{"id":21194,"date":"2021-06-25T17:18:04","date_gmt":"2021-06-25T20:18:04","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/?p=21194"},"modified":"2021-06-25T17:18:04","modified_gmt":"2021-06-25T20:18:04","slug":"artigo-500-mil-mortos-o-luto-as-mulheres-e-a-justica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/2021\/06\/25\/artigo-500-mil-mortos-o-luto-as-mulheres-e-a-justica\/","title":{"rendered":"Artigo | 500 mil mortos: o luto, as mulheres e a justi\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p class=\"description\"><strong>&#8220;A pandemia da covid-19 encontra o Brasil nas m\u00e3os de um governo que tem como plano deixar que as pessoas morram&#8221;<\/strong><\/p>\n<p>Ultrapassamos\u00a0a\u00a0vergonhosa marca de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/minuto-a-minuto\/coronavirus-no-brasil\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">500 mil v\u00edtimas da covid- 19<\/a>. Dor, sofrimento, raiva, desconsolo, inconformidade e\u00a0saudade\u00a0s\u00e3o os sentimentos que tomam conta de um pa\u00eds. Perdemos tanto e perdemos tantos. O luto toma conta dos que ficam e ganha novos contornos.\u00a0Afinal, s\u00e3o milhares os que se foram, e milh\u00f5es os que choram.<\/p>\n<p>A pandemia encontra o Brasil nas m\u00e3os de um governo que tem como plano deixar que as pessoas morram. Al\u00e9m da falta de pol\u00edticas de combate \u00e0 pandemia, o projeto de morte se faz vis\u00edvel na falta de reconhecimento das perdas. O governo mata e n\u00e3o fala sobre as mortes.<\/p>\n<p>Sem o reconhecimento das perdas pelo Estado e de sua responsabilidade em preservar as vidas, a morte de um ente querido \u00e9 tratada como uma casualidade frente ao v\u00edrus, portanto um tema privado e que deve ser resolvido de forma privada.<\/p>\n<p>O mercado prontamente fragmenta nossas dores e lucra com medicamentos para apaziguar os nossos sofrimentos. J\u00e1 imaginou quantos antidepressivos foram\u00a0vendidos nesse \u00faltimo ano? O sofrimento certamente n\u00e3o deixaria de existir s\u00f3 por ser nomeado pelo governo, mas seria tratado como um problema coletivo, demandando a\u00e7\u00f5es para evitar outras mortes.<\/p>\n<p>Trazer o luto para o espa\u00e7o p\u00fablico \u00e9 urgente. As an\u00e1lises feministas nos ajudam a politizar aspectos da esfera privada &#8211; em rela\u00e7\u00e3o ao corpo, sexualidade,\u00a0o trabalho dom\u00e9stico e de cuidados &#8211; e trazem a no\u00e7\u00e3o de sustentabilidade da vida, ou seja, tudo que \u00e9 feito para que a vida seja poss\u00edvel, incluindo o luto.<\/p>\n<p>As medidas de isolamento social impedem que familiares e amigos realizem seus ritos e vel\u00f3rios, t\u00e3o importantes, algo que refor\u00e7a ainda mais a experi\u00eancia privada da dor, que pode e deveria ser compartilhada.<\/p>\n<p>No cotidiano mais prec\u00e1rio da maior parte do povo, somos n\u00f3s, as mulheres, que trabalhamos pelo bem estar da comunidade, gerimos as necessidades de familiares e vizinhos, sustentando v\u00ednculos comunit\u00e1rios.<\/p>\n<p>Na pandemia, estamos sobrecarregadas pelo trabalho dom\u00e9stico, pela necessidade de cuidado com as crian\u00e7as e idosos, pelas longas horas de trabalho mal remunerado, mas tamb\u00e9m pelo cuidado emocional. Essa sobrecarga \u00e9 ainda maior entre as mulheres negras, seja porque 63% das casas comandadas por elas est\u00e3o abaixo da linha da pobreza, seja porque a taxa de letalidade da covid-19 \u00e9 substancialmente maior entre n\u00e3o brancos (Proadi-SUS).<\/p>\n<p>As mortes dos que amamos desorganizam a vida de quem fica. Desde coisas simples, como n\u00e3o conseguir realizar tarefas cotidianas por um tempo, perda de apetite, dores f\u00edsicas, at\u00e9 a perda de sentido vital. Essa realidade que muitos chamam de luto demanda cuidados que t\u00eam sido assumidos em geral pelas mulheres. \u00c9 o cuidado da comunidade e das pessoas mais pr\u00f3ximas que tem tornado a vida poss\u00edvel em meio a um regime de mortes.<\/p>\n<p>Mas cuidar dos que choram suas perdas em um contexto de pandemia n\u00e3o \u00e9 algo que pertence apenas ao \u00e2mbito da afetividade. O perigo de olhar apenas para essa dimens\u00e3o \u00e9 contribuir para o aprofundamento da invisibilidade do trabalho de cuidados e a desresponsabiliza\u00e7\u00e3o do governo pelas perdas no seu conjunto.<\/p>\n<blockquote><p>A solidariedade e o amor s\u00e3o partes essenciais de nossas rela\u00e7\u00f5es e t\u00eam um enorme potencial rebelde para enfrentar regimes que promovem a morte<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>N\u00e3o \u00e9 a primeira vez que fazemos isso.<\/strong><\/p>\n<p>As M\u00e3es da Pra\u00e7a de Maio, na Argentina, os movimentos de Direitos Humanos ao denunciar os desaparecimentos de militantes que lutaram contra a ditadura, as M\u00e3es de Maio no Brasil, e muitas express\u00f5es de organiza\u00e7\u00e3o das mulheres negras nas periferias das grandes cidades. Todas n\u00f3s respondemos \u00e0 morte exigindo justi\u00e7a. N\u00e3o por que as perdas possam ser reparadas, mas porque a mem\u00f3ria dos que se foram vive em paz em n\u00f3s quando a justi\u00e7a se torna\u00a0realidade.<\/p>\n<p>No dia 21 de junho, foram acesas 500 velas para lembrar as v\u00edtimas da pandemia no pa\u00eds, na escadaria do Largo da Mem\u00f3ria, no Vale do Anhangaba\u00fa, em S\u00e3o Paulo. Como parte da Campanha Nacional Fora Bolsonaro, pedimos \u201cvacina no bra\u00e7o e comida no prato\u201d. Esse ato \u00e9 a triste sequ\u00eancia de outros dois, quando o Brasil chegou \u00e0s marcas de 300 mil e 400 mil mortos.<\/p>\n<p>Agora, com mais de meio milh\u00e3o de vidas perdidas, atos semelhantes acontecem desde o dia 18 de junho em todo pa\u00eds, organizados pela Marcha Mundial das Mulheres, organismos ecum\u00eanicos e igrejas da articula\u00e7\u00e3o Respira Brasil.<\/p>\n<p>Durante o ato, lemos os nomes de algumas das 500 mil pessoas que homenage\u00e1vamos. Filhos das minhas amigas, maridos de pessoas que nos escreveram pelas redes sociais, professores de quem sentiremos saudades, artistas, amigos e amigas, irm\u00e3s e irm\u00e3os, pais e m\u00e3es. Gente que faz muita falta.<\/p>\n<p><strong>Quero lembrar de alguns entre tantos outros:<\/strong><\/p>\n<p>Cleonice Gon\u00e7alves \u2013 primeira pessoa a morrer de Covid no Brasil, em mar\u00e7o de 2020.empregada dom\u00e9stica, viveu trabalhando e morreu ap\u00f3s contrair o v\u00edrus possivelmente na casa da patroa que havia testado positivo.<\/p>\n<p>Paulo Jos\u00e9 de Paula Medeiros \u2013 o dia em que Paulo morreu foi o mesmo em que o Brasil atingiu 5.000\u00a0pessoas mortas por covid 19.\u00a0Esse foi tamb\u00e9m o dia em que Jair Bolsonaro, quando questionado pelo n\u00famero de vidas perdidas, respondeu: \u201cE da\u00ed? Quer que eu fa\u00e7a o qu\u00ea?\u201d<\/p>\n<p>Cuidamos para que a vida seja poss\u00edvel\u00a0e lutamos para derrotar a morte e os que a promovem. Em mem\u00f3ria dos que se foram e pela vida do povo.<\/p>\n<p>www.brasildefato.com.br \/<em>Sarah de Roure \u00e9 militante da Marcha Mundial das Mulheres de S\u00e3o Paulo<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;A pandemia da covid-19 encontra o Brasil nas m\u00e3os de um governo que tem como plano deixar que as pessoas morram&#8221; Ultrapassamos\u00a0a\u00a0vergonhosa marca de\u00a0500 mil v\u00edtimas da covid- 19. Dor, sofrimento, raiva, desconsolo, inconformidade e\u00a0saudade\u00a0s\u00e3o os sentimentos que tomam conta de um pa\u00eds. Perdemos tanto e perdemos tantos. O luto toma conta dos que ficam [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":21195,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[25],"tags":[504],"class_list":["post-21194","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias","tag-pandemia-coronavirus-mulheres"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21194","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21194"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21194\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":21196,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21194\/revisions\/21196"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/21195"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21194"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21194"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21194"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}