{"id":26516,"date":"2022-05-09T15:07:04","date_gmt":"2022-05-09T18:07:04","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/?p=26516"},"modified":"2022-05-09T15:07:04","modified_gmt":"2022-05-09T18:07:04","slug":"familias-chefiadas-por-maes-sao-as-mais-impactadas-pela-crise-veja-relatos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/2022\/05\/09\/familias-chefiadas-por-maes-sao-as-mais-impactadas-pela-crise-veja-relatos\/","title":{"rendered":"Fam\u00edlias chefiadas por m\u00e3es s\u00e3o as mais impactadas pela crise: veja relatos"},"content":{"rendered":"<p class=\"description\"><strong>Recorde na desigualdade salarial de g\u00eanero empurra mulheres para inseguran\u00e7a alimentar e jornadas estafantes<\/strong><\/p>\n<p>Elas est\u00e3o nas periferias, ocupa\u00e7\u00f5es, favelas, no mercado informal e nos empregos com os piores sal\u00e1rios. E t\u00eam que se desdobrar para comandar o lar e dar aos filhos alimenta\u00e7\u00e3o, educa\u00e7\u00e3o e carinho.<\/p>\n<p>No Dia das M\u00e3es, o<strong>\u00a0Brasil de Fato\u00a0<\/strong>ouviu as chefes de fam\u00edlia que d\u00e3o duro para colocar comida no prato da fam\u00edlia e sentem na pele os efeitos mais perversos da crise econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>Essas mulheres est\u00e3o nas estat\u00edsticas que demonstram um recorde hist\u00f3rico da desigualdade salarial de g\u00eanero no Brasil. No terceiro trimestre de 2021, nas metr\u00f3poles brasileiras, as fam\u00edlias chefiadas por homens tinham m\u00e9dia de renda 60% superior \u00e0 m\u00e9dia das fam\u00edlias chefiadas por mulheres.<\/p>\n<p>Os dados s\u00e3o do Boletim Desigualdade nas Metr\u00f3poles, produzido pelo Observat\u00f3rio das Metr\u00f3poles, em parceria com a Pontif\u00edcia Universidade do Rio Grande do Sul (PUCRS) e a Rede de Observat\u00f3rios da D\u00edvida Social na Am\u00e9rica Latina (RedODSAL).<\/p>\n<p>\u201cMesmo as mulheres que conseguem emprego recebem menos do que os homens, apesar de terem n\u00edveis de forma\u00e7\u00e3o maiores. O sal\u00e1rio m\u00e9dio das mulheres corresponde a 70% do sal\u00e1rio dos homens\u201d, constatou a economista Paula Guedes, integrante do grupo respons\u00e1vel pela pesquisa.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\"><strong>Dificuldade de conseguir emprego\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure style=\"width: 640px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images01.brasildefato.com.br\/5ba6505b5965c8e473e9aaab1f1376d3.jpeg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"640\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Ednete: &#8220;Eu tinha colegas homens que conseguiam trabalho um atr\u00e1s do outro&#8221; \/ Acervo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>Ednete Pereira, de 42 anos, tem muito orgulho da filha \u00fanica, uma adolescente \u201cmuito boa e educada\u201d, nas palavras da m\u00e3e. \u201cQuando me vi s\u00f3 eu com ela, foi muito, muito dif\u00edcil. Aprendi a criar ela sozinha e passei por muitas necessidades\u201d, relembra.<\/p>\n<p>Quest\u00f5es familiares a levaram de Aroazes, interior do Piau\u00ed, para S\u00e3o Paulo (SP). Na cidade natal, Ednete era professora da rede municipal. Mesmo com qualifica\u00e7\u00e3o profissional, ela sofreu para conseguir emprego na capital paulista, onde foi morar com a m\u00e3e tr\u00eas meses antes da pandemia de coronav\u00edrus.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o s\u00e3o todos, mas eu conhe\u00e7o homens que tiveram v\u00e1rias oportunidades de emprego. E eu passei praticamente um ano colocando curr\u00edculo em todo lugar. S\u00f3 faltava eu me humilhar para conseguir um trabalho. E foi uma luta pra conseguir\u201d, conta.<\/p>\n<p>Quando finalmente veio a oferta de emprego, o servi\u00e7o era de meio per\u00edodo, como caixa de supermercado. \u201cEu n\u00e3o estava dando conta de sobreviver com R$ 720 por m\u00eas para pagar aluguel, luz e \u00e1gua. Estava quase desesperada\u201d.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o s\u00f3 melhorou quando veio o segundo emprego, como cozinheira em uma escola. Com os rendimentos somados, a press\u00e3o financeira aliviou um pouco, mas a jornada de trabalho tripla, nos trabalhos e em casa, cobra seu pre\u00e7o.<\/p>\n<p>\u201cEu queria de cora\u00e7\u00e3o que toda m\u00e3e, toda trabalhadora tivesse seu cantinho e pudesse se manter com seu trabalho dignamente sem precisar se matar de tanto trabalhar. Muitas vezes a gente n\u00e3o trabalha pra viver, a gente vive para trabalhar\u201d, resume.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\"><strong>Sa\u00fade comprometida pela inseguran\u00e7a alimentar<\/strong><\/p>\n<figure style=\"width: 577px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images02.brasildefato.com.br\/9f5cdaac604865e2c10c4a00d0a2efa8.jpeg\" alt=\"\" width=\"577\" height=\"576\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Ana Maria: &#8220;ou voc\u00ea paga todas as contas ou voc\u00ea come&#8221; \/ Acervo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda mais desafiadora para Ana Maria Gomes Santos, 46 anos, que se mudou para S\u00e3o Paulo da pequena cidade mineira de Cara\u00ed (MG). \u201cCheguei com tr\u00eas crian\u00e7as para procurar uma melhora de vida\u201d, diz. Hoje com cinco filhos, ela \u00e9 a \u00fanica fonte de renda da casa. O marido, de 53 anos, est\u00e1 desempregado.<\/p>\n<p>\u201cPasso dificuldades de chegar ao ponto de ter que escolher qual conta vai ser paga. Inclusive eu tenho 10 contas de \u00e1gua atrasadas, porque ou voc\u00ea paga todas as contas ou voc\u00ea come\u201d, relata.<\/p>\n<p>Sem dinheiro para o aluguel, Ana Maria e a fam\u00edlia moram na ocupa\u00e7\u00e3o Gaivotas, no extremo sul paulistano. As necessidades b\u00e1sicas das sete pessoas s\u00e3o supridas com o aux\u00edlio doen\u00e7a recebido por ela, al\u00e9m de doa\u00e7\u00f5es de alimentos destinadas aos moradores da ocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cEu at\u00e9 estava recebendo o Aux\u00edlio Brasil [do governo federal]. Mas ele foi bloqueado quando meu filho de 16 anos come\u00e7ou como jovem aprendiz. A\u00ed constou que ele estava trabalhando. Esse contrato venceu, ele n\u00e3o est\u00e1 mais trabalhando, e meu benef\u00edcio foi cortado por conta disso\u201d.<\/p>\n<p>Na casa dela, a comida n\u00e3o d\u00e1 para todo mundo, e os problemas de sa\u00fade come\u00e7am a aparecer. No m\u00eas passado, em uma consulta m\u00e9dica, foi informada que seu organismo sofre de defici\u00eancia de uma prote\u00edna encontrada na carne.<\/p>\n<p>\u201cA m\u00e9dica falou: \u2018a senhora precisa se alimentar, comer carne, fruta, verdura, legumes, hortali\u00e7as\u2019. A\u00ed eu dei risada. Falei \u2018doutora, como assim?\u2019. Isso \u00e9 uma coisa que est\u00e1 cada dia mais longe da gente\u201d, diz oscilando entre o bom humor e a revolta.<\/p>\n<p>No Dia das M\u00e3es, respondeu que seu desejo era esse. \u201cPode at\u00e9 ser engra\u00e7ado, mas eu queria um churrasquinho. Acho que todas as m\u00e3es desejariam poder ter uma mesa farta para colocar todos os seus filhos em volta\u201d, compartilha.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\"><strong>Transforma\u00e7\u00e3o pela luta\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure style=\"width: 657px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images03.brasildefato.com.br\/99fd86f9b05f8ab9be4f3b9e2e743bbb.jpeg\" alt=\"\" width=\"657\" height=\"694\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Maria do Carmo: &#8220;organizei uma ocupa\u00e7\u00e3o porque n\u00e3o tinha lugar para morar&#8221; \/ Acervo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>Maria do Carmo da Concei\u00e7\u00e3o Carvalho tem 54 anos e \u00e9 pernambucana de Caruaru. \u00c9 m\u00e3e de 7 filhos, 3 homens e 4 mulheres. \u201cSou semi analfabeta. Nunca estudei porque minha m\u00e3e me deu para uma pessoa em Bel\u00e9m do Par\u00e1 para ser escrava aos sete anos de idade\u201d, revela, com uma voz calma, por\u00e9m firme.<\/p>\n<p>Conseguiu deixar o c\u00e1rcere privado e, aos 39 anos, decidiu fazer o supletivo para tirar o atraso nos estudos. \u201cMas s\u00f3 fiz at\u00e9 a 4\u00aa s\u00e9rie. Sa\u00ed da escola por causa da viol\u00eancia dom\u00e9stica. Meu marido n\u00e3o me deixou seguir nos estudos\u201d.<\/p>\n<p>Como empregada dom\u00e9stica, Maria do Carmo conseguiu sobreviver e alimentar os filhos, mas o dinheiro n\u00e3o era suficiente para o aluguel. A sa\u00edda foi apostar na organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e conquistar o direito de morar. Em 2013, fundou o Movimento Popular pela Reforma Urbana (MPRU).<\/p>\n<p>\u201cSer m\u00e3e chefe de fam\u00edlia \u00e9 complicado. \u00c9 muito triste voc\u00ea n\u00e3o ter condi\u00e7\u00f5es de colocar um p\u00e3o na mesa, de comprar um botij\u00e3o de g\u00e1s e cozinhar no carv\u00e3o e na lenha por causa das altas do pre\u00e7o\u201d, descreve.<\/p>\n<p>Para incrementar a renda, precisou fazer doces em casa para vender na rua. \u201cTem a quest\u00e3o de voc\u00ea estar num local e vendendo seu material e voc\u00ea ser discriminado por ser de \u00e1rea de favela. N\u00f3s moramos em barraco, somos mulheres discriminadas, mulheres de periferia, de favela\u201d, afirma.<\/p>\n<p>O lar de Maria do Carmo \u00e9 o residencial Severino Quirino. De ocupa\u00e7\u00e3o irregular, o local foi transformado pela luta dos moradores em um residencial do programa Minha Casa Minha Vida, cuja constru\u00e7\u00e3o come\u00e7ou em 2019.<\/p>\n<p>Ela revela seu desejo: \u201cnesse dia, espero que cada m\u00e3e tenha ao menos comida no prato. Que a gente possa ter esperan\u00e7a em dias melhores. E que n\u00f3s, enquanto m\u00e3es, possamos ensinar nossos filhos a lutar, a se empoderar para mudar a cara do pa\u00eds. S\u00e3o os pobres que trabalham para enriquecer cada dia mais o pa\u00eds e os ricos\u201d.<\/p>\n<p>www.brasildefato.com.br\/Murilo Pajolla<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Recorde na desigualdade salarial de g\u00eanero empurra mulheres para inseguran\u00e7a alimentar e jornadas estafantes Elas est\u00e3o nas periferias, ocupa\u00e7\u00f5es, favelas, no mercado informal e nos empregos com os piores sal\u00e1rios. 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