{"id":27623,"date":"2022-06-27T09:28:37","date_gmt":"2022-06-27T12:28:37","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/?p=27623"},"modified":"2022-06-27T09:28:37","modified_gmt":"2022-06-27T12:28:37","slug":"mais-de-70-das-vagas-de-trabalho-perdidas-em-2020-eram-ocupadas-por-mulheres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/2022\/06\/27\/mais-de-70-das-vagas-de-trabalho-perdidas-em-2020-eram-ocupadas-por-mulheres\/","title":{"rendered":"Mais de 70% das vagas de trabalho perdidas em 2020 eram ocupadas por mulheres"},"content":{"rendered":"<p><strong>Das 825,3 mil vagas fechadas em 2020, 593,6 mil eram ocupadas por mulheres. Economista diz que problema \u00e9 estrutural e hist\u00f3rico que penaliza mais as mulheres, principalmente em \u00e9poca de crise<\/strong><\/p>\n<p>No auge da pandemia, em 2020, as empresas brasileiras demitiram 825,3 mil trabalhadores \u00a0formais. Deste total 593,6 mil postos de trabalho eram ocupados por mulheres. Ou seja, dos postos fechados, 71,9% eram ocupados por trabalhadoras, muitas delas m\u00e3es solo, chefes de fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Entre 2019 e 2020, o n\u00famero de trabalhadoras ocupadas caiu 2,9%, de 20,7 milh\u00f5es para 20,1 milh\u00f5es, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE).<\/p>\n<p>Esses n\u00fameros n\u00e3o surpreendem quem passa por essa situa\u00e7\u00e3o de desemprego muito menos quem estuda o mundo do trabalho. Em todas as crises econ\u00f4micas as mullheres s\u00e3o as primeiras a serem demitidas e as \u00faltimas a conseguirem uma recoloca\u00e7\u00e3o no mercado de trabalho. E a sa\u00edda para elas \u00e9 fazer bicos para sustentar a si e a fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Este \u00e9 o caso de Julia Margarida Gomes da Silva, de 38 anos, divorciada, m\u00e3e de tr\u00eas filhos e rec\u00e9m-formada em t\u00e9cnica de enfermagem. Enquanto procura um emprego formal, que garanta direitos como f\u00e9rias, 13\u00ba sal\u00e1rios e Fundo de Garantia por Tempo de Servi\u00e7o (FGTS), ela tem sobrevivido com empregos tempor\u00e1rios, substitui\u00e7\u00f5es em folgas, enfim, fazendo um pouco de tudo.<\/p>\n<p>\u201cJ\u00e1 fiz bordados, fui cuidadora de idoso e faxineira, tudo para colocar o arroz na panela pros meus filhos\u201d, conta J\u00falia, que s\u00f3 teve emprego com carteira assinada como auxiliar de servi\u00e7os gerais, vendedora de loja de roupas e cozinheira.<\/p>\n<p>Segundo ela, quem ajuda a pagar as contas s\u00e3o a sua m\u00e3e e o padrasto, ambos aposentados, porque a pens\u00e3o das suas duas filhas, de 16 e 14 anos, \u00e9 de R$ 1.300 e o valor do aluguel \u00e9 R$ 900. O pai do seu ca\u00e7ula, de sete anos, n\u00e3o assumiu o filho e foi morar no exterior, e ela diz que n\u00e3o tem como encontr\u00e1-lo.<\/p>\n<p>\u201cEu nunca fui incentivada a estudar pelo meu ex-marido, apesar dele ser professor. Antes eu trabalhava na delegacia do trabalho em Bel\u00e9m, mas depois da licen\u00e7a maternidade e da transfer\u00eancia dele para o interior do Par\u00e1, a desculpa de sempre era que eu tinha de cuidar dos filhos. Me casei aos 19 anos e somente quando me divorciei voltei a estudar, e para isso sai do Par\u00e1 e vim para S\u00e3o Paulo h\u00e1 nove anos\u201d, conta.<\/p>\n<p>A luta de J\u00falia \u00e9 o retrato de um problema estrutural e hist\u00f3rico. As mulheres, mesmo em ciclos econ\u00f4micos mais expansivos s\u00e3o as menos procuradas para ocupar vagas de trabalho, afirma a economista e pesquisadora do mercado de trabalho, Marilane Teixeira.<\/p>\n<p>\u201cS\u00e3o v\u00e1rios os fatores, a come\u00e7ar pela a aus\u00eancia do Estado e da garantia de pol\u00edticas p\u00fablicas como creches e ensino integral. Somente no ano passado, 70% das crian\u00e7as mais pobres, de zero a tr\u00eas anos, estavam sem vagas em creches. Isso \u00e9 um problema gigantesco para as mulheres que precisam\u00a0 trabalhar\u201d, diz a economista.<\/p>\n<p>Outra dificuldade comum entre as mulheres que precisam deixar seus filhos em creche, \u00e9 que elas procuram trabalho perto de suas casas para dar tempo de levar e buscar seus filhos em hor\u00e1rios compat\u00edveis com sua carga hor\u00e1ria.<\/p>\n<p>Segundo Marilane Teixeira, a pandemia refor\u00e7ou essa situa\u00e7\u00e3o de desemprego entre as mulheres com o aumento da sobrecarga de trabalho dentro de casa. S\u00e3o elas que normalmente cuidam dos enfermos, das crian\u00e7as e dos idosos; uma situa\u00e7\u00e3o que se agravou com o abandono da pol\u00edtica de cuidados dos dois \u00faltimos governos.<\/p>\n<p>Al\u00e9m desse problema estrutural, o tipo de emprego que vem se recuperando na economia acaba absorvendo o sexo masculino, como a constru\u00e7\u00e3o civil, composta por 90,6% de homens. A alta no setor foi de 4,3% no contingente de assalariados (mais 80,8 mil).<\/p>\n<p>As mulheres eram maioria nos setores de educa\u00e7\u00e3o (66,9%); alojamento e alimenta\u00e7\u00e3o (55,7%) e outras atividades de servi\u00e7os (52,9%), os mais prejudicados pela pandemia. O segmento com a maior queda de assalariados foi alojamento e alimenta\u00e7\u00e3o: -19,4% (ou menos 373,2 mil).<\/p>\n<p>\u201cComo as mulheres est\u00e3o inseridas em atividades que ainda apresentam dificuldades em serem retomadas, como os servi\u00e7os, a educa\u00e7\u00e3o, e o trabalho dom\u00e9stico, a tend\u00eancia \u00e9 a mulher ter mais dificuldade em se recolar no mercado\u201d, afirma a economista.<\/p>\n<p>\u201cNo auge da pandemia foram perdidas quase 1 milh\u00e3o de vagas de trabalhos dom\u00e9sticos\u201d, complementa Marilane.<\/p>\n<p>A secret\u00e1ria da Mulher Trabalhadora da CUT Nacional, Juneia Batista, concorda que as mulheres encarregadas de cuidar dos filhos e pais idosos, imposi\u00e7\u00e3o do modelo de sociedade patriarcal em que vivemos, s\u00e3o as mais prejudicadas.<\/p>\n<p>\u201cVeja o exemplo da J\u00falia, casou jovem, teve filhos e somente quando conseguiu se divorciar voltou a estudar e trabalhar. Milhares de mulheres vivem situa\u00e7\u00e3o id\u00eantica. Para mudar isso, \u00e9 preciso pol\u00edticas p\u00fablicas que atendam as mulheres trabalhadoras\u201d, diz Juneia.<\/p>\n<p>A dirigente defende que o empoderamento feminino, se dar\u00e1 por meio da educa\u00e7\u00e3o e da forma\u00e7\u00e3o, com reflexos no mundo do trabalho.<\/p>\n<p>\u201cEu acredito que a mudan\u00e7a do comportamento vem pela educa\u00e7\u00e3o, pela forma\u00e7\u00e3o, com igualdade de oportunidades para homens e mulheres no mercado de trabalho\u201d, finaliza Juneia Batista.<\/p>\n<p><strong>Outros dados da pesquisa do IBGE<\/strong><\/p>\n<p>&#8211; De 2019 para 2020, o n\u00famero total de trabalhadores assalariados em empresas e outras organiza\u00e7\u00f5es ativas caiu de 46,2 milh\u00f5es para 45,4 milh\u00f5es, (1,8% a menos).<\/p>\n<p>&#8211; A participa\u00e7\u00e3o feminina entre os assalariados das empresas formais do pa\u00eds caiu de 44,8% para 44,3%, em 2020. \u00c9 a menor porcentagem desde 2016, ano em que houve o impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff.<\/p>\n<p>&#8211; Entre os homens, a redu\u00e7\u00e3o de empregos foi menor, de 0,9%. O n\u00famero de assalariados recuou de 25,5 milh\u00f5es para 25,3 milh\u00f5es. Isso significa que os homens perderam 231,7 mil postos, o equivalente a 28,1% de todas as vagas encerradas \u00e0 \u00e9poca.<\/p>\n<p>www.cut.org.br\/Rosely Rocha<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Das 825,3 mil vagas fechadas em 2020, 593,6 mil eram ocupadas por mulheres. Economista diz que problema \u00e9 estrutural e hist\u00f3rico que penaliza mais as mulheres, principalmente em \u00e9poca de crise No auge da pandemia, em 2020, as empresas brasileiras demitiram 825,3 mil trabalhadores \u00a0formais. 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