{"id":21937,"date":"2021-08-11T12:18:03","date_gmt":"2021-08-11T15:18:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/?p=21937"},"modified":"2021-08-11T12:19:45","modified_gmt":"2021-08-11T15:19:45","slug":"brasil-com-fome-pandemia-e-desmonte-do-estado-agravam-drama-dos-trabalhadores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/2021\/08\/11\/brasil-com-fome-pandemia-e-desmonte-do-estado-agravam-drama-dos-trabalhadores\/","title":{"rendered":"Brasil com fome: pandemia e desmonte do Estado agravam drama dos trabalhadores"},"content":{"rendered":"<p class=\"description\"><strong>Com desemprego e pre\u00e7os dos alimentos nas alturas, necessidades da popula\u00e7\u00e3o s\u00e3o cada vez mais b\u00e1sicas<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ou\u00e7a o \u00e1udio:<\/strong><\/p>\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-21937-1\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/10-08-21-ESPECIAL-FOME-01-vale-este.mp3?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/10-08-21-ESPECIAL-FOME-01-vale-este.mp3\">https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/10-08-21-ESPECIAL-FOME-01-vale-este.mp3<\/a><\/audio>\n<p>\u201cOu pago o aluguel, ou fa\u00e7o alguma coisa em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as. Eu vou na feira, cato, pe\u00e7o, porque n\u00e3o tem como.\u201d<\/p>\n<p>O relato de Jaqueline Lima F\u00e9lix, de 22 anos, sintetiza o desespero de milh\u00f5es de fam\u00edlias em meio \u00e0\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/minuto-a-minuto\/coronavirus-no-brasil\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">pandemia de covid-19<\/a>.<\/p>\n<p>Desempregada desde 2019 e com dois filhos para sustentar, Jaqueline\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2021\/08\/04\/auxilio-insuficiente-e-proximo-do-fim-impoe-urgencia-sobre-novo-bolsa-familia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">recebe um aux\u00edlio emergencial de R$ 375<\/a>.<\/p>\n<p>A casa onde ela vive com os filhos tem um c\u00f4modo \u00fanico \u2013 o banheiro fica do lado de fora. Assim que paga o aluguel, sobram apenas R$ 125, insuficientes para a alimenta\u00e7\u00e3o dos tr\u00eas.<\/p>\n<p>Conforme dados do grupo de pesquisa\u00a0<a href=\"https:\/\/www.lai.fu-berlin.de\/en\/forschung\/food-for-justice\/events\/Cartaz_WP4_20210409.jpg?html=1&amp;locale=pt&amp;ref=115840800\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Alimento para Justi\u00e7a: Poder, Pol\u00edtica e Desigualdades Alimentares na Bioeconomia<\/a>, com sede na Freie Universit\u00e4t Berlin, na Alemanha, 125,6 milh\u00f5es de brasileiros sofreram com inseguran\u00e7a alimentar durante a pandemia. O n\u00famero equivale a 59,3% da popula\u00e7\u00e3o do pa\u00eds e se baseia em pesquisa realizada entre agosto e dezembro de 2020.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"YouTube video player\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/hvQeYnskdnE\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p>\u201cUm pacote de fralda, um fardo de leite, custa R$ 50. N\u00e3o cabe no or\u00e7amento do aux\u00edlio\u201d, lamenta a trabalhadora, que j\u00e1 foi faxineira e atendente no com\u00e9rcio, mas desistiu de procurar emprego.<\/p>\n<p>\u201cA gente acorda sem esperan\u00e7a de ter um p\u00e3o, um caf\u00e9 da manh\u00e3, um arroz. E sem saber se vai ter para comer no dia seguinte.\u201d<\/p>\n<p>Para sair do aluguel, que considera abusivo, Jaqueline est\u00e1 construindo um barraco na ocupa\u00e7\u00e3o Carolina Maria de Jesus, organizada pelo\u00a0<a href=\"https:\/\/mtst.org\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST)<\/a>\u00a0na zona leste de S\u00e3o Paulo (SP).<\/p>\n<p>Jaqueline vive de doa\u00e7\u00f5es da igreja e s\u00f3 faz duas refei\u00e7\u00f5es ao dia: caf\u00e9 da manh\u00e3, ao acordar, e um almo\u00e7o tardio, que se confunde com a janta.<\/p>\n<p>A t\u00e1bua de salva\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia s\u00e3o as cozinhas solid\u00e1rias organizadas durante a pandemia pelo MTST. Por meio de doa\u00e7\u00f5es, integrantes do movimento preparam e distribuem refei\u00e7\u00f5es gr\u00e1tis diariamente em cerca de 20 unidades em 11 estados brasileiros.<\/p>\n<figure style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images01.brasildefato.com.br\/e49cba814f5d57ee84fd3a12f433c7f6.jpeg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"533\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Jaqueline e os filhos s\u00f3 fazem duas refei\u00e7\u00f5es ao dia \/ Pedro Stropasolas<\/figcaption><\/figure>\n<p>Para al\u00e9m das comunidades religiosas e das cozinhas comunit\u00e1rias, um dos espa\u00e7os mais importantes de doa\u00e7\u00e3o de alimentos na cidade \u00e9 a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ceagesp.gov.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Companhia de Entrepostos e Armaz\u00e9ns Gerais do Estado de S\u00e3o Paulo (Ceagesp)<\/a>.<\/p>\n<p>Todas as quintas-feiras, desde janeiro, centenas de desempregados fazem fila logo cedo no port\u00e3o 7 do Ceagesp. Com carrinhos, sacolas e est\u00f4magos vazios, eles aguardam a doa\u00e7\u00e3o de frutas e verduras por at\u00e9 seis horas, sob sol e chuva.<\/p>\n<p>No primeiro semestre de 2021, foram 1276 toneladas de alimentos doados e mais de 3 milh\u00f5es de pessoas atendidas pelas a\u00e7\u00f5es do maior centro aliment\u00edcio da Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 a fila da sobreviv\u00eancia\u201d, define S\u00f4nia de Jesus, de 55 anos, que mora com o filho \u2013 formado em Economia e tamb\u00e9m desempregado \u2013 no Graja\u00fa. Ela trabalhava como diarista e cuidadora de idosos at\u00e9 o in\u00edcio de 2020, mas foi dispensada devido \u00e0 pandemia.<\/p>\n<p>Antes de descobrir as doa\u00e7\u00f5es no Ceagesp, o momento de abrir a geladeira era um dos mais tristes do dia. \u201cS\u00f3 tinha \u00e1gua\u201d, lembra a trabalhadora, que recebe R$ 150 de aux\u00edlio emergencial.<\/p>\n<p>\u201cS\u00f3 d\u00e1 para pagar minha conta de luz [com o valor do aux\u00edlio]. Eu pago R$ 500 de aluguel\u201d, diz. \u201cDez anos atr\u00e1s, eu enchia meu carrinho no mercado. Hoje, quando vou, saio com uma sacolinha\u201d.<\/p>\n<p>Desde o in\u00edcio da pandemia, o pre\u00e7o dos alimentos aumentou 15% no pa\u00eds, segundo o\u00a0Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica\u00a0(IBGE). A taxa \u00e9 quase o triplo da infla\u00e7\u00e3o geral registrada no mesmo per\u00edodo,\u00a05,2%.<\/p>\n<figure style=\"width: 686px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images03.brasildefato.com.br\/d23fee538ebede688e76af3e94bb9955.jpeg\" alt=\"\" width=\"686\" height=\"366\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Dados mostram que a crise \u00e9 anterior \u00e0 pandemia de covid-19 \/ Arte: Brasil de Fato<\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\"><strong>De gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Nascida em Pernambuco, a empregada dom\u00e9stica C\u00edcera Maria morou 12 anos em Macei\u00f3 (AL) e sobrevive h\u00e1 quase 30 na maior cidade do pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u201cVim fugindo da fome e da mis\u00e9ria, do Nordeste para S\u00e3o Paulo\u201d, ressalta. \u201cEu vim para uma casa de fam\u00edlia, ganhando dois sal\u00e1rios [m\u00ednimos]. Cheguei domingo, segunda j\u00e1 fui trabalhar.\u201d<\/p>\n<p>O pai de C\u00edcera morreu de fome aos 60 anos, quando ela tinha 16.<\/p>\n<p>\u201cMeu pai era o homem mais trabalhador do mundo. Trabalhava dia e noite para nos dar comida, mas somos 12 filhos, era muita gente\u201d, lembra.<\/p>\n<p>M\u00e3e solteira, C\u00edcera conta que come\u00e7ou a trabalhar aos 7 anos, cortando cana de a\u00e7\u00facar, e se alfabetizou aos 15.<\/p>\n<p>A vida come\u00e7ou a mudar quando ela conheceu a\u00a0<a href=\"https:\/\/www.educafro.org.br\/site\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Educafro<\/a>, institui\u00e7\u00e3o que se dedica \u00e0 inclus\u00e3o de negros e pobres em universidades p\u00fablicas ou em universidades particulares com bolsa de estudos.<\/p>\n<p>\u201cQuando entrei na faculdade, eu me senti gente\u201d, resume a empregada dom\u00e9stica, graduanda em Filosofia.<\/p>\n<figure style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images03.brasildefato.com.br\/99eebeb4caaee506d315137cde608af6.jpeg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"533\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">C\u00edcera Maria, fundadora da Casa do Amor \/ Pedro Stropasolas<\/figcaption><\/figure>\n<p>A percep\u00e7\u00e3o de que a vida melhorou nos anos em que o Brasil foi governado pelo ex-presidente Lula (PT) fez com que ela se filiasse ao Partido dos Trabalhadores (PT).<\/p>\n<p>C\u00edcera se candidatou duas vezes, a deputada federal e a vereadora, e durante a pandemia coordena um projeto de solidariedade na regi\u00e3o do Jardim Comercial, no Cap\u00e3o Redondo.<\/p>\n<p>A Casa do Amor\u00a0foi criada em julho de 2020. Al\u00e9m de ser o lugar onde ela vive e arrecada doa\u00e7\u00f5es de alimentos, o espa\u00e7o \u00e9 usado para acolhimento \u00e0 popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de rua e a trabalhadores que sofrem despejo.<\/p>\n<p>\u201cEu estudei a hist\u00f3ria desse pa\u00eds e posso dizer: ningu\u00e9m est\u00e1 na rua porque quer. \u00c9 cruel, \u00e9 muito sofrimento para o nosso povo pobre. \u00c9 muita falta de respeito, de humanidade de quem est\u00e1 no poder\u201d, afirma.<\/p>\n<p>\u201cEles roubaram nossos direitos, n\u00e3o t\u00eam um pingo de amor, o m\u00ednimo de respeito pelo pa\u00eds, pela p\u00e1tria. Que respeito Bolsonaro tem pelo Brasil?\u201d, completa a trabalhadora, que criou dois meninos que viviam na rua, e que hoje chama de sobrinhos.<\/p>\n<p>Durante a pandemia, a Casa do Amor\u00a0\u00e9 um ponto de doa\u00e7\u00e3o de cestas b\u00e1sicas e de distribui\u00e7\u00e3o de frutas e verduras oriundas de bancos de alimentos.<\/p>\n<p>\u201cAs doa\u00e7\u00f5es, agora, s\u00e3o poucas. A gente v\u00ea o povo desempregado, com fome, sofrendo\u201d, lamenta C\u00edcera.<\/p>\n<figure style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images01.brasildefato.com.br\/de7d33fcdfb33471a6a5c11261b216f8.jpeg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"450\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Coaliz\u00e3o Negra por Direitos defende aux\u00edlio emergencial de R$ 600 para todos os trabalhadores at\u00e9 o fim da pandemia \/ Beatriz Rodrigues<\/figcaption><\/figure>\n<p>As pessoas atendidas na Casa do Amor\u00a0est\u00e3o entre as 222.895 fam\u00edlias mapeadas pela Coaliz\u00e3o Negra por Direitos por meio da Campanha Tem Gente Com Fome, que vem apoiando e mobilizando periferias, favelas, e quilombos em todo o territ\u00f3rio nacional.<\/p>\n<p>Militante da Coaliz\u00e3o Negra por Direitos, Douglas Belchior afirma que o aumento da fome durante a pandemia, especialmente nas regi\u00f5es perif\u00e9ricas, configura genoc\u00eddio e crime contra a humanidade.<\/p>\n<p>\u201cO genoc\u00eddio, no conceito internacional, \u00e9 o resultado em mortes de uma pol\u00edtica deliberada do Estado dirigida a determinados grupos s\u00f3cio-pol\u00edticos-\u00e9tnicos-culturais-religiosos. No caso brasileiro, eu estou falando de uma massa de pessoas pretas, que conformam a maioria esmagadora dos mais pobres, que s\u00e3o os desempregados, que n\u00e3o conseguem ganhar o p\u00e3o de cada dia nem no mercado informal\u201d, avalia.<\/p>\n<p>\u201cA fome n\u00e3o \u00e9 uma manifesta\u00e7\u00e3o alheia \u00e0 realidade. Ela \u00e9 resultado de pol\u00edticas planejadas, que garantem que, ao mesmo tempo que tem 20 milh\u00f5es de pessoas passando fome, o Brasil tenha produzido duas d\u00fazias de bilion\u00e1rios\u201d, acrescenta o militante.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"YouTube video player\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ejq0I8g4b-o\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\"><strong>Brasil j\u00e1 foi refer\u00eancia\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Garantir que todos os brasileiros pudessem fazer tr\u00eas refei\u00e7\u00f5es ao dia era uma das metas do ent\u00e3o presidente Lula ao tomar posse em 2003.<\/p>\n<p>Meses antes da primeira vit\u00f3ria eleitoral de Lula, um relat\u00f3rio das Na\u00e7\u00f5es Unidas informou que a fome estava se agravando e que n\u00e3o havia nenhuma estrat\u00e9gia por parte do Estado brasileiro para enfrent\u00e1-la.<\/p>\n<p>A resposta foi oficializada em 2003, com o programa Fome Zero.<\/p>\n<p>\u201cA meta era atender entre 20 e 22 milh\u00f5es de fam\u00edlias que estariam em situa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a alimentar\u201d, explica o economista Walter Belik, um dos criadores do programa.<\/p>\n<p>O Fome Zero mirava quatro elementos centrais ligados \u00e0 seguran\u00e7a alimentar. Os dois primeiros j\u00e1 vinham sendo discutidos pelos movimentos populares \u00e0 \u00e9poca: a disponibilidade de alimentos e o acesso a eles.<\/p>\n<p>O terceiro elemento era a estabilidade. \u201cOu seja, como manter tudo isso. N\u00e3o era uma discuss\u00e3o apenas de dar uma cesta b\u00e1sica ou um aux\u00edlio emergencial\u201d, observa Belik.<\/p>\n<p>Por fim, tamb\u00e9m estava no centro dos debates a qualidade da comida.<\/p>\n<p>\u201cContamina\u00e7\u00e3o, transg\u00eanicos, agrot\u00f3xicos, alimentos org\u00e2nicos, tudo isso estava sendo discutido no momento em que se colocou o Fome Zero\u201d, acrescenta o economista.<\/p>\n<p>O programa \u00e9 considerado at\u00e9 hoje um dos exemplos mais bem-sucedidos de combate \u00e0 inseguran\u00e7a alimentar no planeta. Gra\u00e7as a pol\u00edticas de valoriza\u00e7\u00e3o do sal\u00e1rio m\u00ednimo e de distribui\u00e7\u00e3o de renda, como o Bolsa Fam\u00edlia, o Brasil deixou o Mapa da Fome em 2014.<\/p>\n<p>Segundo o\u00a0<a href=\"https:\/\/www.ipea.gov.br\/portal\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada (Ipea)<\/a>, o Bolsa Fam\u00edlia reduziu a pobreza em 15% e a extrema pobreza em 25% em uma d\u00e9cada e meia.<\/p>\n<p>\u201cOs n\u00edveis mais graves de inseguran\u00e7a alimentar, que a gente pode chamar de fome, estavam praticamente controlados. Em termos estat\u00edsticos, era um quase irrelevante o n\u00famero de fam\u00edlias que estavam passando fome na d\u00e9cada passada\u201d, relembra o economista Walter Belik.<\/p>\n<figure style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images02.brasildefato.com.br\/f1f7cc1c7163365380f10db104f9792b.jpeg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"533\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Ocupa\u00e7\u00e3o do MTST no Cap\u00e3o Redondo, em S\u00e3o Paulo: inseguran\u00e7a alimentar grave (fome) atingiu 9% da popula\u00e7\u00e3o brasileira em 2020 \/ Pedro Stropasolas<\/figcaption><\/figure>\n<p>Para trabalhadores como o seguran\u00e7a Emerson Pav\u00e3o, de 50 anos, as conquistas daquela \u00e9poca ficaram no passado.<\/p>\n<p>Desempregado desde o in\u00edcio da pandemia, ele precisou deixar a casa onde morava e passa as noites, desde 2020, em albergues paulistanos. A esposa pediu div\u00f3rcio, e ele sobrevive de doa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u201cEstou\u00a0mandando alguns curr\u00edculos. Enquanto n\u00e3o aparece nada, fico entre meus livros e o viol\u00e3o. Gosto de fazer palavras cruzadas tamb\u00e9m. Se parar de exercitar a mente, voc\u00ea acaba ficando doido\u201d, afirma.<\/p>\n<p>\u201cTem umas ONGs que v\u00eam nos trazer marmita, mas n\u00e3o \u00e9 toda noite. A\u00ed vem aquela hora em que voc\u00ea se v\u00ea obrigado a se humilhar. Chegar para um estranho e dizer: estou com fome. Muitos s\u00e3o solid\u00e1rios, mas muitos te tratam como se fosse um vira-lata\u201d, relata o trabalhador.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\"><strong>Comida volta a ser prioridade<\/strong><\/p>\n<p>O soci\u00f3logo Herbert de Sousa, conhecido como Betinho (1935-1997), foi um dos \u00edcones do combate \u00e0 fome no Brasil.<\/p>\n<p>H\u00e1 28 anos, ele criou a organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o-governamental (ONG)\u00a0<a href=\"https:\/\/www.acaodacidadania.org.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">A\u00e7\u00e3o da Cidadania<\/a>, que possui comit\u00eas locais em todos os estados e organiza milhares de comunidades na luta por direitos sociais, come\u00e7ando pelo direito \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A proposta inicial da ONG era arrecadar e distribuir alimentos. No entanto, avan\u00e7os promovidos a partir do Fome Zero fizeram com que os sucessores de Betinho mirassem outros horizontes.<\/p>\n<p>\u201cQuando eu entrei na A\u00e7\u00e3o da Cidadania, em 2010, j\u00e1 n\u00e3o se fazia mais arrecada\u00e7\u00e3o de alimentos. Est\u00e1vamos trabalhando com a quest\u00e3o da \u2018fome de livro\u2019, \u2018fome de cidadania\u2019, garantia de direitos para a juventude\u201d, conta Ana Paula de Souza, coordenadora de advocacy da ONG.<\/p>\n<p>\u201cComemoramos muito a sa\u00edda do Brasil do Mapa da Fome, em 2014. Mas, anos depois, j\u00e1 come\u00e7amos a sentir um efeito contr\u00e1rio, e logo voltou a aparecer nos comit\u00eas a demanda por alimentos\u201d, lembra. \u201cIsso assustou bastante.\u201d<\/p>\n<p>A A\u00e7\u00e3o da Cidadania voltou a organizar campanhas emergenciais para doa\u00e7\u00e3o de alimentos a partir de 2017.<\/p>\n<p>\u201cEm 2018, a situa\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a se agravar. E no ano seguinte, para completar, o Conselho Nacional de Seguran\u00e7a Alimentar e Nutricional [Consea] foi extinto. A partir da\u00ed foram v\u00e1rias not\u00edcias, uma atr\u00e1s da outra, de perda de direitos\u201d, lamenta Ana Paula.<\/p>\n<p>O Consea era respons\u00e1vel pelas diretrizes das pol\u00edticas p\u00fablicas de combate \u00e0 fome no Brasil e, durante os governos PT, foi um dos pilares do Sistema Nacional de Seguran\u00e7a Alimentar e Nutricional (SISAN). Ligado diretamente \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, o conselho foi extinto no primeiro dia do governo de Jair Bolsonaro.<\/p>\n<figure style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images03.brasildefato.com.br\/c561ce550462928bc116eb010d0085a0.jpeg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"450\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Solidariedade entre trabalhadores salvou vidas na pandemia \/ Beatriz Rodrigues<\/figcaption><\/figure>\n<p>A Emenda Constitucional 95, do \u201cTeto de Gastos\u201d, foi um dos golpes mais duros, segundo a integrante da ONG. A medida, aprovada em 2017 durante o governo Michel Temer (MDB), congelou investimentos em \u00e1reas sociais por 20 anos.<\/p>\n<p>\u201cForam fechados restaurantes populares e cozinhas comunit\u00e1rias em todo o Brasil, em estado de total abandono\u201d, diz.<\/p>\n<p>O abandono das pol\u00edticas de combate \u00e0 mis\u00e9ria recolocou o Brasil no caminho do Mapa da Fome h\u00e1 tr\u00eas anos. O status brasileiro n\u00e3o foi atualizado no \u00faltimo mapa divulgado pela organiza\u00e7\u00e3o, em 2020, porque os indicadores utilizados est\u00e3o defasados em rela\u00e7\u00e3o aos do IBGE. Atualmente,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2021\/06\/30\/afinal-o-brasil-esta-ou-nao-no-mapa-da-fome-da-onu\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">a ONU n\u00e3o utiliza mais a ferramenta para comunicar os dados da fome no mundo<\/a>.<\/p>\n<p>Os dados da\u00a0<a href=\"https:\/\/pesquisassan.net.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Rede Penssan<\/a>, reconhecidos pela Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para Agricultura e Alimenta\u00e7\u00e3o (FAO) como os mais adequados para criar um novo Mapa da Fome no Brasil, apontam que a inseguran\u00e7a alimentar grave atingia 9% da popula\u00e7\u00e3o em 2020.<\/p>\n<p>O relat\u00f3rio mais recente da pr\u00f3pria FAO apontou que 23,5% da popula\u00e7\u00e3o brasileira, entre 2018 e 2020, deixou de comer por falta de dinheiro ou precisou reduzir a quantidade e qualidade dos alimentos ingeridos.<\/p>\n<p>Os resultados evidenciam que, em 2020, a fome no Brasil retornou aos patamares de 2004.<\/p>\n<figure style=\"width: 686px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images02.brasildefato.com.br\/28a2ad7676d7d677d8e8726a19f53443.jpeg\" alt=\"\" width=\"686\" height=\"287\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Com Temer e Bolsonaro, pa\u00eds voltou aos patamares do Mapa da Fome \/ Arte: Brasil de Fato \/ Foto: Pedro Stropasolas<\/figcaption><\/figure>\n<p>\u201cA gente ficou com a sa\u00fade fragilizada, com a seguran\u00e7a alimentar amea\u00e7ada, num momento de pandemia, justamente quando as pessoas precisam estar com sua imunidade preparada\u201d, ressalta Ana Paula.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\">Desidrata\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>O desmonte das pol\u00edticas p\u00fablicas de combate \u00e0 fome foi agravado no governo de Jair Bolsonaro (sem partido), mas \u00e9 anterior.<\/p>\n<p>\u201cCome\u00e7a a partir da primeira metade da d\u00e9cada passada, ainda no governo Dilma Rousseff (PT), com uma perspectiva de austeridade, de cortar gasto p\u00fablico. Nesses cortes, entraram v\u00e1rios programas sociais\u201d, lembra Walter Belik, professor aposentado do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).<\/p>\n<p>\u201cComo a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica estava inst\u00e1vel, o governo resolveu n\u00e3o avan\u00e7ar em determinados programas, por exemplo, a reforma agr\u00e1ria. Ela entrou em modo de paralisa\u00e7\u00e3o a partir do in\u00edcio de 2010. Assentou-se muito pouca gente\u201d, lamenta o economista.<\/p>\n<p>Com o golpe parlamentar de 2016, Dilma foi substitu\u00edda pelo vice Michel Temer, e o or\u00e7amento sofreu cortes ainda mais profundos.<\/p>\n<p>O Programa de Aquisi\u00e7\u00e3o de Alimentos (PAA) \u2013 que obriga os governos a comprarem produtos da agricultura familiar para equipamentos p\u00fablicos, como escolas, creches e hospitais \u2013 atingiu um pico de mais de R$ 1 bilh\u00e3o em 2012, por exemplo, mas perdeu quase 90% dessa verba ap\u00f3s o golpe.<\/p>\n<p>A revers\u00e3o da curva de combate \u00e0 fome foi imediata. Segundo a Pesquisa de Or\u00e7amentos Familiares (POF) 2017-2018, a inseguran\u00e7a alimentar teve aumento de 33,3% em rela\u00e7\u00e3o a 2003 e de 62,2% em rela\u00e7\u00e3o a 2013. Ou seja, a situa\u00e7\u00e3o j\u00e1 era pior do que ao in\u00edcio do governo Lula.<\/p>\n<figure style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images01.brasildefato.com.br\/3c490355e118b5c6197bb43a0217f7ca.jpeg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"533\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Centenas de moradores em situa\u00e7\u00e3o de rua tomam caf\u00e9 da manh\u00e3 e almo\u00e7am diariamente no N\u00facleo de Conviv\u00eancia S\u00e3o Martinho de Lima, em SP \/ Pedro Stropasolas<\/figcaption><\/figure>\n<p>O baiano Edson dos Santos, de 53 anos, toma caf\u00e9 da manh\u00e3 todos os dias no N\u00facleo de Conviv\u00eancia S\u00e3o Martinho de Lima, organizado pela Prefeitura de S\u00e3o Paulo e pela Pastoral do Povo da Rua, no bairro Bel\u00e9m.<\/p>\n<p>\u201cTem um bom tempo que eu n\u00e3o vou no mercado. \u00c9 muito caro, e eu t\u00f4 sem condi\u00e7\u00f5es de tomar caf\u00e9 em uma padaria. Antigamente, com R$ 2 ou 3 a gente tomava um cafezinho e comia um p\u00e3ozinho. Agora, s\u00f3 um caf\u00e9 preto mesmo, e pronto\u201d, conta o trabalhador, que passa as noites em albergues.<\/p>\n<p>Operador de cargas, Edson sofreu h\u00e1 21 anos um acidente de trabalho que comprometeu a vis\u00e3o de um dos olhos e deixou sequelas motoras. Encontrar trabalho nessas condi\u00e7\u00f5es, em plena pandemia, \u00e9 uma miss\u00e3o quase imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>A faxineira Luzia Jana\u00edna da Cunha tem a mesma idade de Edson. Assim como ele, mora em um albergue, perdeu o emprego na pandemia e mata a fome no S\u00e3o Martinho.<\/p>\n<p>\u201cAqui todo dia \u00e9 arroz, feij\u00e3o, carne, legumes, frutas, p\u00e3es. \u00c9 uma refei\u00e7\u00e3o completa\u201d, elogia.\u201cJamais eu ia conseguir me sustentar pagando R$ 25 num pacote de arroz [5 kg], sendo que agora eu estou parada e n\u00e3o ganho nada. Eu recebo Bolsa Fam\u00edlia, que \u00e9 o que est\u00e1 me mantendo.\u201d<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\">Necessidades cada vez mais elementares<\/p>\n<p>O padre Julio Lancellotti \u00e9 um dos respons\u00e1veis pela arrecada\u00e7\u00e3o de alimentos e pela distribui\u00e7\u00e3o, todas as manh\u00e3s, a trabalhadores desempregados da regi\u00e3o. Segundo ele, o aumento da mis\u00e9ria no pa\u00eds salta aos olhos.<\/p>\n<p>\u201cEssa crise humanit\u00e1ria se acentua pela impossibilidade do acesso \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o, em quantidade e em qualidade. Hoje, o n\u00famero de pessoas que est\u00e3o pelas ruas \u00e9 cada vez maior, o desemprego \u00e9 muito grande, e muitas pessoas que ainda mant\u00eam seus espa\u00e7os para dormir t\u00eam que escolher: ou morar, ou comer\u201d, relata.<\/p>\n<p>Para o religioso, o conv\u00edvio com a popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de rua e moradores de albergues \u00e9 um aprendizado di\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u201cO povo que est\u00e1 oprimido, que est\u00e1 sofrendo com a crise humanit\u00e1ria, pensa tamb\u00e9m de maneira meritocr\u00e1tica, de maneira neoliberal. Ent\u00e3o, a conviv\u00eancia com a pessoa em situa\u00e7\u00e3o de rua \u00e9 conflitiva tamb\u00e9m. Quando a gente leva o marmitex em \u00e1reas de muita fome, se um puder pegar tr\u00eas, ele n\u00e3o vai se importar se o outro ficar sem nenhuma\u201d, diz.<\/p>\n<p>Lancellotti \u00e9 uma refer\u00eancia para milhares de desempregados e desalentados, que dependem de doa\u00e7\u00f5es de alimentos, utens\u00edlios dom\u00e9sticos e roupas de inverno, por exemplo.<\/p>\n<figure style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images01.brasildefato.com.br\/1d2ce695240b022f67ee92b1ed7291e5.jpeg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"533\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Padre J\u00falio Lancellotti participa da doa\u00e7\u00e3o de alimentos e roupas no bairro Bel\u00e9m, em S\u00e3o Paulo \/ Pedro Stropasolas<\/figcaption><\/figure>\n<p>Em tempos de pandemia, com 14,8 milh\u00f5es \u00e0 procura de emprego, segundo o IBGE, as necessidades s\u00e3o cada vez mais elementares.<\/p>\n<p>\u201cAs pessoas passaram a buscar, constantemente, g\u00e1s para cozinhar. \u00c9 um indicador de crise humanit\u00e1ria, ter que voltar a fazer comida com etanol. E nem isso as pessoas est\u00e3o conseguindo, porque o litro do \u00e1lcool est\u00e1 com pre\u00e7o muito elevado. Ent\u00e3o, tem que cozinhar com madeira, inclusive com lenha n\u00e3o adequada para o fogo de cozimento\u201d, descreve.<\/p>\n<p>O aumento do pre\u00e7o do g\u00e1s de cozinha est\u00e1 relacionado \u00e0 pol\u00edtica de atrelamento dos pre\u00e7os dos derivados do petr\u00f3leo ao mercado internacional, adotada nas gest\u00f5es Temer e Bolsonaro.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\">Aposentadoria n\u00e3o d\u00e1 conta<\/p>\n<p>A reforma da Previd\u00eancia, aprovada em 2019, multiplicou os obst\u00e1culos no caminho at\u00e9 a aposentadoria.<\/p>\n<p>Mesmo quem chegou l\u00e1 e recebe um sal\u00e1rio m\u00ednimo no in\u00edcio de cada m\u00eas tem dificuldade ao fazer compras no mercado.<\/p>\n<p>\u00c9 o caso de Vera L\u00facia Silva dos Santos, de 66 anos, que mora no bairro S\u00e3o Judas. Desde 2019, ela frequenta a fila do Ceagesp para receber alimentos.<\/p>\n<p>\u201cA gente paga R$ 3 em um p\u00e9 de alface, um absurdo. Ovo, que \u00e9 o que a gente tinha de mais barato, hoje em dia n\u00e3o compra mais. Carne, nem se fala\u201d, lamenta, enquanto aguarda a doa\u00e7\u00e3o debaixo de sol.<\/p>\n<p>Se o g\u00e1s de cozinha \u00e9 caro para Vera L\u00facia, que recebe a aposentadoria, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda mais dram\u00e1tica na casa de Aline Silva, de 22 anos.<\/p>\n<p>Moradora do Cap\u00e3o Redondo e m\u00e3e de uma filha, ela trabalhava como camareira em um hotel e foi dispensada h\u00e1 pouco mais de um ano, quando come\u00e7ou a pandemia.<\/p>\n<p>\u201cEu recebo Bolsa Fam\u00edlia, e agora aux\u00edlio emergencial, mas dependo de ajuda para comprar alimentos\u201d, conta.<\/p>\n<p>Aline vive com a irm\u00e3, que tem mais duas filhas.<\/p>\n<p>\u201cAntigamente a gente comia macarr\u00e3o, ovo, essas coisas. Quando eu estava trabalhando, a gente conseguia dar uma alimenta\u00e7\u00e3o mais saud\u00e1vel para as crian\u00e7as. Agora, mudou um pouco.\u201d<\/p>\n<p>\u201cA gente teve que comprar o g\u00e1s, e s\u00f3 sobrou uns R$ 200 [do aux\u00edlio]. A\u00ed, a gente s\u00f3 compra mistura, umas coisas que as crian\u00e7as precisam, leite, fralda, essas coisas\u201d, acrescenta.<\/p>\n<p>A \u00faltima parcela do aux\u00edlio emergencial, com valor m\u00e9dio de R$ 200, ser\u00e1 depositada pelo governo federal em outubro de 2021. A promessa de Bolsonaro \u00e9 reformular o programa Bolsa Fam\u00edlia, aumentando o valor m\u00e9dio do benef\u00edcio, de R$ 190 para R$ 400, e a abrang\u00eancia, de 14,7 milh\u00f5es para 17 milh\u00f5es de fam\u00edlias.<\/p>\n<p>Segundo estimativa da Rede Brasileira de Renda B\u00e1sica, sem o aux\u00edlio emergencial e com aumento do custo de vida, o n\u00famero de benefici\u00e1rios deveria ser ampliado em pelo menos 7 milh\u00f5es para ter um impacto significativo.<\/p>\n<figure style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images02.brasildefato.com.br\/457165ad5a319187e27aa24c8e5bddf6.jpeg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"533\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Aline Silva e suas crian\u00e7as reduziram a ingest\u00e3o di\u00e1ria de calorias durante a crise sanit\u00e1ria \/ Pedro Stropasolas<\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\"><strong>Pior para quem ficou sem aux\u00edlio<\/strong><\/p>\n<p>Maria Eliane Pereira dos Santos contraiu covid-19 enquanto trabalhava como auxiliar de servi\u00e7os gerais em uma escola, e hoje est\u00e1 desempregada.<\/p>\n<p>\u201cEstou vivendo de ajuda, de cesta b\u00e1sica. Minha filha trabalha, tem um filhinho, e faz faculdade, n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es de me ajudar\u201d, conta a trabalhadora, que chegou a ficar 10 dias internada at\u00e9 se recuperar do v\u00edrus.<\/p>\n<p>Aos 52 anos, ela est\u00e1 na 2\u00aa s\u00e9rie do ensino fundamental e ganhou um\u00a0<em>tablet\u00a0<\/em>para fazer aulas virtuais na pandemia.<\/p>\n<p>\u201cTenho muita dificuldade de conseguir emprego porque n\u00e3o sei ler. As pessoas falam \u2018ent\u00e3o, aguarda em casa que a gente vai ligar\u2019, mas n\u00e3o ligam. Ent\u00e3o, cuido dos netos e me viro como posso, fa\u00e7o bico, lavo banheiro, o que precisar\u201d, diz.<\/p>\n<p>A covid fez com que ela revivesse algumas das piores lembran\u00e7as. Entre elas, o drama de viver na rua com o primeiro filho, at\u00e9 ser acolhida em uma casa, onde foi admitida como empregada dom\u00e9stica.<\/p>\n<p>Em 2012, Maria Eliane come\u00e7ou a trabalhar como auxiliar de servi\u00e7os gerais na escola em que a filha estudava. Ganhava R$ 1.040, tinha um vale-alimenta\u00e7\u00e3o de R$ 400 e uma cesta de R$ 140.<\/p>\n<p>\u201cEu comprava carne, enchia o freezer para o m\u00eas todo. Hoje, a gente come carne duas vezes no m\u00eas, e \u00e0s vezes n\u00e3o tem nem um ovo\u201d, afirma.<\/p>\n<p>\u201cAntes eu pagava luz, \u00e1gua, telefone. Conseguia comprar perfume, roupa, e ainda sobrava uns R$ 200. Rendia muito e dava para sobreviver.\u201d<\/p>\n<p>H\u00e1 um ano, o contrato da escola com a empresa terceirizada que era funcion\u00e1ria venceu e ela foi desligada.<\/p>\n<p>Como a crise da covid-19 come\u00e7ou durante seu aviso pr\u00e9vio, Maria Eliane n\u00e3o conseguiu acessar o aux\u00edlio emergencial at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Ao deixar a escola, em maio de 2020, a trabalhadora recebeu cinco parcelas do seguro-desemprego, e R$ 2,1 mil por tempo de trabalho, que gastou quase todo em uma geladeira, de R$ 1,4 mil. Logo, come\u00e7aram as dificuldades.<\/p>\n<p>\u201cEu falo e me d\u00e1 at\u00e9 vontade de chorar. Porque eu passei fome na inf\u00e2ncia. E, depois de 50 anos, reviver isso, ter que depender dos outros para comer, \u00e9 muito triste. \u00c9 humilhante demais\u201d, diz.<\/p>\n<p>\u201cQuando eu era mais nova e passei necessidade, n\u00e3o sentia tanto assim. S\u00f3 sentia falta do que comer. Mas hoje, m\u00e3e de fam\u00edlia, \u00e9 muito triste. Vai l\u00e1 no profundo da gente, d\u00f3i muito. E saber que o pa\u00eds \u00e9 t\u00e3o rico, mas as pessoas ainda passam fome.\u201d<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"YouTube video player\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/_YR4jP89yEs\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\"><strong>Agroneg\u00f3cio e reforma agr\u00e1ria<\/strong><\/p>\n<p>S\u00f4nia de Jesus \u00e9 uma das figuras mais conhecidas da fila de doa\u00e7\u00f5es do Ceagesp. M\u00e3e de um economista, ela tem clareza de que a inseguran\u00e7a alimentar que atinge sua fam\u00edlia est\u00e1 ligada \u00e0 pol\u00edtica agr\u00edcola do governo brasileiro.<\/p>\n<p>\u201cO que est\u00e1 errado \u00e9 que o governo n\u00e3o tem controle do agroneg\u00f3cio. O Brasil \u00e9 muito rico em alimentos, frutas, legumes, mas exporta muito para o exterior. Quando vai para o exterior, o pre\u00e7o j\u00e1 volta em d\u00f3lar, mais caro\u201d, analisa, a partir das conversas com o filho.<\/p>\n<p>O problema poderia ser amenizado\u00a0<a href=\"http:\/\/lula:%20Bolsonaro%20ignora%20fome%20no%20Brasil%20e%20n%C3%A3o%20sabe%20o%20que%20significa%20&quot;seguran%C3%A7a%20alimentar&quot;\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">caso o governo investisse em estoques reguladores<\/a>, segundo um dos criadores do Fome Zero.<\/p>\n<p>\u201cQuando os pre\u00e7os disparam, o governo coloca os seus estoques reguladores no mercado, de forma a aumentar a oferta e cair o pre\u00e7o. Quando o pre\u00e7o est\u00e1 muito baixo \u2013 o que pode desestimular o agricultor a plantar para uma pr\u00f3xima safra \u2013, o governo compra estoques de forma a dar sustenta\u00e7\u00e3o de pre\u00e7o\u201d, explica Walter Belik.<\/p>\n<p>Programas como o PAA previam estoques reguladores a partir de compras da agricultura familiar e da reforma agr\u00e1ria, n\u00e3o do agroneg\u00f3cio.<\/p>\n<p>\u201cEnt\u00e3o, ao mesmo tempo em que voc\u00ea resolve um problema estrat\u00e9gico, que \u00e9 manter estoques, voc\u00ea faz uma pol\u00edtica de incentivo \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de segmentos que voc\u00ea quer aumentar a renda\u201d, acrescenta o economista.<\/p>\n<p>Ana Paula de Souza, da ONG A\u00e7\u00e3o da Cidadania, tamb\u00e9m lamenta\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2020\/01\/28\/no-governo-bolsonaro-compras-publicas-de-alimentos-viram-lenda\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">o desmonte do PAA e a redu\u00e7\u00e3o dos investimentos nos pequenos produtores<\/a>.<\/p>\n<p>\u201cA agricultura familiar, que coloca alimento na mesa da popula\u00e7\u00e3o, \u00e9 justamente quem est\u00e1 mais sofrendo, por desinvestimento, enquanto o governo ajuda a financiar o agroneg\u00f3cio, que em geral n\u00e3o produz alimento: produz commodities para exporta\u00e7\u00e3o\u201d, completa.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\">Os sentidos da solidariedade<\/p>\n<p>Coordenadora de advocacy da ONG de Betinho, Ana Paula ressalta que doa\u00e7\u00f5es s\u00e3o importantes, mas n\u00e3o resolvem o problema estrutural da fome no Brasil.<\/p>\n<p>\u201cUma coisa \u00e9 voc\u00ea entregar uma cesta b\u00e1sica para uma pessoa que est\u00e1 precisando de uma ajuda emergencial naquele momento. Outra coisa \u00e9 a gente ver cada vez mais fam\u00edlias em uma situa\u00e7\u00e3o permanente de necessidade de alimento\u201d, analisa.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o tem como a gente fazer isso se n\u00e3o for atrav\u00e9s de pol\u00edticas p\u00fablicas, que garantam renda b\u00e1sica para essa popula\u00e7\u00e3o, por exemplo\u201d, acrescenta.<\/p>\n<p>Em uma linha de racioc\u00ednio semelhante, o padre Julio Lancellotti analisa seu pr\u00f3prio papel na Pastoral do Povo da Rua de forma dial\u00e9tica.<\/p>\n<p>\u201cCom uma m\u00e3o a gente d\u00e1 o p\u00e3o, e com a outra a gente luta. Eu n\u00e3o posso dizer para quem est\u00e1 faminto agora: \u2018Vamos esperar a revolu\u00e7\u00e3o acontecer, a transforma\u00e7\u00e3o social, a justi\u00e7a se instalar.\u2019 At\u00e9 l\u00e1, ele morreu. Ent\u00e3o, eu preciso dar o p\u00e3o para ele agora, porque ele tem fome, tem pressa. Mas, tenho que continuar lutando, n\u00e3o posso perder o horizonte da luta\u201d, afirma o religioso.<\/p>\n<p>Walter Belik estima que 60 milh\u00f5es de brasileiros dependam da solidariedade para se alimentar durante a pandemia. Uma das\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/colunistas\/periferia-viva\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">campanhas de maior abrang\u00eancia \u00e9 a Periferia Viva<\/a>, organizada por militantes de organiza\u00e7\u00f5es como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o Movimento de Trabalhadoras e Trabalhadores por Direitos (MTD) e o\u00a0<a href=\"https:\/\/levante.org.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Levante Popular da Juventude<\/a>.<\/p>\n<p>O cofundador do Fome Zero diz que a crise sanit\u00e1ria e econ\u00f4mica ressalta a import\u00e2ncia de pol\u00edticas p\u00fablicas que sa\u00edram gradativamente da agenda.<\/p>\n<p>\u201cVemos o MST e outros movimentos organizando cozinhas comunit\u00e1rias, que s\u00e3o super importantes para garantir que pessoas de baixa renda tenham alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel. A atividade de preparo de alimentos \u00e9 distribu\u00edda pela comunidade, coletivamente. Isso \u00e9 super importante\u201d, enaltece.<\/p>\n<p>\u201cN\u00f3s tentamos fazer isso no in\u00edcio do Fome Zero, mas por v\u00e1rios motivos n\u00e3o avan\u00e7ou. Este \u00e9 o momento.\u201d<\/p>\n<p>Em contato permanente com trabalhadores acometidos pela fome, Julio Lancellotti diz que os retrocessos dos \u00faltimos cinco anos encerraram um ciclo de esperan\u00e7a, que precisa ser reaberto.<\/p>\n<p>\u201cEu sinto que o povo est\u00e1 muito cansado, n\u00e3o aguenta mais. Ent\u00e3o, a fome \u00e9 de comida e de sentido de vida\u201d, enfatiza.<\/p>\n<p>\u201cSe, o pouco que tenho para comer, eu como triste e angustiado, isso n\u00e3o me sustenta. Eu preciso comer com esperan\u00e7a\u201d, finaliza.<\/p>\n<p>www.brasildefato.com.br \/Pedro Stropasolas e Daniel Giovanaz<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com desemprego e pre\u00e7os dos alimentos nas alturas, necessidades da popula\u00e7\u00e3o s\u00e3o cada vez mais b\u00e1sicas Ou\u00e7a o \u00e1udio: \u201cOu pago o aluguel, ou fa\u00e7o alguma coisa em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as. Eu vou na feira, cato, pe\u00e7o, porque n\u00e3o tem como.\u201d O relato de Jaqueline Lima F\u00e9lix, de 22 anos, sintetiza o desespero [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":21938,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[25],"tags":[649,194],"class_list":["post-21937","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias","tag-combate-a-fome","tag-fome-no-brasil"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21937","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21937"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21937\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":21942,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21937\/revisions\/21942"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/21938"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21937"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21937"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21937"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}