{"id":25080,"date":"2022-02-09T10:26:42","date_gmt":"2022-02-09T13:26:42","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/?p=25080"},"modified":"2022-02-09T10:26:42","modified_gmt":"2022-02-09T13:26:42","slug":"familias-barracas-e-recem-desempregados-cresce-novo-perfil-em-situacao-de-rua-na-pandemia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/2022\/02\/09\/familias-barracas-e-recem-desempregados-cresce-novo-perfil-em-situacao-de-rua-na-pandemia\/","title":{"rendered":"Fam\u00edlias, barracas e rec\u00e9m-desempregados: cresce novo perfil em situa\u00e7\u00e3o de rua na pandemia"},"content":{"rendered":"<p class=\"description\"><strong>&#8220;Nunca imaginei&#8221;, diz ex-motorista de aplicativo que vive com a esposa na S\u00e9, entre a\u00e7\u00f5es do &#8220;rapa&#8221; e busca por emprego<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ou\u00e7a o \u00e1udio:<\/strong><\/p>\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-25080-1\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/09-02-22-POPULACAO-RUA-SP-DOUGLAS-MATOS.mp3?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/09-02-22-POPULACAO-RUA-SP-DOUGLAS-MATOS.mp3\">https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/09-02-22-POPULACAO-RUA-SP-DOUGLAS-MATOS.mp3<\/a><\/audio>\n<p>Glaucielle Martine e Almir Marques vivem desde setembro de 2021 dentro de uma barraca, no marco zero da cidade de S\u00e3o Paulo. O aluguel de R$ 500 que pagavam por um quarto no Parque Dom Pedro ficou invi\u00e1vel depois que o pre\u00e7o do combust\u00edvel disparou, e as corridas que Almir fazia, como motorista de aplicativo, estavam deixando o bolso mais vazio do que cheio.<\/p>\n<p>Segundo levantamento de dezembro de 2021 feito pela prefeitura de S\u00e3o Paulo, a popula\u00e7\u00e3o de rua da capital paulista chegou a 31.884 pessoas naquele ano, sendo 7.540 pessoas a mais em rela\u00e7\u00e3o a 2019, o que representa um aumento de 31%.<\/p>\n<p>Entre as milhares de pessoas que passaram a viver nas pra\u00e7as e cal\u00e7adas da cidade de S\u00e3o Paulo durante a pandemia de covid-19, o casal \u00e9 exemplo do que\u00a0<a href=\"https:\/\/www.fiocruzbrasilia.fiocruz.br\/populacao-em-situacao-de-rua-aumentou-durante-a-pandemia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">vem se chamando de um novo perfil da popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de rua<\/a>. S\u00e3o aqueles que est\u00e3o nessa condi\u00e7\u00e3o pela primeira vez, muitas vezes com fam\u00edlia e vivendo em barracas.<\/p>\n<p>Aos 37 anos, Glaucielle conta que trabalhava com reciclagem de papel\u00e3o, mas viu seu servi\u00e7o desvalorizar ao mesmo tempo em que a infla\u00e7\u00e3o escalou pre\u00e7os de itens b\u00e1sicos de sobreviv\u00eancia, como os alimentos. &#8220;Enquanto estava R$ 1 o quilo do papel\u00e3o, a gente conseguia pagar o quarto. A\u00ed o papel\u00e3o caiu para R$ 0,40. Ou pagava aluguel, ou comia&#8221;, relata.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\"><strong>Censo 2021 da popula\u00e7\u00e3o de rua<\/strong><\/p>\n<p>O censo da popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de rua em S\u00e3o Paulo foi encomendado pela gest\u00e3o do prefeito Ricardo Nunes (MDB) para a empresa Qualitest Ci\u00eancia e Tecnologia e divulgado no final de janeiro.<\/p>\n<p>A pesquisa aponta que, de 2019 para c\u00e1, o n\u00famero de barracas pelas ruas aumentou 330%. Antes da pandemia, eram 20% as pessoas que informavam viver nas ruas junto com membros familiares.\u00a0No fim de\u00a02021, o percentual foi para\u00a028,6%.<\/p>\n<p>Grupos que atuam nesse tema h\u00e1 d\u00e9cadas \u2014 a exemplo da Pastoral do Povo de Rua, encabe\u00e7ada pelo padre Julio Lancellotti, e do Movimento Nacional da Popula\u00e7\u00e3o em Situa\u00e7\u00e3o de Rua (MNPR) \u2014\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2022\/01\/25\/censo-da-populacao-de-rua-de-sao-paulo-nao-mostra-a-realidade-contesta-movimento\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">contestam a metodologia do censo<\/a>\u00a0e afirmam que seu resultado est\u00e1 subnotificado.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\"><strong>O rapa\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Todos os dias, Glaucielle e Almir armam sua barraca ao entardecer. \u00c0s 4h, eles e todos seus vizinhos j\u00e1 desmontam, antes que chegue a zeladoria da prefeitura,\u00a0popularmente chamada\u00a0de &#8220;rapa&#8221;.<\/p>\n<p>Os relatos colhidos pela reportagem na pra\u00e7a da S\u00e9 foram un\u00e2nimes: quem n\u00e3o guardar seus pertences ainda antes de o sol nascer\u00a0corre s\u00e9rio risco de perd\u00ea-los.<\/p>\n<p>Um posicionamento da prefeitura a\u00a0respeito da pr\u00e1tica foi requisitado, mas at\u00e9 o momento n\u00e3o houve resposta.<\/p>\n<p>Em um v\u00eddeo enviado ao\u00a0<strong>Brasil de Fato<\/strong>, agentes da gest\u00e3o municipal aparecem retirando e levando embora colch\u00f5es e cobertores, em uma das a\u00e7\u00f5es que fazem diariamente.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"YouTube video player\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/kA0DjX4k9nY\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p>Almir \u00e9 uma das mais de 25 milh\u00f5es de pessoas no Brasil que pegaram covid-19. &#8220;O rapa n\u00e3o me permitiu\u00a0ficar isolado para n\u00e3o transmitir para as outras pessoas. No terceiro dia em diante, j\u00e1 tive que ficar desmontando barraca\u00a0e ficar circulando\u201d, relata.<\/p>\n<p>Tem de circular, mas n\u00e3o para muito longe. \u201cA gente n\u00e3o sai daqui, da pra\u00e7a. N\u00e3o consegue por causa do pessoal do rapa, n\u00e9? Que tem gente a\u00ed que fala que \u00e9 a zeladoria, mas aqui \u00e9 o rapa. Ent\u00e3o n\u00e3o tem como\u201d, descreve.\u00a0\u201cTem o plant\u00e3o ruim que chega e j\u00e1 leva, leva barraca, roupa, leva tudo\u201d, complementa.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\"><strong>A busca por trabalho<\/strong><\/p>\n<p>Assim, o casal se reveza quando um deles precisa se afastar da S\u00e9 para, por exemplo, procurar emprego. \u201cEu distribu\u00ed bastante curr\u00edculo aqui, mas n\u00e3o tive sucesso ainda\u201d, diz Glaucielle, que \u00e9 natural de Ponta Grossa (PR) e chegou a S\u00e3o Paulo em junho do ano passado.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.ibge.gov.br\/explica\/desemprego.php\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">De acordo com o IBGE<\/a>, atualmente a soma das pessoas desempregadas (12,6% da popula\u00e7\u00e3o brasileira) com as desalentadas, que s\u00e3o aquelas que j\u00e1 nem buscam trabalho, equivale a 18,6 milh\u00f5es.<\/p>\n<p>Segundo o\u00a0levantamento da prefeitura de S\u00e3o Paulo\u00a0entre a popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de rua, 42,8% est\u00e3o sem trabalho. Outros 33,9% est\u00e3o vivendo de bicos, 3,9% t\u00eam emprego sem registro em carteira e 2,2% trabalham registrados. Antonio faz parte da parcela de 16,7% que trabalha por conta pr\u00f3pria.<\/p>\n<figure style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images02.brasildefato.com.br\/a81d55bb19e95663cb2e21a7693484a2.jpeg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"533\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Vendendo papel\u00e3o para reciclagem, Antonio e seu colega pretendem juntar dinheiro para alugar um quarto e sair das ruas da zona oeste \/ Pedro Stropasolas<\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\"><strong>Idas e vindas<\/strong><\/p>\n<p>Ant\u00f4nio morava em Itapevi (SP) e agora, aos 45 anos, passa as noites embaixo da marquise de uma ag\u00eancia da Caixa Econ\u00f4mica Federal, na Lapa, zona oeste de S\u00e3o Paulo. Nos \u00faltimos quatro anos, viveu idas e vindas com condi\u00e7\u00f5es de ter um teto. &#8220;Quando o neg\u00f3cio aperta, a\u00ed eu vou pra rua&#8221;, diz. E foi durante a pandemia que o neg\u00f3cio apertou de novo.<\/p>\n<p>H\u00e1 um ano, foi dispensado do servi\u00e7o de ajudante de pedreiro. Atualmente, Antonio cata papel\u00e3o pela regi\u00e3o, na parceria de outro colega da antiga obra, que vive nas mesmas condi\u00e7\u00f5es e n\u00e3o quis aparecer na reportagem. &#8220;Minha m\u00e3e teria um enfarto se me visse nessas condi\u00e7\u00f5es&#8221;, justificou. \u00c9 com o mesmo papel\u00e3o recolhido durante a jornada que eles forram o ch\u00e3o para passar a noite.<\/p>\n<p>&#8220;Vem um, d\u00e1 comida, vem outro, d\u00e1 comida, e assim n\u00f3s vamos vivendo a\u00a0vida. No dia a dia, quando n\u00e3o tem [algo] para comer, n\u00f3s dormimos de todo jeito&#8221;, descreve Antonio.<\/p>\n<p>&#8220;Tem uns que querem ficar mangueando. N\u00f3s n\u00e3o:\u00a0n\u00f3s j\u00e1 queremos trabalhar para se manter, t\u00e1 entendendo?&#8221;, explica Antonio, ao dizer que eles t\u00eam perspectivas de alugar um quarto, sem cozinha, mas com banheiro. At\u00e9 o momento, conseguiram juntar R$ 100 dos R$ 350 necess\u00e1rios.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\"><strong>&#8220;O medo maior \u00e9 a discrimina\u00e7\u00e3o das pessoas&#8221;<\/strong><\/p>\n<p>Segundo conta Almir, a solidariedade entre as pessoas que dividem o espa\u00e7o da pra\u00e7a da S\u00e9 garante o compartilhamento de cobertores e outros objetos necess\u00e1rios para a sobreviv\u00eancia ao relento.<\/p>\n<p>&#8220;Mas o olhar das pessoas que passam \u00e9 o pior. \u00c9 como se voc\u00ea fosse roubar. O ser humano j\u00e1 n\u00e3o gosta de olhar muito para o pr\u00f3ximo, n\u00e9? Ent\u00e3o, o olhar discriminat\u00f3rio\u00a0arrebenta mais\u201d, narra.<\/p>\n<p>Nesse m\u00eas de fevereiro, Glaucielle come\u00e7a um curso de t\u00e9cnico em Radiologia, na faculdade Anhanguera, na Rep\u00fablica. Ser\u00e1 a vez de o marido cuidar dos pertences enquanto ela estiver fora.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"YouTube video player\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/R-qpD879Dv8\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p>www.brasildefato.com.br\/Gabriela Moncau e Pedro Stropasolas<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Nunca imaginei&#8221;, diz ex-motorista de aplicativo que vive com a esposa na S\u00e9, entre a\u00e7\u00f5es do &#8220;rapa&#8221; e busca por emprego Ou\u00e7a o \u00e1udio: Glaucielle Martine e Almir Marques vivem desde setembro de 2021 dentro de uma barraca, no marco zero da cidade de S\u00e3o Paulo. 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