{"id":27914,"date":"2022-07-20T09:16:51","date_gmt":"2022-07-20T12:16:51","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/?p=27914"},"modified":"2022-07-20T09:16:51","modified_gmt":"2022-07-20T12:16:51","slug":"sucateamento-explica-as-milhoes-de-familias-na-fila-sem-receber-o-auxilio-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/2022\/07\/20\/sucateamento-explica-as-milhoes-de-familias-na-fila-sem-receber-o-auxilio-brasil\/","title":{"rendered":"Sucateamento explica as milh\u00f5es de fam\u00edlias na fila sem receber o Aux\u00edlio Brasil"},"content":{"rendered":"<p class=\"description\"><strong>Fila de 2,8 milh\u00f5es de fam\u00edlias se deve ao empobrecimento da popula\u00e7\u00e3o e ao desmonte da assist\u00eancia social<\/strong><\/p>\n<p>A quantidade de fam\u00edlias aptas para receber o\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2022\/07\/14\/pec-dos-auxilios-cria-estado-de-emergencia-que-riscos-essa-medida-traz\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Aux\u00edlio Brasil<\/a>, mas que ainda n\u00e3o receberam o benef\u00edcio, \u00e9 de 2,78 milh\u00f5es, segundo a Confedera\u00e7\u00e3o Nacional dos Munic\u00edpios (CNM), com base em dados registrados at\u00e9 abril deste ano. Em rela\u00e7\u00e3o a mar\u00e7o, houve um aumento de 113% na quantidade de fam\u00edlias na espera. \u00c9 a maior fila desde novembro de 2021, quando a demanda reprimida por fam\u00edlia chegou a 3,1 milh\u00f5es e quando o Bolsa Fam\u00edlia foi substitu\u00eddo oficialmente pelo novo programa.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do empobrecimento da popula\u00e7\u00e3o diante da alta da infla\u00e7\u00e3o, do desemprego e do emprego informal, especialistas em benef\u00edcios e assist\u00eancia sociais associam a fila do Aux\u00edlio Brasil diretamente ao\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2022\/07\/15\/ampliacao-do-auxilio-brasil-vai-esbarrar-na-desarticulacao-da-assistencia-social-no-pais\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">desmantelamento<\/a>\u00a0do Sistema \u00danico de Assist\u00eancia Social (SUAS) e de seus bra\u00e7os, como os Centros de Refer\u00eancia em Assist\u00eancia Social (CRAS), e de suas ferramentas, como o Cadastro \u00danico para Programas Sociais do Governo Federal (Cad\u00danico).<\/p>\n<p>Em sites como o \u201cReclame aqui\u201d, \u00e9 poss\u00edvel encontrar relatos de quem ainda n\u00e3o conseguiu acessar o benef\u00edcio. \u201cEstive no Cadastro \u00danico de Parnamirim\/RN no m\u00eas passado para realizar uma atualiza\u00e7\u00e3o do cadastro e me deparei com o fato de que neste momento, estes equipamentos atuam com uma demanda alt\u00edssima e que o governo n\u00e3o tem conseguido dar respostas e vaz\u00e3o para esta demanda pela prote\u00e7\u00e3o social, em um momento delicad\u00edssimo para a economia, como este que estamos vivendo\u201d, relata uma mulher.<\/p>\n<p>\u201cBasta conversar com os assistentes sociais respons\u00e1veis pelo cadastro para entender o tamanho do gargalo. Uma pessoa que se muda de localidade precisa atualizar o cadastro e o procedimento de an\u00e1lise pode durar at\u00e9 4 meses. No mesmo dia, pessoas que j\u00e1 haviam esperado o prazo e retornavam ao equipamento eram informadas que teriam que esperar mais 4 meses. Quem, que uma vez dependendo do Aux\u00edlio Brasil pode aguardar um prazo destes sem perspectiva ou qualquer seguran\u00e7a de que o benef\u00edcio ser\u00e1 aprovado?\u201d<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\"><strong>A situa\u00e7\u00e3o do CRAS hoje no Brasil\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Segundo Priscilla Cordeiro, integrante do Conselho Federal de Servi\u00e7o Social (CFESS) e assistente social no munic\u00edpio de Paulista, na regi\u00e3o metropolitana do Recife, em Pernambuco, explica que hoje existem uma m\u00e9dia de dois cadastradores por CRAS nos munic\u00edpios de pequeno porte, que somam a maioria dos munic\u00edpios brasileiros, e uma m\u00e9dia de cinco cadastradores nos centros de munic\u00edpios de maior porte, para atender a uma demanda de aproximadamente 200 fam\u00edlias por dia, de acordo com dados do Censo SUAS. \u201cComo dois cadastradores do Cad\u00danico v\u00e3o dar conta disso? Voc\u00ea atende ali, de forma muito prejudicada, 50 por dia\u201d, afirma Cordeiro.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 informa\u00e7\u00f5es atualizadas, entretanto, da m\u00e9dia dos quadros de funcion\u00e1rios do CRAS. A assistente social afirma que esses dados eram sistematicamente coletados pelo Censo SUAS, anualmente. \u201cNo Brasil, n\u00e3o tinha nenhum munic\u00edpio que n\u00e3o tivesse CRAS. A gente tinha ali por volta de 8.700 CRAS espalhados por todo o Brasil. Hoje j\u00e1 n\u00e3o se pode dizer que esses dados s\u00e3o a realidade, porque o governo n\u00e3o tem levado a cabo a sistematiza\u00e7\u00e3o do Censo SUAS, que era um momento de reconhecer como estava o andamento da assist\u00eancia, como os equipamentos estavam funcionando. Eles n\u00e3o t\u00eam feito isso, assim como n\u00e3o tem feito com o PNAD [Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlios]\u201d.<\/p>\n<p>H\u00e1, portanto, um desconhecimento da realidade do CRAS. Empiricamente, no entanto, \u201co sucateamento grita\u201d. A assistente social lembra que desde o in\u00edcio da pandemia de covid-19, quando a crise econ\u00f4mica se intensificou, os CRAS passaram a ser mais demandados.<\/p>\n<p>\u201cDesde a pandemia, os CRAS do Brasil inteiro t\u00eam amanhecido abarrotados de pessoas em busca de benef\u00edcios eventuais. E isso acontece no momento em que esses CRAS est\u00e3o sucateados, sem recursos humanos suficientes, extremamente prec\u00e1rios do ponto de vista da estrutura, e colocando a popula\u00e7\u00e3o e os trabalhadores em condi\u00e7\u00f5es assim aviltantes. \u00c9 muito desgastante hoje trabalhar na assist\u00eancia, porque a gente lida com um recorte da realidade muito cruel, mas tamb\u00e9m lida com condi\u00e7\u00f5es de trabalho muito prec\u00e1rias\u201d, afirma Cordeiro.<\/p>\n<p>Os recursos que sustentam os CRAS s\u00e3o dos fundos municipais e do Fundo Nacional de Assist\u00eancia Social, gerido hoje pelo Minist\u00e9rio da Cidadania. Ocorre que muitos munic\u00edpios de pequeno porte vivem basicamente dos recursos federais. A mesma cesta de recursos \u00e9 utilizada para a contrata\u00e7\u00e3o de funcion\u00e1rios concursados para atuar no CRAS. \u201cMas a realidade n\u00e3o tem sido essa. Hoje s\u00e3o poucos profissionais concursados. A maioria s\u00e3o contratados mediante contrato prec\u00e1rio, muito cargo comissionado. \u00c9 um problema a\u00ed tamb\u00e9m de recursos humanos muito fr\u00e1geis. S\u00e3o poucos os munic\u00edpios que t\u00eam servidores institu\u00eddos por lei para trabalharem na assist\u00eancia.\u201d<\/p>\n<p>\u00c9 nesse cen\u00e1rio que \u201co Aux\u00edlio Brasil vem de paraquedas e n\u00e3o encontra os equipamentos minimamente estruturados para poder operacionalizar. Pelo contr\u00e1rio, encontra munic\u00edpios com os CRAS sucateados ou munic\u00edpios at\u00e9 com o n\u00famero de CRAS insuficientes. Isso tem contribu\u00eddo para essa execu\u00e7\u00e3o desastrosa que tem sido do Aux\u00edlio Brasil. Por isso, o Bolsonaro vai abrir a torneira dos cofres p\u00fablicos, com o interesse eleitoreiro, mas vai esbarrar nesse gargalo operacional, por conta de desmonte, desarticula\u00e7\u00e3o e desfinanciamento\u201d, afirma a assistente social.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\"><strong>CRAS e Cad\u00danico: portas de acesso \u00e0 assist\u00eancia social\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>O CRAS e o Cad\u00danico s\u00e3o conhecidos como a porta de acesso aos servi\u00e7os da assist\u00eancia social no Brasil. Por meio dos centros, as popula\u00e7\u00f5es em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade recebem orienta\u00e7\u00f5es e aux\u00edlios diretos como cestas b\u00e1sicas e s\u00e3o inscritas em programas de benef\u00edcios. \u00c9 no CRAS que tais popula\u00e7\u00f5es s\u00e3o inscritas no Cad\u00danico, por meio do qual gerado o N\u00famero de Identifica\u00e7\u00e3o Social (NIS), que \u00e9 como se fosse uma chave para acessar os diferentes programas sociais, como Minha Casa, Minha Vida, Programa de Cisternas, Tarifa Social de Energia El\u00e9trica e o finado Bolsa Fam\u00edlia. \u00c9 por meio da identifica\u00e7\u00e3o do NIS, por exemplo, que s\u00e3o realizados os tr\u00e2mites do Aux\u00edlio Brasil.<\/p>\n<p>O Cad\u00danico re\u00fane uma extensa gama de informa\u00e7\u00f5es sobre a realidade socioecon\u00f4mica das fam\u00edlias em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade, com quest\u00f5es sobre condi\u00e7\u00f5es sobre alimenta\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, moradia, renda e educa\u00e7\u00e3o. \u201c\u00c9 no atendimento face a face que a gente identifica, inclusive, outras demandas da popula\u00e7\u00e3o que vai se inscrever no Cad\u00danico. S\u00e3o cadastradores que podem, por exemplo, encaminhar a popula\u00e7\u00e3o para assistente social psic\u00f3loga, pedagoga, para equipe t\u00e9cnica do CRAS trabalhar outras vulnerabilidades\u201d, afirma Cordeiro.<\/p>\n<p>Com esse arcabou\u00e7o, o Cad\u00danico \u00e9 considerado uma ferramenta essencial para a formula\u00e7\u00e3o e implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas por pesquisadores, uma vez que permite o registro de todos os dados referentes \u00e0 condi\u00e7\u00e3o socioecon\u00f4mica de uma pessoa; serve como uma esp\u00e9cie de direcionamento de cada pessoa para determinadas pol\u00edticas sociais, de acordo com os dados registrados; e ainda \u00e9 utilizada como base de dados das popula\u00e7\u00f5es para a formula\u00e7\u00e3o e o manejo de pol\u00edticas p\u00fablicas. \u201c\u00c9 uma base de dados n\u00e3o s\u00f3 para assist\u00eancia, mas tamb\u00e9m para a orienta\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas p\u00fablicas como um todo\u201d, afirma Cordeiro.<\/p>\n<p>\u00c9 um cadastro, portanto, que demanda tempo e capacita\u00e7\u00e3o, o que esbarra no sucateamento dos CRAS. Hoje, Cordeiro afirma que o preenchimento do Cad\u00danico \u00e9 feito \u201ca toque de caixa e despreza todas essas outras quest\u00f5es que s\u00e3o estruturantes para as fam\u00edlias que v\u00e3o acessar aquele benef\u00edcio\u201d.<\/p>\n<p>\u201cQuantas pessoas n\u00e3o chegam no Cad\u00danico para o cadastro e relatam que n\u00e3o t\u00eam o que comer naquele dia? A\u00ed a equipe t\u00e9cnica entra em a\u00e7\u00e3o para poder garantir algum benef\u00edcio para cessar a inseguran\u00e7a alimentar. \u00c9 por isso que \u00e9 estrat\u00e9gico o Cad\u00danico estar dentro do CRAS, porque h\u00e1 essa interface e comunica\u00e7\u00e3o direta entre o Cad\u00danico e o acompanhamento da vulnerabilidade e a satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades.\u201d<\/p>\n<p>O relato se soma com o de Eder Frossard, assistente social no munic\u00edpio de Valen\u00e7a, no Rio de Janeiro. \u201cRecebo relatos que eu n\u00e3o recebia antes. At\u00e9 2017, eu n\u00e3o via gente virar para mim e falar que estava numa rodovia para pegar lenha. Ou ent\u00e3o, um caso recente, em que a pessoa falou que estava com saudade de comer um lanche inteiro. S\u00e3o relatos de pessoas que chegam no CRAS, porque eu vou perguntando porque preciso entender minimamente a sensa\u00e7\u00e3o que elas est\u00e3o tendo naquele local que elas vivem, at\u00e9 mesmo para justificar, por exemplo, a entrega de uma cesta b\u00e1sica\u201d, afirma Frossard.<\/p>\n<p>A historiadora Denise De Sordi, pesquisadora do programa de p\u00f3s-doutorado dos Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ci\u00eancias Humanas da Universidade de S\u00e3o Paulo (FFLCH-USP) e do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria das Ci\u00eancias e da Sa\u00fade da Casa Oswaldo Cruz (COC\/FIOCRUZ), explica que, desde a cria\u00e7\u00e3o do Cad\u00danico, em 2001, atribuiu-se \u00e0 ferramenta a tentativa de organizar as pol\u00edticas sociais a n\u00edvel nacional, \u201cno sentido de sistematizar todos programas e entender quem era o p\u00fablico desse mundo\u201d, explica De Sordi.<\/p>\n<p>\u201cNo fundo, n\u00f3s estamos falando nada mais nada menos do que a defini\u00e7\u00e3o de quem s\u00e3o os pobres no Brasil. Uma forma tamb\u00e9m de mapear as pessoas e suas necessidades. Ou seja, [o Cad\u00danico] oferece esse retrato do pa\u00eds. Por isso que a gente fala que ele \u00e9 a porta de acesso aos programas sociais.\u201d<\/p>\n<p>Como, j\u00e1 explicitado por Cordeiro, outros programas articulados pelo Cad\u00danico \u201cest\u00e3o desmontados ou n\u00e3o est\u00e3o ocorrendo como antes, se a pessoa vai no CRAS, que tamb\u00e9m est\u00e1 sucateado sem assist\u00eancia social suficiente para atender todo mundo, a gente n\u00e3o tem mais os \u00edndices de qualidade de cadastro dos benefici\u00e1rios\u201d.<\/p>\n<p>\u201cSer\u00e1 que ainda est\u00e3o sendo coletados todos aqueles do Cad\u00danico? Ser\u00e1 que o assistente social, para agilizar ali na condi\u00e7\u00e3o de trabalho prec\u00e1ria, tamb\u00e9m n\u00e3o est\u00e1 fazendo um cadastro simplificado s\u00f3 pra gerar o NIS, j\u00e1 que os dados solicitados pela Caixa s\u00e3o os b\u00e1sicos, n\u00e3o mais todos aqueles solicitados pelo Cad\u00danico?\u201d, questiona De Sordi, que se dedica h\u00e1 anos \u00e0 pesquisa sobre pol\u00edticas e programas sociais.<\/p>\n<p>\u201cTudo indica que esse acompanhamento minucioso que antes era realizado em articula\u00e7\u00e3o com os assistentes sociais, como SUAS, com o Plano Nacional de Assist\u00eancia Social l\u00e1 de 2004, n\u00e3o t\u00e1 mais sendo feito.\u201d<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\"><strong>Mudan\u00e7a do Bolsa Fam\u00edlia para o Aux\u00edlio Brasil \u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Priscilla Cordeiro tamb\u00e9m associa o desastre da operacionaliza\u00e7\u00e3o do Aux\u00edlio Brasil \u00e0 lacuna informacional que se criou quando o programa foi institu\u00eddo e deixou para tr\u00e1s as estruturas que j\u00e1 eram utilizadas para operacionalizar Bolsa Fam\u00edlia. \u201cHouve uma intensifica\u00e7\u00e3o do sucateamento da assist\u00eancia social atrelada \u00e0 mudan\u00e7a do Bolsa Fam\u00edlia para o Aux\u00edlio Brasil, porque nessa mudan\u00e7a criou-se uma lacuna de orienta\u00e7\u00f5es, normativas e de fluxos\u201d, afirma Cordeiro.<\/p>\n<p>Para se ter uma ideia, Cordeiro relata que a operacionaliza\u00e7\u00e3o do Aux\u00edlio Brasil \u00e9 algo obscuro para a pr\u00f3pria assist\u00eancia social, o que reflete em um atendimento prec\u00e1rio para a popula\u00e7\u00e3o. \u201cO Minist\u00e9rio da Cidadania n\u00e3o tem nenhuma cartilha de orienta\u00e7\u00e3o ou um instrumento que direcione o trabalho na ponta. O que os t\u00e9cnicos t\u00eam feito \u00e9 se informar atrav\u00e9s do que sai na m\u00eddia, o que \u00e9 extremamente confuso. Afinal, o governo uma hora diz uma coisa, outra hora diz outra\u201d, diz.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo em que se criaram lacunas informacionais, a interseccionalidade com outras pol\u00edticas, que era um dos pilares do Bolsa Fam\u00edlia, deixou de existir. A \u201cintersetorialidade \u00e9 ferida de morte\u201d, diz Cordeiro. \u201cO Bolsa Fam\u00edlia tinha uma articula\u00e7\u00e3o com a sa\u00fade e a educa\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s das condicionalidades\u201d, como a vacina\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as das fam\u00edlias em dia e a comprova\u00e7\u00e3o da frequ\u00eancia escolar, \u201co que fazia com que esse usu\u00e1rio transitasse por essas pol\u00edticas da assist\u00eancia para sa\u00fade para educa\u00e7\u00e3o, de modo que essas pol\u00edticas estavam ali com conversando e dialogando para a efetiva\u00e7\u00e3o de direitos.\u201d<\/p>\n<p>Com o Aux\u00edlio Brasil, tais condicionalidades ca\u00edram por terra, o que esvaziou o sentido da interface entre os programas. \u201cIsso era muito bem alinhavado quando era o programa Bolsa Fam\u00edlia, porque inclusive as crian\u00e7as que tinham baixam frequ\u00eancia j\u00e1 eram acompanhadas atrav\u00e9s de um sistema de condicionalidade. Ent\u00e3o, a gente j\u00e1 sabia que ali existia uma quest\u00e3o que demandava um acompanhamento familiar. Normalmente essa crian\u00e7a estava faltando na escola por trabalho infantil, viol\u00eancia dom\u00e9stica ou precariza\u00e7\u00e3o mesmo da vida que impossibilitava a frequ\u00eancia. De todo modo, situa\u00e7\u00f5es que demandavam acompanhamento t\u00e9cnico, ou seja, o acompanhamento de assistentes sociais\u201d.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\"><strong>Interesse eleitoreiro\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 uma unanimidade entre os especialistas ouvidos que o aumento no Aux\u00edlio Brasil de R$ 400 para R$ 600, aprovado pelo Congresso Nacional, poderia ter sido feito em anos anteriores, como defendeu em diversos momentos a oposi\u00e7\u00e3o ao governo Bolsonaro.<\/p>\n<p>Cl\u00e1udia Baddini, economista e ex-diretora do Cad\u00danico, afirma que o governo \u201cteve todas as possibilidades se planejar, para falar o m\u00ednimo. A gasolina estava subindo e todo mundo sabe disso. N\u00e3o percebeu que as pessoas j\u00e1 estavam passando fome? \u00c9 preocupante. Na verdade, existe essa percep\u00e7\u00e3o de que tudo foi feito sem prioridade. A coisa foi meio a reboque, n\u00e3o era uma coisa uma pol\u00edtica p\u00fablica. A\u00ed agora, a tr\u00eas meses antes da elei\u00e7\u00e3o, percebe-se que \u00e9 fundamental\u201d.<\/p>\n<p>Baddini lembra, entretanto, que \u201cas pessoas j\u00e1 est\u00e3o com essa necessidade com tempo. Ent\u00e3o, realmente, eu estou chamando de \u2018falta de planejamento\u2019 para dizer o m\u00ednimo. N\u00e3o \u00e9 uma prioridade. Tanto que \u00e9 s\u00f3 a transfer\u00eancia de renda que \u00e9 feita. A gente sabe que a pol\u00edtica de prote\u00e7\u00e3o social \u00e9 muito maior do que isso\u201d.<\/p>\n<p>A maior prova de que o Aux\u00edlio Brasil n\u00e3o foi pensado no escopo do que se entende por prote\u00e7\u00e3o social \u00e9 o processo de financeiriza\u00e7\u00e3o atrelado ao benef\u00edcio, a margem da assist\u00eancia social. De acordo com a Medida Provis\u00f3ria 1.106, o benefici\u00e1rio poder\u00e1 comprometer at\u00e9 40% do novo aux\u00edlio de R$ 600 com cr\u00e9dito consignado, o que representa R$ 240. O valor \u00e9 maior do que o aumento de R$ 200 que o Congresso autorizou e que ser\u00e1 pago somente at\u00e9 dezembro deste ano.<\/p>\n<p>\u201cPara os bancos, \u00e9 muito bom porque para eles \u00e9 um dinheiro que j\u00e1 tem o pagamento certo, mas e depois de dezembro? Essas fam\u00edlias v\u00e3o ter quanto de benef\u00edcio? Mas a\u00ed as fam\u00edlias j\u00e1 se endividaram para poder comer. Tudo isso est\u00e1 muito nebuloso. Parece que as coisas s\u00e3o feitas muito sem planejamento. Isso \u00e9 um fator muito complicado quando se est\u00e1 trabalhando com qualquer tipo de pol\u00edtica p\u00fablica\u201d, afirma Baddini.<\/p>\n<p>Por esse aspecto mostra, segundo a historiadora Denise De Sordi, que o Aux\u00edlio Brasil deixa de ser um programa social para ser um programa de acesso \u00e0 financeiriza\u00e7\u00e3o. \u201cO personagem principal desse programa agora \u00e9 um banco. A quem isso favorece? Tem agora o aux\u00edlio de quatrocentos reais, e agora o endividamento. N\u00e3o \u00e9 um financiamento de uma casa. Tudo indica que esse dinheiro vai ser utilizado pra pagar conta, pra comprar comida\u201d, defende.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\"><strong>Fila zerada?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Apesar de ter anunciado, em 28 de janeiro deste ano, que a fila do Aux\u00edlio Brasil havia sido zerada, o governo federal n\u00e3o tem dados atualizados sobre a quantidade de fam\u00edlias que aguardam ser inclu\u00eddas no programa.<\/p>\n<p>Denise De Sordi questiona, no entanto, o an\u00fancio do governo federal. \u201cFila zerada: onde? Eu tamb\u00e9m queria saber, falando muito sinceramente. Ningu\u00e9m est\u00e1 conseguindo acesso a esses dados. \u00c9 estranho falar em zerar a bolsa do Aux\u00edlio Brasil em janeiro, porque em dezembro a gente teve dados assustadores de inseguran\u00e7a alimentar e desemprego. Como que essa fila foi estabelecida? Quem s\u00e3o essas pessoas? Essas pessoas estavam no Cad\u00danico? Elas eram benefici\u00e1rias? Se n\u00e3o abre mais vaga na fila, a fila acaba. O que a gente est\u00e1 chamando de fila?\u201d, questiona.<\/p>\n<p>O\u00a0<strong>Brasil de Fato<\/strong>\u00a0questionou o Minist\u00e9rio da Cidadania, em 21 de junho deste ano, sobre a quantidade de brasileiros aptos a receber o benef\u00edcio, mas que ainda n\u00e3o foram inclu\u00eddos no programa. Ap\u00f3s 20 dias, a pasta solicitou uma prorroga\u00e7\u00e3o do prazo de 10 dias para atender \u00e0 solicita\u00e7\u00e3o, alegando \u201ccomplexidade para elaborar resposta\u201d. O Brasil de Fato aguarda um retorno.<\/p>\n<p>www.brasildefato.com.br\/Caroline Oliveira<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fila de 2,8 milh\u00f5es de fam\u00edlias se deve ao empobrecimento da popula\u00e7\u00e3o e ao desmonte da assist\u00eancia social A quantidade de fam\u00edlias aptas para receber o\u00a0Aux\u00edlio Brasil, mas que ainda n\u00e3o receberam o benef\u00edcio, \u00e9 de 2,78 milh\u00f5es, segundo a Confedera\u00e7\u00e3o Nacional dos Munic\u00edpios (CNM), com base em dados registrados at\u00e9 abril deste ano. 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