{"id":25074,"date":"2022-02-09T10:15:34","date_gmt":"2022-02-09T13:15:34","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/?p=25074"},"modified":"2022-02-09T10:15:34","modified_gmt":"2022-02-09T13:15:34","slug":"para-rever-reforma-trabalhista-no-pos-guerra-brasileiro-sera-preciso-mudar-o-perfil-do-congresso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/2022\/02\/09\/para-rever-reforma-trabalhista-no-pos-guerra-brasileiro-sera-preciso-mudar-o-perfil-do-congresso\/","title":{"rendered":"Para rever reforma trabalhista no \u2018p\u00f3s guerra\u2019 brasileiro, ser\u00e1 preciso mudar o perfil do Congresso"},"content":{"rendered":"<p><strong>N\u00e3o apenas o mercado de trabalho, mas a Previd\u00eancia e a pr\u00f3pria atividade econ\u00f4mica ficaram comprometidas nos \u00faltimos anos<\/strong><\/p>\n<p>S\u00e3o Paulo \u2013 Treze de julho de 2017 foi uma data festiva em Bras\u00edlia, pelo menos para um grupo restrito, que se reuniu no Pal\u00e1cio do Planalto. Ali, o presidente Michel Temer sancionava a Lei 13.467, da \u201creforma\u201d trabalhista. O audit\u00f3rio estava lotado, mas apenas com representantes empresariais. N\u00e3o havia entidades de trabalhadores na cerim\u00f4nia. \u201cEsta era uma demanda antiga no pa\u00eds\u201d, celebrou Paulo Afonso Ferreira, vice-presidente da Confedera\u00e7\u00e3o Nacional da Ind\u00fastria (CNI), que em grande medida inspirou o teor da lei, que entraria em vigor dali a quatro meses. Temer engrossou o coro otimista: \u201cEstamos dando mais um passo rumo a um Brasil de mais crescimento, empregos, e mais oportunidades\u201d.<\/p>\n<p>Quase cinco anos depois, sabe-se que os empregos n\u00e3o vieram, tampouco a \u201cseguran\u00e7a jur\u00eddica\u201d ou mesmo a valoriza\u00e7\u00e3o da negocia\u00e7\u00e3o coletiva. E o Congresso Nacional teve papel central, ao aprovar a \u201creforma\u201d trabalhista em tempo recorde. \u201cPenso que a grande maioria dos deputados jamais leu o projeto\u201d, comenta o soci\u00f3logo Clemente Ganz L\u00facio, ex-diretor t\u00e9cnico do Dieese, durante debate realizado na noite de ontem (8). Todos os participantes concordam que ser\u00e1 preciso mudar o perfil do parlamento brasileiro para tentar rever n\u00e3o apenas a lei de 2017, mas outros instrumentos legais, que comprometeram a economia.<\/p>\n<h3>Situa\u00e7\u00e3o \u201cdramaticamente\u201d perversa<\/h3>\n<p>Representante do F\u00f3rum das Centrais, Clemente avalia que possivelmente uma revis\u00e3o ou revers\u00e3o da \u201creforma\u201d trabalhista ser\u00e1 insuficiente, dada a situa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, que ele chama de \u201cdramaticamente\u201d perversa. Com outra reforma, a da Previd\u00eancia, j\u00e1 no atual governo, o pa\u00eds ter\u00e1 menos gente contribuindo e menos gente com acesso ao sistema de prote\u00e7\u00e3o. \u201cO governo Bolsonaro entregar\u00e1 a Previd\u00eancia destru\u00edda do ponto de vista de seu financiamento\u201d, afirma o soci\u00f3logo, no debate promovido pelo Centro de Estudos da M\u00eddia Alternativa Bar\u00e3o de Itarar\u00e9, com apoio da\u00a0<strong>TVT<\/strong>\u00a0(<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=tR59OS6NO40\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">assista aqui<\/a>).<\/p>\n<p>Entre os mais de 140 pa\u00edses que fizeram mudan\u00e7as trabalhistas nas \u00faltimas d\u00e9cadas, diz ainda Clemente, o Brasil promoveu talvez o mais \u201cviolento\u201d processo de mudan\u00e7a. \u201cSem di\u00e1logo, um golpe dentro do golpe, contra os trabalhadores.\u201d Repetiu-se a cantilena de que era preciso reduzir o custo do trabalho com a promessa, nunca cumprida, de que isso criaria empregos. O que aconteceu foi a queda da renda e da demanda. Uma \u201cdebilita\u00e7\u00e3o estrutural da din\u00e2mica econ\u00f4mica\u201d, define. Clemente identifica uma \u201csitua\u00e7\u00e3o de p\u00f3s guerra na sociedade brasileira e no mundo do trabalho\u201d.<\/p>\n<h3>Popula\u00e7\u00e3o quer mudan\u00e7as<\/h3>\n<p>A presidenta da Confedera\u00e7\u00e3o Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT), Juvandia Moreira, concorda que a elei\u00e7\u00e3o deste ano tem car\u00e1ter plebiscit\u00e1rio. \u201cO trabalhador e a popula\u00e7\u00e3o est\u00e3o dizendo claramente, nas pesquisas, o povo est\u00e1 dizendo que quer mudan\u00e7a. As pessoas viram o que significou (<em>o impeachment e<\/em>\u00a0<em>a elei\u00e7\u00e3o do atual governo<\/em>) para o Brasil, para a vida do povo brasileiro. A gente voltou para o Mapa da Fome, perdeu emprego, perdeu direitos\u201d, sintetiza. Mas, al\u00e9m da elei\u00e7\u00e3o presidencial, refor\u00e7a Juvandia, \u00e9 preciso mudar o parlamento. \u201cSe a gente ficar com esse Congresso fisiol\u00f3gico, esse Centr\u00e3o\u2026\u201d<\/p>\n<p>Uma das mudan\u00e7as necess\u00e1rias na quest\u00e3o trabalhista, diz a dirigente banc\u00e1ria, \u00e9 acabar com os acordos individuais. Ela observa que trabalhador, sozinho, n\u00e3o tem poder de recusar imposi\u00e7\u00f5es patronais. \u201cO golpe aconteceu para isso, para implementar esse projeto.\u201d A discuss\u00e3o agora, completa Juvandia, \u00e9 sobre \u201cqual pa\u00eds n\u00f3s queremos\u201d.<\/p>\n<h3>Novas ofensivas<\/h3>\n<p>Para a economista Ana Georgina Dias, do Dieese, as consequ\u00eancias para o mercado de trabalho n\u00e3o deixam d\u00favidas sobre o car\u00e1ter \u201cdanoso\u201d da reforma trabalhista. Al\u00e9m disso, desde ent\u00e3o n\u00e3o foram poucas as tentativas de aprofundar as mudan\u00e7as, algumas temporariamente barradas, como a \u201ccarteira verde e amarela\u201d. Mas h\u00e1 agora uma s\u00e9rie de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.redebrasilatual.com.br\/economia\/2022\/01\/grupo-governo-culpa-trabalhador-amplia-flexibilizacao\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">recomenda\u00e7\u00f5es apresentadas no final de 2021 por um grupo de estudos formado pelo governo<\/a>, o Gaet, que tamb\u00e9m n\u00e3o teve a presen\u00e7a de representantes dos trabalhadores. E em 28 de janeiro o governo lan\u00e7ou a Medida Provis\u00f3ria (MP) 1.099, sobre presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7o civil volunt\u00e1rio. Na vis\u00e3o das centrais sindicais, mais uma tentativa de \u201cflexibiliza\u00e7\u00e3o\u201d e precariza\u00e7\u00e3o trabalhista.<\/p>\n<p>Os danos atuais j\u00e1 s\u00e3o \u201cabsolutamente profundos\u201d, destaca Ana Georgina. \u201cAinda que se consiga um movimento de revers\u00e3o, n\u00e3o ser\u00e1 f\u00e1cil, nem r\u00e1pida\u201d, avalia, ressaltando a import\u00e2ncia da governabilidade. \u201cNeste momento me preocupa muito a correla\u00e7\u00e3o e a composi\u00e7\u00e3o de for\u00e7as do pr\u00f3ximo Congresso Nacional. J\u00e1 tivemos (trabalhadores) uma representatividade muito maior.\u201d<\/p>\n<h3>Inspira\u00e7\u00e3o patronal<\/h3>\n<p>A pr\u00f3pria Lei 13.467 se originou, em boa medida, de um documento da CNI (<em>101 Propostas para Moderniza\u00e7\u00e3o Trabalhista<\/em>) de 2012, lembra o analista pol\u00edtico e consultor Ant\u00f4nio Augusto de Queiroz, o Toninho, ex-diretor do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap). Anos depois, o relator do projeto, o ent\u00e3o deputado Rog\u00e9rio Marinho (PSDB-RN), modificou drasticamente o texto original. Assim, recorda Toninho, um projeto com 12 mudan\u00e7as \u201csai do Congresso com aproximadamente 200\u201d. (Marinho n\u00e3o foi reeleito, mas ganhou cargos no governo.)<\/p>\n<p>Por enquanto, concordou o analista, foi poss\u00edvel segurar novas investidas, at\u00e9 por \u201cerros t\u00e1ticos\u201d do governo. Mas se a elei\u00e7\u00e3o trouxer o mesmo governo, ou semelhante, ser\u00e3o usadas as medidas do Gaet, o que ser\u00e1 \u201ctr\u00e1gico\u201d, alerta.<\/p>\n<h3>Sustenta\u00e7\u00e3o da Previd\u00eancia<\/h3>\n<p>Assim como Clemente, ele destaca a necessidade de se buscar novas fontes de financiamento para a Previd\u00eancia, j\u00e1 que a folha de pagamento n\u00e3o dar\u00e1 mais conta de mant\u00ea-la. Ele acredita, por outro lado, que a possibilidade de cria\u00e7\u00e3o das federa\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias possa aumentar as chances de \u201campliar significativamente\u201d a representa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores no Congresso. \u201cVai beneficiar enormemente quem estiver unido. (\u2026) O sistema de distribui\u00e7\u00e3o das cadeiras foi profundamente alterado.\u201d A primeira coisa a fazer \u00e9 \u201cdesinterditar\u201d o debate, pede Toninho, que j\u00e1 em 2014, no mesmo Bar\u00e3o de Itarar\u00e9,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.redebrasilatual.com.br\/politica\/2014\/08\/ofensiva-patronal-em-2015-sera-assustadora-e-exigira-base-social-alerta-diap-6198\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">chamava a aten\u00e7\u00e3o para a ofensiva patronal que se confirmou nos anos seguintes<\/a>.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso tamb\u00e9m, acrescenta Clemente, \u201cdenunciar o estrago\u201d feito desde ent\u00e3o. O pa\u00eds \u201cdestruiu prote\u00e7\u00e3o e retirou dinamismo da economia\u201d, afirma. O soci\u00f3logo chama a aten\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m para\u00a0<a href=\"https:\/\/www.redebrasilatual.com.br\/mundo\/2022\/02\/congresso-da-espanha-ratifica-reforma-trabalhista-contra-temporalidade-excessiva\/\">a recente revis\u00e3o da legisla\u00e7\u00e3o trabalhista aprovada na Espanha<\/a>. \u201cMuito menor do que a destrui\u00e7\u00e3o que foi feita, mas \u00e9 importante. O processo pactuado considera que a negocia\u00e7\u00e3o coletiva \u00e9 um instrumento central para a regula\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de trabalho onde h\u00e1 um mundo produtivo organizado. (E o) crescimento do sal\u00e1rio \u00e9 indutor do crescimento econ\u00f4mico.\u201d O debate eleitoral ir\u00e1 \u201cmostrar que \u00e9 poss\u00edvel outro caminho\u201d.<\/p>\n<p>www.redebrasilatual.com.br\/Vitor Nuzzi<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o apenas o mercado de trabalho, mas a Previd\u00eancia e a pr\u00f3pria atividade econ\u00f4mica ficaram comprometidas nos \u00faltimos anos S\u00e3o Paulo \u2013 Treze de julho de 2017 foi uma data festiva em Bras\u00edlia, pelo menos para um grupo restrito, que se reuniu no Pal\u00e1cio do Planalto. 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