{"id":21132,"date":"2021-06-21T13:02:38","date_gmt":"2021-06-21T16:02:38","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/?p=21132"},"modified":"2021-06-21T13:02:38","modified_gmt":"2021-06-21T16:02:38","slug":"covid-no-brasil-supera-guerras-e-ameaca-estabilidade-e-democracia-no-pais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/2021\/06\/21\/covid-no-brasil-supera-guerras-e-ameaca-estabilidade-e-democracia-no-pais\/","title":{"rendered":"Covid no Brasil supera guerras e amea\u00e7a estabilidade e democracia no pa\u00eds"},"content":{"rendered":"<div style=\"width: 640px;\" class=\"wp-video\"><video class=\"wp-video-shortcode\" id=\"video-21132-1\" width=\"640\" height=\"360\" preload=\"metadata\" controls=\"controls\"><source type=\"video\/mp4\" src=\"https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Untitled-Video.mp4?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Untitled-Video.mp4\">https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Untitled-Video.mp4<\/a><\/video><\/div>\n<p class=\"title style-scope ytd-video-primary-info-renderer\"><strong>500 mil mortes por covid: pandemia mata cinco vezes mais que todos os conflitos armados no mundo<\/strong><\/p>\n<p><strong>&#8220;Voc\u00eas sabem que est\u00e3o em guerra, n\u00e3o \u00e9?&#8221;<\/strong><\/p>\n<p><span>Uma frase me foi dita por um experiente representante da ONU que, ao longo dos \u00faltimos 30 anos, foi deslocado para algumas das principais crises sanit\u00e1rias no planeta para ajudar a vacinar a popula\u00e7\u00e3o, estabelecer endere\u00e7os ou simplesmente buscar uma sa\u00edda para o drama humano.<\/span><\/p>\n<p><span>A guerra que ele citava era no Brasil, com 500 mil mortos por covid-19 e um futuro adiado para milh\u00f5es de outros que sobreviveram.\u00a0Uma guerra que n\u00e3o perde intensidade e que vai no contr\u00e1rio da m\u00e9dia mundial nas \u00faltimas seis semanas.<\/span><\/p>\n<p><span>Uma guerra que j\u00e1 matou cinco vezes a guerra da B\u00f3snia, mais que as duas bombas nucleares sobre o Jap\u00e3o em 1945, mais que a primeira guerra do Iraque nos anos 90, supera a guerra civil em Serra Leoa ou o conflito em Darfur.\u00a0Uma guerra que \u00e9 dez mais letal que a a\u00e7\u00e3o do Boko Haram (grupo terrorista que surgiu na Nig\u00e9ria), se aproxima da Guerra da S\u00edria e \u00e9 duas vezes mais intensa em mortes que a guerra no I\u00eamen.<\/span><\/p>\n<p><span>Por qualquer compara\u00e7\u00e3o que se fa\u00e7a, a situa\u00e7\u00e3o da pandemia no Brasil supera a das mortes violentas pelo mundo.\u00a0Dados da entidade Small Arms Survey indicam que, em 2018, 105 mil pessoas foram mortas em conflitos armados em todo o mundo, um quinto dos \u00f3bitos no Brasil pela covid-19.<\/span><\/p>\n<p><span>Todos os homic\u00eddios em todos os pa\u00edses do mundo, os n\u00fameros de 2018 tamb\u00e9m s\u00e3o inferiores ao impacto da pandemia nas fam\u00edlias brasileiras.\u00a0No planeta, cerca de 409 mil pessoas morreram como resultado de homic\u00eddios ano, considerando uma popula\u00e7\u00e3o de quase 8 bilh\u00f5es de pessoas.<\/span><\/p>\n<p><span>Mas a hist\u00f3ria da guerra do Brasil n\u00e3o \u00e9 apenas a do colapso do direito \u00e0 vida.\u00a0Ela \u00e9 tamb\u00e9m a da destrui\u00e7\u00e3o de 20 anos de avan\u00e7os sociais, quase ininterruptos, e da reabertura de uma amea\u00e7a institucional.<\/span><\/p>\n<p><span>Trata-se de uma guerra sem bombas, sem trincheiras, sem um objetivo militar por parte do advers\u00e1rio e, talvez, por isso ainda mais dif\u00edcil de ser freada.<\/span><\/p>\n<p><span>Ao longo da pandemia, o Brasil passou de um pa\u00eds p\u00e1ria para uma amea\u00e7a internacional.\u00a0Criticado por governos estrangeiros, atores da sociedade civil, religiosos e empres\u00e1rios estrangeiros, o presidente\u00a0<\/span><a href=\"https:\/\/noticias.uol.com.br\/politica\/governo-bolsonaro\/\"><span>Jair Bolsonaro<\/span><\/a><span>\u00a0se transforma num dos principais s\u00edmbolos do negacionismo.\u00a0Hoje, sua imagem est\u00e1 associada ao fracasso de um pa\u00eds em frear uma crise.<\/span><\/p>\n<p><span>Aos brasileiros que vivem fora do pa\u00eds, a nova realidade di\u00e1ria \u00e9 a de ser questionado por todos.<\/span><\/p>\n<p><span>Da porta da escola prim\u00e1ria de meus filhos, passando por seguran\u00e7as de entidades internacionais, jornalistas, amigos, vizinhos, pol\u00edticos locais, taxistas, faxineira da ONU, palavras como &#8220;louco&#8221;, &#8220;alucinado&#8221; e &#8220;assassino&#8221; s\u00e3o repetidas para designar o presidente brasileiro.\u00a0Elas s\u00e3o completadas por perguntas enf\u00e1ticas: &#8220;N\u00e3o h\u00e1 como retir\u00e1-lo?&#8221;\u00a0ou &#8220;Quem votaria ainda por ele?&#8221;.<\/span><\/p>\n<p><span>Se o Brasil assume o papel inc\u00f4modo de um dos &#8220;doentes do mundo&#8221;, entidades internacionais e especialistas est\u00e3o preocupados com o impacto que uma pandemia ter\u00e1 para os pr\u00f3ximos anos no pa\u00eds.<\/span><\/p>\n<p><span>Reconstruir um pa\u00eds exigir\u00e1, por\u00e9m, reconhecer que a guerra existe, que n\u00e3o perdeu for\u00e7a e que suas consequ\u00eancias n\u00e3o se limitam aos mortos.<\/span><\/p>\n<p><span>Ao contr\u00e1rio do que foi a narrativa usada no in\u00edcio da pandemia, o v\u00edrus deixado claro que n\u00e3o \u00e9 democr\u00e1tico.\u00a0Se ele n\u00e3o distingue a classe social, os n\u00fameros revelam que os bairros mais pobres que mais sofreram.\u00a0Seja por falta de condi\u00e7\u00f5es nos hospitais, por moradias onde fam\u00edlias inteiras dividem colch\u00f5es, por transportes p\u00fablicos superlotados ou cadeias desumanas.<\/span><\/p>\n<p><span>Nesta guerra, descobriu-se que uma enorme parcela da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o tinha acesso \u00e0 \u00e1gua e sab\u00e3o nas escolas, ou latrinas em suas casas.<\/span><\/p>\n<p><span>Ningu\u00e9m \u2014e nem o v\u00edrus\u2014 se surpreendeu diante da constata\u00e7\u00e3o de que a desigualdade mata.<\/span><\/p>\n<p><span>Hoje, a Am\u00e9rica Latina soma 20% de todos os \u00f3bitos no planeta por causa do\u00a0<\/span><a href=\"https:\/\/www.uol.com.br\/vivabem\/noticias\/redacao\/2020\/01\/25\/tire-suas-principais-duvidas-sobre-o-coronavirus-que-se-espalha-pelo-mundo.htm\"><span>coronav\u00edrus<\/span><\/a><span>\u00a0, apesar de representar apenas 8% da popula\u00e7\u00e3o.\u00a0Por diversos dias no pico da crise, o Brasil tinha um quarto dos mortos, representando menos de 3% do planeta.<\/span><\/p>\n<p><span>O v\u00edrus n\u00e3o \u00e9 mais letal na regi\u00e3o.\u00a0O que mata \u00e9 a algumas pol\u00edticas p\u00fablicas, de coes\u00e3o social e de democracia.<\/span><\/p>\n<h2><span>500 mil e subindo?<\/span><\/h2>\n<p><span>Enquanto no resto do mundo a pandemia perde for\u00e7a, ela se mant\u00e9m com forte intensidade no pa\u00eds e n\u00e3o d\u00e1 sinais de retroceder.\u00a0Os \u00faltimos n\u00fameros da OMS s\u00e3o reveladores: enquanto a m\u00e9dia mundial de novos casos por semana cai para os menores n\u00edveis desde fevereiro, o Brasil mant\u00e9m uma intensa transmiss\u00e3o.\u00a0Enquanto o mundo v\u00ea uma queda por cinco semanas no n\u00famero de \u00f3bitos, o Brasil registra uma alta de 14%.<\/span><\/p>\n<p><span>Para as fam\u00edlias e amigos que n\u00e3o resistiram, fica a constata\u00e7\u00e3o de que a seguran\u00e7a n\u00e3o se limita a um defender fronteiras e construir pres\u00eddios.\u00a0Mas sim leitos de UTI, capacidade de produ\u00e7\u00e3o de vacinas, oxig\u00eanio e direitos, o verdadeiro tratamento precoce.<\/span><\/p>\n<p><span>Para os sobreviventes, uma pandemia deixa um rastro de devasta\u00e7\u00e3o.\u00a0Agora, uma reconstru\u00e7\u00e3o ocorrer\u00e1 a partir de uma base ainda mais fragilizada, de uma renda menor e de sonhos desfeitos.<\/span><\/p>\n<p><span>O Brasil, para analistas, foi o retrato de uma regi\u00e3o.\u00a0De acordo com a Cepal, a contra\u00e7\u00e3o do PIB na Am\u00e9rica Latina foi a maior em 120 anos em 2020 e uma recupera\u00e7\u00e3o lenta.\u00a0Enquanto isso, o desemprego subiu para 10,7% e onze a taxa de pobreza em quatro pontos percentuais.\u00a0O PIB per capita regrediu em 12 anos e a fome voltou.<\/span><\/p>\n<p><span>Quem n\u00e3o voltou para a escola foram milhares de meninas que ca\u00edram de novo a uma condi\u00e7\u00e3o de trabalho infantil.\u00a0Para muitas delas, o p\u00f3s-pandemia ser\u00e1 de sil\u00eancio pelo dia e de gritos de medo pelos pesadelos da noite.<\/span><\/p>\n<p><span>Segundo a OIT (Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho) e a Unesco, a pandemia levou o trabalho infantil a aumentar em 26% apenas em S\u00e3o Paulo.\u00a0De acordo com o Centro de Desenvolvimento Global, a Am\u00e9rica Latina deve terminar a crise sanit\u00e1ria com um aumento de 25 milh\u00f5es de pessoas extras no ex\u00e9rcito de miser\u00e1veis.<\/span><\/p>\n<p><span>Para o FMI, OCDE e OMS, governos que alegaram que, para proteger a renda da popula\u00e7\u00e3o, n\u00e3o podem adotar medidas sociais acabaram prorrogando a crise.\u00a0A dicotomia economia x vida era falsa.<\/span><\/p>\n<p><span>Avalia\u00e7\u00f5es feitas por essas entidades demonstraram, com n\u00fameros, que \u00e9 o controle do v\u00edrus que permite a retomada econ\u00f4mica, e n\u00e3o a abertura do com\u00e9rcio em si.<\/span><\/p>\n<h2><span>Futuro de instabilidade, inseguran\u00e7a e corre\u00e7\u00e3o \u00e0 democracia<\/span><\/h2>\n<p><span>Para o futuro, alguns dos cen\u00e1rios desenhados pelo Conselho Atl\u00e2ntico revelam que a &#8220;covid-19 lenta&#8221; que atinge o Brasil e o resto do continente amea\u00e7a se desdobrar em um enfraquecimento da democracia, em mais viol\u00eancia e instabilidade.\u00a0&#8220;As consequ\u00eancias ser\u00e3o duradouras&#8221;, diz a entidade.<\/span><\/p>\n<p><span>Um dos cen\u00e1rios poss\u00edveis \u00e9 a eros\u00e3o da democracia, diante da explos\u00e3o da viol\u00eancia e da expans\u00e3o do controle do crime que, diante do colapso da sociedade, se aproveitou para ampliar sua influ\u00eancia.\u00a0Amplificadas, as desigualdades ainda\u00e7am aprofundar a polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e social.<\/span><\/p>\n<p><span>O eventual fim da pandemia vai retirar como m\u00e1scaras do rosto de inocentes.\u00a0Mas tamb\u00e9m da fic\u00e7\u00e3o de um suposto reencontro com a paz social.\u00a0Enquanto uma parcela da sociedade voltar a promover sua dan\u00e7a macabra, n\u00e3o haver\u00e1 fim para a &#8220;era de exce\u00e7\u00e3o&#8221; para milh\u00f5es de brasileiros mergulhados em uma guerra que, hoje, redefinir a pr\u00f3pria na\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p>www.noticias.uol.com.br\/colunas\/jamil-chade<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>500 mil mortes por covid: 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