{"id":24229,"date":"2021-12-13T11:22:06","date_gmt":"2021-12-13T14:22:06","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/?p=24229"},"modified":"2021-12-13T11:22:37","modified_gmt":"2021-12-13T14:22:37","slug":"705-mil-homens-brancos-tem-renda-maior-que-a-de-todas-as-mulheres-negras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/2021\/12\/13\/705-mil-homens-brancos-tem-renda-maior-que-a-de-todas-as-mulheres-negras\/","title":{"rendered":"705 mil homens brancos t\u00eam renda maior que a de todas as mulheres negras"},"content":{"rendered":"<p><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-24231 alignright\" src=\"https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/3-300x300.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/3-300x300.jpg 300w, https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/3-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/3.jpg 528w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>Aos 60 anos, Graziela Pereira n\u00e3o pode pensar em parar de trabalhar. Desde 2019 entregando panfletos no centro de Curitiba (PR), ela n\u00e3o reclama do sol ou do calor, s\u00f3 pede licen\u00e7a a quem atravessa a pra\u00e7a apressadamente e oferece um cart\u00e3o de compra de ouro e joias. &#8220;Quando muita gente aceita, ganho meu dia&#8221;, diz ela.<\/strong><\/p>\n<p>Do dinheiro que Graziela ganha trabalhando oito horas todos os dias depende uma neta de dez anos. Sem poder contar com ajuda dos pais da crian\u00e7a, ela, que j\u00e1 trabalhou em escrit\u00f3rios, lojas e restaurantes, tira for\u00e7as para estar nas ruas por mais um dia. &#8220;A vida da gente \u00e9 sempre incerta, mas prefiro agradecer por ter meu trabalho.&#8221;<\/p>\n<p>Realidades como a dela ajudam a ilustrar um dado alarmante no pa\u00eds: no Brasil, o topo da pir\u00e2mide de renda tem cor e g\u00eanero. Os 705 mil homens brancos que fazem parte do 1% mais rico do pa\u00eds e representam 0,56% da popula\u00e7\u00e3o adulta t\u00eam 15,3% de toda a renda, uma fatia maior do que a de todas as mulheres negras adultas juntas.<\/p>\n<p>Elas, que somam 32,7 milh\u00f5es de pessoas e s\u00e3o 26% da popula\u00e7\u00e3o adulta, det\u00eam apenas 14,3% da renda nacional, segundo levantamento exclusivo do Made\/USP (Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades, da Universidade de S\u00e3o Paulo).<\/p>\n<p>O estudo tem como base os dados da mais recente POF (Pesquisa de Or\u00e7amentos Familiares), de 2017 e 2018, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica), e da Declara\u00e7\u00e3o de IRPF (Imposto de Renda das Pessoas F\u00edsicas), da Receita Federal.<\/p>\n<p>&#8220;A desigualdade de oportunidades que afeta sobretudo as mulheres negras se reproduz a cada gera\u00e7\u00e3o e forma uma estrutura muito r\u00edgida&#8221;, diz Luiza Nassif Pires, pesquisadora do Made e do Levy Economics Institute do Bard College, nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Ela acrescenta que, embora os dados da POF tragam um retrato de quatro anos atr\u00e1s, as edi\u00e7\u00f5es mais recentes da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlios) Cont\u00ednua, tamb\u00e9m do IBGE, refor\u00e7am que as mulheres negras sa\u00edram da for\u00e7a de trabalho em maior n\u00famero do que os outros perfis de trabalhadores e que essa desist\u00eancia maior vai se refletir em um aumento da desigualdade no futuro.<\/p>\n<p>A pesquisadora lembra que a pandemia serviu para concentrar ainda mais renda e aumentou a desigualdade de g\u00eanero e ra\u00e7a. Embora o aux\u00edlio emergencial tenha conseguido diminuir temporariamente essa iniquidade, enquanto era de R$ 600 e para um n\u00famero maior de pessoas, a redu\u00e7\u00e3o posterior do benef\u00edcio n\u00e3o foi mais suficiente para reduzir a desigualdade, diz Luiza.<\/p>\n<p>&#8220;O efeito da pandemia tende a demorar mais para passar. A taxa de desemprego agora come\u00e7a a cair primeiro para os homens brancos, enquanto a taxa de participa\u00e7\u00e3o das mulheres negras no mercado segue em desvantagem.&#8221;<\/p>\n<p>Os pesquisadores do Made fizeram a compara\u00e7\u00e3o da renda (o fluxo de dinheiro, que entra todo ano), de acordo com ra\u00e7a e g\u00eanero. Uma investiga\u00e7\u00e3o posterior do grupo deve tamb\u00e9m comparar o patrim\u00f4nio (a riqueza que \u00e9 acumulada) dos brasileiros sob o mesmo crit\u00e9rio.<\/p>\n<p><strong>MERCADO DE TRABALHO REFOR\u00c7A DESIGUALDADES\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Entre os principais motivos para a diferen\u00e7a na remunera\u00e7\u00e3o das mulheres, Luiza destaca o tipo de emprego, o preconceito em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 capacidade e a descontinuidade do trabalho, o que levaria a menores aposentadorias e menores rendas.<\/p>\n<p>&#8220;A pr\u00f3pria forma como a divis\u00e3o se d\u00e1 tende a direcionar mulheres a trabalhos de menores rendimentos, uma vez que essas s\u00e3o maioria no setor terci\u00e1rio, em expans\u00e3o no Brasil e com altos n\u00edveis de precariza\u00e7\u00e3o e informalidade, diz a pesquisadora.<\/p>\n<p>Essa realidade faz com que as mulheres ocupem trabalhos cada vez mais prec\u00e1rios, com menos direitos e sal\u00e1rios mais baixos. Ela tamb\u00e9m destaca que, quando se olha para a base da pir\u00e2mide onde est\u00e3o os 10% mais pobres, \u00e9 poss\u00edvel perceber a import\u00e2ncia do Bolsa Fam\u00edlia, encerrado recentemente, ap\u00f3s 18 anos.<\/p>\n<p>&#8220;Sem o programa, a concentra\u00e7\u00e3o poderia ser ainda pior, e isso revela a necessidade de expandir os programas de transfer\u00eancia de renda sem prazo para terminar.&#8221;<\/p>\n<p>Dados de 2020 mostram que as mulheres negras representam 27% da popula\u00e7\u00e3o e ocupam 50% dos empregos informais. No trabalho dom\u00e9stico, elas s\u00e3o 74% dos que est\u00e3o em trabalhos informais, lembra Mait\u00ea Gauto, gerente de Programas e Incid\u00eancia da Oxfam Brasil.<\/p>\n<p>&#8220;Trata-se de um grupo de alta vulnerabilidade, sem garantia trabalhista ou prote\u00e7\u00e3o social. Durante a pandemia, informais e dom\u00e9sticos foram os grupos mais afetados, por terem sido dispensados do trabalho ou pelas medidas de distanciamento que levaram \u00e0 queda na renda.&#8221;<\/p>\n<p>Ao se considerar os brasileiros brancos que est\u00e3o nos 10% do topo da pir\u00e2mide (tanto os homens quanto as mulheres), eles representam 6,9% da popula\u00e7\u00e3o total, mas ficam com 41,6% da renda total, enquanto todas as pessoas negras, que s\u00e3o 53,8% da popula\u00e7\u00e3o, ganham 35% da renda total, ainda segundo o Made.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, sete em cada dez brasileiros mais pobres s\u00e3o negros. Eles representam 70% do d\u00e9cimo mais pobre da popula\u00e7\u00e3o, ou seja os 10% com os menores rendimentos.<\/p>\n<p>Os dados tamb\u00e9m apontam que os adultos brancos que integram os 10% do topo \u2014pouco mais de 8,6 milh\u00f5es de pessoas\u2014 ficam com 41,6% de toda a renda. Esse montante \u00e9 mais de sete pontos percentuais superior \u00e0 renda de todos os adultos negros (35%), o que representa mais de 67,7 milh\u00f5es de pessoas.<\/p>\n<p>www.bahianoticias.com.br\/por Douglas Gavras | Folhapress<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aos 60 anos, Graziela Pereira n\u00e3o pode pensar em parar de trabalhar. 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