{"id":24868,"date":"2022-01-26T13:06:27","date_gmt":"2022-01-26T16:06:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/?p=24868"},"modified":"2022-01-26T13:14:08","modified_gmt":"2022-01-26T16:14:08","slug":"debater-racismo-sem-leviandade-e-fundamental-para-a-classe-trabalhadora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/2022\/01\/26\/debater-racismo-sem-leviandade-e-fundamental-para-a-classe-trabalhadora\/","title":{"rendered":"Debater racismo sem leviandade \u00e9 fundamental para a classe trabalhadora"},"content":{"rendered":"<p><strong>Para n\u00e3o perder muito tempo com o artigo do antrop\u00f3logo Antonio Ris\u00e9rio, na\u00a0<em>Folha de S.Paulo<\/em>, basta constatar que o jornal paulistano inicia sua campanha contra as cotas raciais, institu\u00eddas em 2012 e que ser\u00e3o revistas neste ano, como mostra o jornalista Jo\u00e3o Filho, do Intercept Brasil.<\/strong><\/p>\n<p>Ele aponta o editorial escrito pelo jornal\u00e3o da fam\u00edlia Frias ap\u00f3s o Supremo Tribunal Federal (STF) decidir \u201cpor unanimidade pela constitucionalidade das cotas raciais em 2012\u201d. Diz o jornalista que \u201cpara os donos do jornal, as cotas deveriam ser apenas sociais, j\u00e1 que as raciais seriam um \u2018erro\u2019\u201d. \u00d3bvio por mexer com privil\u00e9gios de setores da sociedade acostumados a n\u00e3o ter que ceder nada para outras camadas da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Inclusive a Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Antropologia (ABA) e a Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Pesquisadores(as) Negros(as) (ABPN) lan\u00e7aram na quinta-feira (20), o manifesto\u00a0<em><strong>A Quem Serve o \u2018Racismo Reverso\u2019?<\/strong><\/em>onde questionam os motivos desse falso debate, em ano de elei\u00e7\u00f5es e de revis\u00e3o das cotas.<\/p>\n<p>\u201cEm face do contexto de negacionismo cient\u00edfico e avan\u00e7o de um projeto pol\u00edtico anti-negro e anti-democr\u00e1tico em nosso pa\u00eds, objeto de desmonte de pol\u00edticas p\u00fablicas de promo\u00e7\u00e3o da igualdade racial, bem como de atos expl\u00edcitos de viol\u00eancia racial, esta nota p\u00fablica da ABA (Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Antropologia), seus comit\u00eas e comiss\u00f5es encabe\u00e7ados pelo Comit\u00ea de Antrop\u00f3logas\/os Negras\/os, e da ABPN (Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Pesquisadores(as) Negros(as)) pode ser lida como resist\u00eancia ao pacto de mediocridade celebrado entre opositores(as) da luta antirracista e organiza\u00e7\u00f5es representativas do que h\u00e1 de mais nocivo e perpetuador de desigualdades raciais na sociedade brasileira\u201d, alerta o manifesto (<strong><a href=\"http:\/\/www.portal.abant.org.br\/2022\/01\/20\/a-quem-serve-o-racismo-reverso\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"Leia a \u00edntegra aqui (abre numa nova aba)\">Leia a \u00edntegra aqui<\/a><\/strong>).<\/p>\n<p>Para Lucimara da Silva Cruz, secret\u00e1ria de Igualdade Racial da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), \u201ca casa grande n\u00e3o engole quando a senzala ganha espa\u00e7o na sociedade\u201d.<\/p>\n<p>A sindicalista refor\u00e7a a necessidade de atua\u00e7\u00e3o do movimento negro junto com os movimentos sociais progressistas e o movimento sindical para \u201cdenunciar essa tentativa de tolher o verdadeiro debate sobre a luta antirracista, que avan\u00e7a no Brasil\u201d. Mesmo contra a vontade dos setores mais atrasados da elite econ\u00f4mica do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Ela lembra do conceito de \u201cdemocracia racial\u201d, surgido no fim do segundo Imp\u00e9rio e sistematizado no livro\u00a0<em>Casa Grande &amp; Senzala\u00a0<\/em>(1933), do soci\u00f3logo Gilberto Freyre (1900-1987). Esse conceito tentou negar a exist\u00eancia de racismo no Brasil, recha\u00e7ado pelo historiador Cl\u00f3vis Moura (1925-2003).<\/p>\n<p>Para Moura, essa foi uma maneira de negar as lutas dos seres humanos escravizados por quase quatro s\u00e9culos para dar base \u00e0 elite brasileira de como justificar a marginaliza\u00e7\u00e3o das negras e negros no pa\u00eds em toda a sua hist\u00f3ria e de tratar a maioria da popula\u00e7\u00e3o como n\u00e3o-gente.<\/p>\n<p>\u201cCom a montagem do antigo sistema colonial e a expans\u00e3o das metr\u00f3poles colonizadoras, esse racismo se desenvolveu como arma justificadora da invas\u00e3o e do dom\u00ednio das \u00e1reas consideradas \u2018b\u00e1rbaras\u2019, \u2018inferiores\u2019, \u2018selvagens\u2019 que, por isso mesmo, seriam beneficiadas com a ocupa\u00e7\u00e3o de seus territ\u00f3rios e a destrui\u00e7\u00e3o de suas popula\u00e7\u00f5es pelas na\u00e7\u00f5es \u2018civilizadas\u2019\u201d, acentua Moura.<\/p>\n<p>J\u00e1 o pensador S\u00edlvio Almeida, real\u00e7a a necessidade de valorizar o bom debate sobre essa quest\u00e3o crucial para refor\u00e7ar a identidade nacional, inclusive. \u201cParticularmente, n\u00e3o vou gastar meu tempo e nem minha coluna para lidar com esse tipo de gangsterismo intelectual\u201d.<\/p>\n<p>Segundo ele, \u201ch\u00e1 pol\u00eamicas s\u00e9rias sobre racismo, h\u00e1 uma situa\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica que demanda nossa aten\u00e7\u00e3o; h\u00e1 uma disputa sobre a identidade nacional que vai se intensificar com o bicenten\u00e1rio da Independ\u00eancia, os 100 anos da Semana de Arte Moderna; pandemia, Copa do Mundo e elei\u00e7\u00f5es cruciais para o destino do pa\u00eds\u201d porque \u201cmuitos livros b\u00e1sicos desmentem tudo o que estes articulistas t\u00eam escrito, de tal sorte que com eles n\u00e3o se deve gastar energia que possamos compartilhar, divulgar e comentar textos de gente realmente disposta a pensar\u201d.<\/p>\n<p>Ademais, \u201cnegar a exist\u00eancia de racismo no pa\u00eds trata-se de negar a pr\u00f3pria na\u00e7\u00e3o brasileira, a sua forma\u00e7\u00e3o e a sua hist\u00f3ria\u201d, destaca Lucimara.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o precisa de muito esfor\u00e7o intelectual para mostrar a exist\u00eancia de racismo por estas terras\u201d, basta \u201cquestionar a abordagem feita pela Pol\u00edcia Militar nas ruas das cidades\u201d. Negar isso \u00e9, no m\u00ednimo, desonestidade intelectual, ou reacionarismo mesmo.<\/p>\n<p>Contra a tese furada de \u201cracismo reverso\u201d, ela refor\u00e7a que \u201co racismo pressup\u00f5e uma superestrutura\u201d porque \u201cos negros n\u00e3o possuem esse espa\u00e7o hegem\u00f4nico em nossa sociedade, n\u00e3o podemos, desse modo produzir racismo, no m\u00e1ximo pode haver discrimina\u00e7\u00e3o entre indiv\u00edduos\u201d e, mesmo assim \u201co indiv\u00edduo branco estar\u00e1 em vantagem por ser parte do arcabou\u00e7o hegem\u00f4nico produtor de racismo e desfrutar dos privil\u00e9gios que a branquitude lhe proporciona\u201d. Reconhecer esses privil\u00e9gios significa o come\u00e7o para entrar na luta antirracista para valer.<\/p>\n<p>Como bem define o soci\u00f3logo Florestan Fernandes (1920-1995), \u201ca democracia s\u00f3 ser\u00e1 uma realidade quando houver, de fato, igualdade racial no Brasil e o negro n\u00e3o sofrer nenhuma esp\u00e9cie de discrimina\u00e7\u00e3o, de preconceito, de estigmatiza\u00e7\u00e3o e de segrega\u00e7\u00e3o, seja em termos de classe, seja em termos de ra\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p>Por isso, debater racismo sem leviandade \u00e9 fundamental para a classe trabalhadora.<\/p>\n<p>www.ctb.org.br\/ Marcos Aur\u00e9lio Ruy<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para n\u00e3o perder muito tempo com o artigo do antrop\u00f3logo Antonio Ris\u00e9rio, na\u00a0Folha de S.Paulo, basta constatar que o jornal paulistano inicia sua campanha contra as cotas raciais, institu\u00eddas em 2012 e que ser\u00e3o revistas neste ano, como mostra o jornalista Jo\u00e3o Filho, do Intercept Brasil. 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