{"id":21628,"date":"2021-07-26T11:23:55","date_gmt":"2021-07-26T14:23:55","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/?p=21628"},"modified":"2021-07-26T11:23:55","modified_gmt":"2021-07-26T14:23:55","slug":"mulheres-negras-querem-um-pais-que-caiba-em-seus-sonhos-de-igualdade-sabedoria-e-respeito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/2021\/07\/26\/mulheres-negras-querem-um-pais-que-caiba-em-seus-sonhos-de-igualdade-sabedoria-e-respeito\/","title":{"rendered":"Mulheres negras querem um pa\u00eds que caiba em seus sonhos de igualdade, sabedoria e respeito"},"content":{"rendered":"<p><strong>Desde 1992, o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha \u2013 25 de julho \u2013, foi decretado em um encontro na Rep\u00fablica Dominicana naquele ano. Desde ent\u00e3o, leva milhares de mulheres negras a marcharem pelas ruas da Am\u00e9rica Latina na luta por seus direitos, por vida digna e para serem respeitadas como devem.<\/strong><\/p>\n<p>Os n\u00fameros, por\u00e9m, s\u00e3o aterradores e na pandemia pioraram. Tanto que as mulheres negras ganham 44,4% a menos que os homens brancos nessa parte do continente americano, mesmo com mais escolaridade, revela a Comiss\u00e3o Econ\u00f4mica para a Am\u00e9rica Latina e o Caribe (Cepal).<\/p>\n<p>No setor privado, as mulheres negras dificilmente ocupam algum cargo de maior relev\u00e2ncia. Al\u00e9m disso, representam apenas 10,6% da for\u00e7a de trabalho nas 500 maiores empresas do Brasil, por exemplo, revela a Cepal. Somente 8,2% atuam como supervisoras, 1,6% como gerentes e 0,4% como executivas.<\/p>\n<p>J\u00e1 nas profiss\u00f5es de remunera\u00e7\u00e3o mais baixa, a presen\u00e7a das mulheres negras \u00e9 de absoluta maioria. S\u00e3o cerca de 80% das trabalhadoras dom\u00e9sticas no pa\u00eds e atualmente t\u00eam grande presen\u00e7a nas ruas como vendedoras ambulantes, em trabalho absolutamente prec\u00e1rio.<\/p>\n<p>O racismo se estruturou para dominar a maioria da popula\u00e7\u00e3o e as mulheres negras permanecem na base da pir\u00e2mide social, carregando sobre os seus ombros toda uma sociedade racista, machista e patriarcal.<\/p>\n<p>Na escravid\u00e3o trabalhavam lado a lado com os homens tamb\u00e9m escravizados e produziam tanto quanto eles. Tamb\u00e9m eram as trabalhadoras dom\u00e9sticas, amas de leite, e todo o trabalho a ser realizado para manter as senhoras e os senhores de escravos no \u00f3cio.<\/p>\n<p>E muitos tentam negar a hist\u00f3ria de mulheres como Luiza Mahin, Tereza de Benguela (tamb\u00e9m homenageada no 25 de julho no Brasil), Mariana Crioula, Xica da Silva, Chiquinha Gonzaga, Elza Soares, Clementina de Jesus, Carolina Maria de Jesus, Ruth de Souza, Leci Brand\u00e3o, Marielle Franco, entre muitas outras, e dessa juventude que vem chegando para construir o novo, como diz Rozana Barroso, presidenta da Uni\u00e3o Brasileira de Estudantes Secundaristas (Ubes), \u201cqueremos um Brasil que caiba nos nossos sonhos\u201d. Entendendo a educa\u00e7\u00e3o como a possibilidade de transforma\u00e7\u00e3o de uma sociedade.<\/p>\n<p>Tarefa \u00e1rdua num pa\u00eds em que a m\u00e9dia salarial das mulheres negras, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE), em 2020, foi de R$ 1.573, enquanto dos homens brancos foi de R$ 3.467, uma diferen\u00e7a de 54,63%. Enquanto na taxa de desemprego, as mulheres negras representaram 18,25% e os homens brancos foram pouco mais da metade das mulheres negras sem emprego, 9,6%.<\/p>\n<p>Para homenagear as mulheres negras da Am\u00e9rica Latina e do Caribe e empoderar a luta por uma sociedade igualit\u00e1ria, que n\u00e3o distinga ningu\u00e9m a n\u00e3o ser pelo seu talento e pela sua individualidade, o\u00a0<strong>Portal CTB\u00a0<\/strong>ouviu as hist\u00f3rias e as viv\u00eancias de algumas mulheres negras para mostrar a necessidade de todos os movimentos sociais se unirem para derrotar a extrema-direita, representada neste momento pelo presidente Jair Bolsonaro, e recuperar as pol\u00edticas p\u00fablicas em favor dos direitos de todas as pessoas viverem sem medo e com dignidade.<\/p>\n<p><strong>M\u00f4nica Cust\u00f3dio, secret\u00e1ria de Igualdade Racial da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB)<\/strong><\/p>\n<p>Para pagar os meus estudos, comecei a trabalhar numa ind\u00fastria metal\u00fargica. E assim, n\u00e3o depender do meu pai que queria \u201cdefinir\u201d o que era o melhor para mim. Foi quando conheci F\u00e1tima Duda, uma metaleira militante e feminista que me perguntou um dia se eu queria a liberdade. Respondi que sim e ela me disse: \u201cv\u00e1 at\u00e9 ela\u201d. Eu fui.<\/p>\n<p>Trabalhei na Faet S\/A, s\u00f3 pra come\u00e7ar. Depois entrei no col\u00e9gio Elp\u00eddio Evaristo dos Santos, Col\u00e9gio Metal\u00fargico. E depois, por conta dessa gente linda que me cercou, me formei licenciada em Geografia e me especializei em Administra\u00e7\u00e3o e Pol\u00edticas P\u00fablicas. Tamb\u00e9m sou mestranda em Geografia. Eu aprendi que a vida n\u00e3o pode parar.<\/p>\n<p>Como mulheres negras, que escravizadas por quase quatro s\u00e9culos, \u00e9 importante acentuar que o nosso contexto hist\u00f3rico em \u00c1frica e na di\u00e1spora nunca nos fez diferentes de nossos irm\u00e3os homens. Ent\u00e3o nossa condi\u00e7\u00e3o de \u201cresponsabilidade\u201d no trato da constru\u00e7\u00e3o social e humana de nosso povo \u00e9 nossa base at\u00e9 os dia atuais.<\/p>\n<p>\u00c9 o que se chama de cuidados de esteio ou chefe de fam\u00edlia. E isso se constitui em meio a toda a uma estrutura\u00e7\u00e3o de na\u00e7\u00e3o, que nos dias atuais em face a uma crise quase c\u00edclica aprofundada por uma crise sanit\u00e1ria e um governo fascista, est\u00e1 nos levando ao \u00e1pice da luta pela sobreviv\u00eancia f\u00edsica, ps\u00edquica e espiritual.<\/p>\n<p>A morte se p\u00f5e \u00e0 nossa frente, diariamente, como um cen\u00e1rio, que parece filme. S\u00e3o v\u00e1rios os caminhos. Querem nos matar pela fome, pela viol\u00eancia e pela pandemia. Por isso, entrei no movimento sindical e fui ser dirigente do Sindicato dos Metal\u00fargicos do Rio de Janeiro. Em 1996, j\u00e1 estava na coordena\u00e7\u00e3o da Corrente Sindical Classista e na dire\u00e7\u00e3o nacional da Central \u00danica dos Trabalhadores, em 2000.<\/p>\n<p>A CTB nasceu em 2007 e teve e tem um papel respeit\u00e1vel na constru\u00e7\u00e3o de um novo caminho de formula\u00e7\u00f5es constritivas de unidade de a\u00e7\u00e3o pelo bem comum. Eu tenho muita alegria, orgulho e gratid\u00e3o de fazer parte da funda\u00e7\u00e3o da CTB. Desse central que s\u00f3 cresce, de uma ponta a outra de forma harmoniosa e sem pressa, sem vacilo.<\/p>\n<p>A dire\u00e7\u00e3o chegou para mim em 2013, com a Secretaria de Igualdade Racial. Um presente, que leva \u00e0 gratid\u00e3o de toda a minha companheirada. Teremos um novo quadro a frente dessa secretaria essencial na luta por dias melhores, por vida melhor, por rela\u00e7\u00f5es e condi\u00e7\u00f5es de trabalho melhores.<\/p>\n<p>Enquanto isso, n\u00f3s popula\u00e7\u00e3o negra, nos posicionamos a ser esse instrumento transformador na luta pol\u00edtica social, hist\u00f3rica e econ\u00f4mica do nosso pa\u00eds, por dias melhores e um novo governo.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\">\n<p><figure id=\"attachment_89786\" aria-describedby=\"caption-attachment-89786\" style=\"width: 588px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-89786\" src=\"https:\/\/ctb.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/marcha-mulheres-negrs-sp.jpg\" sizes=\"auto, (max-width: 588px) 100vw, 588px\" srcset=\"https:\/\/ctb.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/marcha-mulheres-negrs-sp.jpg 851w, https:\/\/ctb.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/marcha-mulheres-negrs-sp-300x111.jpg 300w, https:\/\/ctb.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/marcha-mulheres-negrs-sp-768x284.jpg 768w\" alt=\"\" width=\"588\" height=\"217\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-89786\" class=\"wp-caption-text\">Cartaz da Marcha das Mulheres Negras de S\u00e3o Paulo<\/figcaption><\/figure><figcaption><\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Ana Paula Evangelista Neris, professora de educa\u00e7\u00e3o infantil<\/strong><\/p>\n<p>Na inf\u00e2ncia e na adolesc\u00eancia acreditava que nada poderia ser pior do que tudo aquilo que vivia. \u00c9ramos em sete irm\u00e3os. Meu pai e minha m\u00e3e, ambos em trabalhos prec\u00e1rios, viviam constantemente em situa\u00e7\u00e3o de extrema vulnerabilidade. Sempre moramos no Itaim Paulista, extremo leste da cidade de S\u00e3o Paulo, onde ainda moro.<\/p>\n<p>As dificuldades foram in\u00fameras, mas acredito que a dificuldade de acesso \u00e0 escola foi uma das piores, pois eu n\u00e3o conhecia refer\u00eancias que pudessem me inspirar a ir al\u00e9m. Minha m\u00e3e trabalhava como auxiliar de limpeza em um hospital, meu pai era pedreiro e essa era a minha perspectiva de vida. Arrumar um trabalho e ajudar meus pais, nada al\u00e9m disso.<\/p>\n<p>Durante a minha inf\u00e2ncia n\u00e3o se falava em racismo, mas sab\u00edamos bem como era viver isso na pele. Os apelidos, a maneira como eu era olhada e at\u00e9 \u00e0s distin\u00e7\u00f5es que faziam em determinados espa\u00e7os. O olhar de nojo da professora da antiga quarta s\u00e9rie, a n\u00e3o indica\u00e7\u00e3o para uma determinada vaga de trabalho. Ser dita como feia. Ocupar apenas vagas de trabalhos operacionais, mesmo tendo condi\u00e7\u00f5es de uma vaga melhor. Tudo isso me fez ter baixa estima, a duvidar das minhas capacidades e a me sentir inferior \u00e0s demais pessoas. Passei por um processo t\u00e3o ruim na inf\u00e2ncia e na adolesc\u00eancia que em determinado momento cheguei a negar a minha negritude, afinal de contas, ser mulher e negra era um fardo muito pesado.<\/p>\n<p>As coisas come\u00e7aram a mudar quando soube de uma bolsa de estudos para entrar na universidade, eu sempre sonhei em estar l\u00e1, s\u00f3 n\u00e3o sabia como. Foi muito dif\u00edcil, mas consegui e ao chegar l\u00e1 me deparei com um turbilh\u00e3o de possibilidades. Conheci muita gente, expandi meus horizontes, me reconectei com a minha ancestralidade e me achei, achei aquela \u201ctribo\u201d que tanto procurava.<\/p>\n<p>Conheci quatro mulheres negras ativistas, elas eram bem jovens e eu sentia algo diferente quando estava perto delas. Queria sugar todo aquele conhecimento, queria recuperar o tempo perdido, pois foi a partir daqueles di\u00e1logos que passei a entender tudo o que vivi durante toda a minha vida.<\/p>\n<p>A milit\u00e2ncia me salvou. O ativismo me ensinou tudo aquilo que eu deveria ter aprendido na escola, nos livros did\u00e1ticos. Me foram apresentadas hero\u00ednas negras, cientistas negras, m\u00e9dicas e m\u00e9dicos negros e hoje eu posso dizer que sou melhor, uma professora muito melhor do que as que eu tive e, n\u00e3o por arrog\u00e2ncia, mas por entender que somos diversos e respeitar isso. Por n\u00e3o expor \u201cminhas\u201d crian\u00e7as ao rid\u00edculo, por n\u00e3o as classificar pela cor da pele e por respeitar suas subjetividades. Tenho certeza que as crian\u00e7as que me t\u00eam como educadora, ter\u00e3o boas lembran\u00e7as e n\u00e3o traumas.<\/p>\n<p><strong>Cl\u00e1udia Rodrigues, presidenta Uni\u00e3o Brasileira de Mulheres (UBM) na cidade de S\u00e3o Paulo<\/strong>\u00a0<strong>e do Conselho Municipal de Pol\u00edticas para Mulheres<\/strong><\/p>\n<p>Nasci na periferia de Guarulhos, regi\u00e3o metropolitana de S\u00e3o Paulo, em uma fam\u00edlia humilde. Comecei a trabalhar como empregada dom\u00e9stica aos 8 anos. Depois fui recepcionista, secret\u00e1ria e atendente em posto de gasolina.<\/p>\n<p>Consegui com muito custo, me formar em Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica, em 2004, e desde ent\u00e3o trabalho nessa \u00e1rea. Fui diretora de clube municipal na capital paulista e coordenadora do programa Bolsa Atleta do Minist\u00e9rio do Esporte. Atualmente trabalho no setor privado, no ramo de infraestrutura esportiva.<\/p>\n<p>Quando estudante, presidi o gr\u00eamio da minha escola e tamb\u00e9m o Diret\u00f3rio Central de Estudantes da universidade onde me formei. Cheguei a ser presidenta da Uni\u00e3o da Juventude Socialista na capital paulista.<\/p>\n<p>Desde 2015 sou presidenta da Uni\u00e3o Brasileira de Mulheres (UBM) na cidade de S\u00e3o Paulo, cujo trabalho \u00e9 centrado em bairros da periferia paulistana. Quando come\u00e7ou a pandemia da covid-19, iniciei a campanha chamada \u201cIsolamento Sem Fome\u201d, uma rede de solidariedade em apoio \u00e0s mulheres dessas comunidades da periferia, onde a entidade atua.<\/p>\n<p>Em fevereiro de 2021, assumi a presid\u00eancia do Conselho Municipal de Pol\u00edticas para Mulheres (CMPM). Venho lutando pela constru\u00e7\u00e3o da Casa da Mulher Brasileira na Zona Leste da cidade, a mais populosa de S\u00e3o Paul. H\u00e1 poucos dias, a proposta foi escolhida como prioridade em vota\u00e7\u00e3o popular organizada pela prefeitura para defini\u00e7\u00e3o do or\u00e7amento municipal de 2022.<\/p>\n<p><strong>Generosa Maria Lima, formada em Orienta\u00e7\u00e3o Comunit\u00e1ria e agente de preven\u00e7\u00e3o Ists\/AIDS projeto da Secretaria Municipal de Sa\u00fade<\/strong><\/p>\n<p>Ocupo S\u00e3o Paulo com meu corpo preto, ciente de que podemos estar em qualquer espa\u00e7o. E assim o fa\u00e7o com o Il\u00fa Ob\u00e1 De Min, grupo com mais de quatrocentas mulheres onde sou integrante h\u00e1 10 anos. Do centro, Vale do Anhangaba\u00fa onde ensaiamos, \u00e0s periferias, Casas de Cultura, F\u00e1bricas de Cultura,\u00a0 Centros Educacionais Unificados, aos grandes palcos como os Sescs, Centro Cultural S\u00e3o Paulo, Teatro Municipal e muitos festivais. Apresentamos e engrandecemos a for\u00e7a da mulher preta e o As\u00e8 dos Xir\u00eas que ao som dos tambores reproduz de forma art\u00edstica a representa\u00e7\u00e3o das religi\u00f5es de matriz africana.<\/p>\n<p>Outra forma em que me encontro na cidade \u00e9 literalmente ocupando meu espa\u00e7o de moradia, h\u00e1 aproximadamente 10 anos moro no centro de S\u00e3o Paulo e h\u00e1 quase 5 anos moro na Ocupa\u00e7\u00e3o 9 de Julho, num pr\u00e9dio que estava abandonado por volta de 20 anos, sem fun\u00e7\u00e3o social, e hoje abriga mais de 100 fam\u00edlias com dignidade e forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica pelo Movimento Sem Teto do Centro, que nos ensina que direito n\u00e3o \u00e9 privil\u00e9gio e que moradia faz parte dos direitos determinados pela Constitui\u00e7\u00e3o Federal, por isso ousamos estar onde desejamos estar, afrontamos o mundo capitalista que considera que trabalhadores de baixa renda deve viver \u00e0 margem da cidade.<\/p>\n<p>Mais uma vez ocupo a cidade, agora com a Marcha das Mulheres Negras de S\u00e3o Paulo, onde estou h\u00e1 6 anos e me aquilombo, uma articula\u00e7\u00e3o aut\u00f4noma e que atua em coletivos diversos. Nascemos do potente processo que nos levou a Bras\u00edlia em 18 de novembro de 2015. A Marcha \u00e9 um espa\u00e7o de fortalecimento m\u00fatuo, aprendizado e resgate das nossas tradi\u00e7\u00f5es ancestrais e do legado de luta e resist\u00eancia das mulheres negras. Assim permane\u00e7o viva, irmanada\u00a0 na luta contra o racismo, o machismo,\u00a0 a viol\u00eancia e pelo bem viver.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\">\n<p><figure id=\"attachment_89787\" aria-describedby=\"caption-attachment-89787\" style=\"width: 588px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-89787\" src=\"https:\/\/ctb.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/marcha-das-mulheres-negras-Foto-Ta%CC%82nia-Re%CC%82go-Age%CC%82ncia-Brasil-1-1024x614.jpg\" alt=\"\" width=\"588\" height=\"352\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-89787\" class=\"wp-caption-text\">Foto: T\u00e2nia Rego\/Ag\u00eancia Brasil<\/figcaption><\/figure><figcaption><\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Rosa Anacleto, presidenta da Uni\u00e3o de Negros e Negras pela Igualdade (Unegro) no estado de S\u00e3o Paulo,\u00a0 diretora de G\u00eanero da Federa\u00e7\u00e3o dos Metr\u00f4s<\/strong><\/p>\n<p>Nesse 25 de julho, que foi cunhado pelas mulheres negras no 1\u00ba Encontro em S\u00e3o Domingos, Rep\u00fablica Dominicana, em 1992, fico sempre emotiva e emocionada porque no Brasil constru\u00edmos o m\u00eas de julho para falarmos das nossas coisas de mulheres pretas e cunhamos o Julho das Pretas. Onde falamos e discutimos as\u00a0 dificuldades de sermos mulheres negras,\u00a0 nesses pa\u00eds que \u00e9 machista, racista e muitas vezes mis\u00f3gino.<\/p>\n<p>E o julho das Pretas tamb\u00e9m \u00e9\u00a0 momento para falarmos da viol\u00eancia contra as mulheres negras, do feminic\u00eddio que recai de forma t\u00e3o perversa sobre n\u00f3s. \u00c9 hora de falarmos de pertencimento, de amor, das lutas. \u00c9 o momento tamb\u00e9m de falarmos de reconstru\u00e7\u00e3o, de tratarmos estrat\u00e9gias de supera\u00e7\u00e3o de todas as opress\u00f5es.<\/p>\n<p>A viol\u00eancia do Estado se abate sobre a periferia e deixa corpos negros jovens sem vida em nome do racismo que estrutura suas a\u00e7\u00f5es. Outras a\u00e7\u00f5es do Estado s\u00e3o as abordagens policiais onde essas a\u00e7\u00f5es causam traumas e at\u00e9 a morte e que tamb\u00e9m despertam a necessidade de lutar para mudar essa realidade de exclus\u00e3o e racismo.<\/p>\n<p>Cada 25 de julho renova a confian\u00e7a nos dias que vir\u00e3o com a supera\u00e7\u00e3o do racismo,\u00a0 do machismo e misoginia e com muita luta\u00a0\u00a0 contra esse estado coisas e por pol\u00edticas p\u00fablicas em favor da vida, da justi\u00e7a e da igualdade de direitos.<\/p>\n<p>Cada 25 de julho renova a esperan\u00e7a na luta por trabalho decente, com sal\u00e1rio igual para trabalho igual, independente do g\u00eanero. A cada 25 de julho acontece a ocupa\u00e7\u00e3o de espa\u00e7o de poder no Legislativo, no Executivo e no Judici\u00e1rio.<\/p>\n<p>Defender a\u00a0 democracia e lutar para avan\u00e7ar as pautas dos movimentos sociais, em especial o movimento negro e de mulheres negras.\u00a0 Porque somente num ambiente\u00a0 democr\u00e1tico podemos avan\u00e7ar para o mundo justo com o qual sonhamos.<\/p>\n<p><strong>Mulheres Negras, de Yzal\u00fa<\/strong><\/p>\n<figure class=\"wp-block-embed-youtube wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\">\n<div class=\"wp-block-embed__wrapper\"><iframe loading=\"lazy\" title=\"&quot;Mulheres negras&quot; - Yzal\u00fa no Est\u00fadio Showlivre 2016\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/6p9cthjjMa4?feature=oembed\" width=\"500\" height=\"281\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/div>\n<\/figure>\n<p><strong>Rozana Barroso, presidenta da Ubes<\/strong><\/p>\n<p>Eu conheci o movimento estudantil por causa de minha m\u00e3e, mulher negra, empregada dom\u00e9stica e ainda estudante do ensino de jovens adultos. Comecei a questionar do porqu\u00ea ela sofria tanto e n\u00e3o podia estudar.<\/p>\n<p>Foi a\u00ed que descobri uma luta pelas mulheres negras. Descobri que \u00e9ramos, e somos, capazes de transformar as nossas vidas, atrav\u00e9s da educa\u00e7\u00e3o e assim contribuir para o avan\u00e7o do Brasil, apesar de todo o sofrimento pelo qual passamos neste pa\u00eds.<\/p>\n<p>Tive uma inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia muito dif\u00edceis. N\u00e3o s\u00f3 pelo racismo, machismo, LGBTfobia, mas principalmente pela desigualdade como um fator importante para nos colocar para tr\u00e1s. E neste momento, o Bolsonaro tenta trazer de volta esse sentimento para a juventude brasileira. Esse sentimento de que n\u00f3s n\u00e3o pertencemos \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, que o ensino superior n\u00e3o nos pertence, que n\u00f3s n\u00e3o podemos ser os primeiros da fam\u00edlia a entrar na universidade. Como eu sonho em ser a primeira da minha fam\u00edlia na universidade.<\/p>\n<p>Toda essa trajet\u00f3ria hist\u00f3rica de minha m\u00e3e, minha av\u00f3 e das mulheres negras da minha fam\u00edlia, me d\u00e1 for\u00e7as para lutar junto com os estudantes para deixar claro a Bolsonaro que n\u00f3s n\u00e3o aceitaremos esse caminho tra\u00e7ado de desprezo e desrespeito \u00e0s mulheres negras brasileiras.<\/p>\n<p>Principalmente as mulheres jovens. N\u00e3o aceitaremos o subemprego, a fome, a falta de acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, a viol\u00eancia sexual, a viol\u00eancia dom\u00e9stica. N\u00f3s n\u00e3o aceitaremos morrer de fome, morrer de tiro, morrer de covid. N\u00f3s queremos viver e amar como todas as pessoas desejam e t\u00eam o direito humano a isso. N\u00f3s queremos um Brasil onde possamos de fato seguir com os nossos sonhos. Um Brasil que caiba nos nossos sonhos.<\/p>\n<p>Foi muito dif\u00edcil enfrentar tudo isso na minha vida. Mas tudo tamb\u00e9m me transformou na mulher que sou, de pensar no coletivo. Na menina, na jovem que sou e de pensar sempre no coletivo. Porque nunca \u00e9 sobre a Rozana. \u00c9 sobre v\u00e1rias outras mulheres e meninas negras pelo Brasil inteiro, que tamb\u00e9m t\u00eam os mesmos sonhos como eu. E que tamb\u00e9m lutam para transformar as suas vidas.<\/p>\n<p>H\u00e1 pouco tocamos uma campanha na Ubes \u201cMenos Um Sufoco\u201d, que pagou o boleto de inscri\u00e7\u00e3o para o Enem para quase 600 estudantes. Campanhas como essa, refor\u00e7am para as meninas que elas s\u00e3o capazes. N\u00f3s lutamos no Congresso para garantir internet de gra\u00e7a para 18 milh\u00f5es de estudantes da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, do Brasil inteiro. Bolsonaro entrou na justi\u00e7a para impedir esse acesso porque o projeto dele \u00e9 para que as meninas negras n\u00e3o tenham acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tenham esse meio de transforma\u00e7\u00e3o na vida. Ele quer nos desenhar um \u00fanico caminho. Mas eu tenho a certeza de que as meninas secundaristas, as meninas negras v\u00e3o desenhar com suas pr\u00f3prias m\u00e3os o caminho da vida, p\u00e3o, vacina e educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00f3s realizaremos esse sonho de sermos as primeiras da fam\u00edlia na universidade, de sermos essas pessoas, que atrav\u00e9s da educa\u00e7\u00e3o, v\u00e3o transformar a realidade. Tenho a certeza de que vamos derrotar o Bolsonaro.<\/p>\n<p>Foi muito dif\u00edcil sim e \u00e9 sempre. Porque o racismo est\u00e1 presente no nosso pa\u00eds e isso me motiva a lutar muito mais por um Brasil livre do racismo, do machismo, da LGBTfobia, principalmente nestes tempos de Bolsonaro. N\u00f3s verdadeiros patriotas, verdadeiras patriotas com certeza o derrotaremos nas ruas, nas redes e nas urnas.<\/p>\n<p>www.ctb.org.br\/ Marcos Aur\u00e9lio Ruy<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde 1992, o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha \u2013 25 de julho \u2013, foi decretado em um encontro na Rep\u00fablica Dominicana naquele ano. Desde ent\u00e3o, leva milhares de mulheres negras a marcharem pelas ruas da Am\u00e9rica Latina na luta por seus direitos, por vida digna e para serem respeitadas como devem. 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