{"id":28557,"date":"2022-09-07T10:09:22","date_gmt":"2022-09-07T13:09:22","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/?p=28557"},"modified":"2022-09-07T10:09:22","modified_gmt":"2022-09-07T13:09:22","slug":"artigo-frei-beto-dependencia-e-morte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/2022\/09\/07\/artigo-frei-beto-dependencia-e-morte\/","title":{"rendered":"Artigo Frei Beto &#8211; Depend\u00eancia e morte"},"content":{"rendered":"<p><strong>Com a exposi\u00e7\u00e3o de um cora\u00e7\u00e3o atribu\u00eddo a D. Pedro I, importa\u00e7\u00e3o cara e necr\u00f3fila feita pelos atuais ocupantes do Planalto, o Brasil comemora 200 anos de independ\u00eancia de Portugal. Deixamos Portugal para cair nos bra\u00e7os da Inglaterra, da Uni\u00e3o Europ\u00e9ia e, sobretudo, dos EUA.<\/strong><\/p>\n<p>As narrativas sobre o epis\u00f3dio \u201c\u00e0s margens do Ipiranga\u201d s\u00e3o quase todas elitistas. Afonso Taunay (1876-1958), ao encomendar pinturas para o Museu Paulista, fez quest\u00e3o de excluir as lutas populares pela Independ\u00eancia e favorecer uma vers\u00e3o olig\u00e1rquica e pacifista.<\/p>\n<p>A participa\u00e7\u00e3o dos ind\u00edgenas em nossa Independ\u00eancia \u00e9 ignorada ainda hoje. Na est\u00e1tua de D. Pedro I na Pra\u00e7a Tiradentes, no Rio, o pedestal retrata ind\u00edgenas e animais de nossas selvas. Ao ser inaugurada, em 1862, o historiador Mello Morais chegou a indagar: \u201cQue parte tiveram esses \u00edndios e aqueles jacar\u00e9s na Independ\u00eancia do Brasil?\u201d<\/p>\n<p>Quase todas as narrativas sobre nossos povos origin\u00e1rios anterior a 1980 soam como \u201ccr\u00f4nicas de morte anunciada\u201d, como se estivessem condenados ao exterm\u00ednio ou a serem assimilados pela popula\u00e7\u00e3o em geral. S\u00f3 em 1988 a Constitui\u00e7\u00e3o assegurou a eles direito \u00e0 terra e \u00e0s suas tradi\u00e7\u00f5es e culturas. Pela primeira vez, o Estado brasileiro se reconheceu multi\u00e9tnico.<\/p>\n<p>Criou-se o mito de que a Independ\u00eancia assegurou a unidade territorial do Brasil. Ora, D. Pedro I se interessava apenas por Rio de Janeiro, S\u00e3o Paulo e Minas. N\u00e3o dava ouvidos \u00e0s outras prov\u00edncias. Por isso, teve que enfrentar v\u00e1rias revoltas regionais contra o governo imperial, como Farroupilha (1835-1845), no Rio Grande do Sul; Cabanagem (1835-1840), no Par\u00e1; e a Sabinada (1837-1838), na Bahia. Maranh\u00e3o e Par\u00e1 eram prov\u00edncias apartadas do Brasil at\u00e9 1820. O Acre pertencia ao Peru e \u00e0 Bol\u00edvia, e s\u00f3 foi anexado ao Brasil em 1903.<\/p>\n<p>D. Pedro I chegou a contratar o lorde ingl\u00eas Thomas Cochrane (1775-1860) para reprimir rebeli\u00f5es populares. No Par\u00e1, o c\u00f4nego Batista Campos (1782-1834), que se opunha ao trabalho escravo, sofreu tortura em pra\u00e7a p\u00fablica, enquanto 256 aliados dele eram asfixiados no por\u00e3o de um navio. \u00c9 considerado o autor intelectual da Cabanagem, que teve importante participa\u00e7\u00e3o ind\u00edgena. Na vers\u00e3o da elite, \u201ccabano\u201d significa aquele que vivia em cabanas \u00e0 beira dos rios. Na vers\u00e3o dos ribeirinhos, o termo \u00e9 associado aos brancos repressores que se vangloriavam da sanha repressora: \u201cAcabamos com tudo\u201d.<\/p>\n<p>Se D. Pedro I tinha pouco interesse pelo resto do Brasil, por que o nosso pa\u00eds, ent\u00e3o integrado por 18 prov\u00edncias, n\u00e3o se fragmentou, como ocorreu em tantas regi\u00f5es da Am\u00e9rica Latina? Entre v\u00e1rias hip\u00f3teses fico com a mais vergonhosa: a unidade territorial se manteve por for\u00e7a do projeto escravagista voltado \u00e0 explora\u00e7\u00e3o mineral. O regime escravocrata uniu as elites provincianas e alicer\u00e7ou a forma\u00e7\u00e3o do Estado brasileiro.<\/p>\n<p>Outro fator que influiu em nossa coes\u00e3o territorial foi a vinda da Corte portuguesa para o Brasil em 1808. A frase atribu\u00edda ao governador de Minas, Ant\u00f4nio Carlos de Andrada, em 1930 \u2013 \u201cfa\u00e7amos a revolu\u00e7\u00e3o antes que o povo a fa\u00e7a\u201d -, poderia ter sido dita no per\u00edodo colonial. D. Pedro I, filho de D. Jo\u00e3o VI, proclamou a Independ\u00eancia antes que as rebeli\u00f5es populares, como a Conjura\u00e7\u00e3o Mineira, lograssem devolver a Corte a Portugal.<\/p>\n<p>N\u00e3o eram s\u00f3 as revoltas populares, pipocando Brasil afora e agravadas pelos quilombos, habitados por escravos libertos, que tiravam o sono do imperador. Ele sabia que os nossos vizinhos na Am\u00e9rica do Sul se independentizavam da Coroa espanhola: Bol\u00edvar comandou as independ\u00eancias de Col\u00f4mbia (1810); Venezuela (1811); Equador (maio de 1822); e, em 1825, Bol\u00edvia. San Martin liderou as da Argentina (1816) e Peru (1821), e deu apoio \u00e0 liberta\u00e7\u00e3o do Chile (1818).<\/p>\n<p>\u201cFa\u00e7amos a Independ\u00eancia antes que o povo a fa\u00e7a.\u201d Aqui ela foi consumada \u201cpor cima\u201d, a ponto de adotar uma bandeira que n\u00e3o traz o azul dos nossos c\u00e9us, como aprendi na escola, e sim a cor s\u00edmbolo da nobreza (\u201csangue azul\u201d); o amarelo do ouro; e o verde que n\u00e3o retrata as nossas matas, e sim a cor da Casa Real de Bragan\u00e7a. J\u00e1 a iconografia das bandeiras dos pa\u00edses hisp\u00e2nicos alude a movimentos de liberta\u00e7\u00e3o e processos revolucion\u00e1rios.<\/p>\n<p>O senso de brasilidade \u00e9 tardio. At\u00e9 final do s\u00e9culo 18 os habitantes daqui se consideravam \u201cportugueses da Am\u00e9rica\u201d e muitos reivindicavam igualdade de direitos com os portugueses de Portugal. Isso incomodava a elite de Lisboa, que se arvorava em centro do Imp\u00e9rio. D. Pedro ent\u00e3o foi pressionado a estabelecer uma Assembleia Legislativa no Brasil que adotasse leis pr\u00f3prias. S\u00f3 ent\u00e3o se popularizou a ideia de ser brasileiro.<\/p>\n<p>Concordo com Caio Prado Junior e Florestan Fernandes: ao lograr a emancipa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do Brasil, a Independ\u00eancia criou um Estado capaz de preservar as estruturas econ\u00f4micas e sociais do per\u00edodo colonial.<\/p>\n<p>Ainda resta muito a conquistar. E as elei\u00e7\u00f5es est\u00e3o \u00e0 porta. Votemos pela independ\u00eancia do povo brasileiro!<\/p>\n<p>www.bancariosbahia.org.br\/\u00a0 Carlos Alberto Lib\u00e2nio Christo, Frei Betto, \u00e9 frade dominicano, jornalista e escritor<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com a exposi\u00e7\u00e3o de um cora\u00e7\u00e3o atribu\u00eddo a D. Pedro I, importa\u00e7\u00e3o cara e necr\u00f3fila feita pelos atuais ocupantes do Planalto, o Brasil comemora 200 anos de independ\u00eancia de Portugal. Deixamos Portugal para cair nos bra\u00e7os da Inglaterra, da Uni\u00e3o Europ\u00e9ia e, sobretudo, dos EUA. 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