{"id":27879,"date":"2022-07-15T10:56:07","date_gmt":"2022-07-15T13:56:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/?p=27879"},"modified":"2022-07-15T10:56:07","modified_gmt":"2022-07-15T13:56:07","slug":"entenda-o-que-e-acordado-x-legislado-e-que-acordos-valem-mais-do-que-a-lei","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/2022\/07\/15\/entenda-o-que-e-acordado-x-legislado-e-que-acordos-valem-mais-do-que-a-lei\/","title":{"rendered":"Entenda o que \u00e9 \u2018acordado x legislado\u2019 e que acordos valem mais do que a lei"},"content":{"rendered":"<p><strong>STF decidiu que, em alguns casos, acordos fechados entre patr\u00e3o e trabalhador valem mais do que a lei. Isso \u00e9 bom ou ruim? Qual o papel dos sindicatos na prote\u00e7\u00e3o dos direitos?<\/strong><\/p>\n<p>A reforma Trabalhista de 2017 estabeleceu que os acordos feitos entre patr\u00f5es e trabalhadores valem mais do que est\u00e1 escrito na lei. \u00a0\u00c9 o chamado negociado versus legislado<em>. Veja no final em quais direitos o acordado prevalece sobre o legislado.<\/em><\/p>\n<p>A decis\u00e3o foi contestada no Supremo Tribunal Federal (SFT) porque na maioria dos questionamentos de perda de direitos em acordos coletivos feitos na Justi\u00e7a do Trabalho, os desembargadores permitiam os acordos vantajosos para os trabalhadores, mas barravam acordos que retirassem direitos.<\/p>\n<p>Ao julgar uma a\u00e7\u00e3o sobre uma cl\u00e1usula do acordo firmado entre a Minera\u00e7\u00e3o Serra Grande S.A e o sindicato da categoria que previu o fornecimento de transporte para o deslocamento dos trabalhadores at\u00e9 o local de trabalho, mas suprimiu o pagamento referente ao tempo de percurso, a maioria dos ministros do Supremo concordou com o patr\u00e3o.<\/p>\n<p>Agora, todos os trabalhadores do pa\u00eds podem perder alguns direitos garantidos em lei, como os da minera\u00e7\u00e3o Serra Grande, porque a decis\u00e3o do STF tem repercuss\u00e3o geral, ou seja, vale para todas a\u00e7\u00f5es que questionam perdas em acordos.\u00a0<strong><em>Veja abaixo o que muda.<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong>Sindicato ser\u00e1 decisivo para manter direitos<\/strong><\/p>\n<p>Com o negociado valendo mais do que o legislado e o item da reforma trabalhista que autoriza o patr\u00e3o a\u00a0 fazer acordos individuais com os trabalhadores, o que retira a for\u00e7a do coletivo e reduz drasticamente o poder de barganha, a \u00fanica maneira das categorias profissionais negociarem acordos e conven\u00e7\u00f5es coletivas que n\u00e3o tirem direitos, pelo contr\u00e1rio, mantenha os direitos conquistados e garanta outros, \u00e9 ter um sindicato forte na mesa de negocia\u00e7\u00e3o com os patr\u00f5es.<\/p>\n<p>Um exemplo positivo de como a negocia\u00e7\u00e3o coletiva pode favorecer os trabalhadores, a partir de um sindicato forte e organizado, vem dos Metal\u00fargicos do ABC. Na montadora Volkswagen, os trabalhadores conseguiram um acordo coletivo que tem validade por cinco anos, ao contr\u00e1rio da maioria que tem dois anos. Isto impediu que a f\u00e1brica de autom\u00f3veis demitisse durante a pandemia, e mesmo agora com as\u00a0<a href=\"https:\/\/www.cut.org.br\/noticias\/volks-para-pela-5-vez-por-falta-de-semicondutores-e-da-ferias-coletivas-de-20-di-b846\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">cinco paralisa\u00e7\u00f5es na produ\u00e7\u00e3o<\/a>\u00a0por falta de semicondutores, os empregos est\u00e3o garantidos gra\u00e7as \u00e0 for\u00e7a do sindicato.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de evitar demiss\u00f5es, o acordo coletivo entre o sindicato e a montadora, prev\u00ea estabelecimento de dias sem produzir (day off); de redu\u00e7\u00e3o de jornada de trabalho em 25% e desconto no sal\u00e1rio de menos da metade, de 12%.<\/p>\n<p>\u201cTemos possibilidade de ter algo melhor do que a lei oferece, garantindo empregos at\u00e9 superarmos um momento de dificuldade. O acordo coletivo garante empregos, evitando demiss\u00f5es que seriam provocadas por essas crises, como a pandemia da Covid e a\u00a0<a href=\"https:\/\/www.cut.org.br\/noticias\/governo-quer-fechar-unica-fabrica-de-chips-apesar-da-falta-do-produto-no-mundo-f060\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">falta de chips e semicondutores\u201d<\/a>, diz o diretor-executivo do Sindicato dos Metal\u00fargicos do ABC, Luiz Carlos Dias da Silva, o Luiz\u00e3o.<\/p>\n<p>S\u00f3 conquista um acordo melhor do que prev\u00ea a lei um sindicato forte, organizado, combativo, com dirigentes bem preparados para o embate capital-trabalho, e tamb\u00e9m com a maioria da base associada, como v\u00e1rios sindicatos CUTistas. N\u00e3o d\u00e1 para comparar o potencial de um sindicato numa mesa de negocia\u00e7\u00e3o com um trabalhador sozinho, sem apoio algum na frente do patr\u00e3o, explica Valeir Ertle, secret\u00e1rio de Assuntos Jur\u00eddicos da CUT Nacional.<\/p>\n<blockquote class=\"dd-blockquote\"><p>Acordos s\u00e3o para melhorar a vida do trabalhador, mas no momento em que eles podem retirar direitos, principalmente em acordos individuais, \u00e9 preciso recorrer aos sindicatos que t\u00eam muito mais for\u00e7a do que algu\u00e9m lutando sozinho<\/p>\n<footer>&#8211; Valeir Ertle<\/footer>\n<\/blockquote>\n<p>Luiz\u00e3o, do ABC, que tem uma base de 70 mil trabalhadores e cerca de 40 mil filiados, concorda com a avalia\u00e7\u00e3o do secret\u00e1rio da CUT. Segundo ele,\u00a0 a decis\u00e3o do STF de que o acordado prevalece sobre o legislado n\u00e3o impacta tanto os metal\u00fargicos do ABC por causa da for\u00e7a do sindicato.<\/p>\n<p>Mas, alerta o metal\u00fargico, existem casos contr\u00e1rios como os das empresas do chamado \u201cgrupo 10\u201d da Federa\u00e7\u00e3o das Ind\u00fastrias do Estado de S\u00e3o Paulo (Fiesp). Neste grupo, os trabalhadores s\u00e3o defendidos por pequenos sindicatos, com representatividade de 8% a 10% da base dos metal\u00fargicos do ABC.<\/p>\n<p>\u201cEnquanto 90% da categoria metal\u00fargica t\u00eam acordos que beneficiam, os que trabalham nas empresas do Grupo 10 ficaram ainda mais vulner\u00e1veis \u00e0 press\u00e3o dos patr\u00f5es para assinar acordos individuais que podem reduzir diversos direitos que hoje eles t\u00eam\u201d, explica Luiz\u00e3o.<\/p>\n<p>Para Luiz\u00e3o, o melhor caminho \u00e9 sempre a sa\u00edda coletiva, n\u00e3o h\u00e1 trabalhador com for\u00e7a para brigar ou negociar em condi\u00e7\u00f5es de igualdade com o patr\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cTudo o que \u00e9 coletivo trar\u00e1 melhor resultado e, isso se consegue por meio dos sindicatos, que conseguem acordos que d\u00e3o tranquilidade ao trabalhador\u201d, afirma<\/p>\n<p>O dirigente sindical recomenda ainda que o trabalhador procure o seu sindicato para intermediar ou viabilizar qualquer acordo; nunca negociar sozinho atendendo ao pedido do patr\u00e3o, num ambiente fabril, independentemente do que diz a nova lei trabalhista.<\/p>\n<blockquote class=\"dd-blockquote\"><p>O sindicato \u00e9 o melhor caminho para representar o trabalhador diante da empresa e traz situa\u00e7\u00e3o de igualdade para todos. \u00c9 fundamental mudar a l\u00f3gica do \u201ceu me defendo\u201d para \u201cvamos nos defender\u201d, e o sindicato promove isso com certeza<\/p>\n<footer>&#8211; Luiz Carlos Dias da Silva (Luiz\u00e3o)<\/footer>\n<\/blockquote>\n<p>A CUT Nacional sempre defendeu que os acordos fossem respeitados desde que favorecem o trabalhador e n\u00e3o o patr\u00e3o, diz Valeir Ertle. Para ele, a decis\u00e3o do STF permitindo retirar direitos existentes na legisla\u00e7\u00e3o, \u00e9 um retrocesso.<\/p>\n<p>\u201cInfelizmente os empres\u00e1rios s\u00e3o tratados como hipossuficientes, como se eles n\u00e3o pudessem sobreviver se pagarem direitos do trabalhador\u201d, avalia Valeir.<\/p>\n<p>O dirigente conta ainda que a controv\u00e9rsia sobre o acordado versus o legislado vem desde o governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB-SP), mas que gra\u00e7as \u00e0 luta dos sindicatos a proposta n\u00e3o andou, e o governo Lula (PT) enterrou o tema, que voltou com a reforma Trabalhista proposta pelo ileg\u00edtimo Michel Temer (MDB-SP) e aprovada pelo Congresso Nacional que, nesta gest\u00e3o, tem uma enorme bancada empresarial.<\/p>\n<h4><strong>Veja em quais direitos o acordado prevalece sobre o legislado<\/strong><\/h4>\n<p>&#8211; jornada de trabalho, observados os limites constitucionais;\u00a0<em>(veja abaixo<\/em>)<\/p>\n<p>&#8211; pacto quanto \u00e0 jornada de trabalho<\/p>\n<p>&#8211; banco de horas anual<\/p>\n<p>&#8211; intervalo intrajornada (limite m\u00ednimo de 30 minutos em jornadas acima de 6 horas)<\/p>\n<p>&#8211; plano de cargos e sal\u00e1rios ou cargos de confian\u00e7a<\/p>\n<p>&#8211; regulamento empresarial<\/p>\n<p>&#8211; representante dos trabalhadores no local de trabalho<\/p>\n<p>&#8211; teletrabalho, regime de sobreaviso e trabalho intermitente<\/p>\n<p>&#8211; remunera\u00e7\u00e3o por produtividade e gorjetas<\/p>\n<p>&#8211; modalidade de registro de jornada de trabalho<\/p>\n<p>&#8211; troca do dia de feriado<\/p>\n<p>&#8211; enquadramento do grau de insalubridade. Reflete no sal\u00e1rio e em condi\u00e7\u00f5es de trabalho. Como por exemplo, ter equipamentos adequados ao trabalho, como roupa para ter acesso \u00e0 c\u00e2mara fria de um frigor\u00edfico;<\/p>\n<p>&#8211; prorroga\u00e7\u00e3o de jornada em ambientes insalubres, sem licen\u00e7a pr\u00e9via das autoridades competentes do Minist\u00e9rio do Trabalho;<\/p>\n<p>\u201cEsta decis\u00e3o pode trazer imensos preju\u00edzos \u00e0 sa\u00fade do trabalhador. Por isso, \u00e9 importante pressionar para que o sindicato prime pelos direitos e que nenhum preju\u00edzo venha a ser imposto ao trabalhador\u201d, afirma Valeir.<\/p>\n<p>&#8211; pr\u00eamios de incentivo<\/p>\n<p>&#8211; participa\u00e7\u00e3o nos lucros e resultados \u00a0(PLR) da empresa<\/p>\n<p>\u201cEste \u00e9 um precedente perigoso porque com a reforma trabalhista era preciso pagar o PLR uma vez ao ano. Agora pode receber todo o m\u00eas. O que parece ser uma vantagem, na verdade, pode fazer o patr\u00e3o incluir o PLR como parte do sal\u00e1rio, e n\u00e3o dar reajustes salarias\u201d, diz Valeir.<\/p>\n<p>\u201cO PLR n\u00e3o tem incid\u00eancia sobre os benef\u00edcios trabalhistas, nem sobre a aposentadoria. \u00a0Um cargo que paga R$ 5 mil de sal\u00e1rio por exemplo, pode cair para um rec\u00e9m contratado, para R$ 3 mil e o trabalhador receber os outros R$ 2 mil como PLR, por fora. Ent\u00e3o, o trabalhador ter\u00e1 preju\u00edzos mais adiante ao receber o 13\u00ba sal\u00e1rio, as f\u00e9rias e ao se aposentar\u201d, complementa Valeir.<\/p>\n<h4><strong>O que n\u00e3o pode ser negociado<\/strong><\/h4>\n<p>Os direitos contidos no artigo 7\u00aa da Constitui\u00e7\u00e3o, dos trabalhadores urbanos e rurais, n\u00e3o podem ser mexidos como: sal\u00e1rio m\u00ednimo, direito a f\u00e9rias, ao 13 sal\u00e1rio, entre outros. Confira:<\/p>\n<p>&#8211; seguro-desemprego, em caso de demiss\u00e3o sem justa causa;<\/p>\n<p>&#8211; fundo de garantia do tempo de servi\u00e7o;<\/p>\n<p>&#8211; sal\u00e1rio m\u00ednimo, fixado em lei, nacionalmente unificado;<\/p>\n<p>&#8211; d\u00e9cimo terceiro sal\u00e1rio com base na remunera\u00e7\u00e3o integral ou no valor da aposentadoria;<\/p>\n<p>&#8211; remunera\u00e7\u00e3o do trabalho noturno superior \u00e0 do diurno;<\/p>\n<p>&#8211; sal\u00e1rio fam\u00edlia pago em raz\u00e3o do dependente do trabalhador de baixa renda nos termos da lei;<\/p>\n<p>&#8211; dura\u00e7\u00e3o do trabalho normal n\u00e3o superior a oito horas di\u00e1rias e quarenta e quatro semanais, facultada a compensa\u00e7\u00e3o de hor\u00e1rios e a redu\u00e7\u00e3o da jornada, mediante acordo ou conven\u00e7\u00e3o coletiva de trabalho;<\/p>\n<p>&#8211; repouso semanal remunerado;<\/p>\n<p>&#8211; remunera\u00e7\u00e3o do servi\u00e7o extraordin\u00e1rio superior, no m\u00ednimo, em 50% ao normal;<\/p>\n<p>&#8211; gozo de f\u00e9rias anuais remuneradas com, pelo menos, um ter\u00e7o a mais do que o sal\u00e1rio normal;<\/p>\n<p>&#8211; licen\u00e7a \u00e0 gestante, sem preju\u00edzo do emprego e do sal\u00e1rio, com a dura\u00e7\u00e3o de 120 \u00a0dias;<\/p>\n<p>&#8211; licen\u00e7a paternidade, nos termos fixados em lei;<\/p>\n<p>&#8211; aviso pr\u00e9vio proporcional ao tempo de servi\u00e7o, sendo no m\u00ednimo de trinta dias, nos termos da lei e;<\/p>\n<p>&#8211; aposentadoria, entre outros.<\/p>\n<p>Para saber todas as normas contidas na Constitui\u00e7\u00e3o,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/constituicao\/constituicao.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>clique aqui<\/strong><\/a><\/p>\n<p>www.cut.org.br\/Rosely Rocha<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>STF decidiu que, em alguns casos, acordos fechados entre patr\u00e3o e trabalhador valem mais do que a lei. 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