{"id":23137,"date":"2021-10-14T21:03:56","date_gmt":"2021-10-15T00:03:56","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/?p=23137"},"modified":"2021-10-14T21:03:56","modified_gmt":"2021-10-15T00:03:56","slug":"bolsonaro-inimigo-dos-trabalhadores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/2021\/10\/14\/bolsonaro-inimigo-dos-trabalhadores\/","title":{"rendered":"Bolsonaro, inimigo dos trabalhadores"},"content":{"rendered":"<p><strong>A trajet\u00f3ria pol\u00edtica de Jair Bolsonaro \u2013 de capit\u00e3o reformado do Ex\u00e9rcito a presidente da Rep\u00fablica, passando por oito mandatos parlamentares \u2013 ilustra a for\u00e7a do capital na atra\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7as de origem corporativa. Militar de carreira inexpressiva, sem destaque por nenhum servi\u00e7o maior prestado \u00e0s For\u00e7as Armadas, Bolsonaro se notabilizou inicialmente como uma esp\u00e9cie de l\u00edder sindical de um segmento da corpora\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p>Em 1986, chegou a ficar preso por 15 dias no Ex\u00e9rcito ap\u00f3s escrever um artigo na revista\u00a0<em>Veja<\/em>\u00a0em que criticava a corpora\u00e7\u00e3o e reivindicava melhores sal\u00e1rios. Um ano depois, acusado de planejar ataques a bomba para chamar aten\u00e7\u00e3o para sua pauta \u201ctrabalhista\u201d, foi inocentado no Superior Tribunal Militar. O comando do Ex\u00e9rcito recriminava sua indisciplina, mas seus pleitos eram acolhidos por expressiva parcela da tropa. Estava criada a base eleitoral que o levou \u00e0 C\u00e2mara dos Vereadores do Rio de Janeiro, em 1988, e \u00e0 C\u00e2mara Federal, a partir de 1990.<\/p>\n<p>O parlamentar Bolsonaro se manteve como defensor dos militares e j\u00e1 manifestava abertamente suas convic\u00e7\u00f5es mais reacion\u00e1rias, como o anticomunismo doentio, a homofobia e a misoginia, al\u00e9m do culto \u00e0 ditadura militar (1964-1985). Por v\u00e1rios mandatos, posicionou-se, invariavelmente, contra as privatiza\u00e7\u00f5es. Da mesma maneira, evitava ser porta-voz de medidas que atacavam os servidores ou o conjunto dos trabalhadores.<\/p>\n<p>Muita coisa mudou com o projeto presidencial. Na prepara\u00e7\u00e3o de sua campanha ao Planalto, Bolsonaro abra\u00e7ou o ide\u00e1rio ultraliberal \u2013 encarnado na figura do economista Paulo Guedes \u2013 e passou a vocalizar a plataforma patronal. Como candidato, aliou-se prioritariamente ao agroneg\u00f3cio, foi aplaudido em entidades empresariais e caiu no gosto no sistema financeiro.<\/p>\n<p>Seu antecessor da Presid\u00eancia, Michel Temer (2016-2018), j\u00e1 havia promovido um ataque sem precedentes aos trabalhadores, com o fim da pol\u00edtica de valoriza\u00e7\u00e3o do sal\u00e1rio m\u00ednimo, a reforma trabalhista e a libera\u00e7\u00e3o da terceiriza\u00e7\u00e3o irrestrita. Mudar a CLT (Consolida\u00e7\u00e3o das Leis do Trabalho) era necess\u00e1rio \u2013 dizia Temer \u2013 para modernizar a legisla\u00e7\u00e3o e gerar empregos. Mas ao fim de seu governo, em dezembro de 2018, o Brasil contabilizava 12,2 milh\u00f5es de desempregados e 4,7 milh\u00f5es de desalentados, conforme a Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlios (Pnad) Cont\u00ednua.<\/p>\n<p>Bolsonaro, como candidato, era mais expl\u00edcito: se eleito, cortaria direitos, sim. Em entrevista ao vivo no\u00a0<em>Jornal Nacional<\/em>, a menos de 40 dias da elei\u00e7\u00e3o presidencial, ele condenou a hist\u00f3rica PEC das dom\u00e9sticas e criticou a luta por igualdade salarial entre homens e mulheres. Para firmar seu compromisso com a \u201cclasse empregadora\u201d, Bolsonaro repetiu um mantra de sua campanha: \u201cO trabalhador ter\u00e1 que escolher entre mais direito e menos emprego, ou menos direito e mais emprego\u201d.<\/p>\n<p>A gest\u00e3o Bolsonaro deu sequ\u00eancia ao desmonte do governo Temer j\u00e1 nos primeiros dias em Bras\u00edlia. O Minist\u00e9rio do Trabalho foi extinto e a fiscaliza\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de trabalho reduzida. Num golpe ao direito de se aposentar, foi aprovada a pior reforma da Previd\u00eancia da hist\u00f3ria do Pa\u00eds. Guedes voltou a falar numa Carteira de Trabalho Verde-Amarela \u2013 vers\u00e3o precarizada da carteira de trabalho. A fim de diminuir as responsabilidades dos patr\u00f5es perante os trabalhadores, o presidente tamb\u00e9m lan\u00e7ou o Programa Permanente de Consolida\u00e7\u00e3o, Simplifica\u00e7\u00e3o e Desburocratiza\u00e7\u00e3o de Normas Trabalhistas.<\/p>\n<p>Como se sabe, nada disso ajudou a classe trabalhadora brasileira e, pior, n\u00e3o culminou na gera\u00e7\u00e3o de empregos. A prolongada crise da economia se agravou devido n\u00e3o apenas \u00e0 pandemia de Covid-19 \u2013 mas tamb\u00e9m \u00e0s escolhas do governo Bolsonaro. Segundo a mais recente Pnad Cont\u00ednua, havia 14,1 milh\u00f5es de desempregados e 5,4 milh\u00f5es de desalentados no segundo trimestre deste ano.<\/p>\n<p>A precariza\u00e7\u00e3o igualmente avan\u00e7ou: em um ano, o n\u00famero de trabalhadores que n\u00e3o t\u00eam carteira assinada, CNPJ ou remunera\u00e7\u00e3o disparou de 30,7 milh\u00f5es para 36,3 milh\u00f5es. A \u201cuberiza\u00e7\u00e3o do trabalho\u201d, um fen\u00f4meno mundial, ganhou escala muito acima da m\u00e9dia no Brasil, com a multiplica\u00e7\u00e3o de empregos atrelados a aplicativos (apps) e marcados por condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias, sem sal\u00e1rio fixo nem direitos.<\/p>\n<p>Tudo isso, somado \u00e0 infla\u00e7\u00e3o \u2013 em especial, a de alimentos \u2013, levou ao crescimento da mis\u00e9ria. Segundo a FGV Social, 13% dos brasileiros vivem com renda per capita mensal inferior a R$ 261 por m\u00eas \u2013 ou seja, na extrema pobreza. Em dez anos, a renda m\u00e9dia dos trabalhadores regrediu 26,2%.<\/p>\n<p>Reportagem da\u00a0<em>Folha de S.Paulo<\/em>\u00a0publicada nesta quarta-feira (13), com base em dados da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Seguran\u00e7a Alimentar e Nutricional (Rede Penssan), mostra o legado social do governo Bolsonaro. Os \u201caglomerados subnormais\u201d, como as favelas, eram 3,2 milh\u00f5es em 2010 e passaram a 5,1 milh\u00f5es em 2019. Al\u00e9m disso, 55% dos brasileiros enfrentavam algum tipo de inseguran\u00e7a alimentar (grave, moderada ou leve) em dezembro de 2020.<\/p>\n<p>\u201cQuase 20 milh\u00f5es de brasileiros, um Chile, declaram passar 24 horas ou mais sem ter o que comer em alguns dias\u201d, informa o jornal. \u201cMais 24,5 milh\u00f5es n\u00e3o t\u00eam certeza de como se alimentar\u00e3o no dia a dia e j\u00e1 reduziram quantidade e qualidade do que comem. Outros 74 milh\u00f5es vivem inseguros sobre se v\u00e3o acabar passando por isso.\u201d<\/p>\n<p>A gest\u00e3o Bolsonaro n\u00e3o \u00e9 apenas incapaz de enfrentar a crise econ\u00f4mica, social e pol\u00edtica. O bolsonarismo \u00e9, hoje, o centro da crise. N\u00e3o bastassem os numerosos crimes de responsabilidade e crimes comuns que seu governo cometeu, h\u00e1 um crime humanit\u00e1rio: \u00e9 um governo genocida, de destrui\u00e7\u00e3o e morte. Barrar Bolsonaro \u00e9 o imperativo urgente para a salva\u00e7\u00e3o do Brasil.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-center\">www.ctb.org.br\/ Vermelho<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A trajet\u00f3ria pol\u00edtica de Jair Bolsonaro \u2013 de capit\u00e3o reformado do Ex\u00e9rcito a presidente da Rep\u00fablica, passando por oito mandatos parlamentares \u2013 ilustra a for\u00e7a do capital na atra\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7as de origem corporativa. 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