{"id":28353,"date":"2022-08-19T09:40:43","date_gmt":"2022-08-19T12:40:43","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/?p=28353"},"modified":"2022-08-19T09:40:43","modified_gmt":"2022-08-19T12:40:43","slug":"por-que-o-leite-esta-tao-caro-preco-do-litro-e-maior-do-que-o-da-gasolina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/2022\/08\/19\/por-que-o-leite-esta-tao-caro-preco-do-litro-e-maior-do-que-o-da-gasolina\/","title":{"rendered":"Por que o leite est\u00e1 t\u00e3o caro? Pre\u00e7o do litro \u00e9 maior do que o da gasolina"},"content":{"rendered":"<p><strong>Para Federa\u00e7\u00e3o dos Agricultores do RS, aumento absurdo no custo do leite poderia ser evitado, apesar da alta dos insumos, se governo Bolsonaro tivesse executado o Plano Safra, o Pronaf e estoques reguladores<\/strong><\/p>\n<p>Por que o leite est\u00e1 t\u00e3o caro? Essa \u00e9 uma pergunta que milhares de brasileiros v\u00eam se fazendo nos \u00faltimos dias ao se deparar com o litro do leite chegando, em algumas cidades do pa\u00eds, a mais de R$ 9,00. Os valores exorbitantes provocam indigna\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o que compara o custo do litro de leite ao litro da gasolina, que est\u00e1 mais baixo do que o alimento.<\/p>\n<p>Para muitos, e isso pode ser constatado em postagens nas redes sociais, os combust\u00edveis se tornaram prioridade do governo de Jair Bolsonaro (PL) que derrubou os pre\u00e7os na marra para tentar melhorar a popularidade e, quem sabe, subir uns pontos nas\u00a0<a href=\"https:\/\/www.cut.org.br\/noticias\/pesquisa-genial-quaest-lula-tem-45-das-intencoes-de-voto-contra-33-de-bolsonaro-d52f\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">pesquisas de inten\u00e7\u00f5es de voto<\/a>. J\u00e1 a infla\u00e7\u00e3o dos alimentos, que pesa mais nos bolsos dos mais pobres, n\u00e3o parece incomodar o mandat\u00e1rio.<\/p>\n<p>Somente na cidade de S\u00e3o Paulo, de junho para julho, o valor m\u00e9dio do litro de leite UHT saltou 24,8%, chegando em m\u00e9dia a R$ 6,79, de acordo com o levantamento do Procon-SP em parceria com o Departamento Intersindical de Estat\u00edstica e Estudos Socioecon\u00f4micos (Dieese). J\u00e1 o litro da gasolina comum na cidade ficou em m\u00e9dia R$ 5,95 \u2013 uma diferen\u00e7a de R$ 0,84 (14,1%), entre os dois produtos. Nos \u00faltimos 12 meses, o pre\u00e7o do leite em, S\u00e3o Paulo, subiu 72%.<\/p>\n<p>O absurdo \u00e9 tamanho que os brasileiros est\u00e3o tentando entender as raz\u00f5es e, para isso, come\u00e7aram a pesquisar na internet os motivos do aumento no pre\u00e7o do litro de leite. Este assunto, segundo o Google, bateu recorde esta semana. Nunca foi t\u00e3o procurado em 10 anos. Pesquisas de receitas de pur\u00ea de batata, brownie e bolinho de chuva sem leite subiram de 160% a 290% em julho, segundo a plataforma de pesquisa.<\/p>\n<p>Para responder a pergunta \u201cpor que o leite est\u00e1 t\u00e3o caro?\u201d, o PortalCUT conversou com o engenheiro agr\u00f4nomo da Federa\u00e7\u00e3o dos Trabalhadores na Agricultura no Rio Grande do Sul (FETAG-RS), Kaliton Prestes, e a coordenadora da pesquisa da cesta b\u00e1sica do Dieese, Patr\u00edcia Costa.<\/p>\n<p>Apesar das quest\u00f5es clim\u00e1ticas como a seca e a entressafra, e o aumento nos pre\u00e7os dos combust\u00edveis (a baixa no valor ainda n\u00e3o foi sentida pela agricultura) e do pre\u00e7o dos insumos, se o governo de Jair Bolsonaro n\u00e3o tivesse cortado verbas para o financiamento de pol\u00edticas p\u00fablicas para a agricultura familiar, o pre\u00e7o do litro do leite poderia estar bem mais baixo.\u00a0<strong>Veja abaixo o que o governo deveria ter feito e n\u00e3o o fez<\/strong>.<\/p>\n<p>Hoje, o agricultor do Rio Grande do Sul recebe em m\u00e9dia R$ 3,30 pelo litro do leite. \u00a0O estado \u00e9 o terceiro maior produtor de leite do pa\u00eds. Em primeiro lugar est\u00e1 Minas Gerais.<\/p>\n<h3><strong>Por que o leite est\u00e1 caro?<\/strong><\/h3>\n<p>De acordo com o engenheiro agr\u00f4nomo e a coordenadora da cesta b\u00e1sica do Dieese, os motivos s\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0<strong>Entressafra<\/strong>: a estiagem nos estados da regi\u00e3o sul do pa\u00eds dificulta a pastagem do gado e obriga os produtores a mant\u00ea-lo confinado e muitos produtores em raz\u00e3o do pre\u00e7o da ra\u00e7\u00e3o n\u00e3o conseguem, o que diminui a produ\u00e7\u00e3o leiteira do gado.<\/p>\n<p>Nos estados da regi\u00e3o sul, Paran\u00e1, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, muitos agricultores chegaram a perder 100% da lavoura de milho, utilizada no complemento da ra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cA estiagem hoje n\u00e3o tem reflexos vis\u00edveis, mas deixa reflexos econ\u00f4micos na pecu\u00e1ria do leite, que ficou sem capital de giro, deixando uma situa\u00e7\u00e3o delicada na renda das fam\u00edlias que dependem da lavoura\u201d, diz Kaliton.<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0<strong>Custo dos medicamentos e alimenta\u00e7\u00e3o<\/strong>: tanto os rem\u00e9dios para o gado como a ra\u00e7\u00e3o composta de farelo de trigo e milho, em sua maioria, s\u00e3o importados e h\u00e1 diminui\u00e7\u00e3o de oferta no mercado internacional, em fun\u00e7\u00e3o dos altos pre\u00e7os do commodities e a guerra da R\u00fassia contra a Ucr\u00e2nia.<\/p>\n<p>\u201cO primeiro item que impacta no custo da pecu\u00e1ria leiteira \u00e9 o pre\u00e7o da ra\u00e7\u00e3o baseada no trigo, milho e soja. Os fertilizantes tamb\u00e9m subiram muito\u201d, diz o engenheiro.<\/p>\n<p>Segundo a Fetag-RS, o valor da ra\u00e7\u00e3o em 2020 era de R$ 1,57 o quilo; em 2021 subiu para R$ 2,36 e este ano est\u00e1 em R$ 2,42.<\/p>\n<p><span class=\"dd-label\"><i class=\"fa fa-camera\"><\/i>FETAG-RS<\/span><a class=\"dd-lightbox\" href=\"https:\/\/admin.cut.org.br\/system\/uploads\/ck\/ra%C3%A7%C3%A3o.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.cut.org.br\/images\/cache\/systemuploadsckrac3a7c3a3ojpg-620x348xfit-ba575.jpg\" alt=\"FETAG-RS\" width=\"620\" height=\"348\" \/><\/a><\/p>\n<p><strong>Fertilizantes:<\/strong>\u00a0O fertilizante, outro produto essencial e que o Brasil precisa importar 31% do que necessita para a lavoura e pastagens, aumentou absurdamente. Em junho de 2020, a tonelada custava R$ 1.646; em 2021 subiu para R$ 3.178 e em junho deste ano custava R$ 4.848 \u2013 quase 300% de aumento em dois anos. Lembrando que o governo Bolsonaro\u00a0<a href=\"https:\/\/www.cut.org.br\/noticias\/culpado-pela-falta-de-fertilizantes-e-bolsonaro-que-fechou-3-fabricas-no-pais-21c1\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>fechou f\u00e1bricas de fertilizantes<\/strong><\/a>\u00a0da Petrobras, no Brasil<\/p>\n<p><span class=\"dd-label\"><i class=\"fa fa-camera\"><\/i>FETAG-RS<\/span><a class=\"dd-lightbox\" href=\"https:\/\/admin.cut.org.br\/system\/uploads\/ck\/ureia%20pre%C3%A7o.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.cut.org.br\/images\/cache\/systemuploadsckureia20prec3a7ojp-579x325xfit-6f689.jpg\" alt=\"FETAG-RS\" width=\"579\" height=\"325\" \/><\/a><\/p>\n<p><strong>&#8211; Pre\u00e7o dos combust\u00edveis:\u00a0<\/strong>A atividade pecuarista depende do \u00f3leo diesel. Hoje o produtor paga em m\u00e9dia no Rio Grande do Sul, R$ 7,20 pelo litro, e h\u00e1 tr\u00eas anos era de R$ 3,80.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Demanda das empresas de latic\u00ednios:<\/strong>\u00a0as ind\u00fastrias compram o leite para produzir queijos, manteiga e tamb\u00e9m o leite integral. Com a menor oferta no campo, a disputa pelo produto se acirra na ind\u00fastria, aumentando o valor do produto.<\/p>\n<h3><strong>O que o governo Bolsonaro n\u00e3o fez para reduzir o pre\u00e7o do leite<\/strong><\/h3>\n<p>Para Patr\u00edcia Costa e Kaliton Prestes, os investimentos na cadeia do leite e no est\u00edmulo \u00e0 agricultura familiar, respons\u00e1vel pela produ\u00e7\u00e3o leiteira no pa\u00eds, foram negligenciados pelo governo Bolsonaro.<\/p>\n<p>\u201cEu participei de grupo de pre\u00e7os de alimentos e o leite j\u00e1 era uma quest\u00e3o problem\u00e1tica, e num pa\u00eds que tem um dos maiores rebanhos do mundo, o povo n\u00e3o ter condi\u00e7\u00f5es de comprar um litro de leite \u00e9 um absurdo\u201d, afirma Patr\u00edcia.<\/p>\n<p>O governo Bolsonaro cortou verbas de programas de incentivo \u00e0 agricultura familiar, segmento que produz 70% do que o brasileiro consome. Entre eles, foi afetado o\u00a0<strong>Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf).<\/strong><\/p>\n<p>Segundo o engenheiro agr\u00f4nomo, o programa \u00e9 uma estrat\u00e9gia mais ampla de seguran\u00e7a alimentar, inclusive para a popula\u00e7\u00e3o urbana. Pelo Pronaf, o governo complementa uma linha der cr\u00e9dito aos agricultores. Os bancos emprestam o dinheiro e o governo paga uma diferen\u00e7a nos juros cobrados. Por exemplo, com a Selic, taxa b\u00e1sica de juros, a 13,75% ao ano, os bancos emprestam a juros de 6%, \u00e9 a diferen\u00e7a de 7,75% \u00e9 coberta pelo governo federal. O prazo para pagamento varia de um a tr\u00eas anos.<\/p>\n<p>\u201cSem acesso ao cr\u00e9dito e sem mais tempo para pagar a d\u00edvida, a produ\u00e7\u00e3o fica mais cara e afeta duramente a pecu\u00e1ria do leite\u201d, diz o engenheiro agr\u00f4nomo da Fetag-RS.<\/p>\n<blockquote class=\"dd-blockquote\"><p>97% da produ\u00e7\u00e3o do leite \u00e9 de agricultores familiares e, sem perspectivas, muitos abandonam a atividade agr\u00edcola, diminuindo a produ\u00e7\u00e3o. Somente no Rio Grande do Sul, mais de 50% dos pequenos agricultores vinculados \u00e0s ind\u00fastrias deixaram o campo de 2015 a 2021<\/p>\n<footer>&#8211; Kaliton Prestes<\/footer>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span class=\"dd-label\"><i class=\"fa fa-camera\"><\/i>FETAG-RS<\/span><a class=\"dd-lightbox\" href=\"https:\/\/admin.cut.org.br\/system\/uploads\/ck\/varia%C3%A7%C3%A3o%20agricultores.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.cut.org.br\/images\/cache\/systemuploadsckvariac3a7c3a3o20-620x348xfit-a4ad6.jpg\" alt=\"FETAG-RS\" width=\"620\" height=\"348\" \/><\/a><strong>Governo n\u00e3o cumpre Plano Safra:<\/strong>\u00a0O governo Bolsonaro anunciou em ato pol\u00edtico um acr\u00e9scimo de 36% no or\u00e7amento do Plano Safra, que seria destinado ao Pronaf, mas, at\u00e9 agora, os recursos n\u00e3o foram alocados. Ou seja, o pequeno agricultor n\u00e3o tem acesso ao cr\u00e9dito prometido.<\/p>\n<p>O Plano Safra \u00e9 um programa do governo federal criado em 2003 (governo Lula), que prev\u00ea o direcionamento de recursos p\u00fablicos para financiar e assegurar as atividades de pequenos, m\u00e9dios e grandes produtores do pa\u00eds.<\/p>\n<p>O or\u00e7amento do Plano Safra compreende 12 meses, de junho a julho de um ano para outro. O de 2021\/2022 prev\u00ea investimentos de R$ 39,3 bilh\u00f5es. No entanto, n\u00e3o foi executado at\u00e9 o fim. O mesmo para 2022\/2023, apesar do or\u00e7amento anunciado no m\u00eas passado ser de R$ 53,6 bilh\u00f5es, at\u00e9 agora n\u00e3o chegou nas m\u00e3os dos agricultores. Normalmente ap\u00f3s o an\u00fancio do valor a execu\u00e7\u00e3o \u00e9 imediata.<\/p>\n<blockquote class=\"dd-blockquote\"><p>O recurso do Plano safra ao Pronaf \u00e9 uma a estrat\u00e9gia mais ampla do que apoiar o agricultor, \u00e9 de seguran\u00e7a alimentar. \u00c9 a ferramenta que impulsiona essa produ\u00e7\u00e3o de alimento seguro e barato para p\u00fablico, cujo pre\u00e7o se reflete na gondola do supermercado<\/p>\n<footer>&#8211; Kaliton Prestes<\/footer>\n<\/blockquote>\n<p><strong>Programa de Aquisi\u00e7\u00e3o de Alimentos<\/strong>\u00a0<strong>sem recursos:<\/strong>\u00a0O engenheiro agr\u00f4nomo prossegue criticando o governo Bolsonaro por tamb\u00e9m ter praticamente extinguido as compras institucionais como o Programa de Aquisi\u00e7\u00e3o de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimenta\u00e7\u00e3o Escolar (PNAE).<\/p>\n<p>A principal fun\u00e7\u00e3o do PAA, tamb\u00e9m criado no governo Lula, \u00e9 o adquirir o leite do produtor e, de forma simult\u00e2nea, doar para as fam\u00edlias em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade. S\u00f3 que agora est\u00e1 esvaziado, praticamente extinto.<\/p>\n<p>\u201cEle s\u00f3 existe no or\u00e7amento, mas n\u00e3o funciona mais. At\u00e9 o nome foi trocado para Alimenta Brasil, mas seus recursos v\u00eam baixando ano a ano, \u00e9 vergonhoso\u201d, diz Klaiton.<\/p>\n<p>Em 2014, o or\u00e7amento do PPA era de R$ 430 milh\u00f5es e foi caindo ano a ano. Em 2019 baixou para R$ 97 milh\u00f5es, e em 2021 atingiu seu patamar mais baixo com R$ 58,9 milh\u00f5es. \u00a0A previs\u00e3o para 2022 \u00e9 ainda menor, de R$ 46,7 milh\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Diferen\u00e7a entre PNAE e PAA<\/strong><\/p>\n<p>O Programa Nacional de Alimenta\u00e7\u00e3o Escolar (PNAE), cria demanda constante de compra para o agricultor familiar produzir durante 10 meses por ano (200 dias letivos), enquanto o PAA depende de aprova\u00e7\u00e3o de projetos, em que nem todos os munic\u00edpios s\u00e3o atendidos; quando o s\u00e3o, a vig\u00eancia \u00e9 de 12 meses (365 dias ao ano).<\/p>\n<p>www.cut.org.br\/Rosely Rocha<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para Federa\u00e7\u00e3o dos Agricultores do RS, aumento absurdo no custo do leite poderia ser evitado, apesar da alta dos insumos, se governo Bolsonaro tivesse executado o Plano Safra, o Pronaf e estoques reguladores Por que o leite est\u00e1 t\u00e3o caro? 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