{"id":23397,"date":"2021-11-03T11:08:58","date_gmt":"2021-11-03T14:08:58","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/?p=23397"},"modified":"2021-11-03T11:08:58","modified_gmt":"2021-11-03T14:08:58","slug":"como-o-maior-luto-coletivo-da-historia-do-pais-mudou-o-dia-de-finados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/2021\/11\/03\/como-o-maior-luto-coletivo-da-historia-do-pais-mudou-o-dia-de-finados\/","title":{"rendered":"Como o maior luto coletivo da hist\u00f3ria do pa\u00eds mudou o Dia de Finados"},"content":{"rendered":"<p class=\"description\"><strong>BdF ouviu religiosos e especialistas sobre o poder do di\u00e1logo e da comunidade na supera\u00e7\u00e3o de uma perda sem precedentes<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ou\u00e7a o \u00e1udio:<\/strong><\/p>\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-23397-1\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/01.11.ALEXANDRAMONTEGOMERY_-SITE_ANISTIAINTERNACIONAL_NARALACERDA.mp3?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/01.11.ALEXANDRAMONTEGOMERY_-SITE_ANISTIAINTERNACIONAL_NARALACERDA.mp3\">https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/01.11.ALEXANDRAMONTEGOMERY_-SITE_ANISTIAINTERNACIONAL_NARALACERDA.mp3<\/a><\/audio>\n<p>O Dia de Finados, celebrado nesta ter\u00e7a-feira (2), chegou para a popula\u00e7\u00e3o brasileira permeado por estat\u00edsticas consternadoras este ano. Em vinte meses, <a href=\"https:\/\/www.conass.org.br\/painelconasscovid19\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">o Brasil perdeu mais de 600 mil vidas para a\u00a0pandemia do coronav\u00edrus<\/a>.<\/p>\n<p>Com menos de 3% da popula\u00e7\u00e3o mundial,\u00a0<a href=\"https:\/\/coronavirus.jhu.edu\/map.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">chegou a concentrar mais de 13% das mortes de todo o planeta<\/a>. O total de \u00f3bitos por causas naturais em territ\u00f3rio nacional, no ano passado, aumentou 22%, dado que inclui\u00a0as v\u00edtimas fatais da covid-19.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/transparencia.registrocivil.org.br\/registros\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">At\u00e9 o \u00faltimo m\u00eas de setembro, foi registrado um total de\u00a01,4 milh\u00f5es de falecimentos no pa\u00eds<\/a>, um salto de quase 250 mil\u00a0em rela\u00e7\u00e3o ao mesmo per\u00edodo de 2020. Mar\u00e7o deste ano foi o m\u00eas em que mais pessoas morreram em toda a hist\u00f3ria da na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O risco de perder a vida na pandemia\u00a0chegou a ser 19\u00a0vezes maior do que no resto do mundo.\u00a0Em meio a tantos n\u00fameros, foi dif\u00edcil evitar a naturaliza\u00e7\u00e3o, mas o luto por mais de meio milh\u00e3o de vidas perdidas permanece.<\/p>\n<p>&#8220;S\u00e3o coisas que chocam e que acabam gerando posturas diferentes, outros rituais, em termos at\u00e9 de atitudes diante da morte&#8221;, afirma a historiadora\u00a0Juliana Schmitt, que tem o luto como tema de pesquisa. Segundo ela, a pandemia gerou mudan\u00e7as bruscas nos processos de despedida.<\/p>\n<p>O ambiente hospitalar, antes ligado \u00e0 sensa\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a, hoje representa, muitas vezes, uma morte solit\u00e1ria. &#8220;A gente nunca imagina que essa pessoa vai estar l\u00e1 sem ningu\u00e9m\u00a0que a ame\u00a0em volta&#8221;, pontua.<\/p>\n<p>Juliana ressalta\u00a0que o distanciamento de assuntos relacionados \u00e0\u00a0morte, potencializado nos \u00faltimos 100 anos, foi exacerbado pela covid-19.<\/p>\n<p>Nas palavras da pesquisadora, a sociedade de hoje &#8220;terceirizou&#8221; o tema, mas a pandemia cortou o contato com os pacientes ainda em vida, tirou os momentos finais junto com pessoas queridas.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o extrema. At\u00e9 o s\u00e9culo XIX, as pessoas morriam em casa. A gente j\u00e1 n\u00e3o tem isso, mas n\u00e3o ter nenhum contato mais com a pessoa? Esse nada, essa aus\u00eancia\u00a0\u00e9 muito dram\u00e1tica e tem um peso emocional, psicol\u00f3gico muito grande&#8221;, diz ela, que percebe um movimento de retomada do di\u00e1logo sobre o assunto.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\"><strong>&#8220;Sozinhos n\u00e3o&#8221;<\/strong><\/p>\n<p>Embora o Dia de Finados n\u00e3o seja celebrado por todas as religi\u00f5es, o peso emocional citado pela historiadora est\u00e1 presente na vida de seguidores e seguidoras de todas as cren\u00e7as. Por isso, mesmo quem n\u00e3o visita os t\u00famulos para homenagear os mortos, est\u00e1 diante do desafio de superar as perdas.<\/p>\n<p>O Babalorix\u00e1\u00a0Pai Lucas Minervino\u00a0explica que, no Cadombl\u00e9, o luto n\u00e3o remete \u00e0 amargura, mas \u00e0 celebra\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria. Filhos e filhas de santo usam branco nos rituais e o 2 de novembro \u00e9 vivenciado em casa e com a fam\u00edlia. &#8220;N\u00e3o s\u00e3o mortos, s\u00e3o os nossos antepassados. Estamos celebrando a vida\u00a0daqueles que nos deram a vida.&#8221;<\/p>\n<p>Segundo ele, \u00e9 preciso reverter a naturaliza\u00e7\u00e3o das perdas. &#8220;N\u00e3o tem uma pessoa que voc\u00ea vai apontar que n\u00e3o conhece algu\u00e9m que morreu por causa desse v\u00edrus&#8221;, relembra.\u00a0&#8220;A gente n\u00e3o pode se acostumar com o que \u00e9 ruim. \u00c9 preciso trazer a vida para a normalidade. Isso juntos, sozinhos n\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;A ideia do luto \u00e9 de uni\u00e3o, de reunir as pessoas. Contar hist\u00f3rias, lembrar de coisas engra\u00e7adas que a pessoa viveu. Isso perdura anos e anos,\u00a0vidas e vidas. Essa ancestralidade vai estar muito mais feliz.&#8221;<\/p>\n<p>No catolicismo, onde \u00e9 tradicional, a data existe desde o s\u00e9culo X e come\u00e7ou com a inten\u00e7\u00e3o de dedicar um\u00a0dia do ano \u00e0s ora\u00e7\u00f5es pela purifica\u00e7\u00e3o das almas que se foram. Em 2020, fi\u00e9is buscam tamb\u00e9m o fortalecimento de quem fica.<\/p>\n<p>\u201cO respeito aos mortos se estende na solidariedade com os enlutados. N\u00e3o podemos esquecer seus nomes, suas hist\u00f3rias, seus feitos. Fazer mem\u00f3ria dos mortos pela visita aos cemit\u00e9rios ou pela ora\u00e7\u00e3o em casas ou igrejas \u00e9 reconhecer que h\u00e1 in\u00fameros cora\u00e7\u00f5es feridos pela morte das pessoas amadas&#8221;, afirmou dom Jo\u00e3o Justino de Medeiros Silva, arcebispo de Montes Claros, em Minas Gerais.<\/p>\n<p>Entre os evang\u00e9licos, o Dia de Finados n\u00e3o \u00e9 celebrado. O pastor e pesquisador Brian Kibooka, da Igreja Batista, que atua em Feira de Santana (BA), explica que a compreens\u00e3o dos protestantes sobre a morte n\u00e3o prev\u00ea a salva\u00e7\u00e3o ap\u00f3s o fim da vida, mas pelos atos de f\u00e9 durante a exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Segundo ele, a ideia de que os efeitos da morte\u00a0n\u00e3o podem ser remediados, abre espa\u00e7o para que avance uma perspectiva negacionista. &#8220;Talvez por isso, muitos evang\u00e9licos consigam redimensionar a morte pela falta das medidas de prote\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>O pastor faz um alerta: &#8220;Essa dan\u00e7a da morte &#8211; piorada, porque \u00e9 liderada por um indiv\u00edduo que tem rasgos genocidas &#8211; est\u00e1 em curso e utiliza essas peculiaridades para que isso seja eficaz, para que isso seja eficiente.&#8221;<\/p>\n<p>Em contrapartida a esse caminho,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2021\/05\/25\/luto-cristao-tambem-preve-clamor-por-justica-pelas-mortes-evitaveis-diz-pastor\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">em entrevista ao\u00a0<strong>Brasil de Fato<\/strong>\u00a0em maio deste ano<\/a>, Kibooka mencionou a import\u00e2ncia da lembran\u00e7a e da coletividade para supera\u00e7\u00e3o do luto.<\/p>\n<p>&#8220;O rem\u00e9dio que os crist\u00e3os encontraram para isso foi o compartilhamento da mem\u00f3ria e a convic\u00e7\u00e3o de que a justi\u00e7a tinha que ser feita.&#8221;<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\"><strong>O que fica<\/strong><\/p>\n<p>A percep\u00e7\u00e3o de que o ac\u00famulo de mortes pela pandemia tem levado as pessoas a falarem mais sobre o tema &#8211; trazida pela historiadora\u00a0Juliana Schmitt &#8211; caminha junto com o movimento de coletivizar a supera\u00e7\u00e3o das perdas, encarado\u00a0como essencial nas comunidades religiosas e que pode servir de combust\u00edvel para a continuidade.<\/p>\n<p>Como parte de um projeto que chama a aten\u00e7\u00e3o para as responsabilidades do poder p\u00fablico diante dos \u00f3bitos causados pela covid, a Anistia Internacional Brasil e mais de vinte movimentos ouviram\u00a0enlutados e enlutadas.<\/p>\n<p>Os\u00a0<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=2GYkZm4Pxcc&amp;list=PLRi-oq9-4McFaaJZ8r2mzBY8DlT-C4rR-\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">v\u00eddeos<\/a>\u00a0da campanha\u00a0<em><a href=\"https:\/\/anistia.org.br\/peticao\/omissao-nao-e-politica-publica\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Omiss\u00e3o n\u00e3o \u00e9 pol\u00edtica p\u00fablica<\/a>\u00a0<\/em>mostram o impacto das aus\u00eancias\u00a0como motor de mudan\u00e7a e como peso emocional de toda a sociedade.<\/p>\n<p>&#8220;Fomos testemunhas e\u00a0v\u00edtima de muitas mortes. Essas muitas mortes passaram a ser consideras n\u00fameros e aconteceu uma desumaniza\u00e7\u00e3o dessas pessoas que perderam suas vidas.\u00a0 As pessoas que perderam entes tiveram que lidar com a dor de uma maneira muito brutal&#8221;, afirma\u00a0Alexandra Montgomery, diretora de programas da organiza\u00e7\u00e3o*.<\/p>\n<p>&#8221; A gente come\u00e7ou a ver que o estado estava falhando. Parte do governo come\u00e7ou a espalhar\u00a0<em>fake news<\/em>, descredibilizar a imprensa. Tudo isso gera\u00a0nas pessoas que sofrem\u00a0uma dor adicional. Al\u00e9m da incerteza de n\u00e3o saber se voc\u00ea \u00e9 o pr\u00f3ximo, voc\u00ea continua vivendo sem perspectiva.&#8221;<\/p>\n<p>Frente a essa constata\u00e7\u00e3o, a Anistia Internacional come\u00e7ou a buscar formas institucionais de pressionar as autoridades. &#8220;N\u00e3o podem ficar de fora as hist\u00f3rias das pessoas&#8221;, ressalta Alexandra.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 fundamental a gente resgatar a humanidade dessas pessoas. Resgatar e construir o processo de viv\u00eancia do luto coletivo. Se a gente perde a dimens\u00e3o coletiva, a gente pede a motiva\u00e7\u00e3o para lutar. A motiva\u00e7\u00e3o para entender que isso foi errado e que \u00e9\u00a0uma injusti\u00e7a&#8221;, finaliza.<\/p>\n<p>www.brasildefato.com.br \/Nara Lacerda<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>BdF ouviu religiosos e especialistas sobre o poder do di\u00e1logo e da comunidade na supera\u00e7\u00e3o de uma perda sem precedentes Ou\u00e7a o \u00e1udio: O Dia de Finados, celebrado nesta ter\u00e7a-feira (2), chegou para a popula\u00e7\u00e3o brasileira permeado por estat\u00edsticas consternadoras este ano. 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