00e3o, mas que ainda s\u00e3o importantes para o futuro do pa\u00eds?<\/h2>\n<p>\u00c9 a quest\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o, da sa\u00fade, moradia e emprego.\u00a0Tinha um abolicionista negro chamado Andr\u00e9 Rebou\u00e7as, ele defendia que o fim da escravid\u00e3o Deveria vir com a reparti\u00e7\u00e3o das terras p\u00fablicas do Estado.\u00a0Porque ele acreditaava que o processo de aboli\u00e7\u00e3o n\u00e3o poderia acontecer sem qualquer tipo de garantia para que essas pessoas pudessem se construir de modo aut\u00f4nomo, sem dependente da tutela, da prote\u00e7\u00e3o dessas ex-senhores.<\/p>\n<p>\u00c9 \u00f3bvio que o projeto n\u00e3o foi adiante, n\u00e9?\u00a0O que aconteceu foi uma d\u00fazia de projetos solicitando indeniza\u00e7\u00e3o aos ex-senhores, e a cria\u00e7\u00e3o de mecanismos legais para que a popula\u00e7\u00e3o deseja mais dificuldade em acessar, por exemplo, como escolas.<\/p>\n<p>A pobreza em que a popula\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o negra vive no Brasil, ela se d\u00e1 ao sucesso do Estado em aprofundar desigualdades.\u00a0Foi o Estado brasileiro quem criou essa situa\u00e7\u00e3o, e \u00e9 o Estado brasileiro a quem cabe resolver essa situa\u00e7\u00e3o.\u00a0O mais importante disso tudo \u00e9 que a gente est\u00e1, ano depois de ano, empenhada em colaborar com o fim do racismo, e tomara que um dia o que aqueles libertos de Vassouras escreveram em 1889 se torne verdade.<\/p>\n<p>Tomara que a gente consiga construir um pa\u00eds em que liberdade, igualdade e fraternidade sejam para todos n\u00f3s.<\/p>\n<p>www.uol.com.br \/ Paula Rodrigues de Ecoa, em S\u00e3o Paulo (SP)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fazia quase um ano que a escravid\u00e3o tinha acabado oficialmente, quando sete homens negros enviaram uma carta ao pol\u00edtico Ruy Barbosa, em abril de 1889. 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