{"id":24066,"date":"2021-12-06T12:19:39","date_gmt":"2021-12-06T15:19:39","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/?p=24066"},"modified":"2021-12-06T12:19:39","modified_gmt":"2021-12-06T15:19:39","slug":"racismo-associado-a-variantes-do-coronavirus-por-que-a-oms-adotou-o-alfabeto-grego","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/2021\/12\/06\/racismo-associado-a-variantes-do-coronavirus-por-que-a-oms-adotou-o-alfabeto-grego\/","title":{"rendered":"Racismo associado a variantes do coronav\u00edrus: por que a OMS adotou o alfabeto grego?"},"content":{"rendered":"<p class=\"description\"><strong>Para evitar uso de termos como v\u00edrus da China ou variante sul-africana, a OMS adotou o alfabeto grego para nomear cepas<\/strong><\/p>\n<p>Culpar outros pa\u00edses pelo surgimento de uma doen\u00e7a \u2013 em vez de apontar como causa uma resposta pol\u00edtica inadequada a quest\u00f5es de sa\u00fade, por exemplo \u2013 \u00e9 uma manobra hist\u00f3rica para desviar a aten\u00e7\u00e3o de responsabilidades pol\u00edticas.<\/p>\n<p>Quando come\u00e7ou a se referir ao coronav\u00edrus Sars-Cov-2, o ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, chamava o pat\u00f3geno de &#8220;v\u00edrus da China&#8221;. Quando passou a ser pressionado pela espiral ascendente de n\u00famero de casos nos EUA, Trump chegou a usar a defini\u00e7\u00e3o depreciativa &#8220;kung flu&#8221;, fazendo um jogo de palavras com o termo ingl\u00eas para gripe (flu) e a arte marcial oriunda da China.<\/p>\n<p>O registro das designa\u00e7\u00f5es de Trump para o coronav\u00edrus foi realizado pelo professor assistente da universidade CY Cergy Paris, J\u00e9r\u00f4me Viala-Gaudefroy, que tamb\u00e9m \u00e9 especialista em pol\u00edticas de nomea\u00e7\u00e3o de enfermidades.<\/p>\n<p>A chamada gripe espanhola \u2013 causada por um v\u00edrus devastador que matou milh\u00f5es durante a Primeira Guerra Mundial em todo o mundo \u2013 provavelmente surgiu nos EUA, mas foi associada \u00e0 Espanha, o pa\u00eds onde foi identificada primeiro, como &#8220;uma forma de desviar a aten\u00e7\u00e3o&#8221;, explica Viala-Gaudefroy.<\/p>\n<p>\u00c0 medida que Trump e membros do Partido Republicano continuaram a chamar o coronav\u00edrus de &#8220;gripe chinesa&#8221; em 2020 \u2013 tamb\u00e9m disseminando uma teoria infundada de que o v\u00edrus foi criado num laborat\u00f3rio na cidade onde ele foi descoberto, Wuhan \u2013, asi\u00e1tico-americanos passaram a ser cada vez mais visados e atacados.<\/p>\n<p>Trump tamb\u00e9m gostava de invocar met\u00e1foras de guerra quando se referia ao v\u00edrus, incluindo frases como &#8220;o inimigo invis\u00edvel&#8221;, aponta Viala Gaudefroy. Segundo o estudioso, houve um esfor\u00e7o para projetar a imagem de estar combatendo uma invas\u00e3o estrangeira.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m no norte da \u00cdndia, pessoas &#8220;com cara de chineses&#8221; vivendo em regi\u00f5es fronteiri\u00e7as com a China sofreram maus-tratos e foram for\u00e7ados a fazer quarentena \u2013 mesmo sem apresentar nenhum sintoma de covid-19.<\/p>\n<p>Em 2015, por causa de ocorr\u00eancias do tipo, a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) lan\u00e7ou uma cartilha de princ\u00edpios contendo boas pr\u00e1ticas para nomear novas doen\u00e7as, que sugeria evitar &#8220;ofensas a qualquer grupo cultural, social, nacional, regional, profissional ou \u00e9tnico&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Manifesta\u00e7\u00f5es online de racismo e xenofobia relacionadas \u00e0 covid-19 inclu\u00edram ass\u00e9dio, discurso de \u00f3dio, prolifera\u00e7\u00e3o de estere\u00f3tipos discriminat\u00f3rios e teorias da conspira\u00e7\u00e3o&#8221;, descreveu, em mar\u00e7o de 2020, E. Tendayi Achiume, relatora especial sobre racismo, discrimina\u00e7\u00e3o racial, xenofobia e intoler\u00e2ncias relacionadas das Na\u00e7\u00f5es Unidas.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o \u00e9 surpresa que l\u00edderes que est\u00e3o tentando atribuir a covid-19 a certos grupos nacionais ou \u00e9tnicos s\u00e3o exatamente os mesmos l\u00edderes nacionalistas e populistas que tornaram a ret\u00f3rica racista e xen\u00f3foba o centro de suas plataformas pol\u00edticas&#8221;, destacou, na \u00e9poca.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\">Novos nomes de variantes n\u00e3o eliminam o problema<\/p>\n<p>Quando o coronav\u00edrus sofreu muta\u00e7\u00f5es que resultaram em novas variantes, estas continuaram a ser associadas ao local de origem, incluindo a chamada variante indiana.<\/p>\n<p>A racializa\u00e7\u00e3o ou etniciza\u00e7\u00e3o (termos sociol\u00f3gicos que atribuem identidades raciais a grupos que n\u00e3o se identificaram daquela forma por si mesmos) dos nomes dessas variantes motivaram a OMS a usar letras do alfabeto grego para identificar as cepas do coronav\u00edrus em maio de 2021 \u2013 quase um ano e meio depois do surgimento da covid-19.<\/p>\n<p>A primeira variante, identificada inicialmente no Reino Unido, se tornou a alfa, e assim sucessivamente. A descoberta na \u00cdndia, por exemplo, se tornou a delta, e a identificada no Brasil, gama.<\/p>\n<p>Maria Van Kerkhove, t\u00e9cnica s\u00eanior da OMS especializada na resposta do \u00f3rg\u00e3o \u00e0 covid-19, afirma que a mudan\u00e7a de nome deveria diminuir o preconceito. &#8220;Nenhum pa\u00eds deveria ser estigmatizado por detectar e relatar variantes do coronav\u00edrus&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, depois que o alfabeto grego foi adotado como uma forma neutra de nomear variantes do v\u00edrus, houve novos problemas. A letra xi, ou csi (\u039e ou \u03be), por exemplo, poderia ser facilmente associada ao l\u00edder chin\u00eas Xi Jinping, podendo voltar a estimular posi\u00e7\u00f5es antiasi\u00e1ticas. J\u00e1 a letra grega nu, ou ni, foi pulada porque poderia ter sido confundida com a palavra inglesa new (novo\/a).<\/p>\n<p>Portanto, a mais recente variante, detectada inicialmente no sul da \u00c1frica (B.1.1.529), foi chamada de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2021\/12\/05\/a-fome-nao-e-so-numeros-como-a-realidade-das-comunidades-perifericas-piorou-na-pandemia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u00f4micron<\/a>. Mesmo assim, ve\u00edculos da imprensa internacional j\u00e1 tinham se referido \u00e0 nova cepa como a &#8220;variante da \u00c1frica do Sul&#8221;, refor\u00e7ando uma associa\u00e7\u00e3o com a \u00c1frica e at\u00e9 mesmo com pessoas negras.<\/p>\n<p>A edi\u00e7\u00e3o dominical do jornal alem\u00e3o Rheinpfalz am Sonntag chegou a publicar a seguinte manchete de primeira p\u00e1gina: &#8220;O v\u00edrus da \u00c1frica est\u00e1 entre n\u00f3s&#8221;, acima de uma foto de uma mulher negra com uma crian\u00e7a. O jornal acabou pedindo desculpas.<\/p>\n<p>Giorgina Kazungu-Hass, membro da Assembleia da Ren\u00e2nia-Palatinado, estado no oeste da Alemanha onde o di\u00e1rio \u00e9 publicado, tuitou com ironia que a capa &#8220;ser\u00e1 \u00f3tima para pessoas negras&#8221;.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\">Origem contestada e desinforma\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Assim como com a gripe espanhola, possivelmente a variante \u00f4micron teve origem num local diferente de onde ela foi identificada. Na \u00faltima ter\u00e7a-feira (30\/11), por exemplo, houve relatos de que autoridades de sa\u00fade holandesas descobriram a \u00f4micron em amostras locais datadas de 19 de novembro, cinco dias antes de cientistas na \u00c1frica do Sul anunciarem que tinham identificado a cepa.<\/p>\n<p>A pandemia do ebola \u00e9 outra associada \u00e0 \u00c1frica e a pessoas negras. Alguns comentaristas e pol\u00edticos ultradireitistas cunharam o termo racista &#8220;obola&#8221; \u2013 uma jun\u00e7\u00e3o das palavras ebola e do sobrenome de Barack Obama, quando o afro-americano era presidente dos EUA \u2013 para politizar e racializar a doen\u00e7a.<\/p>\n<p>\u00c9 por esse motivo que a OMS alerta contra nomes como mers, abrevia\u00e7\u00e3o da denomina\u00e7\u00e3o, em ingl\u00eas, da S\u00edndrome Respirat\u00f3ria do Oriente M\u00e9dio (Middle East Respiratory Syndrome). Outro exemplo \u00e9 a doen\u00e7a de Lyme, que faz referencia \u00e0 cidade no estado americano de Connecticut onde a borreliose bacteriana transmitida por carrapatos foi identificada inicialmente.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\"><strong>Evitando associa\u00e7\u00f5es com o v\u00edrus<\/strong><\/p>\n<p>Apesar das origens amb\u00edguas da variante \u00f4micron, cidad\u00e3os da \u00c1frica do Sul continuam a pagar pela identifica\u00e7\u00e3o da nova cepa no pa\u00eds com a introdu\u00e7\u00e3o de banimentos de viagens e restri\u00e7\u00f5es fronteiri\u00e7as contra os pa\u00edses na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;O problema \u00e9 que pa\u00edses v\u00e3o evitar relatar novas variantes para que n\u00e3o sejam associados a elas&#8221;, afirma o professor Viala-Gaudefroy, aludindo \u00e0s graves perdas econ\u00f4micas consequentes da percep\u00e7\u00e3o de um pa\u00eds como origem de uma variante do coronav\u00edrus Sars-Cov-2.<\/p>\n<p>&#8220;Precisamos nos referir a v\u00edrus pelos seus nomes oficiais&#8221;, afirma a plataforma antirracismo First Responder num tu\u00edte. &#8220;Depois que as epidemias de mers e \u00a0ebola desencadearam discrimina\u00e7\u00e3o e racismo, a OMS mudou o mecanismo de nomea\u00e7\u00e3o oficial para que n\u00e3o se inclu\u00edsse o local de origem das doen\u00e7as. Chamem de covid-19 para acabar com o \u00f3dio&#8221;, pede a organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>www.brasildefato.com.br\/Stuart Braun\u00a0<span class=\"article-source\">Deutsche Welle<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para evitar uso de termos como v\u00edrus da China ou variante sul-africana, a OMS adotou o alfabeto grego para nomear cepas Culpar outros pa\u00edses pelo surgimento de uma doen\u00e7a \u2013 em vez de apontar como causa uma resposta pol\u00edtica inadequada a quest\u00f5es de sa\u00fade, por exemplo \u2013 \u00e9 uma manobra hist\u00f3rica para desviar a aten\u00e7\u00e3o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":24067,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[25],"tags":[789],"class_list":["post-24066","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias","tag-pandemia-cepa-omicron"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24066","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=24066"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24066\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":24068,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24066\/revisions\/24068"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/24067"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24066"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24066"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=24066"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}