{"id":25690,"date":"2022-03-23T11:48:55","date_gmt":"2022-03-23T14:48:55","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/?p=25690"},"modified":"2022-03-23T11:49:22","modified_gmt":"2022-03-23T14:49:22","slug":"opiniao-bolsonaro-nao-age-contra-a-fome-no-brasil-porque-nao-quer-por-jose-graziano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/2022\/03\/23\/opiniao-bolsonaro-nao-age-contra-a-fome-no-brasil-porque-nao-quer-por-jose-graziano\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o | Bolsonaro n\u00e3o age contra a fome no Brasil porque n\u00e3o quer, por Jos\u00e9 Graziano"},"content":{"rendered":"<p class=\"description\"><strong>Compra de produtos da agricultura familiar e forma\u00e7\u00e3o de estoques p\u00fablicos est\u00e3o entre as propostas do ex-chefe da FAO<\/strong><\/p>\n<p>O artigo \u201c<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mercado\/2022\/03\/disparada-de-alimentos-deve-seguir-espremendo-os-brasileiros.shtml#:~:text=Em%20termos%20relativos%2C%20taxa%20de,espremidos%22%20pela%20tend%C3%AAncia%20de%20alta.\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Alta dos alimentos deve &#8216;espremer&#8221;\u00a0mais os brasileiros<\/a>\u201d publicado na\u00a0<em>Folha de S.Paulo<\/em>\u00a0no \u00faltimo dia 19,\u00a0de autoria de Fernando Canzian, desvela a impot\u00eancia do atual governo federal frente \u00e0\u00a0atual tend\u00eancia de alta dos pre\u00e7os dos alimentos. &#8220;Temos como baixar os pre\u00e7os? N\u00e3o\u201d, afirma o diretor do Minist\u00e9rio da Agricultura e Pecu\u00e1ria (MAPA) ao ser entrevistado, que descarta ampliar estoques e justifica que \u201co melhor rem\u00e9dio para pre\u00e7o alto \u00e9 pre\u00e7o alto. \u00c9 isso que incentiva a produ\u00e7\u00e3o.&#8221; As estimativas de safra apresentadas no mesmo artigo por Canzian desmentem essa afirmativa de que a alta de pre\u00e7os tenha alavancado de imediato a produ\u00e7\u00e3o de gr\u00e3os no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Se os\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2022\/03\/11\/inflacao-e-a-maior-desde-2015-com-alta-de-alimentos-aluguel-educacao-e-energia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">pre\u00e7os altos<\/a>\u00a0n\u00e3o beneficiam os produtores agr\u00edcolas e prejudicam os consumidores, a quem interessa ent\u00e3o essa alta? A resposta s\u00f3 pode estar no elo que falta, os intermedi\u00e1rios, que cumprem o papel de estocar esses produtos para disponibiliz\u00e1-los quando for do seu interesse; ou seja, quando conseguirem um pre\u00e7o maior. A isso se chama especula\u00e7\u00e3o, no sentido econ\u00f4mico preciso do termo. N\u00e3o se trata de culpar os intermedi\u00e1rios pois eles desempenham um papel vital no armazenamento e distribui\u00e7\u00e3o de alimentos para que estejam dispon\u00edveis para nos consumidores. Ocorre que quando os pre\u00e7os est\u00e3o subindo &#8211; e existe a expectativa de que subam mais ainda no curto prazo, os intermedi\u00e1rios especulam com os produtos que tem armazenados, aguardando o melhor momento para vend\u00ea-los.<\/p>\n<figure style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images03.brasildefato.com.br\/cb7dfb91882ec6214fec24f4108dfea6.jpeg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"616\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">\u201cMarcha dos ossos\u201d realizada por mulheres no Centro de Curitiba, em 2021, em protesto contra a fome. \/ Juliana Barbosa \/ MST-PR<\/figcaption><\/figure>\n<p>\u00c9 preciso entender que, embora o senso comum repita que os pre\u00e7os de mercado resultem do encontro da curva de oferta com a de demanda, n\u00e3o \u00e9 bem isso que ocorre nos\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2022\/03\/19\/como-a-reducao-de-recursos-destinados-a-seguranca-alimentar-afeta-a-populacao-brasileira\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">pre\u00e7os agr\u00edcolas<\/a>\u00a0no curto prazo. Afinal, n\u00f3s n\u00e3o comemos hoje apenas o que foi produzido ontem, como \u00e9 o caso de muitos dos produtos industriais. No caso dos pre\u00e7os agr\u00edcolas s\u00e3o os estoques e o consumo projetado que determinam os pre\u00e7os do nosso dia a dia. E estoques baixos &#8211; ainda mais quando est\u00e3o todos nas m\u00e3os do setor privado &#8211; s\u00e3o condi\u00e7\u00e3o suficiente para impulsionar uma especula\u00e7\u00e3o dos pre\u00e7os no seu sentido econ\u00f4mico mais exato, ou seja, aguardar o melhor momento para vender. Ainda mais em um quadro cheio de incertezas em rela\u00e7\u00e3o ao que pode passar nos pr\u00f3ximos meses.<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode culpar os intermedi\u00e1rios por especularem: isso \u00e9 parte do seu neg\u00f3cio. A culpa \u00e9 do governo que n\u00e3o fez\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2022\/02\/07\/area-plantada-de-feijao-arroz-e-mandioca-em-2022-e-a-menor-dos-ultimos-45-anos\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">estoques p\u00fablicos<\/a>\u00a0e deixou tudo nas m\u00e3os do setor privado. \u00c9 como se tivesse entregado o galinheiro para as raposas tomarem conta\u2026 A alta de pre\u00e7os devido\u00a0\u00e0\u00a0especula\u00e7\u00e3o nesse momento da guerra da Ucr\u00e2nia \u00e9 o resultado dessa pol\u00edtica ultra liberal que praticamos: o governo do Brasil \u00e9 hoje um dos poucos que acredita que fazemos parte de um grande supermercado global, onde podemos comprar qualquer coisa, quando quisermos. Mas claro, desde que estejamos dispostos a pagar pelos altos pre\u00e7os vigentes no momento! Esse \u00e9 literalmente o pre\u00e7o que pagamos pelo governo n\u00e3o ter estoques p\u00fablicos de emerg\u00eancia para enfrentar situa\u00e7\u00f5es como essa de guerra, mas que poderia ser tamb\u00e9m resultante de uma seca ou uma enchente, ou seja, qualquer coisa inesperada que provoque uma expectativa de queda na oferta futura das\u00a0agr\u00edcolas.<\/p>\n<p>Importante ressaltar que a\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefatopr.com.br\/2022\/01\/21\/com-perdas-de-toneladas-de-alimentos-agricultores-reivindicam-serem-ouvidos-pelo-governo-do-pr\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">atual subida de pre\u00e7os<\/a>\u00a0n\u00e3o decorre de uma crise de desabastecimento. Ou seja, n\u00e3o h\u00e1\u00a0falta de produtos nas prateleiras dos supermercados, que est\u00e3o cheias; o que est\u00e1\u00a0cada vez mais vazio s\u00e3o os carrinhos&#8230; At\u00e9\u00a0porque o Brasil n\u00e3o depende de produtos importados da Ucr\u00e2nia: nem mesmo do trigo, que importamos a maior parte da Argentina. S\u00f3 haveria risco de desabastecimento se os pa\u00edses produtores colocassem restri\u00e7\u00f5es nas suas exporta\u00e7\u00f5es, como j\u00e1\u00a0est\u00e3o\u00a0fazendo o Egito e Indon\u00e9sia. Mas como disse o secret\u00e1rio do MAPA ao jornalista Canzian, a Argentina estaria \u201cconsiderando\u201d fazer isso com o trigo que exporta. (Talvez essa \u201camea\u00e7a\u201d nem seja real, mas ajuda a manter as expectativas de pre\u00e7os do trigo argentino em alta. Ali\u00e1s a Argentina anunciou a cria\u00e7\u00e3o de um Fundo de Estabiliza\u00e7\u00e3o dos pre\u00e7os internos do trigo &#8220;tipo Robin\u00a0Wood\u201d, com recursos provenientes de um aumento das taxas de exporta\u00e7\u00e3o de soja que vai ser pago praticamente por 8 grandes\u00a0<em>tradings<\/em>. Poderia funcionar aqui tamb\u00e9m\u2026)<\/p>\n<figure style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images02.brasildefato.com.br\/12e4b9fe15118b20355d456f77a2c237.jpeg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"533\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">No 8M mulheres ocuparam \u00e0s ruas &#8220;por um Brasil sem machismo, sem racismo, sem fome e sem Bolsonaro&#8221; \/ Nath\u00e1lia Flor\u00eancio<\/figcaption><\/figure>\n<p>Essa atitude defensiva de restringir as suas pr\u00f3prias exporta\u00e7\u00f5es foi tomada por in\u00fameros pa\u00edses na crise de 2007\/08 e agravou ainda mais a alta dos pre\u00e7os, gerando at\u00e9\u00a0situa\u00e7\u00f5es em que um pa\u00eds n\u00e3o conseguia \u201ccomprar\u201d trigo nos mercados internacionais. Foi o caso de alguns pa\u00edses \u00e1rabes (como o pr\u00f3prio Egito, por exemplo) que enfrentaram na \u00e9poca s\u00e9rios dist\u00farbios internos, pela alta dos pre\u00e7os e depois falta de p\u00e3o, nos protestos ocorridos no que ficou conhecido como \u201c<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2021\/02\/24\/da-euforia-a-realidade-os-descaminhos-da-primavera-arabe-dez-anos-depois\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Primavera \u00e1rabe<\/a>\u201d.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o atual \u00e9 diferente, dada a exist\u00eancia de um um Sistema de Informa\u00e7\u00f5es sobre Mercados Agr\u00edcolas &#8211; AMIS (<em>Agricultural Market Information System<\/em>), com foco inicial em quatro\u00a0<em>commodities<\/em>\u00a0alimentares: trigo, milho, arroz e soja, institu\u00eddo no final de 2011. Atualmente o AMIS \u00e9 gerido por um Secretariado sediado na FAO, englobando nove organismos internacionais (FAO, IFAD, OECD, UNCTAD, WFP, World Bank, WTO, IFPRI e UNHLTF) e visa dar transpar\u00eancia para as informa\u00e7\u00f5es dos mercados (em especial aos estoques), bem como articular uma coordena\u00e7\u00e3o m\u00ednima das inten\u00e7\u00f5es pol\u00edticas dos principais pa\u00edses produtores. Informa\u00e7\u00f5es precisas e fidedignas ajudam a conter a especula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 certo que agora, em plena guerra, n\u00e3o \u00e9 a hora de formar estoques pois isso contribuiria para elevar os pre\u00e7os ainda mais. Mas isso n\u00e3o significa que o governo tenha que ficar de bra\u00e7os cruzados esperando que os pre\u00e7os se ajustem com o passar do tempo (pr\u00f3xima safra?), que pode ser longo demais para quem ja est\u00e1\u00a0com fome. De imediato daria para retomar, por exemplo, o Programa de Aquisi\u00e7\u00e3o de Alimentos (PAA) da agricultura, pois o aumento de pre\u00e7os das\u00a0<em>commodities<\/em>\u00a0n\u00e3o ocorre nos produtos que tem apenas mercados locais. Assim por exemplo, poder\u00edamos orientar a substitui\u00e7\u00e3o de parte do consumo de trigo e arroz por mandioca, batatas e tub\u00e9rculos em geral, onde estiverem dispon\u00edveis.<\/p>\n<p>Mas a m\u00e9dio prazo &#8211; quando come\u00e7ar a colheita da pr\u00f3xima safra, por exemplo &#8211; o governo deveria retomar a forma\u00e7\u00e3o dos estoques de emerg\u00eancia que significa comprar e reter 2 a 3 meses dos produtos b\u00e1sicos (<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2021\/10\/16\/fome-no-brasil-nao-falta-comida-falta-dinheiro-para-comprar-alimentos-diz-jose-graziano\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">como recomenda a FAO<\/a>) sob o seu controle na Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), por exemplo. S\u00f3\u00a0o fato do governo anunciar agora que pretende fazer isso mais \u00e0\u00a0frente, ajudaria a frear as expectativas de alta dos pre\u00e7os pois num processo especulativo\u00a0como o que vivemos no momento, s\u00f3 h\u00e1 certeza de uma coisa: tudo o que sobe muito rapidamente, vai cair mais \u00e0\u00a0frente! E saber essa hora \u00e9 o segredo de todo neg\u00f3cio especulativo: por isso ajuda muito ter amigos no governo, em especial aqueles que tem o &#8220;MAPA&#8221; da mina!<\/p>\n<figure style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images02.brasildefato.com.br\/a7356ca17b4b7becb5a5fe1f8afb069d.jpeg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"533\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Incentivo \u00e0 agricultura familiar poderia amenizar alta dos pre\u00e7os dos alimentos \/ MTD\/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>O jornalista Fernando Canzian acerta inteiramente ao dizer que as \u201cpessoas mais pobres de pa\u00edses como o Brasil devem continuar sendo &#8220;espremidos&#8221; pela tend\u00eancia de alta dos pre\u00e7os\u201d. Mas os dados que utiliza da pesquisa da rede PENSSAN subestimam a magnitude dos que passam fome hoje no Brasil pois se refere aos 19 milh\u00f5es (um Chile inteiro!) estimados em dezembro de 2020, final do primeiro ano da pandemia quando ainda t\u00ednhamos os \u00faltimos pagamentos do auxilio emergencial. Infelizmente a fome continuou a aumentar em 2021 por falta de a\u00e7\u00e3o do governo federal que se preocupou mais em mudar o nome do Bolsa Fam\u00edlia por raz\u00f5es eleitoreiras que estender o auxilio emergencial aos mais pobres.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria\u00a0<em>Folha de S.Paulo<\/em>\u00a0divulgou um Datafolha\u00a0nas v\u00e9speras do Natal de 2021 que mostrou que, ao final do segundo ano da pandemia, 15% da popula\u00e7\u00e3o brasileira\u00a0tinham deixado de comer pelo menos um dia da semana durante o per\u00edodo da pesquisa, o que representava cerca de 32 milh\u00f5es de pessoas. E mais: 26% da popula\u00e7\u00e3o &#8211; ou seja, 55 milh\u00f5es de pessoas &#8211; tinham deixado de comer o que precisavam pois n\u00e3o tinham dinheiro para comprar mais alimentos. \u00c9 praticamente o equivalente a toda a popula\u00e7\u00e3o do Chile mais a da Bol\u00edvia juntas, passando fome dentro do Brasil!<\/p>\n<p>www.cut.org.br \/Jos\u00e9 Graziano da Silva\u00a0\u00e9 diretor-geral do Instituto Fome Zero (IFZ) e ex-ministro de Seguran\u00e7a Alimentar e Combate \u00e0 Fome.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Compra de produtos da agricultura familiar e forma\u00e7\u00e3o de estoques p\u00fablicos est\u00e3o entre as propostas do ex-chefe da FAO O artigo \u201cAlta dos alimentos deve &#8216;espremer&#8221;\u00a0mais os brasileiros\u201d publicado na\u00a0Folha de S.Paulo\u00a0no \u00faltimo dia 19,\u00a0de autoria de Fernando Canzian, desvela a impot\u00eancia do atual governo federal frente \u00e0\u00a0atual tend\u00eancia de alta dos pre\u00e7os dos alimentos. 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