{"id":22302,"date":"2021-09-03T10:23:33","date_gmt":"2021-09-03T13:23:33","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/?p=22302"},"modified":"2021-09-03T10:24:46","modified_gmt":"2021-09-03T13:24:46","slug":"nao-tem-coisa-pior-do-que-dormir-com-fome-relata-moradora-da-periferia-de-belem-pa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/2021\/09\/03\/nao-tem-coisa-pior-do-que-dormir-com-fome-relata-moradora-da-periferia-de-belem-pa\/","title":{"rendered":"N\u00e3o tem coisa pior do que dormir com fome, relata moradora da periferia de Bel\u00e9m (PA)"},"content":{"rendered":"<p class=\"description\"><strong>Na Vila da Barca, al\u00e9m de serem privadas de \u00e1gua, esgoto e energia el\u00e9trica, as pessoas passam fome na pandemia<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ou\u00e7a o \u00e1udio:<\/strong><\/p>\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-22302-1\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/02-09-21-ESPECIAL-FOME-PA-02-ajuste.mp3?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/02-09-21-ESPECIAL-FOME-PA-02-ajuste.mp3\">https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/02-09-21-ESPECIAL-FOME-PA-02-ajuste.mp3<\/a><\/audio>\n<p>A vida do povo brasileiro, sem d\u00favida, mudou para pior. Com a crise sanit\u00e1ria do novo coronav\u00edrus, as pessoas\u00a0que vivem em\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2021\/04\/18\/na-pandemia-13-6-dos-brasileiros-acima-de-18-anos-ja-ficaram-um-dia-sem-refeicao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade social<\/a>\u00a0foram ainda mais\u00a0afetadas. Na regi\u00e3o Norte do pa\u00eds,\u00a067% viveram a dor de saber se teriam ou n\u00e3o comida no prato. Em uma das maiores favelas de palafitas do Brasil, a Vila da Barca, localizada pr\u00f3ximo a um dos bairros mais caros da cidades, diversas fam\u00edlias vivem essa dor e tamb\u00e9m a priva\u00e7\u00e3o de direitos pela falta\u00a0de \u00e1gua, esgoto e energia el\u00e9trica.<\/p>\n<p>Palafitas s\u00e3o habita\u00e7\u00f5es sustentadas por estacas \u00e0s margens de um rio ou \u00e1rea alagadi\u00e7a. A desempregada Mariele Souza do Socorro \u00e9 uma das moradoras do espa\u00e7o.\u00a0Na casa de apenas tr\u00eas c\u00f4modos, ela mora com seis pessoas e diz que al\u00e9m dos problemas j\u00e1 citados, os tempos t\u00eam sido ainda mais dif\u00edceis com o\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2021\/09\/01\/artigo-a-crise-reforca-o-consumo-de-alimentos-ultraprocessados\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">aumento do pre\u00e7o dos alimentos<\/a>, at\u00e9 a sopa ela n\u00e3o tem mais condi\u00e7\u00f5es de fazer.<\/p>\n<p>&#8220;Se\u00a0tem farinha, a gente\u00a0faz um mingau, j\u00e1 chegou a ter comida no almo\u00e7o, mas no jantar n\u00e3o, porque a sopa que com\u00edamos antigamente tamb\u00e9m n\u00e3o d\u00e1\u00a0para a fazer. J\u00e1 pensou pagar R$ 11 no quilo do osso? \u00c9 isso que estamos pagando. O\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefatope.com.br\/2021\/09\/01\/onde-queres-fuzil-eu-sou-feijao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">feij\u00e3o<\/a>, a gente s\u00f3 joga\u00a0no fogo\u00a0com tempero, porque n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es de jogar um charque dentro ou uma carne para\u00a0dar um gosto \u00e9 s\u00f3 o feij\u00e3o temperado&#8221;.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"YouTube video player\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/7MJJneyP6e4\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p>Al\u00e9m de integrar a estat\u00edstica de pessoas que sofrem com a inseguran\u00e7a alimentar, ela integra tamb\u00e9m o desalentados,\u00a0que s\u00e3o as pessoas que desistiram de procurar trabalho:\u00a05,952 milh\u00f5es em 2021, com um\u00a0acr\u00e9scimo de 26,8%, ou seja,\u00a01,259 milh\u00e3o pessoas entre de 2020 para 2021, segundo dados do Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlios (Pnad) Cont\u00ednua, divulgada em abril deste ano.<\/p>\n<p>Entre as mulheres, o\u00a0desemprego aumentou de 13,9% para 16,8% em 2021. Para Mariele Souza, que trabalhava como dom\u00e9stica e costureira al\u00e9m da dificuldade de comprar alimentos, procurar emprego e n\u00e3o encontrar \u00e9 muito dif\u00edcil.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 uma sensa\u00e7\u00e3o de tristeza. \u00c9\u00a0muito triste a gente abrir a geladeira e n\u00e3o ter nada e mais triste ainda\u00a0quando a gente sai\u00a0a procura de alguma atividade, de algum emprego, de algum bico e n\u00e3o encontra. A gente volta para casa ainda mais triste olhando para os netos, olhando para os filhos,\u00a0olhando para\u00a0a m\u00e3e, para fam\u00edlia e para os amigos e saber que est\u00e1\u00a0todo mundo est\u00e1 na mesma situa\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\"><strong>O racionamento de alimentos<\/strong><\/p>\n<p>Para driblar o\u00a0fato de n\u00e3o ter comida e emprego, Mariele diz que quando consegue algum dinheiro divide o pouco que tem em pequenas\u00a0refei\u00e7\u00f5es, tudo para que seja poss\u00edvel dar ao menos uma colher de comida para cada membro da casa.<\/p>\n<p>&#8220;Uma, duas colheres\u00a0para cada um para n\u00e3o deixar a barriga vazia, mas que d\u00ea para encher mesmo ou dizer: &#8211; Eu\u00a0jantei, n\u00e3o.\u00a0\u00c9 s\u00f3 um pouquinho para cada, s\u00f3 para\u00a0n\u00e3o dizer que n\u00e3o comeu&#8221;.<\/p>\n<p>O \u00cdndice Nacional de Pre\u00e7os ao Consumidor Amplo (IPCA &#8211; a infla\u00e7\u00e3o oficial do pa\u00eds) subiu de 7,11% para 7,27% em 2021, sendo a\u00a021\u00aa eleva\u00e7\u00e3o consecutiva na proje\u00e7\u00e3o e o cen\u00e1rio para o futuro n\u00e3o melhora:\u00a0para 2022, a estimativa de infla\u00e7\u00e3o \u00e9 de 3,95%. Para 2023 e 2024, as previs\u00f5es s\u00e3o de 3,25% e 3%, respectivamente.<\/p>\n<p>Saindo das porcentagens do mercado e sentindo na pr\u00e1tica o que isso significa, Dona Maria Madalena traduz o aumento da infla\u00e7\u00e3o no Brasil.<\/p>\n<p>&#8220;Antigamente voc\u00ea ia com R$100 na feira, trazia um monte de coisa. Agora \u00e9 troco,\u00a0tu j\u00e1 pensastes a gente dar R$30 no quilo de carne em uma casa onde tem muitas pessoas, s\u00f3 d\u00e1 para provar&#8221;, conta ela.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\"><strong>G\u00e1s ou comida?<\/strong><\/p>\n<p>A partir desta quarta-feira (1), o g\u00e1s de cozinha j\u00e1 est\u00e1 custando 7% mais caro para os consumidores brasileiros\u00a0devido a um ajuste feito pelas distribuidoras do produto. Em Bel\u00e9m do Par\u00e1, o pre\u00e7o do g\u00e1s custa, em m\u00e9dia,\u00a0R$ 116,00, segundo dados do\u00a0Departamento Intersindical de Estat\u00edstica e Estudos Socioecon\u00f4micos (Dieese-Julho-2021).<\/p>\n<p>Na casa da aposentada Cleonice da Silva, de 80 anos, a precariedade chegou ao ponto de se ter que escolher entre comprar g\u00e1s e comprar comida.<\/p>\n<p>&#8220;Tem dias em que dizem assim: &#8211; S\u00f3 tem o do g\u00e1s. Eu respondo: &#8211; Ent\u00e3o, vamos comprar o g\u00e1s, porque a gente compra o g\u00e1s, depois aparece uma farinha, a gente faz um mingau e toma, porque se arrumar uma farinha e tiver o g\u00e1s, n\u00f3s n\u00e3o temos nada&#8221;.<\/p>\n<p>A senhora que \u00e9 cega, vive no espa\u00e7o com o marido, dois filhos e sete animais de estima\u00e7\u00e3o que abriga no local. Questionada se passou fome durante a pandemia, Dona Cleonice conta que, infelizmente, j\u00e1 precisou dormir para enganar a fome.<\/p>\n<p>&#8220;J\u00e1 pensou a gente querer comer e n\u00e3o ter? Quando tem, tem aquele pouquinho para n\u00e3o dormir com fome. Quando n\u00e3o tem a gente vai para a cama e dorme. N\u00e3o tem coisa mais ruim no mundo do que dormir com fome&#8221;.<\/p>\n<p>www.brasildefato.com.br \/ Catarina Barbosa \/ Especial Fome no Brasil<\/p>\n<p><em><strong>Ficha t\u00e9cnica:<\/strong><\/em><\/p>\n<p><em>Coordena\u00e7\u00e3o do projeto:<\/em>\u00a0Mariana Pitasse e Rodrigo Chagas |<em>\u00a0Edi\u00e7\u00e3o:<\/em>\u00a0K\u00e1tia Marko, Monyse Ravena, Fredi Vasconcelos, Vanessa Gonzaga, Larissa Costa, Leandro Melito, Mariana Pitasse e Rodrigo Chagas |\u00a0<em>Reportagem:<\/em>\u00a0Eduardo Miranda, Jaqueline Deister, Wallace Oliveira, Ayrton Centeno, Vin\u00edcius Sobreira, Lucila Bezerra, Giorgia Prates, Pedro Carrano, Ana Carolina Caldas, Marcelo Gomes, Francisco Barbosa, Pedro Rafael Vilela, Murilo Pajolla, Pedro Stropasolas e Daniel Giovanaz |\u00a0<em>Identidade visual:<\/em>\u00a0Fernando Bertolo |\u00a0<em>Artes:<\/em>\u00a0Michele Gon\u00e7alves |\u00a0<em>R\u00e1dio:<\/em>\u00a0Camila Salmazio, Geisa Marques, Douglas Matos, Daniel Lamir, Adilson Oliveira, Andr\u00e9 Paroche e Lua Gatinoni |\u00a0<em>Audiovisual:\u00a0<\/em>Marina Rara, Isa Chedid, Leonardo Rodrigues e Jorge Mendes |\u00a0<em>Redes sociais:<\/em>\u00a0Cris Rodrigues, Larissa Guold, Guilherme Faro Bonan, Joanne Motta e Vitor Shimomura |\u00a0<em>Coordena\u00e7\u00e3o de jornalismo:<\/em>\u00a0Rodrigo Dur\u00e3o |\u00a0<em>Dire\u00e7\u00e3o CPM\u00eddias:<\/em>\u00a0Lucio Centeno e Nina Fideles.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na Vila da Barca, al\u00e9m de serem privadas de \u00e1gua, esgoto e energia el\u00e9trica, as pessoas passam fome na pandemia Ou\u00e7a o \u00e1udio: A vida do povo brasileiro, sem d\u00favida, mudou para pior. 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