{"id":20784,"date":"2021-05-31T14:54:25","date_gmt":"2021-05-31T17:54:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/?p=20784"},"modified":"2021-05-31T14:56:51","modified_gmt":"2021-05-31T17:56:51","slug":"pastor-henrique-teologia-negra-e-devolver-biblia-a-origem-social-os-oprimidos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/2021\/05\/31\/pastor-henrique-teologia-negra-e-devolver-biblia-a-origem-social-os-oprimidos\/","title":{"rendered":"Pastor Henrique: Teologia Negra \u00e9 devolver B\u00edblia \u00e0 origem social, os oprimidos"},"content":{"rendered":"<p class=\"description\"><strong>Vieira tamb\u00e9m integra o Coletivo Esperan\u00e7ar de Evang\u00e9licos por Direitos Humanos Justi\u00e7a Social e Respeito \u00e0 Diversidade<\/strong><\/p>\n<div class=\"person\">\n<div><strong>Ou\u00e7a o \u00e1udio:<\/strong><\/div>\n<div>\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-20784-1\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/28-05-21-BRASIL-DE-FATO-ENTREVISTA-PASTOR-HENRIQUE-VIEIRA.mp3?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/28-05-21-BRASIL-DE-FATO-ENTREVISTA-PASTOR-HENRIQUE-VIEIRA.mp3\">https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/28-05-21-BRASIL-DE-FATO-ENTREVISTA-PASTOR-HENRIQUE-VIEIRA.mp3<\/a><\/audio>\n<\/div>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O <strong>BdF Entrevista<\/strong>\u00a0desta semana conversa com Henrique Vieira, 34 anos, pastor da Igreja Batista do Caminho. Integrante do\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/mne.rj\/?hl=pt-br\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Movimento Negro Evang\u00e9lico<\/a>\u00a0(MNE), Vieira fala sobre conservadorismo no segmento evang\u00e9lico, Teologia Negra, e desafios para a esquerda no di\u00e1logo pol\u00edtico com essa parcela da sociedade que representa 30% da popula\u00e7\u00e3o brasileira.<\/div>\n<div>\n<p>\u201cA Teologia Negra \u00e9 voc\u00ea devolver a B\u00edblia \u00e0\u00a0sua origem social, que \u00e9 a origem dos oprimidos, com uma especificidade, com uma espinha dorsal que \u00e9 o elemento de ra\u00e7a. (&#8230;) Vou resumir da seguinte forma: a B\u00edblia vem sendo lida e interpretada pela janela da casa grande colonial, a Teologia Negra implode esse lugar e passa a ler a B\u00edblia pela janela do quilombo.\u201d, declara.<\/p>\n<p>Vieira tamb\u00e9m integra o Coletivo Esperan\u00e7ar de Evang\u00e9licos por Direitos Humanos Justi\u00e7a Social e Respeito \u00e0 Diversidade, \u00e9 membro do Conselho Deliberativo do\u00a0<a href=\"https:\/\/vladimirherzog.org\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Instituto Vladimir Herzog<\/a>\u00a0e foi vereador em mandato coletivo. em Niter\u00f3i (RJ), pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), entre 2012\u00a0e 2016. Ele \u00e9 ator especializado na arte da palha\u00e7aria, al\u00e9m de escritor.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cAo longo da minha vida, desde a minha adolesc\u00eancia, me encontro em projetos e processos coletivos de transforma\u00e7\u00e3o da realidade que d\u00e1 sentido a minha vida.\u201d<strong>\u00a0<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\"><strong>Confira trechos da entrevista:<\/strong><\/p>\n<p><strong>Brasil de Fato &#8211; Os evang\u00e9licos s\u00e3o lidos, de uma forma geral, como a base de apoio do governo de Jair Bolsonaro (sem partido). Pesquisa do Instituto Datafolha, no entanto, mostra que o rosto evang\u00e9lico \u00e9 de uma mulher negra e moradora da periferia. Quais os riscos de uniformizar esse olhar sobre os evang\u00e9licos?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Henrique Vieira &#8211;\u00a0<\/strong>Generalizar o campo evang\u00e9lico, sem d\u00favida alguma, \u00e9 um equ\u00edvoco de an\u00e1lise, \u00e9 um equ\u00edvoco de t\u00e1tica de inser\u00e7\u00e3o, de atua\u00e7\u00e3o na sociedade. O campo evang\u00e9lico n\u00e3o \u00e9 um bloco monol\u00edtico, n\u00e3o \u00e9 um bloco uniforme. Ele \u00e9 por defini\u00e7\u00e3o, historicamente, heterog\u00eaneo, com diversas e m\u00faltiplas manifesta\u00e7\u00f5es, inclusive muito diferentes entre si. O campo evang\u00e9lico \u00e9 plural.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de ser plural, ele \u00e9 popular, majoritariamente composto por trabalhadores e trabalhadoras das periferias, das favelas, nas cidades e no campo tamb\u00e9m. Acho que \u00e9 muito importante entender o campo evang\u00e9lico por esse aspecto de classe, entender que se trata majoritariamente da classe trabalhadora, pauperizada, explorada no nosso pa\u00eds.<\/p>\n<p>Depois, identificar que existe um conservadorismo, sim, prevalente, predominante no campo evang\u00e9lico, mas entender que esse conservadorismo \u00e9 um tra\u00e7o da hist\u00f3ria do Brasil, do nosso imagin\u00e1rio social, da sociedade como um todo, ou seja, n\u00e3o existe um fen\u00f4meno conservador exclusivamente evang\u00e9lico. O conservadorismo no Brasil est\u00e1 para al\u00e9m do campo evang\u00e9lico.<\/p>\n<p>Outra observa\u00e7\u00e3o importante de se fazer \u00e9 que essas igrejas que v\u00e3o abrindo por a\u00ed, elas acabam cumprindo em algum grau um papel de socializa\u00e7\u00e3o, de acolhimento, de individualidades que s\u00e3o an\u00f4nimas e s\u00e3o desprezadas numa sociedade classista, racista, patriarcal. Muitas vezes, nessas igrejas, essas pessoas esquecidas pelo conjunto da sociedade s\u00e3o empoderadas, s\u00e3o vistas, s\u00e3o ouvidas, t\u00eam algum tipo de autoridade, s\u00e3o visitadas em casa, s\u00e3o socorridas nas quest\u00f5es das suas fam\u00edlias, ou seja, \u00e9 preciso entender a complexidade do campo evang\u00e9lico, seu car\u00e1ter popular e plural.<\/p>\n<p>Al\u00e9m desse conservadorismo prevalente, tamb\u00e9m cabe identificar que existem segmentos dentro desse plural campo evang\u00e9lico, que s\u00e3o ultraconservadores, que s\u00e3o extremistas e que t\u00eam projeto de poder, e que t\u00eam influenciado pol\u00edticas p\u00fablicas e legisla\u00e7\u00e3o, e que est\u00e3o na base do governo Bolsonaro.<\/p>\n<p>Seja como for, a palavra que eu quero reivindicar \u00e9: complexidade. O campo evang\u00e9lico \u00e9 complexo, e n\u00e3o haver\u00e1 possibilidade de projeto popular para esse pa\u00eds generalizando esse campo, estigmatizando esse campo, e perdendo contato com parcela da classe trabalhadora que luta todos os dias para sobreviver. Generalizar \u00e9 entregar para o fundamentalismo e o extremismo essa narrativa do campo evang\u00e9lico que, na minha compreens\u00e3o, precisa ser escutada e precisa ser disputada.<\/p>\n<p><strong>Brasil de Fato &#8211; H\u00e1 contradi\u00e7\u00e3o entre esse ultraconservadorismo, que integra a base do governo Bolsonaro, e os valores expressos no Evangelho?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Henrique Vieira &#8211;\u00a0<\/strong>\u00a0O ultraconservadorismo nada tem a ver com a \u00e9tica do Evangelho, e com a vida de Jesus. Jesus foi qualquer coisa menos conservador. Mas esse contrassenso n\u00e3o \u00e9 de agora. \u00c9 bom lembrar que Jesus de Nazar\u00e9 foi preso, torturado e executado pelo Imp\u00e9rio Romano. Jesus foi um prisioneiro pol\u00edtico. O movimento que derivou dele, tr\u00eas s\u00e9culos depois, que foi chamado de cristianismo, se tornou a religi\u00e3o oficial do Imp\u00e9rio, o mesmo que matou Jesus. Esse \u00e9 um contrassenso na hist\u00f3ria do cristianismo.<\/p>\n<p>Em outras palavras, objetivamente falando, uma mensagem que vem dos oprimidos passou a ser interpretada pelos opressores. O Evangelho de Jesus que tem uma amorosidade \u00e9tica, que tem uma quebra de preconceitos permanente, que tem um acolhimento incondicional da vida, que tem uma promo\u00e7\u00e3o da dignidade humana de todas as pessoas, que tem a den\u00fancia firme do ac\u00famulo de riquezas, o Evangelho perde esse seu conte\u00fado hist\u00f3rico, pol\u00edtico, revolucion\u00e1rio e espiritual, e passa a ser interpretado pela lente do poder.<\/p>\n<p>Jesus \u00e9 desistoricizado, sua mensagem \u00e9 descontextualizada, e ele se torna uma esp\u00e9cie de mestre religioso, tutor de comportamentos individuais. S\u00f3 estou chamando aten\u00e7\u00e3o que o problema da interpreta\u00e7\u00e3o do Evangelho, servindo a uma perspectiva ultraconservadora, n\u00e3o \u00e9 um problema circunstancial, pontual, contempor\u00e2neo ou recente. \u00c9 uma trag\u00e9dia hist\u00f3rica do pr\u00f3prio cristianismo hegem\u00f4nico e institucional, ent\u00e3o, como crist\u00e3o, o que me cabe? Com muito humildade, coragem, e coletivamente, disputar, como h\u00e1 muito tempo vem sendo, muitos outros irm\u00e3os e irm\u00e3s fizeram, a mem\u00f3ria do Cristo, o Cristo dos pobres, o Cristo da Justi\u00e7a, o Cristo da promo\u00e7\u00e3o da paz, o Cristo do respeito \u00e0 diversidade. Sim, o ultraconservadorismo \u00e9 a ant\u00edtese do Evangelho de Jesus, nada tem a ver com a \u00e9tica, ensinada, encarnada e proclamada por Jesus.<\/p>\n<p><strong>Brasil de Fato &#8211;\u00a0Diante da pandemia de covid-19, percebe-se que esse ultraconservadorismo tem se expressado no cotidiano das igrejas com discursos negacionistas,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2021\/02\/18\/fake-news-se-espalham-entre-indigenas-e-dificultam-vacinacao-medo-de-virar-jacare\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">por parte de alguns pastores<\/a>. Por outro lado, h\u00e1 tamb\u00e9m um movimento de solidariedade e de apoio a essa classe trabalhadora evang\u00e9lica.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Henrique Vieira &#8211;\u00a0<\/strong>S\u00e3o duas respostas completamente diferentes \u00e0 pandemia, uma resposta inconsequente, fruto de uma leitura b\u00edblica equivocada, que \u00e9 a resposta negacionista, que rejeita a contribui\u00e7\u00e3o que a ci\u00eancia pode trazer para a humanidade, que n\u00e3o compreende a seriedade do v\u00edrus e o quanto ele tem provocado sofrimento. Por tr\u00e1s desse negacionismo, tamb\u00e9m arrisco dizer que, para determinados setores, t\u00eam interesse econ\u00f4mico, fazer com que as igrejas estejam abertas tem a ver com arrecada\u00e7\u00e3o que, na pr\u00e1tica, faz com que determinadas lideran\u00e7as enrique\u00e7am cada vez mais \u00e0s\u00a0custas do sofrimento, do suor e do trabalho do povo.<\/p>\n<p>Mas muitas igrejas t\u00eam dado exemplo de responsabilidade, com distanciamento social, inovando nas suas atividades, usando mecanismos virtuais e, sobretudo, jogando todas as for\u00e7as nas redes de solidariedade para amenizar o sofrimento, socorrer as fam\u00edlias e combater a fome. \u00c9 bom dar visibilidade tamb\u00e9m a tantas igrejas s\u00e9rias, comprometidas com a vida, que entendem a seriedade do momento, que valorizam o saber cient\u00edfico, que procuram estabelecer o distanciamento social, que incentivam a vacina\u00e7\u00e3o das pessoas para gerar imunidade individual, imunidade coletiva.<\/p>\n<p><strong>Brasil de Fato &#8211;\u00a0Voc\u00ea aborda temas como aborto, quest\u00e3o de g\u00eanero, sexualidade e direitos de LGBTs. S\u00e3o pautas recha\u00e7adas, em sua maioria, pelo segmento evang\u00e9lico, e que utilizam o pr\u00f3prio texto b\u00edblico para contrapor essas quest\u00f5es. Como voc\u00ea estabelece v\u00ednculos entre o que diz a B\u00edblia e essas pautas?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Henrique Vieira &#8211;\u00a0<\/strong>\u00a0O texto b\u00edblico n\u00e3o pode ser interpretado literalmente e descontextualizadamente, sen\u00e3o o que pode gerar, e tem gerado ao longo do tempo, \u00e9 muita viol\u00eancia. Em nome do \u201cest\u00e1 escrito ponto final\u201d, sem reflex\u00e3o, sem contextualiza\u00e7\u00e3o, sem media\u00e7\u00e3o, sem atualiza\u00e7\u00e3o, o est\u00e1 escrito frio \u00e9 muito perigoso, j\u00e1 colocou mulheres na fogueira da Inquisi\u00e7\u00e3o, j\u00e1 justificou escravid\u00e3o do povo negro, j\u00e1 justificou dizima\u00e7\u00e3o dos povos ind\u00edgenas, tortura ps\u00edquica e emocional contra LGBTs. O texto pelo texto vira pretexto para montar uma doutrina que nada tem a ver com a \u00e9tica mais profunda do Evangelho. A B\u00edblia precisa ser lida contextualizando cultural e historicamente seus textos. A B\u00edblia precisa ser lida tendo Jesus de Nazar\u00e9 como par\u00e2metro interpretativo.<\/p>\n<p>Portanto, na tem\u00e1tica da sexualidade, \u00a0por exemplo, o que importa? \u00c9 a \u00e9tica do amor. N\u00e3o \u00e9 a heterossexualidade que define a vontade de Deus. O que define a vontade de Deus \u00e9 se \u00e9 um encontro amoroso, afetivo, leal, com fidelidade, com cuidado m\u00fatuo, com respeito, ou seja, \u00e9 muito mais profundo do que se \u00e9 heterossexualidade ou n\u00e3o. Certamente onde h\u00e1 amor, com sua \u00e9tica relacional, ali est\u00e1 a ben\u00e7\u00e3o de Deus. A sexualidade \u00e9 complexa. No tempo b\u00edblico, n\u00f3s n\u00e3o t\u00ednhamos a compreens\u00e3o que temos hoje sobre sexo, orienta\u00e7\u00e3o sexual, g\u00eanero, identidade de g\u00eanero. \u00c9 muito melhor ler a B\u00edblia pelo filtro do amor para promover vida e liberdade.<\/p>\n<p>Sobre a quest\u00e3o do aborto, por exemplo, \u00e9 s\u00f3 olhar pra realidade. A legisla\u00e7\u00e3o que criminaliza o aborto n\u00e3o diminui o n\u00famero de abortos por um lado, e leva muitas mulheres a uma situa\u00e7\u00e3o de solid\u00e3o, de desespero, de desencanto, e de aborto clandestino e inseguro. As mulheres morrem muitas vezes por causa disso, especialmente mulheres pobres e mulheres negras. Esta legisla\u00e7\u00e3o, em nome da vida, est\u00e1 gerando mortes.<\/p>\n<p>Tudo depende de voc\u00ea ter tranquilidade para buscar na B\u00edblia, em vez de textos espec\u00edficos, princ\u00edpios eternos, princ\u00edpios esses filtrados por Jesus, pela \u00e9tica do amor e pela experi\u00eancia concreta dos oprimidos. Ler a B\u00edblia em comunidade, ler a B\u00edblia olhando para a realidade, ler a B\u00edblia para gerar vida, vida em abund\u00e2ncia para as pessoas. LGBTfobia mata, a legisla\u00e7\u00e3o atual que criminaliza o aborto s\u00f3 penaliza as mulheres, e sequer diminui o n\u00famero de abortos. \u00c9 preciso ter sensatez e tranquilidade, sen\u00e3o a gente fica abra\u00e7ado ao texto, deixando de perceber a vontade da palavra de Deus.<\/p>\n<p><strong>Brasil de Fato &#8211;\u00a0 Voc\u00ea fala de uma Teologia Negra. O que ela significa?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Henrique Vieira &#8211;\u00a0<\/strong>\u00a0Significa ler a B\u00edblia a partir da especificidade da popula\u00e7\u00e3o negra no Brasil. N\u00e3o \u00e9 qualquer coisa ser negro no Brasil. Foram quase quatro s\u00e9culos de escravid\u00e3o. O racismo \u00e9 estrutural e estruturante das nossas rela\u00e7\u00f5es. Est\u00e1 na pol\u00edtica, est\u00e1 na economia, est\u00e1 nos meios de comunica\u00e7\u00e3o, est\u00e1 no Direito, na opera\u00e7\u00e3o do Direito, est\u00e1 na intersubjetividade, formada pelas rela\u00e7\u00f5es humanas, ou seja, se eu sou disc\u00edpulo de Jesus, num contexto em que o racismo \u00e9 estrutural, eu n\u00e3o tenho outra op\u00e7\u00e3o se n\u00e3o, em nome de Cristo, em nome de Jesus, ler a B\u00edblia, ler a vida do Cristo e transformar a sociedade.<\/p>\n<p>A Teologia Negra \u00e9 voc\u00ea devolver a B\u00edblia a sua origem social, que \u00e9 a origem dos oprimidos, com uma especificidade, com uma espinha dorsal que \u00e9 o elemento de ra\u00e7a, que \u00e9 o elemento da experi\u00eancia negra nos Estados Unidos, no Caribe, na Am\u00e9rica Latina. Vou resumir da seguinte forma: a B\u00edblia vem sendo lida e interpretada pela janela da casa grande colonial, a Teologia Negra implode esse lugar e passa a ler a B\u00edblia pela janela do quilombo.<\/p>\n<p>O que \u00e9 que a gente encontra na B\u00edblia quando a gente muda o referencial de an\u00e1lise, o ponto de partida, e os m\u00e9todos? \u00c9 lindo o que a gente v\u00ea. A gente v\u00ea o Deus dos oprimidos, o Deus do \u00eaxodo, o Deus do deserto, o Deus dos profetas, o Deus das mulheres, dos \u00f3rf\u00e3os, das vi\u00favas, dos sem-terra, dos sem-teto, dos refugiados, dos imigrantes, dos marginalizados. Voc\u00ea come\u00e7a a perceber que a B\u00edblia n\u00e3o \u00e9 manual comportamental para ficar tutelando o corpo. A B\u00edblia \u00e9 a declara\u00e7\u00e3o de que Deus na hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 neutro diante das injusti\u00e7as, e est\u00e1 sempre em favor dos oprimidos, ventando em prol da sua liberta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Brasil de Fato &#8211;\u00a0 Ao olhar para 2022, qual a sua leitura sobre o papel que o segmento evang\u00e9lico deve ter no cen\u00e1rio pol\u00edtico? A esquerda tem mudado a forma de encarar essa parcela da sociedade?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Henrique Vieira &#8211;\u00a0<\/strong>\u00a0Certamente o campo evang\u00e9lico ter\u00e1 um peso importante, cada vez mais decisivo. Eu entendo que a esquerda vem amadurecendo, vem perdendo preconceito, buscando estabelecer di\u00e1logo. Esse di\u00e1logo n\u00e3o pode ser circunscrito ao per\u00edodo eleitoral, tamb\u00e9m n\u00e3o pode ser um di\u00e1logo de c\u00fapula. Tem que ser um di\u00e1logo com a base evang\u00e9lica, trabalhadora, do cotidiano e da sobreviv\u00eancia nesse pa\u00eds.<\/p>\n<p>Ficar fazendo acordo com a c\u00fapula, n\u00f3s j\u00e1 temos exemplos recentes de que n\u00e3o deram\u00a0certo. Porque voc\u00ea faz um acordo fisiol\u00f3gico que, na primeira tempestade, as lideran\u00e7as saem do barco e come\u00e7am a atacar. Acho que a esquerda tem que compreender que a espiritualidade evang\u00e9lica faz parte da m\u00edstica popular brasileira. Estabelecer di\u00e1logo n\u00e3o pode ser sazonalmente, n\u00e3o apenas em per\u00edodo eleitoral, \u00e9 um di\u00e1logo porque se trata de classe trabalhadora. \u00c9 um di\u00e1logo porque se tratam de mulheres, na sua maioria mulheres negras, porque se trata da popula\u00e7\u00e3o da periferia, da favela, que morre de tiro, que \u00e9 v\u00edtima de chacina, que est\u00e1 em subemprego, na informalidade, ou que est\u00e1 desempregada, que est\u00e1 passando fome, ou seja, \u00e9 dialogar para, na conviv\u00eancia e na comunh\u00e3o, construir um projeto de pa\u00eds, de justi\u00e7a social, de respeito \u00e0 diversidade, de combate \u00e0 desigualdade, de garantia e amplia\u00e7\u00e3o de direitos, ent\u00e3o tem que ser um di\u00e1logo permanente, que n\u00e3o seja apenas com a c\u00fapula, que seja com a parcela do povo que est\u00e1 na base, lutando para sobreviver, da\u00ed eu vejo um campo f\u00e9rtil.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"YouTube video player\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Nm5MlwE_hV4\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p>www.brasildefato.com.br \/ Camila Maciel<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vieira tamb\u00e9m integra o Coletivo Esperan\u00e7ar de Evang\u00e9licos por Direitos Humanos Justi\u00e7a Social e Respeito \u00e0 Diversidade Ou\u00e7a o \u00e1udio: O BdF Entrevista\u00a0desta semana conversa com Henrique Vieira, 34 anos, pastor da Igreja Batista do Caminho. 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