{"id":27557,"date":"2022-06-22T09:37:10","date_gmt":"2022-06-22T12:37:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/?p=27557"},"modified":"2022-06-22T09:37:10","modified_gmt":"2022-06-22T12:37:10","slug":"indicadores-economicos-retrocedem-30-anos-e-pais-volta-ao-mapa-da-fome","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/2022\/06\/22\/indicadores-economicos-retrocedem-30-anos-e-pais-volta-ao-mapa-da-fome\/","title":{"rendered":"Indicadores econ\u00f4micos retrocedem 30 anos e pa\u00eds volta ao mapa da fome"},"content":{"rendered":"<p><strong>O Brasil voltou ao passado na economia, no bem-estar da popula\u00e7\u00e3o, na educa\u00e7\u00e3o e no meio ambiente, exibindo indicadores que remontam a at\u00e9 30 anos. Recess\u00e3o, pandemia e desmonte de pol\u00edticas p\u00fablicas acentuaram nos \u00faltimos dois anos um processo de retrocesso social.<\/strong><\/p>\n<p>Trouxeram de volta a fome, a pobreza, a evas\u00e3o escolar, o desmatamento, a infla\u00e7\u00e3o, amea\u00e7ando o desenvolvimento do pa\u00eds, alertam especialistas. Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, surpreendeu-se com o recuo de tantos \u00edndices.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 uma volta muito grande no tempo\u201d, diz, referindo-se ao Produto Interno Bruto (PIB) de hoje, equivalente ao de 2013, e \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de autom\u00f3veis, a mesma de 2006, h\u00e1 16 anos:<\/p>\n<p>\u201cA produ\u00e7\u00e3o de bens de consumo dur\u00e1veis (carros e eletrodom\u00e9sticos) est\u00e1 igual \u00e0 de 18 anos atr\u00e1s. Parece uma situa\u00e7\u00e3o de guerra, voltando tragicamente no tempo.\u201d<\/p>\n<p>A economista Silvia Matos, coordenadora t\u00e9cnica do Boletim Macro do Ibre\/FGV, calculou que somente em 2029 vamos voltar ao maior valor real do PIB per capita, de R$ 44 mil, atingido em 2013, considerando a m\u00e9dia de crescimento dos \u00faltimos anos do pa\u00eds, em torno de 1,5%.<\/p>\n<p>\u201cVamos conviver com menos crescimento, infla\u00e7\u00e3o dif\u00edcil de ser combatida, mais juros e equil\u00edbrio ruim no mundo\u201d, prev\u00ea.<\/p>\n<p>Retrocessos sociais se acumulam. A fome agora atinge 33 milh\u00f5es de brasileiros, mesmo n\u00famero de 1992. Quando o Brasil saiu do Mapa da Fome da ONU, em 2014, eram 9,5 milh\u00f5es nessa situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cO pa\u00eds desabou\u201d, resume Francisco Menezes, consultor da ActionAid, uma das organiza\u00e7\u00f5es da Rede Penssan, que divulgou os n\u00fameros da fome semana passada.<\/p>\n<p>\u201cTr\u00eas fatores explicam essa situa\u00e7\u00e3o. O primeiro \u00e9 o forte empobrecimento de grande parte da popula\u00e7\u00e3o. O segundo foi o comportamento do mercado de trabalho, com desalento e queda da renda m\u00e9dia (que \u00e9 a mesma de 2011). O terceiro \u00e9 o desmonte dos programas de seguran\u00e7a alimentar e prote\u00e7\u00e3o social.\u201d<\/p>\n<p>Na educa\u00e7\u00e3o, as crian\u00e7as perderam mais. A evas\u00e3o escolar na faixa de 5 a 9 anos est\u00e1 igual \u00e0 de 2012, de acordo com estudo do economista Marcelo Neri, diretor da FGV Social:<\/p>\n<p>\u201cChamou a aten\u00e7\u00e3o a piora entre as crian\u00e7as mais novas, especialmente entre 5 e 6 anos, depois de grandes progressos nos \u00faltimos 40 anos.\u201d<\/p>\n<h3>Brasil volta ao mapa da fome com \u00edndices de 1992<\/h3>\n<p>A Rede Penssan, que re\u00fane organiza\u00e7\u00f5es como ActionAid e A\u00e7\u00e3o da Cidadania, mostrou na semana passada que\u00a0a fome atinge 33 milh\u00f5es de brasileiros, o mesmo n\u00famero de 1992. Uma volta no tempo de tr\u00eas d\u00e9cadas para o pa\u00eds que havia sa\u00eddo do Mapa da Fome da ONU em 2014, com 9,5 milh\u00f5es, ou menos de 5% da popula\u00e7\u00e3o, com fome. Hoje, s\u00e3o 15%.<\/p>\n<p>A substitui\u00e7\u00e3o do Bolsa Fam\u00edlia pelo Aux\u00edlio Brasil dobrou o valor, com piso de R$ 400, mas reduziu a efici\u00eancia do programa com o esvaziamento do Cadastro \u00danico (que mapeia fam\u00edlias necessitadas) e de pol\u00edticas de seguran\u00e7a alimentar, como a aquisi\u00e7\u00e3o de alimentos da agricultura familiar, cujo or\u00e7amento caiu de R$ 550 milh\u00f5es em 2012 para R$ 53 milh\u00f5es.<\/p>\n<p>O quadro torna a crise mais aguda para os pobres, explica Francisco Menezes, da ActionAid.<\/p>\n<p>\u201cA fome cresce em velocidade desproporcional ao cen\u00e1rio de crise e pandemia, com a p\u00e9ssima condu\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica social\u201d, diz Ricardo Henriques, do Instituto Unibanco.<\/p>\n<h3>\u2018Desafios s\u00e3o enormes\u2019<\/h3>\n<p>Ricardo Henriques, superintendente do Instituto Unibanco, diz, com base em avalia\u00e7\u00e3o feita no estado de S\u00e3o Paulo, que houve atraso escolar em todas as etapas, por\u00e9m com mais intensidade entre as crian\u00e7as, amea\u00e7ando uma etapa da educa\u00e7\u00e3o que ele considera ser a que mais precisa da socializa\u00e7\u00e3o proporcionada pela escola. O n\u00edvel de aprendizado de matem\u00e1tica voltou a 2007, e o de portugu\u00eas, a 2011.<\/p>\n<p>\u201cNa educa\u00e7\u00e3o, o retrocesso \u00e9 categ\u00f3rico. Os desafios s\u00e3o enormes. S\u00e3o alguns anos a serem recompostos\u201d, diz.<\/p>\n<p>No meio ambiente, voltou-se ao passado de desmatamento crescente. Na Amaz\u00f4nia, onde h\u00e1 duas semanas foram assassinados o indigenista Bruno Pereira e o jornalista Dom Phillips, o corte de \u00e1rvores nunca foi t\u00e3o grande.<\/p>\n<p>Sa\u00edmos de uma \u00e1rea desmatada de 4.571 quil\u00f4metros quadrados em 2012 para 13.235 quil\u00f4metros quadrados em 2021.<\/p>\n<p>\u201cNunca imagin\u00e1vamos voltar a 10 mil quil\u00f4metros de \u00e1rea desmatada. \u00c9 um m\u00e9todo de desfazer a governan\u00e7a sobre o tema ambiental que vem sendo feito sistematicamente em todas as \u00e1reas. Tira o or\u00e7amento, tira o pessoal competente, cria n\u00edveis de burocracia adicionais para penalizar pelo il\u00edcito, legaliza coisas ilegais, n\u00e3o cria unidades de conserva\u00e7\u00e3o e tenta eliminar as que existem\u201d, afirma Tasso Azevedo, coordenador do Mapeamento Anual da Cobertura do Solo no Brasil (MapBiomas).<\/p>\n<h3>Produto Interno Bruto (PIB) recua ao n\u00edvel de 2013<\/h3>\n<p>O Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil hoje \u00e9 praticamente o mesmo de 2013, h\u00e1 oito anos, conforme divulgou o IBGE no in\u00edcio do m\u00eas. Tirando os servi\u00e7os e a agropecu\u00e1ria, todos os grandes setores da economia ainda est\u00e3o tentando p\u00f4r a cabe\u00e7a fora d\u2019\u00e1gua, para voltar a uma trajet\u00f3ria de crescimento, j\u00e1 tendo recuperado o que perdeu nos anos de crise.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma quest\u00e3o estrutural por tr\u00e1s, observa Sergio Vale, da MB Associados. Os investimentos e o consumo das fam\u00edlias retrocederam a 2015, e a ind\u00fastria, a 2009.<\/p>\n<h3>Ind\u00fastria est\u00e1vel:\u00a0S\u00f3 setor de servi\u00e7os cresce no PIB do 1\u00ba trimestre; agro tem queda de 0,9%<\/h3>\n<p>Segundo Rebeca Palis, do IBGE, tanto o consumo como os investimentos perderam na recess\u00e3o de 2014 e 2015, mas, na pandemia, o gasto das fam\u00edlias sofreu mais. Para Silvia Matos, da FGV, \u201co mau humor dos consumidores \u00e9 muito elevado\u201d:<\/p>\n<p>\u201cEst\u00e3o olhando a economia de maneira negativa, com infla\u00e7\u00e3o muito forte. H\u00e1 uma fragilidade institucional perme\u00e1vel a grupos de interesse para aumentar gasto (p\u00fablico), com resultado no c\u00e2mbio e mais infla\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<h3>Escalada da infla\u00e7\u00e3o alcan\u00e7a patamar de 2003<\/h3>\n<p>Somente em 2003 o Brasil conviveu um \u00edndice de infla\u00e7\u00e3o t\u00e3o alto como agora. Foi o primeiro ano do governo Lula, logo ap\u00f3s a disparada do d\u00f3lar no ano anterior, que refletia a incerteza com o novo governo. Agora, um conjunto de fatores fez o \u00cdndice de Pre\u00e7os ao Consumidor Amplo (IPCA), medido pelo IBGE, alcan\u00e7ar 11,73% no acumulado em 12 meses at\u00e9 maio. \u00c9 compar\u00e1vel aos 11,02% de quase 20 anos atr\u00e1s.<\/p>\n<p>O governo Bolsonaro j\u00e1 cortou impostos da cesta b\u00e1sica e dos combust\u00edveis e trocou o comando da Petrobras tr\u00eas vezes. O Congresso aprovou um teto para o ICMS de diesel e g\u00e1s, mas nada ainda foi capaz de conter a infla\u00e7\u00e3o puxada pelas commodities.<\/p>\n<p>A pandemia provocou gargalos na produ\u00e7\u00e3o global, secas e geadas afetaram a produ\u00e7\u00e3o de alimentos e de energia el\u00e9trica, e a instabilidade pol\u00edtica fez o d\u00f3lar subir, contaminando os pre\u00e7os internos, lembram os analistas. Com isso, a taxa b\u00e1sica de juros (Selic) da economia subiu para 13,25%, a maior desde o fim de 2016 (13,75%).<\/p>\n<h3>Propor\u00e7\u00e3o de brasileiros na pobreza \u00e9 a de 2010<\/h3>\n<p>A pobreza que se v\u00ea nas ruas e periferias de hoje est\u00e1 no mesmo n\u00edvel da registrada entre 2009 e 2011. Os avan\u00e7os nesse indicador social foram perdidos, nos c\u00e1lculos do economista Marcelo Neri, diretor da FGV Social:<\/p>\n<p>\u201cA inseguran\u00e7a alimentar segue a extrema pobreza. Quando piora a extrema pobreza, piora mais ainda a situa\u00e7\u00e3o de fome.\u201d<\/p>\n<p>A pobreza chegou a 8,4% dos brasileiros em 2014 e teve queda forte em 2020, com a distribui\u00e7\u00e3o do Aux\u00edlio Emergencial, para 4,8% em agosto daquele ano.<\/p>\n<h3>De R$ 600:\u00a0Al\u00edvio tempor\u00e1rio do aux\u00edlio emergencial teve maior impacto entre as crian\u00e7as, mostra estudo<\/h3>\n<p>Mas foi um ganho fugaz. Em outubro de 2021, j\u00e1 havia subido para 13%. Com outra linha de pobreza, Neri viu que, no fim de 2021, o indicador recuou para 10,8%, mas n\u00e3o s\u00e3o m\u00e9tricas compar\u00e1veis, ressalta.<\/p>\n<p>Para a soci\u00f3loga Let\u00edcia Bartholo, a reativa\u00e7\u00e3o de programas de assist\u00eancia desmontados \u201cn\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, n\u00e3o \u00e9 r\u00e1pida e vai demorar alguns anos\u201d:<\/p>\n<p>\u201cMas pode ser encurtada se retomada a profissionaliza\u00e7\u00e3o do Estado, entregando as \u00e1reas a quem entende, abrindo espa\u00e7o para o di\u00e1logo.<\/p>\n<p>O tamanho da desigualdade brasileira: Renda m\u00e9dia dos 10% no topo \u00e9 29 vezes maior que a dos 50% na base da pir\u00e2mide\u201d.<\/p>\n<p>www.ctb.org.br \/fonte: Ag\u00eancia O Globo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Brasil voltou ao passado na economia, no bem-estar da popula\u00e7\u00e3o, na educa\u00e7\u00e3o e no meio ambiente, exibindo indicadores que remontam a at\u00e9 30 anos. 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