{"id":23288,"date":"2021-10-27T09:50:17","date_gmt":"2021-10-27T12:50:17","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/?p=23288"},"modified":"2021-10-27T09:50:17","modified_gmt":"2021-10-27T12:50:17","slug":"marcio-pochmann-e-necessaria-uma-nova-abolicao-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/2021\/10\/27\/marcio-pochmann-e-necessaria-uma-nova-abolicao-no-brasil\/","title":{"rendered":"Marcio Pochmann: \u00c9 necess\u00e1ria uma nova aboli\u00e7\u00e3o no Brasil"},"content":{"rendered":"<p><strong>No s\u00e9culo 19, o perfil dos principais ricos no Brasil estava associado ao tr\u00e1fico negreiro. Os casos de Jos\u00e9 Francisco dos Santos (Z\u00e9 Alfaiate), Joaquim Pereira Marinho e Joaquim Ferreira dos Santos exemplificavam o quanto o com\u00e9rcio escravista era altamente lucrativo, permitindo que figurassem na c\u00fapula da riqueza do Brasil imperial (1822-1889).<\/strong><\/p>\n<p>Isso porque somente o Brasil respondeu por quase 40% do total dos 12,5 milh\u00f5es de traficados da \u00c1frica sob a denomina\u00e7\u00e3o de escravid\u00e3o moderna. Navios de bandeira inicialmente portuguesa e, posteriormente, brasileira realizaram mais de 9 mil viagens para traficar africanos entre 1530 e 1850, sendo que cerca de 50% delas foram realizadas apenas durante a primeira metade do s\u00e9culo 19, para trazer 2,3 milh\u00f5es de escravos (47% do total de africanos trazidos se considerados os 320 anos).<\/p>\n<p>O neg\u00f3cio financeiro obtido pelos empreendedores escravagistas foi o respons\u00e1vel pela forma\u00e7\u00e3o de muitas fortunas que, ap\u00f3s o fim do tr\u00e1fico negreiro (1850), foram reinvestidas em atividades produtivas. Tanto assim que o Produto Interno Bruto por habitante \u2013 que havia crescido 0,2% como m\u00e9dia anual entre 1820 e 1850 \u2013 foi de 0,4% ao ano, em m\u00e9dia, no per\u00edodo de 1850 a 1888.<\/p>\n<p>Neste in\u00edcio do s\u00e9culo 21, o perfil dos principais ricos no Brasil se encontra associado ao rentismo. Entre os dez mais ricos do Pa\u00eds, cinco deles est\u00e3o atuando diretamente no mercado financeiro, como banqueiros ou como gestores de fundos de investimentos. Em plena pandemia do coronav\u00edrus, mesmo quando o fluxo de riqueza nacional encolheu 4,1%, o Brasil registrou o surgimento de mais 42 novos bilion\u00e1rios, cujas fortunas aumentaram em US$ 34 bilh\u00f5es.<\/p>\n<p>N\u00e3o bastasse isso, constata-se que, dos 200 maiores grupos econ\u00f4micos do Pa\u00eds agregados em quatro grandes setores, somente o segmento de finan\u00e7as apresentou eleva\u00e7\u00e3o de 27,1% no lucro l\u00edquido em 2020, enquanto o setor de servi\u00e7os teve o lucro l\u00edquido negativo em 34,8%, a ind\u00fastria teve um decl\u00ednio de 7,8% e o com\u00e9rcio teve -6,8%. Com tamanha discrep\u00e2ncia de desempenho, os bancos (setor de finan\u00e7as) aumentaram a sua fatia no total do lucro l\u00edquido consolidado entre os 200 maiores grupos econ\u00f4micos do pa\u00eds, passando de 38% para 49%.<\/p>\n<p>Como os bancos n\u00e3o produzem riqueza, pois operam como ped\u00e1gio de quem produz, aumenta a escassez dos recursos dispon\u00edveis para viabilizar o consumo e, sobretudo, o investimento. Essa distor\u00e7\u00e3o permite que os empreendedores do dinheiro deixem de servir \u00e0 economia real para servirem a si mesmos, apropriando-se de parcelas crescentes do excedente econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>No pa\u00eds do rentismo, os recursos dispon\u00edveis de fam\u00edlias e unidades produtivas s\u00e3o drenados para o improdutivismo que se alimenta do endividamento generalizado. Estranhamente, num pa\u00eds de economia enfraquecida como a brasileira, grande parte das fortunas se descolou da natureza econ\u00f4mica, para expressar rela\u00e7\u00f5es de poder pol\u00edtico.<\/p>\n<p>De um lado, o poder da estrutura de competi\u00e7\u00e3o nos mercados exercido por muito poucos (oligop\u00f3lios e monop\u00f3lios) termina por reduzir a efici\u00eancia econ\u00f4mica, conforme revela a pr\u00f3pria concentra\u00e7\u00e3o banc\u00e1ria no Brasil. De outro lado, o poder do financiamento eleitoral permite obter expressiva bancada parlamentar que impede a tributa\u00e7\u00e3o sobre lucros e favorece as desonera\u00e7\u00f5es ao rentismo.<\/p>\n<p>Os privil\u00e9gios atuais dos empreendedores do rentismo ganham ainda maior vigor com o financiamento da m\u00eddia a garantir presen\u00e7a cont\u00ednua como porta-vozes do dinheiro e colunistas na imprensa comercial para defender a legitimidade da riqueza rentista. \u00c9 isso que permite que a riqueza continue a crescer, mesmo em situa\u00e7\u00f5es de crise, com a queda das atividades na economia real.<\/p>\n<p>Assim como o fim do tr\u00e1fico negreiro desde 1850 permitiu desovar maiores recursos dispon\u00edveis para o financiamento da economia real, a asfixia do rentismo permitiria liberar a volta do desenvolvimento nacional. Para isso, uma nova maioria pol\u00edtica seria necess\u00e1ria, pois, do contr\u00e1rio, dificilmente ser\u00e1 poss\u00edvel encontrar outras atividades econ\u00f4micas t\u00e3o lucrativas como o setor de finan\u00e7as.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-center\">www.ctb.org.br \/ Marcio Pochmann \/ publicado originalmente no Outras Palavras<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No s\u00e9culo 19, o perfil dos principais ricos no Brasil estava associado ao tr\u00e1fico negreiro. Os casos de Jos\u00e9 Francisco dos Santos (Z\u00e9 Alfaiate), Joaquim Pereira Marinho e Joaquim Ferreira dos Santos exemplificavam o quanto o com\u00e9rcio escravista era altamente lucrativo, permitindo que figurassem na c\u00fapula da riqueza do Brasil imperial (1822-1889). Isso porque somente [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":23289,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[25],"tags":[412],"class_list":["post-23288","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias","tag-escravidao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23288","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23288"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23288\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":23290,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23288\/revisions\/23290"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/23289"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23288"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23288"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23288"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}