{"id":27526,"date":"2022-06-20T12:14:49","date_gmt":"2022-06-20T15:14:49","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/?p=27526"},"modified":"2022-06-20T12:14:49","modified_gmt":"2022-06-20T15:14:49","slug":"intimidacao-ameacas-e-exilio-trabalhadores-da-funai-enfrentam-desmonte-cotidiano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/2022\/06\/20\/intimidacao-ameacas-e-exilio-trabalhadores-da-funai-enfrentam-desmonte-cotidiano\/","title":{"rendered":"Intimida\u00e7\u00e3o, amea\u00e7as e ex\u00edlio: trabalhadores da Funai enfrentam desmonte cotidiano"},"content":{"rendered":"<p class=\"description\"><strong>Servidores apontam condi\u00e7\u00f5es de trabalho degradadas e preju\u00edzo \u00e0 prote\u00e7\u00e3o de povos origin\u00e1rios; greve ocorre quinta (23)<\/strong><\/p>\n<p>A\u00a0<a href=\"http:\/\/dom%20e%20bruno%20pereira:%20PF%20confirma%20confiss%C3%A3o%20de%20suspeito%20e%20localiza%C3%A7%C3%A3o%20de%20restos%20humanos\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">morte do indigenista brasileiro Bruno Pereira, assassinado no Vale do Javari (AM) junto com o jornalista brit\u00e2nico Dom Philips<\/a>, escancarou para a sociedade o debate sobre as condi\u00e7\u00f5es de trabalho na Funai e o cotidiano de medo e ass\u00e9dio vivido pelos\u00a0trabalhadores e trabalhadoras da funda\u00e7\u00e3o todos os dias. Inclusive, na noite de s\u00e1bado os servidores da Funda\u00e7\u00e3o anunciaram greve para quinta-feira (23), uma forma de protestar contra as mortes de Bruno e Dom. De acordo com nota da INA (Indigenistas Associados), outra demanda ser\u00e1 a\u00a0sa\u00edda imediata de\u00a0Marcelo Augusto Xavier da Silva, atual\u00a0presidente do \u00f3rg\u00e3o.<\/p>\n<p>Pereira era servidor licenciado do \u00f3rg\u00e3o. Ele decidiu se afastar ap\u00f3s ter sido exonerado da Coordena\u00e7\u00e3o Geral de \u00cdndios Isolados e Rec\u00e9m Contatados, em 2019. Na ocasi\u00e3o, o indigenista concedeu\u00a0<a href=\"http:\/\/xn--aps%20combater%20minerao%20ilegal%20em%20terras%20indgenas%2C%20coordenador%20da%20funai%20%20demitido-9li92bjjvnst\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">entrevista ao\u00a0<strong>Brasil de Fato<\/strong><\/a>\u00a0e alertou sobre o clima de silenciamento e constrangimento contra servidores e servidoras. De l\u00e1 para c\u00e1, relatos semelhantes se tornaram comuns.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o h\u00e1 di\u00e1logo com os servidores. A sensa\u00e7\u00e3o que tenho \u00e9 que h\u00e1 um ran\u00e7o muito grande\u00a0em rela\u00e7\u00e3o a tudo que a Funai j\u00e1 foi e o trabalho que realizava. Eu sinto que h\u00e1 um ran\u00e7o, rancor, s\u00e3o medidas vingativas. Isso est\u00e1 minando o trabalho indigenista&#8221;, afirmou Bruno Pereira em 2019.<\/p>\n<p>Ele morreu enquanto trabalhava ao lado de ind\u00edgenas contra atividades ilegais no Vale do Javari. O assassinato levou ex-colegas a um luto tr\u00e1gico.\u00a0&#8220;O desaparecimento do Bruno afeta e muito a nossa vida trabalhista, porque ele era uma figura exemplar. Provoca na gente revolta e medo de a gente n\u00e3o conseguir exercer o nosso trabalho, ainda mais em um contexto de exce\u00e7\u00e3o como este&#8221;, afirmou um servidor da Funai, sob a condi\u00e7\u00e3o de anonimato, horas antes da confirma\u00e7\u00e3o do morte do indigenista.<\/p>\n<p>Enquanto aguardavam not\u00edcias do caso, trabalhadores e trabalhadoras se reuniram em frente \u00e0 sede da Funai em greve. Ao longo da tarde rezaram e protestaram contra o desmonte do \u00f3rg\u00e3o e as condi\u00e7\u00f5es de trabalho\u00a0cada vez mais limitadas, &#8220;Somos profissionais dedicados que est\u00e3o tentando cumprir sua fun\u00e7\u00e3o de Estado&#8221;, ressaltou outro servidor, que tamb\u00e9m pediu para ter a identidade preservada.<\/p>\n<p>&#8220;A situa\u00e7\u00e3o gera uma revolta e uma raiva que temos que saber canalizar de forma democr\u00e1tica e pac\u00edfica para conseguir mudar.\u00a0Agora, que estamos no final de um governo que possivelmente vai se acabar, n\u00e3o podemos deixar que ele destrua o resto do que temos de pol\u00edtica indigenista e o resto que falo, somos n\u00f3s servidores. Assim como os ind\u00edgenas est\u00e3o sofrendo massacres em diversas situa\u00e7\u00f5es, n\u00f3s tamb\u00e9m \u00a0temos sofrido amea\u00e7as&#8221;, alertou mais um relato an\u00f4nimo.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\">Censura e intimida\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>O medo da exposi\u00e7\u00e3o se justifica pelo ambiente de cerceamento de opini\u00f5es que toma conta da Funai nos \u00faltimos anos. De acordo com um\u00a0<a href=\"https:\/\/www.inesc.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Fundacao-anti-indigena_Inesc_INA.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">dossi\u00ea de mais de 200 p\u00e1ginas<\/a>\u00a0produzido pela associa\u00e7\u00e3o que congrega servidores da Funai, a Indigenistas Associados (INA), e pelo Instituto de Estudos Socioecon\u00f4micos (Inesc), profissionais da funda\u00e7\u00e3o recebem ordens oficiais para que n\u00e3o se posicionem em redes sociais. Entrevistas s\u00f3 podem ser concedidas com autoriza\u00e7\u00e3o do \u00f3rg\u00e3o.<\/p>\n<p>Trabalhadoras e trabalhadores t\u00eam orienta\u00e7\u00f5es\u00a0para retirar de projetos termos que s\u00e3o considerados &#8220;subversivos&#8221;, como as palavras assembleia, parceiros, demarca\u00e7\u00e3o\u00a0e mesmo o termo movimento ind\u00edgena. Tamb\u00e9m precisam evitar a men\u00e7\u00e3o a organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais<\/p>\n<p>Processos administrativos disciplinares tamb\u00e9m s\u00e3o usados para promover o ass\u00e9dio laboral. O dossi\u00ea aponta que de 2019 para c\u00e1 o n\u00famero de procedimentos dessa natureza se multiplicou. At\u00e9 mesmo\u00a0investiga\u00e7\u00f5es por parte da Pol\u00edcia Federal contra os servidores j\u00e1 foram determinadas pelo \u00f3rg\u00e3o, todas sem fundamento e arquivadas ap\u00f3s posicionamento do Minist\u00e9rio P\u00fablico.<\/p>\n<p>&#8220;Al\u00e9m de disseminar medo e desconfian\u00e7a no ambiente de trabalho, o uso constante deste instrumento implica diminui\u00e7\u00e3o do tempo dispon\u00edvel para as tarefas cotidianas final\u00edsticas dos servidores, considerando-se que os processos s\u00e3o analisados pelos pr\u00f3prios funcion\u00e1rios, j\u00e1 sobrecarregados, tendo em vista o ex\u00edguo quadro de pessoal do \u00f3rg\u00e3o&#8221;,\u00a0diz o documento.<\/p>\n<p>A falta de profissionais, inclusive, \u00e9 uma das ra\u00edzes do desmonte da Funai. Em 2020, havia 2.300 cargos desocupados e n\u00e3o h\u00e1 nenhuma sinaliza\u00e7\u00e3o de concurso p\u00fablico ou contrata\u00e7\u00e3o de pessoal qualificado para o trabalho.\u00a0Pelo contr\u00e1rio, cargos de coordena\u00e7\u00e3o e chefia est\u00e3o distribu\u00eddos entre aliados pol\u00edticos do governo federal. A maior parte vem das for\u00e7as militares e policias e n\u00e3o tem nenhuma experi\u00eancia com a prote\u00e7\u00e3o dos ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>Apenas duas das 39 Coordena\u00e7\u00f5es Regionais da Funai s\u00e3o chefiadas por servidores p\u00fablicos. Outras 19 s\u00e3o coordenadas por membros das For\u00e7as Armadas; tr\u00eas por policiais militares e duas por policiais federais.\u00a0No restante, a chefia \u00e9 exercida por servidores substitutos ou sem v\u00ednculo com a administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica. A diretoria do \u00f3rg\u00e3o indigenista \u00e9 formada por dois policiais e um militar. O presidente, Marcelo Xavier, \u00e9 policial federal.<\/p>\n<p>&#8220;Isso foi feito tendo em vista a opress\u00e3o laboral aos servidores. Essa \u00e9 a inten\u00e7\u00e3o. H\u00e1 tamb\u00e9m outra inten\u00e7\u00e3o, essa mais vulgar. Bolsonaro precisava dar cargo para esses cabos eleitorais. Ent\u00e3o, tem que colocar em algum lugar? Vamos colocar no \u00f3rg\u00e3o que a gente quer destruir mesmo. Me parece projeto mesmo. Se voc\u00ea quer acabar com um \u00f3rg\u00e3o, voc\u00ea envia gente despreparada&#8221;,\u00a0afirma Ricardo Henrique Rao, indigenista especializado da Funai, exilado ap\u00f3s denunciar interven\u00e7\u00e3o de mil\u00edcias e do crime organizado no trabalho da funda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\">Viol\u00eancia e ex\u00edlio<\/p>\n<p>Em 2019, temendo pela pr\u00f3pria vida, Ricardo Henrique Rao entregou um vasto relat\u00f3rio \u00e0 Comiss\u00e3o de Direitos Humanos da C\u00e2mara, em que relatava\u00a0<a href=\"http:\/\/sul21.com.br\/noticias\/entrevistas\/2022\/06\/a-abin-foi-na-funai-atras-de-mim-conta-indigenista-que-deixou-o-pais-para-nao-morrer\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">intimida\u00e7\u00f5es por parte de um agente da pol\u00edcia militar<\/a>, de um procurador da rep\u00fablica e at\u00e9 uma visita de uma equipe da Ag\u00eancia Nacional de Intelig\u00eancia (Abin) ao local em que trabalhava.<\/p>\n<p>Em conversa com o\u00a0<strong>Brasil de Fato<\/strong>, ele, enumerou exemplos de colegas que hoje est\u00e3o sob press\u00e3o e sofrem diversos processos administrativos disciplinares. Narrou tamb\u00e9m situa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia contra servidores e ind\u00edgenas, lideran\u00e7as\u00a0indicadas pelo governo que estimulam a viol\u00eancia entre os povos, agress\u00f5es f\u00edsicas e amea\u00e7as com armas.<\/p>\n<p>&#8220;Fomos destru\u00eddos&#8221;, afirmou, emocionado. &#8220;\u00c9 tr\u00e1gico. \u00c9 como ver um familiar definhando de uma doen\u00e7a incur\u00e1vel e voc\u00ea se sente impotente. A Funai sempre foi um \u00f3rg\u00e3o muito nobre. Olha que lema mais lindo, &#8216;morrer se preciso for'&#8221;, mencionou Rao, lembrando da frase c\u00e9lebre de Marechal Rondon, defensor hist\u00f3rico dos povos ind\u00edgenas e figura essencial na cria\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas de prote\u00e7\u00e3o para esses grupos no Brasil.<\/p>\n<p>Longe do Brasil desde que denunciou as amea\u00e7as que sofria, o indigenista\u00a0afirma que a continuidade do trabalho de preserva\u00e7\u00e3o das culturas origin\u00e1rias no Brasil passa, necessariamente, por uma mudan\u00e7a radical no papel que o poder p\u00fablico vem exercendo nessas comunidades.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso vontade pol\u00edtica, presen\u00e7a do estado e reconfigura\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7as. Recuperar o preju\u00edzo do desmonte tamb\u00e9m depende de forma\u00e7\u00e3o e investimento em servidores.<\/p>\n<p>&#8220;O Bruno est\u00e1 morto porque foi acossado e pediu uma licen\u00e7a. Foi por isso que o Bruno pediu a licen\u00e7a, para escapar da situa\u00e7\u00e3o de ass\u00e9dio laboral. Uma maneira de ele se preservar foi pedir a licen\u00e7a de dois anos. O Bruno foi morto tamb\u00e9m em decorr\u00eancia dessa pol\u00edtica de ass\u00e9dio sistem\u00e1tico, que ali\u00e1s, foi declarada. Jair Bolsonaro declarou \u2013 eu vou entrar na Funai com uma foice&#8221;, finalizou.<\/p>\n<p>www.brasildefato.com.br\/Nara Lacerda<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Servidores apontam condi\u00e7\u00f5es de trabalho degradadas e preju\u00edzo \u00e0 prote\u00e7\u00e3o de povos origin\u00e1rios; greve ocorre quinta (23) A\u00a0morte do indigenista brasileiro Bruno Pereira, assassinado no Vale do Javari (AM) junto com o jornalista brit\u00e2nico Dom Philips, escancarou para a sociedade o debate sobre as condi\u00e7\u00f5es de trabalho na Funai e o cotidiano de medo e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":27527,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[25],"tags":[899],"class_list":["post-27526","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias","tag-funai"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27526","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27526"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27526\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":27528,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27526\/revisions\/27528"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/27527"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27526"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27526"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27526"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}