{"id":22625,"date":"2021-09-20T12:26:44","date_gmt":"2021-09-20T15:26:44","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/?p=22625"},"modified":"2021-09-20T12:26:44","modified_gmt":"2021-09-20T15:26:44","slug":"centenario-de-paulo-freire-destaca-a-pedagogia-do-amor-da-liberdade-e-da-cultura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/2021\/09\/20\/centenario-de-paulo-freire-destaca-a-pedagogia-do-amor-da-liberdade-e-da-cultura\/","title":{"rendered":"Centen\u00e1rio de Paulo Freire destaca a pedagogia do amor, da liberdade e da cultura"},"content":{"rendered":"<p><strong>Neste domingo (19), foi celebrado o centen\u00e1rio de Paulo Freire, pedagogo e fil\u00f3sofo. Ele criou o verbo esperan\u00e7ar, para refor\u00e7ar a necessidade de cren\u00e7a no futuro da humanidade.<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e0 toa\u00a0<em>Pedagogia do Oprimido<\/em>\u00a0(1970) est\u00e1 entre os 100 livros mais lidos do mundo. Porque Paulo Freire est\u00e1 entre os pensadores mais respeitados, justamente porque parte da premissa de uma educa\u00e7\u00e3o voltada para a liberdade e o respeito \u00e0 dignidade humana.<\/p>\n<p>O Patrono da Educa\u00e7\u00e3o Brasileira (Lei n\u00ba 12.612, sancionada em 2012) nasceu em 19 de setembro de 1921 e faleceu em 2 de maio de 1997, antes, portanto, do pa\u00eds ter o privil\u00e9gio de v\u00ea-lo como ministro da Educa\u00e7\u00e3o no governo do ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, em 2003.<\/p>\n<p>Somente os paulistanos tiveram o privil\u00e9gio de ter Paulo Freire como secret\u00e1rio de Educa\u00e7\u00e3o na administra\u00e7\u00e3o municipal de Luiza Erundina, de 1989 a 1993, cargo exercido por ele at\u00e9 1991. O bastante para fazer a diferen\u00e7a com uma gest\u00e3o amplamente democr\u00e1tica e voltada para o povo.<\/p>\n<p>Mas o seu trabalho foi o suficiente para despertar o \u00f3dio na burguesia, que ate \u00b4hoje defende o que Freire chamou de \u201ceduca\u00e7\u00e3o banc\u00e1ria\u201d para as filhas e filhos da classe trabalhadora, ou seja uma educa\u00e7\u00e3o tecnicista com objetivo de reduzir os horizontes e perspectivas de quem vive do trabalho.<\/p>\n<p>\u201cPaulo Freire \u00e9 o maior contraponto \u00e0 escola defendida pelo Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o do atual governo federal\u201d, argumenta Arielma Galv\u00e3o dos Santos, secret\u00e1ria adjunta de Pol\u00edticas Educacionais da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) e diretora de Educa\u00e7\u00e3o da APLB \u2013 Sindicato, na Bahia.<\/p>\n<p>Porque \u201ca pedagogia dele tem como base a liberdade, a leitura do mundo\u201d, em suma, \u201c\u00e9 educa\u00e7\u00e3o para transformar as pessoas, que transformam a sociedade para a constru\u00e7\u00e3o de um mundo com equidade e respeito aos saberes diversos\u201d.<\/p>\n<p><strong>Assista\u00a0<em>Paulo Freire, um Homem do Mundo<\/em>, de Cristiano Burlan<\/strong><\/p>\n<figure class=\"wp-block-embed-youtube wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\">\n<div class=\"wp-block-embed__wrapper\"><iframe loading=\"lazy\" title=\"Paulo Freire, um homem do mundo\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/AjJ1bWcqN1Q?feature=oembed\" width=\"500\" height=\"281\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/div>\n<\/figure>\n<p>Francisca Pereira da Rocha Seixas \u2013 a Professora Francisca \u2013, secret\u00e1ria adjunta de Finan\u00e7as da CTB e diretora de Assuntos Educacionais e Culturais da Apeoesp e secret\u00e1ria de Sa\u00fade da CNTE, explica que \u201ca pr\u00e1tica did\u00e1tica de Paulo Freire tem como base a valoriza\u00e7\u00e3o do educando, observando a realidade da comunidade a qual os estudantes se inserem e a partir disso construir novas formas de conhecimento na base do di\u00e1logo e de troca de saberes\u201d.<\/p>\n<p>Os docentes, portanto, n\u00e3o devem ser vistos como exclusivos detentores do conhecimento para deposit\u00e1-lo na cabe\u00e7a dos educandos. Justamente porque Freire \u201cprop\u00f5e uma reflex\u00e3o diferente n\u00e3o somente do conceito de educa\u00e7\u00e3o, mas principalmente do papel do educador no processo que ele chama de um processo de emancipa\u00e7\u00e3o\u201d, define Sara de Castro C\u00e2ndido, secret\u00e1ria de Forma\u00e7\u00e3o da CTB-GO.<\/p>\n<p>Assim, \u201cenquanto a miss\u00e3o da \u2019educa\u00e7\u00e3o banc\u00e1ria\u2019 \u00e9 eliminar a capacidade cr\u00edtica dos alunos e acomod\u00e1-los \u00e0 realidade. A \u2018educa\u00e7\u00e3o problematizadora\u2019 quer despertar a consci\u00eancia dos oprimidos, inquiet\u00e1-los e lev\u00e1-los \u00e0 a\u00e7\u00e3o (liberta\u00e7\u00e3o)\u201d, salienta Sara.<\/p>\n<p>Para Helmilton Beserra, presidente da CTB-PE e do Sindicato dos Professores de Pernambuco, \u201ca diferen\u00e7a entre o M\u00e9todo Paulo Freire e a escola as pol\u00edticas propostas que o atual governo preconiza \u00e9 crucial\u201d porque a do governo federal \u00e9 \u201cuma escola antidemocr\u00e1tica, militarista e excludente\u201d.<\/p>\n<p>J\u00e1 a proposta de Freire \u201c\u00e9 uma escola para todas e todos, exaltando a democracia em todos os espa\u00e7os da escola, principalmente em sala de aula, local que congrega sujeitos de conhecimento, para aprender, para conhecer e transformar sua realidade e nela intervir como cidad\u00e3os de direitos\u201d, diz Helmilton.<\/p>\n<p><strong>Ou\u00e7a\u00a0<em>Esperan\u00e7ar por Esse Ch\u00e3o<\/em>, de Anabela e Edu de Maria<\/strong><\/p>\n<figure class=\"wp-block-embed-youtube wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\">\n<div class=\"wp-block-embed__wrapper\"><iframe loading=\"lazy\" title=\"Esperan\u00e7ar por esse ch\u00e3o (Anabela e Edu de Maria)\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/OGuhVWN6_Kk?feature=oembed\" width=\"500\" height=\"281\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/div>\n<\/figure>\n<p>Por isso, despertou \u00f3dio nos setores conservadores da sociedade, sendo preso e exilado durante a ditadura (1964-1985). Voltou ao Brasil somente com a conquista da anistia, em 1979.<\/p>\n<p>No ex\u00edlio, n\u00e3o parou de pensar e produzir suas obras essenciais para uma educa\u00e7\u00e3o voltada \u00e0 liberdade e emancipa\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora atrav\u00e9s do conhecimento. Atualmente sofre ataques persistentes dos setores mais enfurecidos da extrema-direita.<\/p>\n<p>Justamente, explica Sara, porque quando \u201ca classe trabalhadora passa a ter acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o libertadora, passa a questionar o sistema, o mundo. A\u00ed as pessoas passam a ser promotoras da sua pr\u00f3pria transforma\u00e7\u00e3o\u201d. Porque Paulo Freire \u201cpartia da perspectiva de que a leitura do mundo precede a leitura da palavra e ambos s\u00e3o complementares\u201d.<\/p>\n<p>Claudete Alves, presidenta do Sindicato dos Educadores da Inf\u00e2ncia de S\u00e3o Paulo (Sedin) e dirigente da CTB, acrescenta que \u201cessa pedagogia proposta\u00a0 estimula o exerc\u00edcio da cidadania, a cobran\u00e7a de direitos e obriga a reflex\u00e3o sobre a realidade e como transform\u00e1-la\u201d.<\/p>\n<p>Para ela, \u201cem sociedades como a nossa, o M\u00e9todo Paulo Freire \u00e9 o ideal, pois, possibilita atrav\u00e9s\u00a0 dos saberes individuais e das experi\u00eancias coletivizar pr\u00e1ticas entendedoras e produtoras de novos conhecimentos\u201d.<\/p>\n<p><strong>BNCC \u00e9 castradora<\/strong><\/p>\n<p>O problema \u00e9 que a Base Comum Nacional Curricular (BNCC) proposta desde a gest\u00e3o de Michel Temer cria um distanciamento dos estudantes em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 escola porque padroniza o curr\u00edculo, desconhecendo a diversidade cultural e social do pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u201cUm absurdo, com tantas diferen\u00e7as, com tamanha diversidade, querer unificar o curr\u00edculo significa querer desconstruir a perspectiva de conhecimento do mundo, como preconiza Paulo Freire\u201d, diz Sara.<\/p>\n<p>O pedagogo do oprimido sempre defendeu que \u201cnenhuma pedagogia que seja verdadeiramente libertadora pode permanecer distante do oprimido, tratando-os como infelizes e apresentando-os aos seus modelos de emula\u00e7\u00e3o entre os opressores. Os oprimidos devem ser o seu pr\u00f3prio exemplo na luta pela sua reden\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Essa forma de encarar a educa\u00e7\u00e3o, \u201c\u00e9 a causa dos ataques recentes a Paulo Freire, inclusive tentando tirar dele o t\u00edtulo de Patrono da Educa\u00e7\u00e3o Brasileira\u201d, ressalta Professora Francisca. Principalmente, porque \u201co presidente Jair Bolsonaro defende o m\u00e9todo de alfabetiza\u00e7\u00e3o por meio da decora\u00e7\u00e3o de meros s\u00edmbolos gr\u00e1ficos, n\u00e3o despertando um interesse maior pelo estudo e n\u00e3o se aprendendo a ler com senso cr\u00edtico\u201d.<\/p>\n<p>O pensador e pedagogo se destacou a partir de suas primeiras experi\u00eancias no Rio Grande do Norte, em 1963. Ele ensinou 300 adultos a ler e a escrever em 45 dias. Esse seu m\u00e9todo foi adotado em Pernambuco e posteriormente pelo ent\u00e3o presidente Jo\u00e3o Goulart. Nascia um Plano Nacional de Alfabetiza\u00e7\u00e3o para a forma\u00e7\u00e3o de educadoras e educadores em massa e a implanta\u00e7\u00e3o de milhares de c\u00edrculos de cultura no pa\u00eds, revelam historiadores. Esse plano foi abortado pelo golpe de 1964.<\/p>\n<p>Justamente porque o \u201cno seu m\u00e9todo aprendemos o quanto \u00e9 significativo vivenciar n\u00e3o s\u00f3 o processo de ensinar a ler e a escrever, partindo da realidade em que vive o estudante, qualquer que seja o processo educativo\u201d, refor\u00e7a a professora Rilva Uch\u00f4a, especialista em Paulo Freire.<\/p>\n<p>Para ela, o pensador \u201cnos presenteou com a pedagogia da autonomia que aponta como desenvolveremos uma pr\u00e1tica educativa, confrontando os diferentes saberes e opini\u00f5es acerca da realidade e explor\u00e1-la para se transformar em conhecimento, com interven\u00e7\u00e3o desses estudantes em qualquer momento\u201d.<\/p>\n<p>J\u00e1 Claudete assinala que, inclusive na educa\u00e7\u00e3o infantil, a pedagogia de Freire \u00e9 importante. \u201cTemos a fase das descobertas, das intera\u00e7\u00f5es iniciais fora do ambiente privado\u201d, na educa\u00e7\u00e3o infantil e \u201co l\u00fadico e a l\u00f3gica neste momento do desenvolvimento humano, as pr\u00e1ticas ensinadas por Paulo Freire querendo alguns ou n\u00e3o habitam esses territ\u00f3rios\u201d porque \u201cos saberes, o despertar e o desenvolvimento s\u00e3o constru\u00eddos partindo do concreto onde mesmo a fantasia e os encantamentos observados s\u00e3o reais\u201d.<\/p>\n<p><strong>Assista\u00a0<em>As 40 Horas de Angicos<\/em>, produ\u00e7\u00e3o do Servi\u00e7o Cooperativo de Educa\u00e7\u00e3o do Rio Grande do Norte, Roteiro de Luiz Lobo<\/strong><\/p>\n<figure class=\"wp-block-embed-youtube wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-embed-aspect-4-3 wp-has-aspect-ratio\">\n<div class=\"wp-block-embed__wrapper\"><iframe loading=\"lazy\" title=\"As 40 Horas de Angicos - Paulo Freire Experi\u00eancia no RN  5:29'\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/64qUSQbc1fk?feature=oembed\" width=\"500\" height=\"375\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/div>\n<\/figure>\n<p>Porque, como explica Arielma, Freire elaborou uma pedagogia a favor de \u201cuma educa\u00e7\u00e3o que promove espa\u00e7os para as vozes ecoarem livremente, para que as pessoas se sintam representadas e tamb\u00e9m se apresentem e representem e assim fortale\u00e7a as suas identidades\u201d.<\/p>\n<p>Rilva acentua que \u201cFreire defendia uma proposta pedag\u00f3gica que na rela\u00e7\u00e3o educador e educando n\u00e3o h\u00e1 quem saiba mais\u201d, por\u00e9m, \u201cexistem sabedorias diferentes que precisam ser dialogadas e confrontadas por uma atitude de compromisso do educador em respeitar essas diferen\u00e7as\u201d e nessa \u201cescola n\u00e3o se aprende s\u00f3 para se fazer provas, mas para se transformar em sujeitos capazes de aprender e ao mesmo tempo ensinar\u201d.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio Paulo Freire define a sua pedagogia ao afirmar que \u201ca educa\u00e7\u00e3o \u00e9 um ato de amor, por isso, um ato de coragem. N\u00e3o pode temer o debate. A an\u00e1lise da realidade. N\u00e3o pode fugir \u00e0 discuss\u00e3o criadora, sob pena de ser uma farsa\u201d.<\/p>\n<p>Portanto, celebrar o centen\u00e1rio de um dos mais importantes pensadores do s\u00e9culo 20, \u201csignifica sobretudo refletir sobre n\u00e3o s\u00f3 os atuais modelos propostos para a educa\u00e7\u00e3o, mas sobre a necessidade de se resgatar essa perspectiva de uma educa\u00e7\u00e3o que de fato seja emancipat\u00f3ria e libertadora\u201d, define Sara.<\/p>\n<p>www.ctb.org.br \/\u00a0Marcos Aur\u00e9lio Ruy (Arte: MST)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste domingo (19), foi celebrado o centen\u00e1rio de Paulo Freire, pedagogo e fil\u00f3sofo. Ele criou o verbo esperan\u00e7ar, para refor\u00e7ar a necessidade de cren\u00e7a no futuro da humanidade. N\u00e3o \u00e0 toa\u00a0Pedagogia do Oprimido\u00a0(1970) est\u00e1 entre os 100 livros mais lidos do mundo. 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