{"id":21697,"date":"2021-07-30T10:11:25","date_gmt":"2021-07-30T13:11:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/?p=21697"},"modified":"2021-07-30T11:32:06","modified_gmt":"2021-07-30T14:32:06","slug":"mais-um-contrassenso-na-privatizacao-da-eletrobras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/2021\/07\/30\/mais-um-contrassenso-na-privatizacao-da-eletrobras\/","title":{"rendered":"Mais um contrassenso na privatiza\u00e7\u00e3o da Eletrobras"},"content":{"rendered":"<div class=\"col-md-8 col-lg-8\">\n<p><strong>Caro tamb\u00e9m para o meio ambiente: um dos jabutis contidos na MP que abre a estatal ao setor privado obriga a prolifera\u00e7\u00e3o de termel\u00e9tricas a g\u00e1s, na contram\u00e3o da transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica \u00e0s menos poluentes, como a e\u00f3lica e solar<\/strong><\/p>\n<p>Uma das pol\u00eamicas em torno da Medida Provis\u00f3ria \u2013 MP 1.031\/2021, referente \u00e0 privatiza\u00e7\u00e3o da Eletrobras, sancionada pela Presid\u00eancia da Rep\u00fablica e convertida na Lei 14.182\/2021, \u00e9 a inser\u00e7\u00e3o de 8 GW em termel\u00e9tricas a g\u00e1s no Sistema Interligado Nacional \u2013 SIN entre os anos de 2026 e 2030. A decis\u00e3o tem gerado manifesta\u00e7\u00f5es no setor e entre ambientalistas, especialmente entre aqueles que veem na MP um entrave para o aumento de outras fontes de energia renov\u00e1vel no SIN, como e\u00f3lica e solar, e um contrassenso porque aumentar\u00e1 as emiss\u00f5es brasileiras de g\u00e1s carb\u00f4nico na pr\u00f3xima d\u00e9cada.<\/p>\n<div class=\"row row-small\">\n<div id=\"single-the-content\" class=\"column large-12 small-12\">\n<p>Segundo Ricardo Baitelo, coordenador de projetos do Instituto de Energia e Meio Ambiente \u2013 Iema, a MP incluiu uma \u201cs\u00e9rie de \u2018jabutis\u2019\u201d que incentiva e beneficia algumas fontes energ\u00e9ticas, como as termel\u00e9tricas a g\u00e1s natural. \u201cChama muita aten\u00e7\u00e3o a inclus\u00e3o de 8 GW de t\u00e9rmicas a g\u00e1s, sem que elas passem por um processo competitivo de contrata\u00e7\u00e3o, assim como as outras fontes passam. Se pensarmos que atualmente no Brasil temos mais ou menos 15 GW de g\u00e1s instalado, esses 8 GW s\u00e3o muito significativos, ainda mais para entrarem no Sistema num per\u00edodo t\u00e3o curto de tempo. Obviamente, a nossa motiva\u00e7\u00e3o [de cr\u00edtica e cobertura] foi o impacto disso para o clima, o montante dessas emiss\u00f5es, considerando que essas usinas n\u00e3o v\u00e3o operar emergencialmente, mas, sim, em tempo integral\u201d, afirma.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"single-the-content\" class=\"column large-12 small-12\">\n<p>Na entrevista a seguir, concedida por telefone ao Instituto Humanitas Unisinos \u2013 IHU, Baitelo explica que o g\u00e1s natural era uma fonte muito considerada para a transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica na d\u00e9cada passada, mas hoje existem alternativas. \u201cCom certeza, naquele momento, quando n\u00e3o se tinha energia e\u00f3lica e solar no Brasil, ele era uma op\u00e7\u00e3o menos impactante do que o carv\u00e3o e o combust\u00edvel, com 60% a menos de emiss\u00f5es. Naquele momento isso fazia sentido, mas hoje n\u00e3o faz mais. Em primeiro lugar, porque as renov\u00e1veis est\u00e3o totalmente implementadas e a solar e a e\u00f3lica s\u00e3o as duas fontes mais baratas do mercado\u201d, informa. Outro ponto, argumenta, \u201c\u00e9 que hoje, concretamente, diferentemente do come\u00e7o do s\u00e9culo, discutimos a descarboniza\u00e7\u00e3o, e com o Acordo de Paris ficou claro o compromisso que todos os pa\u00edses t\u00eam que assumir e o prazo para isso acontecer. O prazo que est\u00e1 sendo colocado na MP se choca frontalmente com o que o Brasil deveria estar apresentando\u201d.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"single-the-content\" class=\"column large-12 small-12\">\n<p><strong>Entrevista<\/strong><\/p>\n<p><strong>Como avalia a san\u00e7\u00e3o da MP da privatiza\u00e7\u00e3o da Eletrobras, a maior empresa de energia el\u00e9trica da Am\u00e9rica Latina? Por que e em que contexto o governo optou por esse caminho?<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"row row-small\">\n<div id=\"single-the-content\" class=\"column large-12 small-12\">\n<p>N\u00f3s do Iema, assim como v\u00e1rias outras institui\u00e7\u00f5es, cobrimos a privatiza\u00e7\u00e3o da Eletrobras. A princ\u00edpio, essa n\u00e3o era uma pauta para muitos atores do setor el\u00e9trico, mas passou a ser quando foi inclu\u00edda uma s\u00e9rie de \u201cjabutis\u201d para incentivos espec\u00edficos de algumas fontes, contrariando a premissa e a organiza\u00e7\u00e3o do setor el\u00e9trico de ter a contrata\u00e7\u00e3o de fontes mais econ\u00f4micas e, de certa forma, abertas, com uma composi\u00e7\u00e3o de mercado. Os incentivos foram para as pequenas centrais hidrel\u00e9tricas, mas, de maneira mais evidente ainda, para o g\u00e1s natural. Chama muita aten\u00e7\u00e3o a inclus\u00e3o de 8 GW de t\u00e9rmicas a g\u00e1s, sem que elas passem por um processo competitivo de contrata\u00e7\u00e3o, assim como as outras fontes passam.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"single-the-content\" class=\"column large-12 small-12\">\n<p>Se pensarmos que atualmente no Brasil temos mais ou menos 15 GW de g\u00e1s instalado, esses 8 GW s\u00e3o muito significativos, ainda mais para entrarem no Sistema num per\u00edodo t\u00e3o curto de tempo. Obviamente, a nossa motiva\u00e7\u00e3o [de cr\u00edtica e cobertura] foi o impacto disso para o clima, o montante dessas emiss\u00f5es, considerando que essas usinas n\u00e3o v\u00e3o operar emergencialmente, mas, sim, em tempo integral. Estimamos que esse impacto para as emiss\u00f5es do setor el\u00e9trico ser\u00e1 bastante significativo.<\/p>\n<p><strong>Por que a op\u00e7\u00e3o pelas usinas termel\u00e9tricas a g\u00e1s neste momento? Foi uma decis\u00e3o pol\u00edtica ou h\u00e1 outras raz\u00f5es para esta escolha?<\/strong><\/p>\n<p>Sem d\u00favida foi uma decis\u00e3o pol\u00edtica, que chamou a aten\u00e7\u00e3o do setor inteiro. Foi um daqueles momentos raros em que todo o setor el\u00e9trico se mostrou contr\u00e1rio a essa decis\u00e3o, com exce\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio de Minas e Energia, que organizou essa medida. Sem d\u00favida nenhuma, esse movimento de viabiliza\u00e7\u00e3o e de incentivo do crescimento do g\u00e1s na matriz energ\u00e9tica est\u00e1 se organizando h\u00e1 bastante tempo. Podemos dizer que desde o in\u00edcio do mil\u00eanio o g\u00e1s recebeu uma aten\u00e7\u00e3o, desde o governo de Fernando Henrique [Cardoso] e, com o pr\u00e9-sal, veio uma nova fase, porque o Brasil tem uma demanda muito grande de g\u00e1s que n\u00e3o \u00e9 utilizada. Tem tamb\u00e9m uma discuss\u00e3o sobre a infraestrutura do g\u00e1s, que \u00e9 muito mais costeira do que no interior do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, toda a articula\u00e7\u00e3o foi pol\u00edtica e se materializou na MP, mas com alguns pontos absurdos. Al\u00e9m da obrigatoriedade de instalar 8 GW, a MP privilegia a instala\u00e7\u00e3o em regi\u00f5es \u2013 com exce\u00e7\u00e3o do Sudeste \u2013 e em espa\u00e7os onde n\u00e3o t\u00eam infraestrutura de g\u00e1s. Nesse sentido, a instala\u00e7\u00e3o \u00e9 um contrassenso e n\u00e3o vai acontecer perto do escoamento do g\u00e1s do pr\u00e9-sal. Ao contr\u00e1rio, em alguns locais do Nordeste deve-se estimular uma infraestrutura de gasodutos que n\u00e3o existe, o que vai, com certeza, aumentar o custo da eletricidade para todos, porque n\u00e3o ser\u00e1 aproveitada uma infraestrutura, mas ter\u00e1 de ser constru\u00edda uma nova.<\/p>\n<p><strong>Quais s\u00e3o os principais argumentos t\u00e9cnicos, ambientais e econ\u00f4micos \u2013 al\u00e9m desses que voc\u00ea j\u00e1 mencionou \u2013 para n\u00e3o optar pelas termel\u00e9tricas a g\u00e1s natural, j\u00e1 que elas s\u00e3o uma op\u00e7\u00e3o melhor do que a gera\u00e7\u00e3o a \u00f3leo, diesel e carv\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>De fato, o g\u00e1s natural era uma fonte muito mais considerada para a transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica no come\u00e7o da d\u00e9cada passada. Com certeza, naquele momento, quando n\u00e3o se tinha energia e\u00f3lica e solar no Brasil, ele era uma op\u00e7\u00e3o menos impactante do que o carv\u00e3o e o combust\u00edvel, com 60% a menos de emiss\u00f5es. Naquele momento isso fazia sentido, mas hoje n\u00e3o faz mais. Em primeiro lugar, porque as renov\u00e1veis est\u00e3o totalmente implementadas e a solar e a e\u00f3lica s\u00e3o as duas fontes mais baratas do mercado \u2013 se pegarmos os n\u00fameros dos leil\u00f5es que ocorreram h\u00e1 duas semanas e a m\u00e9dia do leil\u00e3o que aconteceu em 2019, veremos que esta \u00e9 uma realidade dada.<\/p>\n<p>O outro ponto \u00e9 que hoje, concretamente, diferentemente do come\u00e7o do s\u00e9culo, discutimos a descarboniza\u00e7\u00e3o, e com o Acordo de Paris ficou claro o compromisso que todos os pa\u00edses t\u00eam que assumir e o prazo para isso acontecer. O prazo que est\u00e1 sendo colocado na MP se choca frontalmente com o que o Brasil deveria estar apresentando. Primeiro, o carv\u00e3o deveria ser descontinuado, depois o g\u00e1s e, certamente, na d\u00e9cada que vem j\u00e1 dever\u00edamos ter um horizonte para em 2040 descontinuar os projetos f\u00f3sseis. Com o que est\u00e1 previsto na MP, as \u00faltimas usinas v\u00e3o atuar at\u00e9 2045. Esse \u00e9 um ponto que deixa claro o tamanho do atraso que o Brasil est\u00e1 propondo. Enquanto a maioria das economias desenvolvidas j\u00e1 est\u00e1 come\u00e7ando a reduzir [fontes energ\u00e9ticas], o Brasil est\u00e1 pensando em aument\u00e1-las.<\/p>\n<p>Do ponto de vista da economicidade, as duas fontes mais baratas s\u00e3o a e\u00f3lica e a solar, as quais realmente ajudariam na premissa do governo de motricidade tarif\u00e1ria. O g\u00e1s n\u00e3o seria uma delas porque o seu pre\u00e7o \u00e9 muito mais alto, n\u00e3o s\u00f3 considerando a contrata\u00e7\u00e3o da usina no leil\u00e3o, mas o quanto o combust\u00edvel custa depois. Chamo a aten\u00e7\u00e3o novamente para essa regra diferenciada [da MP] que \u00e9 a de as usinas operarem em tempo integral, porque elas v\u00e3o operar pelo menos 70% do tempo e todo esse custo vai incidir na tarifa do consumidor. O custo do gasoduto seria outro.<\/p>\n<p>Se for aberto mais espa\u00e7o para a continuidade da contrata\u00e7\u00e3o das fontes e\u00f3lica e solar, isso se torna cada vez mais eficiente para a matriz el\u00e9trica. A e\u00f3lica e a solar junto com as hidrel\u00e9tricas j\u00e1 instaladas s\u00e3o capazes de atender de uma maneira cada vez mais efetiva, ao passo que se for instalada uma quantidade grande de g\u00e1s natural \u2013 pelo menos da maneira como est\u00e1 proposto na MP, de forma inflex\u00edvel \u2013, o g\u00e1s entrar\u00e1 na frente na fila de prioridades de pontos que v\u00e3o alimentar o Sistema e deixar\u00e1 para tr\u00e1s a e\u00f3lica e a solar. A consequ\u00eancia direta vai ser mais desperd\u00edcio dessas duas fontes. Ent\u00e3o, \u00e9 um contrassenso t\u00e9cnico e econ\u00f4mico tamb\u00e9m que, coincidentemente, foi ilustrado pela pr\u00f3pria Empresa de Pesquisa Energ\u00e9tica \u2013 EPE no Plano Decenal [de Expans\u00e3o de Energia]. A EPE n\u00e3o tinha como prever a MP, mas fez este exerc\u00edcio: o que acontece se exatamente hoje 8 GW de t\u00e9rmicas a g\u00e1s forem colocados no Sistema de maneira priorit\u00e1ria? Isso vai significar que o espa\u00e7o para e\u00f3lica e solar vai diminuir.<\/p>\n<p><strong>Desperd\u00edcio de energia<\/strong><\/p>\n<p>Hoje j\u00e1 existe desperd\u00edcio de energia, porque como a gera\u00e7\u00e3o de energia \u00e9 maior do que a demanda, o Operador Nacional do Sistema est\u00e1 optando por desligar ou n\u00e3o incluir no Sistema a energia solar e a e\u00f3lica. Esse \u00e9 um problema de restri\u00e7\u00e3o de opera\u00e7\u00e3o que esses dois setores est\u00e3o sofrendo desde 2019. A Ag\u00eancia Nacional de Energia El\u00e9trica \u2013 Aneel est\u00e1 tentando endere\u00e7ar e ver como completar os preju\u00edzos dos setores, porque essas vias foram contratadas para gerar essa energia e contavam com o recebimento dessa receita. Mas est\u00e3o recebendo menos e s\u00e3o milh\u00f5es em preju\u00edzo. Isso j\u00e1 est\u00e1 acontecendo hoje. Ent\u00e3o, com esses 8 GW de g\u00e1s, os preju\u00edzos v\u00e3o aumentar mais ainda. A EPE fez essa conta e o desperd\u00edcio \u00e9 muito grande: 12 mil GW de e\u00f3lica e 3.500 GW de solar. Esse \u00e9 o fator t\u00e9cnico que vai ter consequ\u00eancias.<\/p>\n<p>Obviamente, outra consequ\u00eancia s\u00e3o as emiss\u00f5es de g\u00e1s carb\u00f4nico. As emiss\u00f5es do setor el\u00e9trico ser\u00e3o bastante impactadas, na casa dos 30%. O contrassenso \u00e9 justamente ter esse impacto quando, ao mesmo tempo, s\u00e3o desperdi\u00e7adas fontes renov\u00e1veis. O aumento das emiss\u00f5es \u00e9 totalmente desnecess\u00e1rio e n\u00e3o precisaria acontecer se a matriz el\u00e9trica estivesse conjugando o potencial de todas as fontes. Esta \u00e9 uma li\u00e7\u00e3o de casa que tem de ser feita: como utilizar os espa\u00e7os de e\u00f3lica e solar dentro do Sistema e como tamb\u00e9m refor\u00e7ar a transmiss\u00e3o de eletricidade para que novos projetos possam ser contratados. Hoje n\u00e3o temos s\u00f3 o mercado regulado, ou seja, n\u00e3o se depende somente do governo federal para anunciar os leil\u00f5es; tem o mercado livre e tamb\u00e9m existem possibilidades diferentes de leil\u00f5es organizados por diversos agentes. Ou seja, h\u00e1 um contingente gigantesco de usinas solar e e\u00f3lica que poderiam ser contratadas e estar operando daqui a dois anos, com os recursos dos \u00faltimos dez anos.<\/p>\n<p>Sempre que h\u00e1 uma crise de racionamento, existem solu\u00e7\u00f5es imediatas para gerenciar essa crise, mas existem solu\u00e7\u00f5es preventivas que levam a um planejamento. Isso consiste em pensar que por mais que a demanda das concession\u00e1rias esteja baixa hoje, \u00e9 importante ter uma contrata\u00e7\u00e3o preventiva, porque o risco hidrol\u00f3gico veio para ficar e vai estar presente permanentemente. O governo j\u00e1 admitiu isso em diferentes estudos, mostrando que a vaz\u00e3o das hidrel\u00e9tricas vai ser cada vez mais impactada.<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 resist\u00eancia no investimento de energia e\u00f3lica e solar ou os problemas t\u00e9cnicos impedem a expans\u00e3o dessas fontes na matriz energ\u00e9tica no momento?<\/strong><\/p>\n<p>Na verdade o que acontece \u00e9 uma quest\u00e3o t\u00e9cnica de opera\u00e7\u00e3o dessas fontes. Como elas s\u00e3o mais flex\u00edveis e din\u00e2micas, quando existe uma gera\u00e7\u00e3o superior \u00e0 demanda, elas s\u00e3o mais pr\u00f3ximas de ser desconectadas do sistema. A solar em primeiro lugar e depois a e\u00f3lica, muito mais do que as t\u00e9rmicas a g\u00e1s.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o do investimento n\u00e3o \u00e9 um problema. O hist\u00f3rico dos \u00faltimos cinco anos mostra que essas duas fontes v\u00e3o ser as vencedoras, v\u00e3o sempre contratar mais do que as outras op\u00e7\u00f5es, sejam elas termel\u00e9tricas, t\u00e9rmicas a g\u00e1s ou hidrel\u00e9tricas. A quest\u00e3o, ent\u00e3o, seria exatamente t\u00e9cnica, de como endere\u00e7ar isso. Claro que a solu\u00e7\u00e3o passa por armazenamento, que \u00e9 um outro setor que est\u00e1 se desenvolvendo e deve ter um crescimento importante no Brasil nos pr\u00f3ximos cinco anos, mas hoje, o que tem de ser endere\u00e7ado \u00e9 como remunerar esses agentes e como endere\u00e7ar essa quest\u00e3o do desperd\u00edcio de energia.<\/p>\n<p><strong>Qual \u00e9 o peso dos estudos sobre as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas nas an\u00e1lises do setor energ\u00e9tico brasileiro hoje? Eles s\u00e3o considerados?<\/strong><\/p>\n<p>No passado, eles estavam sendo pouco considerados e subestimados, tanto que a decis\u00e3o de construir Belo Monte seguiu adiante. Por mais que se mostrasse uma varia\u00e7\u00e3o muito grande no suprimento de energia e o impacto da hidrel\u00e9trica ao longo das d\u00e9cadas, a decis\u00e3o foi de constru\u00ed-la. Hoje, d\u00e1 para dizer que no Plano Decenal de Energia e no Plano Nacional de Energia tem um cap\u00edtulo estimando que as emiss\u00f5es do setor v\u00e3o se manter baixas. Mas quando vemos a vulnerabilidade da matriz el\u00e9trica, por conta da participa\u00e7\u00e3o alta de hidrel\u00e9tricas, tem-se o argumento de intensificar o setor com solar e e\u00f3lica, que ser\u00e3o muito pouco vulner\u00e1veis \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Mas a\u00ed aparece o outro lado, que \u00e9 um contrassenso, de aumentar o refor\u00e7o termel\u00e9trico com usinas nucleares e outras fontes. \u00c9 claro que as f\u00f3sseis n\u00e3o s\u00e3o uma solu\u00e7\u00e3o, porque no horizonte de uma d\u00e9cada ou duas elas n\u00e3o poder\u00e3o mais fazer parte da matriz. Mas o governo, ainda assim, considera o g\u00e1s natural como uma alternativa de transi\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria, mas n\u00e3o sei qual \u00e9 o horizonte dessa temporalidade.<\/p>\n<p><strong>Levando em conta as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, em que tipo de matriz energ\u00e9tica o Brasil deveria investir a m\u00e9dio e longo prazo?<\/strong><\/p>\n<p>Fizemos alguns cen\u00e1rios energ\u00e9ticos no passado e, felizmente, foram se atualizando as ambi\u00e7\u00f5es dos Planos Decenais de acordo com a tecnologia e tamb\u00e9m de acordo com as negocia\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas. Isso porque no come\u00e7o n\u00e3o havia a necessidade de descarboniza\u00e7\u00e3o total da matriz energ\u00e9tica, mas a partir do Acordo de Paris j\u00e1 se vislumbrou essa meta e quando ela pode ser alcan\u00e7ada, por mais que os pa\u00edses n\u00e3o estejam colocando na mesa compromissos que cheguem a esse objetivo.<\/p>\n<p>Mas voltando \u00e0 pergunta: h\u00e1 condi\u00e7\u00f5es de a matriz brasileira ser totalmente baseada em energia solar, e\u00f3lica e de armazenamento. \u00c9 claro que a biomassa tamb\u00e9m tem um papel, considerando o recurso natural com energia despachada, mas eu colocaria em ordem de prioridade a solar, a e\u00f3lica, de armazenamento e biomassa. \u00c9 perfeitamente poss\u00edvel ter uma matriz assim e que comporte o crescimento de demanda de energia que o Brasil ainda vai ter.<\/p>\n<p>Em algum momento, passada a pandemia, e quando a economia se restabelecer, o pa\u00eds vai precisar crescer em termos de energia. E \u00e9 totalmente poss\u00edvel ter uma matriz com essas fontes. No caso da solar, com gera\u00e7\u00e3o distribu\u00edda, fica mais f\u00e1cil porque ela pode ser instalada facilmente. Mas existe uma li\u00e7\u00e3o de casa importante a ser feita: o planejamento para refor\u00e7ar o Sistema de transmiss\u00e3o no Sudeste e no Nordeste, principalmente, e tamb\u00e9m no Centro-Oeste, para que o Brasil fique mais resiliente em outros momentos de risco de racionamento.<\/p>\n<p><strong>Muitos especialistas se referem \u00e0 transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica como uma \u201ctransi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica justa e igualit\u00e1ria\u201d. Que peso ela poder\u00e1 ter no desenvolvimento dos pa\u00edses, especialmente daqueles mais pobres e que argumentam pela necessidade de continuar com uma matriz energ\u00e9tica f\u00f3ssil por mais tempo para garantir o desenvolvimento econ\u00f4mico e social?<\/strong><\/p>\n<p>Esse \u00e9 um ponto bastante importante e a quest\u00e3o da transi\u00e7\u00e3o justa est\u00e1 nos valores do Iema, assim como est\u00e1 presente na maior parte das outras organiza\u00e7\u00f5es ambientalistas. Essa discuss\u00e3o do clima, especialmente no Norte global, sempre tem que ser feita com muito cuidado, porque ainda existem muitos pa\u00edses em desenvolvimento com grandes necessidades energ\u00e9ticas, mas tamb\u00e9m de desenvolvimento social, o qual precisa acontecer para que essa transi\u00e7\u00e3o possa ser feita.<\/p>\n<p>No passado, elaboramos alguns cen\u00e1rios energ\u00e9ticos, deixando claro que a transi\u00e7\u00e3o acontecesse trazendo benef\u00edcios sociais, mostrando que a redu\u00e7\u00e3o da depend\u00eancia do \u00f3leo e do g\u00e1s traria benef\u00edcios. A pr\u00f3pria Associa\u00e7\u00e3o Internacional de Energias Renov\u00e1veis tamb\u00e9m destaca a gera\u00e7\u00e3o de emprego por causa das energias renov\u00e1veis, ou seja, a descarboniza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m vem com outros benef\u00edcios. Em algumas discuss\u00f5es estaduais, ela precisa ser feita com cuidado. Esse plano de transi\u00e7\u00e3o tem que ser estudado e implementado com responsabilidade, sabendo como ser\u00e1 feita tamb\u00e9m uma transi\u00e7\u00e3o dos empregos. Se formos colocar na ponta do l\u00e1pis, a diferen\u00e7a \u00e9 bastante ampla em rela\u00e7\u00e3o aos empregos que o setor solar vai gerar em compara\u00e7\u00e3o com os empregos que o setor de carv\u00e3o ou nuclear geram. Mas esse planejamento precisa ser feito de maneira pensada, e \u00e9 isso que est\u00e1 sendo discutido tanto nos EUA, onde existem grandes bols\u00f5es de carv\u00e3o, quanto em relat\u00f3rios, como o que foi lan\u00e7ado recentemente pelo World Wide Fund for Nature \u2013 WWF, mostrando outros cen\u00e1rios internacionais no Chile e na Espanha. Com planejamento, \u00e9 poss\u00edvel chegar a um \u00f3timo resultado.<\/p>\n<div id=\"outra-425011438\" class=\"outra-content\">\n<p>www.brasilpopular.com \/ <strong>Ricardo Baitelo<\/strong>, em entrevista a\u00a0<strong>Patricia Fachin<\/strong>, no\u00a0IHU Online \/ do site Outras M\u00eddias<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Caro tamb\u00e9m para o meio ambiente: um dos jabutis contidos na MP que abre a estatal ao setor privado obriga a prolifera\u00e7\u00e3o de termel\u00e9tricas a g\u00e1s, na contram\u00e3o da transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica \u00e0s menos poluentes, como a e\u00f3lica e solar Uma das pol\u00eamicas em torno da Medida Provis\u00f3ria \u2013 MP 1.031\/2021, referente \u00e0 privatiza\u00e7\u00e3o da Eletrobras, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":21698,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[25],"tags":[672],"class_list":["post-21697","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias","tag-privatizacao-eletrobras"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21697","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21697"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21697\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":21715,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21697\/revisions\/21715"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/21698"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21697"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21697"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21697"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}